O risco fiscal no curto-prazo e o ajuste necessário em 2015 – continuação

Para acompanhar este post leia antes o anterior no qual detalho a piora dos indicadores fiscais.

O que esperar para o início do próximo governo?

Mansueto Almeida

O próximo governo começará com o desafio de garantir um superávit primário que sinalize para a redução da dívida bruta ao longo dos próximos anos e recupere um pouco a capacidade de investimento do setor público. Não haverá nenhum espaço para redução de carga tributária e uma pressão crescente de novos gastos que não estavam sendo pagos (o custo do PSI a que me referi no post anterior).

A magnitude desse ajuste fiscal, ou seja, a meta de superávit primário a ser fixada, dependerá da elevação da taxa de juros dos EUA, da inflação doméstica e do ritmo de crescimento da economia brasileira. Mas é certo que virá, restando ao presidente (quem quer que seja) apenas negociar com o Congresso Nacional os detalhes desse novo ajuste, que não será necessariamente dramático, mas necessário se o país quiser aproveitar plenamente o seu crescimento potencial.

O grande risco é que o presidente não consiga criar o consenso político e convencer a sociedade da necessidade de uma maior parcimônia fiscal. Neste caso, não há muito o que fazer a não ser esperar que a agenda fiscal seja imposta à sociedade pelo menor crescimento econômico e/ou maior inflação; algo que fatalmente ocorrerá ainda ao longo do próximo mandato.

O motivo para otimismo no pós-2014 é o seguinte. Tenho convicção que pela natureza de suas declarações os candidatos Aécio Neves (PSDB) ou Eduardo Campos (PSB) utilizarão o seu capital político para recuperar o esforço fiscal – será um ou dois anos de austeridade para ter crescimento mais robusto nos dois anos finais do governo.

Mas se a presidenta Dilma Rouseff for reeleita, acho também que ela poderá fazer algo inusitado, iniciar o seu governo com uma equipe econômica totalmente nova (isso já foi imposto pelo humor do mercado doméstico e internacional). Isso pode significar resgatar antigos colaboradores da gestão PT como Bernard Appy, Nelson Barbosa, Octaviano Canuto e mesmo levar Alexandre Tombini para a Fazenda. Se a presidente for reeleita e der uma guinda mais libera na sua política econômica, a eleição de 2018 ficará indefinida.

Mas se o governo da presidente Dilma for reeleito e insistir na “nova matriz econômica”, uma experiência que comprovadamente não deu certo, neste caso, é possível que algum dos candidatos derrotados no pleito do próximo ano seja o presidente eleito em 2018 (aqui coloco também no grupo a ex-senadora Marina Silva).

A minha aposta é que prevalecerá o bom senso e faremos um ajuste fiscal em 2015/ 2016, quem quer que seja o vencedor das eleições presidenciais no próximo ano. Por isso que, nesta semana, em um encontro que tive com um grupo de Embaixadores da União Européia, fui muito claro: “senhores, eu estou pessimista no curto-prazo, mas moderadamente otimista no médio prazo, independentemente do resultado das eleições.”

Resta saber se o bom senso prevalecerá, mas mesmo que prevaleça, não esperem crescimento acima de 3,5% ao ano ao longo dos próximos quatro anos. Se ficarmos perto disso já será uma grande vitória frente aos desafios que teremos pela frente. Aqui me concentrei apenas na questão fiscal e nem chegamos a falar da questão de educação, comércio exterior, reforma tributária e produtividade. Falo sobre isso em outra oportunidade.

 

4 pensamentos sobre “O risco fiscal no curto-prazo e o ajuste necessário em 2015 – continuação

  1. Mansueto, acompanho seu blog a um certo tempo e realmente gosto das informações que você trás. Estive em um seminário seu na UFPE a alguns anos atrás sobre o BNDES e novo Desenvolvimentismo e, apesar de discordar de algumas posições suas, (aproveito a ocasião para perguntar, você se definiria como desenvolvimentista?) aprecio sua contribuição para o debate da política fiscal brasileira e, portanto, para a sociedade brasileira. Gostaria de saber, dadas as informações que você dispõe tanto no ambiente político quanto no econômico, você realmente acha que é possível a mudança da equipe econômica por parte da ala no PT de Dilma para alcançar uma sobrevida política?

    Qual é sua opinião sobre o quão ideológica e não, “gerentona” a Presidenta foi até o momento?

    Parabéns pelo Blog.

    Alexander Gunnar Julião.

  2. Quase todos os números atuais estão (bem) piores que na época que as agências de risco nos deram investiment grade. A continuar o processo de piora atual (e parece que vai) pelos proximos 18 meses, você acha que podemos perder o IG já em 2014?

  3. Brilhante análise. Só esqueceu de levar em conta o crescimento da arrecadação. Que, seja lá quem for o presidente, não terá margem para diminuir a carga tributária.

    Enquanto o mercado de trabalho estiver aquecido, haverá uma maior formalização da economia refletindo na arrecadação.

    Esse buraco negro da informalização é que está segurando o tranco das contas públicas. Uma hora ele acaba e forçará este choque que você menciona. Espero que, quando isso ocorrer, estejamos em uma condição social melhor para que tenhamos capital político para este ajuste.

    Por enquanto, só populismo mesmo. Estou otimista também. Qualquer que seja o governo. Estamos inseridos em um mundo com características diferentes do passado. Déficit de 4% do PIB é fichinha perto do de outros países que ainda ficarão nesta situação por uma década pelo menos.

  4. Prezado Mansueto Almeida.,
    Poderíamos considerar que nesse período de 2009 a 2013, após crise subprime, ocorre no Brasil uma situação de dominância Fiscal, dado os estímulos fiscais que estimulam um crescimento da demanda superior ao crescimento da oferta. E que o BC, via política monetária passiva, continuará a ter dificuldades em alcançar o centro da mete inflacionária 4,5% a.a, mesmo com a taxa de juros voltando aos dois dígitos? Caso possas me responder, agradeço-lhe. Bons tempos os da Graduação na FEAAC/UFC. Sucesso.
    Cordialmente, SALES.

Os comentários estão desativados.