A Reportagem da Carta Capital sobre o IPEA

A revista Carta Capital fez uma matéria sobre o IPEA, o tipo de matéria para criar intrigas e cujas as fontes têm medo de falar em “on”. A revista poderia ter falado com os técnicos que cita em “on” e nós poderíamos ter falado, confirmado ou não as declarações que a nós foram imputadas pelo jornalista.

No meu caso específico, o repórter afirma que eu ando me gabando no IPEA de escrever discursos para o candidato Aécio Neves. Quem escreve discurso de candidato são marqueteiros e não economistas. Eu teria que ser muito idiota e burro para fazer uma  declaração desse tipo. O que falei muitas vezes é que gosto do time de economistas por trás do programa do Senador Aécio Neves (também gosto do time que ajuda Eduardo Campos/Marina), que já conversei com o candidato Aécio Neves e sim, conheço o senador Aécio Neves. Mas conheço e converso com outros políticos, inclusive de uma ala do PMDB que é da base de apoio do governo  e com um grupo do PT que acha que o partido está fazendo tolice na área econômica. Mas vamos para o que interessa.

O IPEA está longe de ser uma casa liberal como insinua a matéria. Basta ler que, na chamada “imprensa liberal”, o IPEA sofre constantes ataques, muitos dos quais injustos, por defender o governo. Vamos dar uma olhada nos titulares das diretorias do IPEA.

O Diretor de Macroeconomia, Claudio Hamilton, foi na era Pochmann coordenador-geral de finanças públicas e, na gestão Marcelo Neri, foi promovido a Diretor. Ou seja, Neri promoveu um pesquisador da casa que já era coordenador na gestão Pochmann e que não compartilha de teses liberais como ele fala abertamente. É um pesquisador da casa e de fácil diálogo.

O diretor da Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais (Dinte), o economista Renato Baumann, foi por anos o chefe do escritório da  CEPAL em Brasília. Será que alguém de bom senso ou com conhecimento básico de economia chamaria Baumann de neoliberal? Baumann foi por muitos anos o chefe do Ricardo Bielschowsky na CEPAL, um economista da UFRJ da ala desenvolvimentista que participou fortemente da elaboração do PPA no primeiro governo Lula. Baumman é do grupo de economista que acredita na necessidade de fomento à indústria e no apoio do governo à exportação.  Alguém com esse perfil seria classificado de liberal?

O diretor de Estudos e Políticas Sociais (Disoc), Rafael Osório, é um técnico jovem que trabalha no IPEA há anos e que tem um bom relacionamento com todos os técnicos no instituto. Rafael quando ainda técnico contribuiu com o governo na definição de linha de extrema pobreza e sempre foi um técnico excessivamente preocupado com o resultado técnico das pesquisa e não com “desavenças ideológicas”.

A diretora de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura (Diset), Fernanda De Negri, estudou em Campinas, foi assessora de dois Ministros da Ciência e Tecnologia: Aloisio Mercadante e Marco Antonio Raupp. Ela é uma forte defensora de política industrial voltada à inovação e de avaliação de politicas públicas. Ela é minha chefe e sabe tanto estimular o trabalho quanto puxar a orelha quando agente precisa de um bem vindo puxão de orelha. Fernanda estimula o debate técnico interno e aumentou a interlocução do IPEA com outros órgãos da Esplanada dos Ministérios. Ela liberal? nunca, só se liberal tiver para Carta Capital uma definição muito peculiar de quem não defende Márcio Pochmann.

Bom, vamos agora para a Diretoria de Estudos Institucionais (DIEST). Eu me dou muito bem com o antigo diretor da área na era Pochmann, Alexandre Gomide, um técnico competente que inclusive me convidou para fazer trabalhos na DIEST que serão publicados agora. Um texto que escrevi com dois co-autores procura  entender o desenho de politicas industriais em um contexto mais democrático, a partir de dois estudos de caso: o papel do BNDES e Petrobras. O Diretor atual, Daniel Cerqueira, é pesquisador do IPEA e um estudioso na área de segurança pública. Nunca soube ou escutei Daniel defendendo redução do tamanho do estado ou maior abertura comercial, etc. teses identificadas como “liberais”. Daniel é um liberal? Acho que não, mas é muito inteligente e competente.

Bom, estou terminando, só falta eu comentar sobre duas diretorias. A Diretoria de Desenvolvimento Institucional, cujo titular é Luiz Cezar Loureiro de Azeredo, é uma diretoria que cuida de assuntos administrativos. Luiz Cezar tem feito um grande esforço para recuperar a capacidade de planejamento na instituição.

Por fim, tem a Diretoria de Estudos e Políticas Regionais, Urbanas e Ambientais, cujo o titular é o economista Rogério Boueri, também técnico da casa. Rogério é sim um liberal, mas que se destaca por duas qualidades: (i) respeita opiniões divergentes da sua; e (ii) é extremamente discreto e faz o seu trabalho quem quer que seja o seu chefe e não gosta de muita publicidade. É um dos melhores pesquisadores da casa e adora o Botafogo.

Infelizmente, um grupo muito pequeno na gestão Márcio Pochmann tentou fazer do IPEA um órgão de propaganda. É um grupo inclusive que não aceitava muito bem o fato de o PT ter escolhido a presidente Dilma como candidata. A gestão Marcelo Neri está recuperando o IPEA e o respeito a opiniões divergentes.

Depois de muito tempo, perdemos o medo de ter nossa carreira comprometida por falar o que pensamos e o que nossas pesquisas mostram ao invés do que “deveria ser o resultado da pesquisa”. E ao contrário do que sugere a revista, que eu seria um coordenador com amplos poderes, eu não tenho nenhum subordinado e nenhum estagiário. Ou seja, sou coordenador de mim mesmo sem equipe. A influencia que tenho é porque escrevo via meu blog e jornalistas, economistas, estudantes, etc gostam. Escrever é livre e sugiro aqueles que  defendem irresponsabilidade fiscal, uma lista grande dentro e fora do governo, a fazerem o mesmo. Escrever é livre e de graça!!

Não tenho absolutamente nada contra Márcio Pochmann e até simpatizo com algumas de suas idéias (apesar de eu ser segundo a revista um liberal).  Mas no seu mandato no IPEA no governo Dilma (na sua gestão no governo Lula, os problemas foram pequenos) alguma coisa deu errada e o ambiente de trabalho ficou insuportável. A Carta Capital poderia fazer algo interessante. Por que não convida técnicos do IPEA para um debate sobre o IPEA nos últimos 15 anos? Sei que nós técnicos poderíamos contar vários casos e contribuir para que os órgãos de impressa passassem a conhecer melhor o IPEA, que é uma casa cuja direção  voltou a respeitar a pluralidade de opinião como foi a tradição da casa na sua história, inclusive, ao longo de muitos anos do governo do Presidente Lula.

27 pensamentos sobre “A Reportagem da Carta Capital sobre o IPEA

  1. A Carta Capital está louca se acha que você é liberal. Poxa vida, você estudou com a Alice Amsden! Estou estupefato.

    Irineu

  2. Meu Deus. É como diz alguns representantes do Instituto Von Mises. “Realmente, é desesperadora a situação do debate econômico no Brasil”.

  3. Parabéns, Mansueto, pelo esclarecedor trabalho que vem fazendo. Esclarecedor no sentido clássico do termo: jogar luzes sobre fatos e contextos tornado obscuros. Felizmente, já não leio Carta Capital, pois há algum tempo o tipo de manipulação de pensamento que este veículo pretende fazer não mais me atinge.
    Quando vi a chamada da matéria nas bancas, logo intui que era um ataque contra seus blogs e suas idéias.

    Parabéns novamente, pela coragem! Muitos te apoiam!

  4. Eu sou liberal e me orgulho disso! Quanto a Carta Capital: revistinha de péssimo gosto, pelêga,, mal escrita, uma espécie de imprensa marrom oficial. Para que perder tempo com ela? Não serve nem para aquilo… na latrina!

    • Bom ponto Ricardo. Também não tenho problema algum quando me chamam de liberal e muito dos meus amigos são liberais.Mas algumas teses que defendo nem sempre poderiam ser classificadas como liberais. Abs, Mansueto

  5. Patrulhamento pré eleitoral. Você esqueceu de dizer que além do PSDB, PSB, PMDB,você já discutiu suas idéias com o presidente do DEM, a pedido dele.

  6. Meu caro Mansueto,

    Tenho acompanhado o seu blog e algumas entrevistas que você concede à mídia. Você é um cara bem informado, até porque trabalha numa Insituição de Pesquisa. Muitos dados são compilados por mim, do seu blog, com crédito para você.

    Mas, convenhamos, que essa discussão de “liberal”, “neo-liberal”, pensamento da “direita” ou pensamento da “esquerda”, não coaduna no contexto do mercado financeiro internacional. O mercado, vive numa bolha, que está alavancado em, no mínimo, 9 vezes a economia real.

    Deixa essa turma, da imprensa em geral, falar o que quiser. Muitas vezes, a imprensa copia e interpreta à sua maneira, para vender o peixe deles. Recentemente, tive meu artigo copiado pelo Estadão, sem minha autorização e ou referência da fonte.

    O nosso dever como blogueiro, Mansueto, é justamente, apresentar alternativa à imprensa cooptada.

    Sucesso, sempre!

    Ossami Sakamori
    http://www.OssamiSakamori.BlogSpot.com

  7. Como jornalista fico triste com essa situação. Parece claro que para a Carta Capital e outros veículos afins ser liberal é qualquer coisa que desvie da doutrina petista. Os argentinos disseram não ao Kicshnerismo, em 2014 os brasileiros vão dizer não também!!

  8. Mansueto, acredito que colocar o link da reportagem ou indicar de qual edição da Carta Capital se trata ajudaria o leitor á compreender melhor sua indignação. Lendo somente sua critica não há como concordar nem discordar de você, visto que essa apresentação de membros do IPEA e a sua opinião de cada um deles não tem consistência ou nexo. Peço desculpas se estiver sendo incoerente, mas como pesquisadora sempre tento situar minhas criticas, para que meus textos não se tornem unilaterais. Abraço.

    • Erika,

      infelizmente a matéria não está disponivel na internet. Mas a matéria está na ultima edição da revista que circulou neste ultimo final de semana com o titulo “O politburo ortodoxo”- Marcelo Neri reabilita no Ipea a turma anti-Estado e a favor do atrelamento aos EUA.”

      A matéria a traz a minha foto e a do Marcelo Neri e fala de forma pejorativa de técnicos do IPEA. O que mostrei na lista é que, ao contrário da gestão Pochmann, hoje todos os diretores da casa são concursados e do IPEA e todos de excelente formação e não poderiam ser qualificados de liberal. Sem nexo é a revista falar que “Marcelo Neri reabilita no Ipea a turma anti-Estado e a favor do atrelamento aos EUA”. Isso foi de uma maldade típica de matéria encomendada e contra o Marcelo Neri que não tem nada de liberal ou de defender o Estado minimo.

      Alguém passou em off uma porção de histórias mentirosas sugerindo que, com a saida do Márcio Pochmann, o IPEA se tornou um instituto ultraliberal e que os liberais passaram a mandar no instituto. Isso é uma grande mentira porque a grande maioria dos diretores não poderia ser chamada de liberal e na sua grande maioria defendem politicas mais alinhadas com o pensamento de esquerda: política industrial, etc.

      O repórter diz que eu me gabo de “escrever” discursos para Aécio Neves o que é uma grande irresponsabilidade porque nunca me gabei porque nunca o fiz. Eu converso com o senador Aécio Neves e vários outros políticos. Se o reporte me perguntasse isso teria confirmado. E muito do que falei de que o governo Dilma planeja mal em uma entrevista que dei ao correio aprendi com membros do próprio governo e com deputados da base de apoio do governo. Escutei isso inclusive de ex-diretores do Marcio Pochmann no IPEA que não aceitavam que o PT tivesse escolhido a presidente Dilma como candidata.

      A revista me compara com o Fábio Giambiagi o que não é desmérito – para mim foi até um elogio- e fala que fui promovido por Neri. Eu não sei dessa promoção pois os cargos que tive na gestão Glauxo Arbix e Marcio Pochmann foram maiores do que aquele que tenho agora. Ou seja, eu tinha mais poder na gestão Pochmann do que na gestão Neri.
      O repórter poderia ter requisitado meus contracheques para checar isso e checado quantas pessoas coordeno no IPEA: Nenhuma. Não tenho nenhum estagiário ou subordinado e não tenho permissão para falar em nome do instituto. Como o reporter pode falar que os “liberais” foram resgatados?

      Como pesquisador, nunca falo em off e falo sobre as coisas que escrevo e gostaria de ler quando e aonde escrevi que o Estado brasileiro é grande e que o numero de ministérios deveria ser reduzido. Ao contrário, Já falei que o 85% do crescimento do gasto no Brasil vem de programas sociais, algo que não é mistério.

      Mas há um grupo muito grande no governo e no IPEA que na gestão Pochmann não aceitava opinião divergente. Isso não é algo do PT, mas de uma ala do PT. Márcio Pochmann na sua segunda gestão frente ao IPEA, não na primeira, começou a ter problemas de administração e passou a adotar uma postura top-down que tornou o ambiente de trabalho insurpotável. E posso dizer e provar que muito de nós começamos a nos sentir coagidos.

      Enfim, nada contra a revista Carta Capital. Mas acho que o ideal seria organizar um debate sobre os últimos 15 anos do IPEA com os técnicos da casa. Há documentos, e-mails, etc que a revista poderia ter acesso para ver a percepção dos funcionários sobre a gestão Márcio Pochmann. Na époda do Glauco Arbix que é do PT e atual presidente da FINEP não houve problema algum. Depois escrevo sobre cada um dos diretores da gestão Pochmann e os problemas que ocorreram. Abs, Mansueto

  9. O erro é fundamental para o aprendizado e o desenvolvimento social.Graças ao bom Deus é o que permite encarar e encontrar soluções . A falta de debates e da estagnação das idéias o monopólio da verdade e a perseguição aos pensamentos divergentes é o lugar comum dos governos totalitários desumanos e cruéis..A revista carta capital naufraga neste erro primário de se identificarem com o que pensam sem se darem conta de que toda vez que isto acontece perde-se o contato com a realidade e ipso facto passam a a não merecerem confiança.. Sua coluna, este seu blog tem se tornado uma fonte rica para a reflexão sobre a compreensão da história que ora se escreve neste Brasil. Sou um homem comum, médico ex-professor universitário. poeta, um ancião que se preocupa em como deixar este mundo que será palco e cenário para os mais jovens, leitor ocasional de assuntos economiocos pela necessidade de compreender a história e – gostaria de enfatizar a vossa senhoria que o ” economês” torna-se compreensível e accessível a um homem comum quando dito por vossa senhoria.. Sinta-se portanto na obrigação de continuar publicando suas idéias e suas reflexões queno momento representam um dos poucos espaços críeis para se entender o Brazil

  10. Ser “demonizado” pela Carta Capital é um elogio, Mansueto! O que importa é o seu belo trabalho neste blog! A CC é só desinformação e chapa-branca do governo atualmente no poder…

  11. Dizem que o tempo é o senhor da razão. A matéria poderia ter falado sobre linhas de trabalho e financiamentos de eventos e/ou pesquisas. Penso que o Ipea deve adotar abordagem pluralista, algo que estaria em consonância com princípios constitucionais.

    Abraço,

  12. Quem trabalhou ou se relacionou com o IPEA na era Pochman sabe a destruição que ele causou. Que matéria ridícula da Carta Capital.

  13. Deveriam, ao menos, ter a fineza de dizer que o IPEA não foi criado por nenhum Pol Pot tupiniquim. E nem por ninguém que usa jaquetas estilo Mao. E sim, durante o goveno militar pelo então ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Veloso. Ou será que isso não pode ser dito também? Deve ser duro ou estar muito difícil para revista conseguir assinantes.

  14. O Marco e o Nilton já disseram o que eu tinha vindo dizer.
    Só não te incentivo a processar a revista porque isso significaria dizer que as estatais terão que comprar ainda mais espaço na publicação…
    Abs.

  15. Oi.

    No seu texto você deixa claro que não é liberal, dando a entender que ser liberal é algo ruim (fazendo o jogo da revista).

    Mas o que tem de tão ruim em ser liberal? Virou pecado? Carta Capital virou imperativo categórico? Quem for liberal tem que se esconder ou se desculpar por carregar um vício incorrigível?

    Abs.

    • Absolutamente nenhum problema. Mas como falei em uma das respostas, não sou um liberal clássico porque em alguns temas me afasto um pouco do receituário liberal. Mas várias das posições que tomo e pelo que escrevo muitos me qualificam como liberal e isso não é nenhum demérito. O tom que a revista adotou é no entanto maldoso; Se alguém falar de responsabilidade fiscal e controle do gasto, então essa pessoa é liberal. Eu poderia então dizer que todos os desenvolvimentistas são irresponsáveis e querem quebrar o Estado? claro que não.

      O meu ponto é que ficar colocando “label” nas pessoas não ajuda no debate e não há como adivinhar sempre o que as pessoas pensam pelo label que se coloca nelas. Mas ser liberal não é demérito algum. Ao contrário, hoje eu talvez seja mais liberal do que eu admita. Abs, Mansueto

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