Sugestões de leitura para o debate

Os jornais nesses últimos dias publicaram matérias, entrevistas e colunas interessantes. Vou destacar algumas que li que podem suscitar um bom debate.

(1) Coluna do empresário Benjamin Steinbruch vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) na Folha de São Paulo.

Na sua ultima coluna no jornal (clique aqui), o empresário faz uma defesa da política de correção real do salario mínimo e termina a sua coluna defendo a preservação da política de aumento real do salario mínimo. Destaco dois trechos do artigo:

É certo que o aumento real do mínimo elevou o custo unitário do trabalho na economia, com impacto negativo na competitividade do país. Mas é certo também que teve extraordinário efeito para o consumo, melhorou a distribuição da renda e colaborou para o avanço dos índices de desenvolvimento humano.

………

Os ganhos reais do salário mínimo, portanto, a despeito de seus impactos nas contas da Previdência e na competitividade do país, precisam ser preservados.

Aqui temos um problema. Se ganhos reais significarem aumentos reais anuais do salario mínimo, mesmo que esses ganhos reais sejam de 1% ao ano, neste caso tudo bem. Podemos esperar que a nossa produtividade cresça nesse valor ou um pouco acima disso. Mas se “preservar os ganhos reais do mínimo” significar manter a Lei de correção em vigor, no qual o mínimo cresce de acordo com a inflação mais crescimento do PIB, aqui há um problema.

Essa regra, independentemente do crescimento do PIB, torna o crescimento da despesa primária sempre crescente como porcentagem do PIB. Assim, se é isso que o empresário está defendendo, na ausência, de uma reforma da previdência isso vai significar ao longo dos próximos anos duas coisas: crescimento da despesa não financeira do governo federal (% do PIB) e aumento da carga tributária. Assim, faltou uma frase no final do artigo que deveria ser assim:

Os ganhos reais do salário mínimo, portanto, a despeito de seus impactos nas contas da Previdência e na competitividade do país, precisam ser preservados, mesmo que para isso seja necessário aumentar ainda mais a nossa já elevada carga tributária.

(2) Coluna do jornalista Vinicius Torres Freire na Folha de São Paulo no dia 09 de outubro.

Outra coluna boa para estimular o debate foi a coluna do jornalista Vinicius Torres Freire na FSP no dia 09 de outubro (Golpe de mestres, mestres de golpe – clique aqui). Nesta coluna o jornalista levanta um problema pertinente:

“Mais importante seria perguntar aos candidatos, de maneira apropriada e indireta, decerto, como vão mentir na eleição de 2014…… O gasto social vai ser um dos problemões de 2015-2018. Algum controle, forte, terá de haver, quase todo mundo sabe. Improvável que algum candidato o diga. Como vão mentir, ou dourar a pílula, é que são elas”.

A provocação do colunista é boa, porque recuperar a agenda de reformas envolve medidas que nem sempre são populares. Explico. O que todos nós gostamos (eu inclusive) é ter acesso a serviço público de “graça”  (não existe nada grátis motivo das aspas) e pagar menos impostos. Mas isso não é possível e, assim, controlar o crescimento do gasto significa controlar o crescimento da despesa de alguns programas sociais.

O problema é que nenhum candidato gosta de falar de austeridade e muitas vezes o eleitor também não gosta de ouvir isso. A demanda das ruas por maior qualidade e acesso a serviços de saúde, educação e transporte está se transformando em propostas que aumentarão mais ainda a despesa pública e ninguém está fazendo a conta de como essa despesa será paga. Há espaço para esse tipo de discussão em uma campanha eleitoral? Deveria ter, mas eu desconfio que não.

O Credit Suisse soltou relatório hoje apontando que o superávit primário será de apenas 1,5%, em 2014. A minha projeção é semelhante. Acredito que terminaremos o governo Dilma com superávit primário entre 1% e 1,5% do PIB. Em 2011, o superávit primário foi de 3,1% do PIB. E tudo isso é grave porque o investimento público não aumentou como porcentagem do PIB.

Em resumo, o início do próximo governo será bastante complicado seja quem for o presidente. Mas acho que o eleitor não quer falar de responsabilidade fiscal. Ele quer saber como terá acesso a melhores escolas, hospitais e transporte público mais barato.

(3) Entrevista do economista Albert Fishlow ao jornal Brasil Econômico.

O  professor americano e brasilianista Albert Fishlow deu uma excelente entrevista ao jornal Brasil Econômico na edição da última segunda feira (clique aqui). O professor fala dos perigos da inflação no Brasil que está estabilizada em um nível elevado (perto de 6% ao ano), da baixa taxa de investimento do Brasil (18% do PIB), da política fiscal frouxa que dificulta a queda da taxa de juros, dos problemas do marco regulatório do pré-sal que afugentou investidores, a falta de estratégia para a política comercial que está presa ao mercosul, etc.

Não tem nada muito diferente do que já se fala por aqui. Mas é sempre bom ver como um economista que estuda o Brasil há mais de três décadas olha os desafios atuais da nossa economia e corretamente alerta:

“…..As propostas de aumentar os gastos com educação para 10% do PIB ou de aumentar os gastos com a saúde acabam com o PIB. O que vai restar para o investimento real, necessário para construir o capital real que o país necessita?

2 pensamentos sobre “Sugestões de leitura para o debate

  1. Mansueto, 100% corretas suas observações sobre o aumento do salário mínimo. Pela lógica, aumentos reais de salários não podem superar o aumento da produtividade (se houver!); melhoras individuais de salários tem que ser conquistadas pelos trabalhadores através de avanços na carreira (promoção). Veja como exemplo o cortador manual de cana, que depois de treinado passa a operador de colheitadeira, com salário muito melhor.
    Não é por acaso que a economia da Alemanha é considerada entre as mais competitivas do mundo: o custo médio da hora de trabalho praticamente tem se mantido estável por muitos anos.

  2. Cada vez que leio um artigo do cara da CSN, eu me espanto negativamente. Essa do Salário Mínimo merece um prêmio. Seria uma tolice imensa supor que essa política que está praticamente quebrando as contas do país, possa continuar por mto mais tempo (aliás, já passou da hr de ser derrubada). Mas aí eu lembro q ele vende aço, e aço vira carro, geladeira… daí eu entendo a lógica dele. Quanta desonestidade intelectual.

    Será tão difícil seguir o exemplo alemão? Salários baixos + estabilidade monetária = crescimento estrondoso no longo prazo e qualidade de vida pra pop SUSTENTAVELMENTE. Ngm consegue isso repondo inflação no salário todo ano e achincalhando a indústria (ex-lobby) nacional.

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