Comunicação com o mercado

Ontem tive um almoço com um grupo de investidores. O almoço foi na área de cima do restaurante Piantella em Brasilia, onde fica a fabulosa adega do restaurante. Uma área que traz recordações de Brasília e de personagens importantes da história do país como o deputado Ulysses Guimarães, o governador Mário Covas e o Senador Darcy Ribeiro.

foto 4O que me impressionou no almoço foi que representantes de bancos e corretoras estão querendo investir no Brasil, mas querem sinais mais claros do ambiente de investimento e da direção da política econômica. O que falar em uma situação como essa?

Há três pontos do almoço que quero destacar. Primeiro, defendi a tese que o governo passará por um processo de aprendizado que a nova matriz econômica não está produzindo os efeitos esperados – maior taxa de investimento, maior crescimento da produtividade e maior crescimento do PIB.  Acredito que isso levará a mudanças na política econômica depois das eleições, mesmo que o governo vença as eleições. O ex-presidente Lula tem uma boa comunicação com empresários e o ex-ministro Palocci ainda é figura importante no Partido dos Trabalhadores e os dois podem ajudar o governo a recuperar a “antiga matriz econômica”.

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Foto: painel no Restaurante Piantella em Brasilia

Segundo, os investidores estão com dúvidas se há de fato uma disposição do governo de mudar a sua política econômica. Eles identificam a política econômica com a presidenta Dilma e têm dúvidas se a presidenta estaria disposta a entregar a gestão macroeconômica para um ministro da fazenda mais independente e se a presidenta estaria também disposta a não interferir mais na gestão macro.  Essas dúvidas só poderão ser esclarecidas ao longo do tempo pela própria presidenta e sua equipe econômica.

Terceiro, questionei os meus interlocutores sobre o pessimismo deles que eu não via nos relatórios que eles produziam. A resposta de alguns deles foi direta: “não colocamos isso no papel porque temos receio de retaliação por parte do governo”. Algumas pessoas no mercado financeiro no Brasil têm medo de criticar abertamente o governo com medo de possíveis retaliações. É um medo justificável? não sei, mas esse receio existe para a minha surpresa.

Uma coisa é clara. O governo precisa procurar vários interlocutores para melhorar a sua comunicação com o setor privado. De nada adianta sentar à mesa com o dono do banco quando os analistas desses bancos estão confusos quanto ao rumo da política econômica e  mudanças dos marcos regulatórios.

Espero que esse momento de indefinição passe e o investimento no Brasil volte a crescer e ultrapasse a barreira de 20% do PIB. Vale lembrar que no Plano Brasil Maior, lançado em 2011, a expectativa era de que a taxa de investimento do Brasil fosse de 18,4% (2010) para 22,4% do PIB, em 2014. Será difícil alcançar esta e outras metas do Plano Brasil Maior.

Por exemplo, outra meta que possivelmente não conseguiremos cumprir é aumentar a participação das exportações do Brasil no comércio mundial e aumentar a diversificação de nossa pauta. A meta é que as exportações do Brasil passassem de 1,36% do comércio mundial, em 2010, para 1,60%, em 2014, com aumento da diversificação. Em 2012, nossa participação foi de um pouco abaixo de 1,3% do comércio mundial e sem aumento da diversificação.

O Plano Brasil Maior tem dez macro metas (ver aqui) para 2014, mas desconfio que não conseguiremos cumprir nem metade dessas metas. Em 2010, isso aconteceu também com a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) e a culpa foi colocada na crise de 2009. Espero que não se use novamente essa justificativa pois, quando as novas metas em 2011 foram estabelecidas, já se conhecia  a realidade da conjuntura externa.

O nosso grande desafio neste e no próximo ano é garantir que o próximo governo, mesmo que seja o mesmo, adotará uma nova agenda positiva para o crescimento do país o que exigirá um esforço para melhorar o ambiente de negócios, avançar na agenda de simplificação tributária, recuperar a confiança dos investidores e aumentar a taxa de investimento. E tudo isso dependerá ainda de tomarmos várias outras medidas que se transformem em crescimento da produtividade.

17 pensamentos sobre “Comunicação com o mercado

  1. Sr. Mansueto, boa discussão, principalmente após mais uma rodada de previsões otimistas do ministro Mantega à Exame. Confiança é realmente o tema de fundo. Quanto às metas propostas, seria interessante ter uma idéia de onde estamos agora em 2013, já que os números base são de 2010 e a data final do exercício é já em 2014. O sr. teria como estimar estes números?

  2. Mansueto,
    Dilma ou Eduardo Campos ganhando essas eleições (ou seja, até agora uma bola de cristal 100% certeira), nossa política econômica será voltada para a sobrevivência na conta do chá interna e satisfação de tudo o que o Bolivarianismo pedir externamente. Vide que são dois partidos caninamente fiéis ao Foro de São Paulo.
    Está surpreso de os empresários “temerem represálias do Governo”? Isso acontece desde que existe a Secretaria da Receita Federal. SE BORRAM!
    Plano Brasil Maior? Esse já está no seu 3º nome desde o 1º governo de Lula e continuam os tecnocratas do BNDES (gurus atuais da política industrial). Falta aprenderem que entre o gráfico ‘printado’ a laser colorido nos Gabinetes de Rio e Brasília e o vapor da fábrica respondendo positivamente (inclua investimento em tecnologia junto), há enorme distância.
    Não há economia que sobreviva à dúvida quanto à continuidade das liberdades de fluxo e segurança institucional do capital
    Saudações

  3. Mansueto, gosto bastante do Blog.

    Vc pareceu agora consultor de RH: tudo se resumiria à comunicação. Não é. o problema são os fatos. A Dilma falou que o governo respeita os contratos. Se comunicou, foi clara. Mas ninguém acredita. Se o governo se reeleger, a troco do que irão mudar?

  4. Há uma crescente tendência de deslocamento do debate político para a chamada centro-esquerda. Os potenciais candidatos, com chances reais de êxito,ao cargo de 1º mandatário do país tudo leve a crer, serão Dilma, Eduardo Campos e\ou Marina.

    Ou seja, Aécio e\ou Serra ( e o próprio PSDB) vêem seus discursos, e suas propostas cada vez mais distantes dos objetivos da maioria da população. Ou, em outra palavras, estão sendo “atropelados” pela realidade. Caberá ao PSDB, na eleição presidencial um papel secundário, possivelmente coadjuvando e fortalecendo junto com o PPS, a dupla Marina\Campos.

    Fato é que o eixo da disputa descolou-se no sentido do campo centro-esquerda, progressista. Os três, Dilma, Campos e Marina são oriundos da chamada esquerda progressista.

    A própria mídia corporativa, aliada de sempre do PSDB percebendo a extrema dificuldade eleitoral dos tucanos , já procura estimular aliança em que despontam a trinca Marina\Campos\Aécio.

  5. Mansueto,

    Primeiramente, parabens pelo blog, sou seu leitor assiduo. 🙂
    Meu pitaco sobre o futuro: o governo vai levar a economia em banho maria até as eleicoes, rezando para que nada de catastrofico aconteca até lá. Acho que a Dilma ganha ano q vem e 2015 será um ano de ajustes com uma politica mais ortodoxa. Mas assim que a economia der sinais de melhora – provavelmente em 2016 – a hetodoroxia da Dilma vai voltar a todo vapor. Ai só resta esperar pra ver no que vai dar mas acho que em 2018 o PT nao ganha nem que o Lula seja candidato…

    Abracos

  6. Esse Plano brasil maior é puro wishful thinking e um monte de ações tolas. Enquanto a indústria for o burrico de carga do welfare brasileiro, vai continuar patinando, e atolado na lama. E tem mais, se se concretizarem os boatos de redução da injeção de crédito estatal na economia, por meio de caixa, bndes, bb etc, mas especialmente o finame BNDES, pode saber que a taxa de FBCF afunda na mesma toada, especialmente o setor de bens de capitais, que deu uma explosãozinha nesse ano graças inteiramente a essa política de juros reais (bem) negativos para bens de capital.

  7. Monsueto como pode dar certo um governo estatista como esse?
    Não acredito nessa turma e torço que mude pois não vejo perspectivas com governo que não respeita contratos, que não gosta do mercado e ainda tem a pretenção de opinar em politica externa de outros paises.
    Aliado a Argentinha, Bolivia,Venezuela, nãlo tem como dar certo.
    Populismo também nunca deu certo e os escandalos do Lula com mensalão, secretaria do escritório da presidencia em S.PAULO e outros que ele não viu e não sabe de nada.

  8. Mansueto, sempre leio o seu blog e considere ponderada suas críticas. Mas o que um economista do Ipea, servidor público, fazia com investidores de bancos e corretoras em um restaurante?

    • Eu almoçava. Como era horário de almoço, pelo que conversei com outras pessoas não há problema algum já que não estou cobrando, não tenho acesso a informação privilegiada e não tenho cargo em comissão no governo.

      Normalmente, eu ou almoço sozinho ao lado do IPEA em um self-service no qual gasto em torno de R$ 20 ou almoço com outros economistas de Brasilia ou de fora em restaurantes.

      Isso poderia ser um problema se eu tivesse acesso a informações confidenciais. Mas uma coisa que faço nas minhas pesquisas é justamente não trabalhar com informações confidenciais.

      Assim, almocei e vou continuar almoçando com sindicalistas, investidores, professores e qualquer outra pessoa que me convide para almoçar e Eu ache interessante. Mas não entendo o tom da sua pergunta? qual o problema de um servidor público que é pesquisador almoçar com investidores? eu posso e gosto de falar de economia com qualquer pessoa. Junte uma turma e me convide para almoçar no Bar Brasilia ou em um boteco que vou com maior prazer.

      O errado é roubar e utilizar acesso privilegiado ao governo para enriquecer como muitos fizeram e ainda fazem. Usar informação privilegiada é roubo. Almoçar com quem quer que seja, se está no meu horário de almoço, não tem problema algum, afinal de contas, não é aconselhável o governo tentar controlar com quem eu ou qualquer outro funcionário público conversa.

  9. “Algumas pessoas no mercado financeiro no Brasil têm medo de criticar abertamente o governo com medo de possíveis retaliações. É um medo justificável?”

    Bom, se você estiver esperando um empréstimo do BNDES é bem provável que você seja “prejudicado” com a não concessão de empréstimo subsidiado caso você critique abertamente o governo. Viva o mercantilismo!

  10. Mansueto,

    Por muito menos o diretor da ANS deixou o cargo pelo “simples” fato de ter omitido em seu currículo um vínculo com operadores no passado.
    Pode ser que eu esteja fazendo mal juízo. Mas v. não estava com amigos ou amigos investidores. V. estava reunido com investidores institucionais. E isso pode ser caracterizado violação do código de ética do servidor, particularmente no que diz respeito ao acesso à informação.
    Se eu estiver errado. Peço desculpas pelo tom. Mas penso que v. como ótimo economista que é deve tomar cuidado com essa relação com o meio financeiro.

  11. “Algumas pessoas no mercado financeiro no Brasil têm medo de criticar abertamente o governo com medo de possíveis retaliações. É um medo justificável? não sei, mas esse receio existe para a minha surpresa.”

    Ué, você não acompanhou o que aconteceu com Alexandre Schwartzman quando contestou o Grabrielli e foi demitido do Santander? Surpresa, minha pela menos, é que você escreva o que escreve, ainda que com razão e contundência, e ainda não tenha tomado um cala-boca. Petistas não brincam em serviço.

    • Rodrigo e Monsueto, o caso mais famoso é o aitolá Lula exigir a demissão do Agnelli da Vale por ele não ter atendido um pedido de não demitir funcionários em época de crise no mercado.Como vc escreveu os petistas não brincam em serviço e possuem uma maquina de patrulha violenta.

  12. Apenas como um reparo.
    Se o ex-presidente de 2003-2010 e seu ex-ministro da Fazenda, podem ajudar o governo a entrar nos trilhos, se esse, governo, for reeleito, por qual razão não fizeram eles mesmos as reformas e acertos necessários quando estavam na linha de frente?
    Além do que parece estranho que ambos ainda sejam bons interlocutores, uma vez que não detém nenhum cargo efetivo na área governamental.
    Além do que, um, o ex-presidente afrouxou, o garrote e abriu as caixas para a gastança. O outro caiu por caso rumoroso de exercício autoritário de poder contra um cidadão comum.
    Agora vem a pergunta.
    Pode ser que, caso eles ainda sejam bons interlocutores, junto a quem interessar possa, quem estaria, então, efetivamente, governando o Brasil?
    A resposta a esta pergunta é que causa mais medo.

  13. O termo privataria foi criado por um jornalista, até onde se sabe, para designar a reorganização do governo e assim, livrá-lo de empresas onerosas e ineficientes. Além de sujeitas a injunções que em nada ajudavam no seu desempenho que não fosse algo meramente paroquial.
    E privatização também ocorreu com o campo de Libra do pré-sal. Tanto foi privatização que a presidente, em discurso, inisistiu em tentar explicar que “…o que ocorreu foi bem diferente de privatização…”. Em suma, foi privatização, sim. E ainda, o campo privatizado tem o nome da moeda de um país capitalista. Interessante certas coincidências e coerências.

    Mas, aos que têm tanto medo de privatização, por que não sugerem uma reforma política onde quem vota para eleger parlamentares e presidentes da República, seriam apenas funcionários públicos, “pessoas físicas estatizadas”?
    Isso porque, do jeito que é hoje, quem vota são todos os cidadãos e em sua grande e expressiva maioria, de pessoas físicas e não “pessoas estatizadas”.

    Ou, outra forma seria seria transformar os partidos políticos em entidades de direito público, pois, hoje, partidos são definidos pelo direito privado.

    Como pode haver tanta contradição em coisas assim, tão comezinhas?
    Como pode um presidente que se diz contra a privatização, ser eleito por pessoas privadas? E ainda receber ajuda de campanha de pessoas privadas? E mesmo assim, desancar o privado como se quisesse que público o fosse?
    É de cre-se que o jornalista que criou o termo privataria, jamis imaginaria que os maiores defensores da estatização, estivessem hoje, sendo julgados por privatizar por meios indevidos, recursos públicos.
    O mundo fica cada vez mais engraçãdo no Brasil.

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