Brasil Telecom/Oi – mais um campeão nacional que fugiu do script.

Hoje, a Portugal Telecom anunciou fusão com a empresa brasileira de telecomunicação Oi. A princípio, isso me parece uma operação normal entre duas grandes empresas no setor de telecomunicação para aumentar ganhos de escala e conseguir sinergias financeiras e operacionais.

No entanto, do ponto de vista de política industrial é um mais um caso que não saiu como o planejado e o BNDES fica devendo para a sociedade um estudo detalhado do porque dessa aposta não ter dado certo, pois quando a operação de venda da Telemar para a Brasil Telecom/Oi foi aprovada, em 2007, houve uma grande ingerência do governo com a garantia de empréstimo do BNDES, antes mesmo de a legislação da época permitir tal concentração, e com a exigência de que o BNDESPar tivesse prioridade na compra do controle da nova empresa caso os grupos controladores nacionais decidissem vender suas participações no futuro.

Um dos sócios da Brasil Telecom na época, a Telecom Itália, por várias vezes mostrou interesse em aumentar sua participação na empresa. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo em 13 de julho de 2005, o presidente da Telecom Itália no Brasil, Paolo Dal Pino, deu a seguinte declaração sobre a possível venda da Brasil Telecom para a Telemar:

Sim, fomos procurados pela Telemar e ficamos muito surpresos, pois essa empresa não poderia nem cogitar comprar uma participação em outra operadora de telefonia fixa. É uma evidente violação da lei e de todos os mais básicos princípios que inspiraram a privatização do sistema de telecomunicações brasileiro, no qual os investidores internacionais depositaram sua confiança. Ou a Telemar está afrontando a legislação ou a proposta que recebemos já faz parte de um plano da empresa, com os fundos de pensão e o Citigroup, para modificar a Lei Geral das Telecomunicações. (…) Pelas informações que nós temos, parece que isso será feito com o suporte da própria Telemar, via lobby no Congresso para alterar drasticamente a lei aplicável e permitir, com a ajuda do governo, a reestatização da Brasil Telecom (Leite, 2005, Folha de São Paulo, 13/07/2005).

Na verdade, não houve reestatização, mas sim a venda da parcela de 19% que a Telecom Itália tinha na Brasil Telecom para os fundos de pensão em 18 de julho de 2007 e, no ano seguinte, a venda da participação do grupo Opportunity na Brasil Telecom para a Telemar. Isto deu origem à empresa Oi, que passou a ter como acionistas majoritários os mesmos controladores da Telemar: os empresários Carlos Jereisatti, do Grupo La Fonte, e o empresário Sérgio Andrade, do grupo Andrade Gutierrez – dois grupos nacionais.

Apenas após a operação ter sido totalmente estruturada e garantido o financiamento de R$ 2,6 bilhões do BNDES e de R$ 4,3 bilhões do Banco do Brasil à nova empresa, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) aprovou, no dia 16 de outubro de 2008, por 3 votos a 2, o novo Plano Geral de Outorgas do setor de telecomunicação, que flexibilizava as regras do setor no Brasil e permitia a venda da Brasil Telecom para a Telemar/Oi.

Além do empréstimo de R$ 6,9 bilhões de bancos públicos para viabilizar a venda da Brasil Telecom para a Telemar, os fundos de pensão estatais (Previ, Petros e Funcef) participaram ativamente da operação e passaram a ter cerca de 34% do capital da nova empresa de telecomunicação. Este episódio mostra de forma clara que o governo optou por criar uma companhia nacional de grande porte no setor de telecomunicação – não havia a possibilidade de a venda ter acontecido para um grupo estrangeiro.

Infelizmente, depois de quatro anos dessa aposta na criação de mais um campeão nacional que na época era uma aposta que muitos do governo diziam que era uma aposta de baixo risco, dado o forte crescimento do mercado brasileiro, o resultado foi que a companhia aumentou excessivamente o seu endividamento e não entregou o retorno esperado.

A Portugal Telecom e Oi são parceiras desde 2010 e a companhia portuguesa já era o maior acionista da Oi que com o excesso de endividamento (R$ 33 bilhões no início de 2013) não teve fôlego para fazer os investimentos necessários para crescer, se internacionalizar e se transformar em um campeão nacional e mundial.

O final dessa história é muito simples: o governo operou em 2007 e 2008 para criar um super tele brasileira e o script saiu errado. Se criou uma grande companhia sem capacidade de investimento e com um baixo valor de mercado (R$ 8 bilhões) frente ao seu endividamento.

E na fusão anunciada hoje parece que haverá uma transferência do knowhow do grupo português para o grupo brasileiro – uma história diferente da saga por trás da fusão da AMBEV com a belga Interbrew, em 2004, quando o grupo brasileiro passou a controlar operacionalmente a nova companhia e iniciar um processo de internacionalização que se mostraria ainda mais ousado com a compra da Anheuser-Busch nos EUA, em 2008, e do Grupo Modelo do México, em 2012.

Os dois casos referidos acima são de fusão com vistas a ganhar escala para se internacionalizar, mas o caso da AB INBEV teve por trás uma estratégia privada, enquanto o caso Brasil Telecom/Oi teve como origem uma aposta de política industrial. No caso que nasceu de uma estratégia privada,  o grupo brasileiro levou seu estilo de gestão para o resto do mundo No outro caso que foi planejado a partir de uma visão de política industrial, o grupo de fora (Portugal Telecom) é quem vai colocar o seu estilo de gestão. Ao que parece, o sonho da Super Tele brasileira não saiu exatamente como o planejado, mas a operação de fusão com a Portugal Telecom parece ter sido uma boa estratégia para os sócios salvarem o seu investimento, inclusive o “sócio governo” – via BNDES e fundos de pensão estatais.

9 pensamentos sobre “Brasil Telecom/Oi – mais um campeão nacional que fugiu do script.

  1. Legal Monsueto essa sua matérai nos mostra o intervencionismo do governo dos petralhas com víés estatista e como esse caso deu errado e como outros como Mafrig, Jbss tudo por trás tem a politica industrial do governo petista.
    No caso do Jbss (Friboi) parece que está dando certo mas chamaram o Meirelles pra ajudar no conselho de administração onde parece que é presidente. Diga-se Meirelles ex Psdb.
    No caso do MAFRIG parece que as coisas não estão lá muito bem e já transferiram uma parte da divida para o JBSS.
    Temos muitos casos com participação dos fundos de pensão que não deram certo e o prejuízo será para os associados e isso também merece uma investigação.
    Abraço.

  2. Na época da aquisição da BrT pela OI/Telemar, a imprensa noticiou que o Lulinha estava por trás das negociações envolvendo a participação do BNDES, BB, CEF, Previ, Funcef, e Petros, o que colocou outros interesses em jogo, que vão muito além de um erro na política induistrial. Os interesses escusos ficam evidentes no fato de que o empréstimo do BB teve como garantia o próprio lucro do negócio!!! e o negócio não está dando lucro… Na época o TCU informou que faria uma auditoria no BB para verificar se esse empréstimo havia sido concedido de acordo com as normas internas de prudência e avaliação de risco do próprio BB. Imediatamente o presidente Lula passou a atacar a atuação do TCU, mas para não mencionar esse fato, ele dizia que o TCU estava atravancando o desenvolvimento do Brasil por meio de paralização de obras com indícios de irregularidades graves e débitos. O presidente não informou que o Ibama haviam paralizado 3 vezes mais obras que o TCU…
    Esse capítulo da história ainda precisa ser esclarecido, com serenidade e imparcialidade.

    • Marcio na verdade os fundos de pensão tomados pelos lideres sindicais estão por tras de todas a participação em empresas privadas e o que vemos aqui é o estatização ao inverso. A maioria das empresas estatais tem seu fundo de pensão e para eles é transferido o poder de estar no comando da economia. Essas que vc citou vejam quem são seus dirigentes. Os petralhas de bobos não tem nada e avançaram em tudo.

  3. O Eike, o Batista, deve ter sido a mesma coisa, não? Isto é, esse comportamento chinfrim, mas monumental no prejuízo travestido de ‘capitalismo’ de estado bem no estilo abaixo da linha do Equador onde se o pecado é permitido, a genética garante a decadência! As rodovias, os aeroportos, os portos serão o próximo passo rumo ao… desastre!

  4. Pingback: Fusão Oi + Portugal Telecom remete a um MONSTRUOSO escândalo do PT que foi ignorado, e revela MAIS um problema gravíssimo do Brasil | Blog do Munhoz

  5. Este caso da Telemar+BrasilTelecom=Oi+Portugal Telecom+mudança na lei para beneficiar o filho do Presidente da República é um escândalo, e não lhe foi dada a devida importância.
    Como se isso não fosse suficiente, sinaliza que no Brasil, fazer negócios depende, cada vez mais, de proximidade com a “corte” (ou seja, propinas e benefícios espúrios a membros do governo e/ou seus familiares).
    Finalmente, essa política dos “campeões nacionais” só vem fazendo água – e tudo com dinheiro público. E o pior é que não há NENHUM indício de que haverá mudanças REAIS neste quesito.

  6. Caro, é só mais um exemplo de tentativas errôneas de política industrial que favorecem apenas os “amigos”.

    No setor elétrico, o Fundo de Investimentos do FGTS colocou uma grana preta no Grupo Rede, que administrava diversas concessionárias de distribuição. Anos depois, a holding pediu recuperação judicial e está para ser vendida por R$1 a um grupo privado.

    O Grupo Rede sempre interessou a empresas privadas, mas o governo atravessou o negócio e perdeu dinheiro do FGTS nessa brincadeira desnecessária..

    http://www.analiseenergia.blogspot.com.br/2013/07/o-fi-fgts-e-o-grupo-rede-eletrobras-e.html

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