Os três economistas e o déficit crônico de confiança

Está cada dia mais difícil encontrar tempo para escrever no Blog. Mas vou fazer um post bem curto e rápido para recomendar a leitura da transcrição e das apresentações da audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal com três economistas chefes de bancos privados: (i) Nilson Teixeira do Credit Suisse; (ii) Octavio de Barros do Bradesco; e (iii) Ilan Goldfajn do Itaú-Unibanco.

Eu acompanhei a apresentação pela TV e até arrisquei meus comentários via twitter. Conheço os três economistas e são todos muito bons. Na apresentação achei eles um pouco retraídos ou tímidos de mostrar de quem á a culpa pelo problema de “falta de confiança que os três apontaram”. Mas ficou subentendido de quem é a culpa. Acho que não é do seu José, o padeiro simpático do Brás, que há uma semana não aparece na sua padaria.

Vou destacar três pontos que achei fundamental. Primeiro, a tese da “falta de confiança”. De acordo com essa tese e por motivos diversos, como a tradicional desconfiança dos investidores externos ao comportamento dos países emergentes, o Brasil passa por uma crise de confiança e isso está atrapalhando o investimento e o crescimento. Dito de outra forma, independentemente dos nossos problemas de longo prazo, o Brasil poderia estar crescendo mais rápido caso o governo reconquistasse a confiança dos investidores. Nilson e Octávio deixaram a impressão que há um problema de confiança com as metas anunciadas e nenhum dos dois acreditam na meta de superávit primário.

Segundo, os três falaram que não estamos em uma crise fiscal (isso todos nós concordamos) mas que o governo não precisava ter feito uso de “práticas heterodoxas”, denominadas de contabilidade criativa, para entregar o resultado primário programado. Isso não foi feito apenas em um ano, o uso da contabilidade criativa tem sido recorrente desde 2009, com exceção de 2011. Reconquistar a confiança do mercado e do Banco Central será difícil, mas necessário.

Terceiro, todos falaram na retomada da agenda de reformas e no controle do gasto público (não lembro se o Ilan falou sobre isso, mas Octávio de Barros e Nilson falaram). O problema é que controlar gasto público todo mundo é a favor, mas ninguém fala exatamente como. E quando se passa para o “como” termina o consenso. Uma das reformas apontadas foi a independência do Banco Central. Esqueçam. Apesar do Projeto de Lei do Senador Dornelles, esse é um tema que ainda assusta vários políticos e alguns amigos meus acham que essa é uma agenda de mercado e não da sociedade que não quer um Banco Central independente.

Em resumo, o debate foi esclarecedor, mas os senadores serão levados a agir para solucionar os problemas mostrados pelos três economistas? Acho que não até porque muito dos problemas apontados vem de um outro poder. Vou torcer para que o governo adote as medidas corretas para recuperar a confiança do mercado.

Clique aqui para ver a transcrição preliminar da audiência pública e aqui para ter acesso as apresentações.

Um pensamento sobre “Os três economistas e o déficit crônico de confiança

  1. Mansueto
    Embora veja vantagens no BC independente, não acho que um BC subordinado seja o fim do mundo. O fim do mundo acontece quando o BC é de fato subordinado, mas o executivo diz que lhe concede autonomia. É o céu dos polítiqueiros. Fazem o que bem entendem e não respondem por seus atos. Ao assumir o governo, quem assume deveria definir o modelo, ou a diretoria do BC seria indemissível, ou seria subordinada ao executivo, portanto demissível durante o mandato do atual presidente. Quando as pessoas precisam assumir suas m…..s os comportamentos tendem a ser mais responsáveis.
    Abraços

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