Entrevista do economista Samuel Pessoa (FGV-IBRE)

Sempre que assistir alguma entrevista interessante, vou passar a indicar aqui. Confesso que, apesar de conversar com ele com frequência, não sabia dessa entrevista do economista Samuel Pessoa à jornalista Mônica Teixeira ao programa Complicações da UNIVESP TV. Não a conheço, mas ela faz boas perguntas e deixa o entrevistado à vontade para desenvolver os argumentos. Já havia indicado aqui neste blog uma entrevista que ela fez com o economista Edmar Bacha.

Nessa entrevista com o Samuel, em fevereiro deste ano, ele faz um bom diagnóstico da transição demográfica no Brasil, o efeito das reformas no crescimento econômico, como o excesso de intervenção do Estado na economia atrapalha o crescimento e ainda o por que da nossa elevada carga tributária. E ao longo da entrevista Samuel fala coisas interessantes como, por exemplo, o fato de os EUA terem se tornado uma economia rica por cresceram por vários anos de forma consistente e não porque tiveram um período de “milagre econômico” ou vários milagres.

Sobre esse assunto, vale a pena comparar os gráficos abaixo – a renda per capita real dos EUA cresce quase continuamente desde a década de 1960, a renda per capita do Brasil passa duas décadas (décadas de 1980 e de 1990) oscilando entre US$ 6.000 e US$ 7.000, volta a crescer de forma consistente no sec. XXI, mas apenas recentemente (a partir de 2005) consegue aumentar novamente em relação à renda per capita dos EUA. Essa relação já foi perto de 30% e, em 2010, havia recuado para 21%.

PIB per capita dos EUA – 1960-2012 – US$ 1.000

FRED01

PIB per capita dos Brasil – 1950-2010 – US$ 1.000

FRED02

Relação entre PIB per capita do Brasil e PIB per capita dos EUA – 1950-2010

FRED03

De quem foi a culpa do nosso baixo crescimento entre 1980 e 2000? De nós mesmos. Como lembra Samuel, enquanto 7 de cada 10 crianças estavam nas ruas e sem acesso à educação estávamos construindo Brasília. O ruim de decisões erradas que afetam o crescimento do longo prazo é justamente isso, a conta, muitas vezes, chega muito depois.

A decisão de crescer a qualquer custo, abertura da conta capital com controle do comércio, e ainda proteger nossa indústria na década de 1970 nos levou a duas décadas de baixo crescimento. Vamos ver se agora não repetimos o mesmo erro lá de trás. Tenho medo quando Samuel começa a fazer comparações do Brasil de hoje com aquele da década de 1970.  Assistam a entrevista do Samuel porque é uma boa aula de economia brasileira e, mesmo que você não concorde com o diagnóstico dele, é um bom “food for thought”.

13 pensamentos sobre “Entrevista do economista Samuel Pessoa (FGV-IBRE)

  1. Fantástica entrevista! Gostei imensamente. Uma aula sem apelar para uma verborragia inútil. Senti que, entre outras coisas, poupança não é apenas uma questão econômica, mas tem um quê de virtude com resultados econômicos maravilhosos. Mas a entrevista teve muito mais. Continue a premiar seus leitores com coisas assim!

  2. Mansueto, só não gosto quando você pega leve nos termos. Por exemplo, não foram apenas “decisões erradas”. Foram safadezas mesmo de nossa classe política! E tentar fingir uma esperança inexistente não ajuda em nada! “Vamos ver se agora não repetimos o mesmo erro lá de trás.” Ora, é óbvio que nossos políticos atuais continuam não pensando no bem do país. Por que fingir que isso pode mudar? Não pode! Não vai mudar! Por pelo menos mais um século, continuaremos tendo políticos e um governo de merda! Pra que agir como se tivéssemos condições, hoje, de resolver nossos problemas políticos e, consequentemente, econômicos? Não temos! Nossos homens públicos e nossa elite cultural (incluindo jornalistas), aqueles que deveriam cuidar de uma saúde política e intelectual do país, são um lixo! Faça um levantamento aí: quantos congressistas no país são analfabetos funcionais? Quantos “gestores” (que termo chique!) e chefes do governo federal se preocupam com fazer o melhor para o país? Vai dizer que o Arno é um exemplo de moral pública? Contabilidade criativa também é fraude! Também atenta contra, por exemplo, a transparência pública. E o Banco Central, que não se constrange nem um pouco e se cala ao ver as incompatibilidades entre nossas políticas fiscal e monetária? E vai dizer que o Mantêga é um homem de bem? Fala sério! Querer ser “generoso” e alimentar uma esperança de que esses caras farão algo sério para melhorar o país é, no mínimo, uma inocência que beira à cegueira. O pior mesmo é que não se vê no horizonte ninguém ou nada que possa mudar esse cenário! Por quê? Simplesmente porque os nossos cidadãos, em geral, são ruins. São apolitizados, ignorantes, subservientes, acomodados, covardes e corruptos. Quem vai salvar o país? A “sociedade organizada”, materializada numa OAB vendida, em ONGs cúmplices com a roubalheira e movimentos sociais financiados pelo próprio governo? O brasil vai continuar tomando decisões muito ruins, e até acho que, dadas as sementes que estão sendo plantadas hoje, nosso futuro tende a ser bem pior do que foi o nosso passado. Não dá pra ser mansinho com os erros nacionais. É preciso dar nomes aos bois e apontar o dedo. Chega do discurso manso.

    • Bom, não estou tão pessimista como você e o Brasil nos últimos 20 anos melhorou. No mais, sobre o papel dos políticos, nos EUA é muito pior, na Índia pior, na China nem se fala porque lá é uma ditadura, na Rússia muito pior, e não sei se somos tão ruins quando comparados a outros países Latino Americanos. As coisas em democracia são assim mesmo e difícil de mudar. Mas o povo aprende e melhora suas escolhas, mesmo que no meio do caminho tenham crises como hoje encontramos na Europa.

      • Mansueto, discordo muitíssimo de você, com exceção da China, que é o modelo de futuro do brasil. Aí, sim, concordo. Só para citar aspectos pontuais que já demolem essa história de que a política no brasil é melhor que tais e tais países. Nos EUA, pelo menos, o congresso vota o orçamento direito, né? E aqui? Tente fazer contabilidade criativa nos EUA e veja o que acontece. Concordo que, há alguns anos, as instituições americanas têm perdido força. Mas ainda estão séculos à nossa frente. A Rússia, por pior que seja a situação de ditadura da KGB por lá, possui uma identidade nacional baseada em sua história. Os russos, quando querem, sabem fazer o negócio direito. Eles conseguem, por exemplo, construir um caça supersônico de ponta, conseguem desenvolver tecnologia. E o brasil? O brasil sequer existe! Toda a existência do brasil depende de papéis assinados que não têm qualquer correspondência com a realidade! E, a partir do momento em que todos os cidadãos se acostumam a viver uma mentira, a política vira um teatrinho, uma novela das oito. Brasília, a capital do país, é um belo exemplo disso. O povo brasileiro se acostumou a isso e até sente orgulho desse “jeitinho”, dessa “malandragem” e dessa “tolerância” que nos caracterizam. Os russos, por mais broncos que sejam, são reais. Foram formados a partir de problemas reais que seus próprios indivíduos tiveram que enfrentar (guerras, comunismo). Quanto à Índia, não sei dizer. Mas dizem que, ainda que seja um país mais sujo que o nosso, a honestidade é muito mais valorizada pelo povo de lá do que por aqui. Acho que é uma questão de bagagem histórica mesmo. Ainda que a Índia seja pior que o brasil, isso é motivo para ficarmos felizes? A imagem da Índia que tenho é a de que se trata de um enorme esgoto a céu aberto. É onda ser melhor do que um esgoto? O Chile já é mais desenvolvido que nosotros, e até o Peru e a Colômbia (!!!) estão a caminho. O brasil é só uma enorme enganação, mas é muito difícil para o brasileiro, entupido de nacionalismo barato desde pequeno, admitir isso. Não há sequer um único motivo real para se ter orgulho de ser brasileiro. Nenhum! Ou melhor, como já disse, o brasil nem existe!

  3. Muito boa a entrevista. Apenas alguns senões: considerar a criação da correção monetária ( o verdadeiro embrião da indexação, e uma das causadoras da alta inflação como uma marca institucional importante do governo Castelo Branco não me parece, no mínimo, “pouco razoável”. Assim como a criação do BNH ( e o FCVS, que até pagamos…..) que financiou basicamente a classe média ( que apoiou fortemente o golpe de 64 ); acho que foi citado pelo Samuel Pessoa…… o SFH………na entrevista…

    A relação apontada pelo Samuel Pessoa entre carga tributária alta, proteção social crescente e estado de direito democrático me parece bastante interessante e real. A população brasileira tem optado por um crescimento limitado, porém com maior e melhor distribuição das riquezas e oportunidades.

    Um observação: em debate recente, tanto o Gianetti, como o Pessoa caracterizaram o liberal e conservador Eugenio Gudin como defensor da industrialização de economia brasileira, o que é um equívoco histórico. Alguns economistas ditos ortodoxos e liberais mais novos talvez precisem visitar mais a histórica política e social brasileiros.

    Admiro muito a leitura e a interpretação do aumento do gasto social vinculado à Constituição de 1988 que faz o Pessoa.

    Abraço

  4. A grande falácia dos liberais brasileiros: “Brasil cresceu por causa das reformas de FHC e Palocci”. Nosso crescimento teve um único motivo: CHINA
    E o desastre, como em 80, virá da dependência ao mercado de capitais internacional. Emitir dívida externa em moeda forte, pública ou privada, deveria ser proibido na constituição.

    • Imagine o boom de commodities com o o governo arrecadando mais e com os banco estaduais abertos e funcionando? Imagine que o governo ainda pudesse gastar e se financiar com emissão monetária? Imagine se ainda fosse proibido importar computadores? Imagine se ainda tivéssemos que pagar US$ 5.000 por uma linha de telefone fixo? Acho que sem reformas o boom de commodities teria se transformado em um desperdício maior do que foi.

      Segundo, qual é o seu padrão de consumo? voce acha certo o governo ditar o que voce pode ou não pode fazer? acho um absurdo ter bar na rua aberto depois de 11 da noite. E daí? não cabe ao governo dizer que o empresário não pode se endividar em dólar. Mas ele pode deixar o empresário quebrar a cara. O problema é que o governo vem e salva o empresário como fez na década de 70 e como fez novamente em 2008/2009 com os derivativos. E o governo pode colocar imposto sobre dívida em dólar se quiser. Mas não proibir.

      • Não disse q as reformas foram ruins. Só disse q elas não motivaram o crescimento dos últimos 10 anos, que iria acontecer de uma maneira ou de outra, vide outros países sub desenvolvidos com uma estrutura institucional muito pior que a nossa e que tb surfaram o boom das commodities. Aliás, pelo vosso raciocínio, as reformas liberais foram contraprodutivas, uma vez q o crescimento relativo do Brasil foi pífio.
        Em relação ao endividamento é necessário entender uma coisa: Não existe “crowding out” em um país com moeda soberana, não havendo, desta forma, qualquer empecilho para o desenvolvimento do mercado de capitais nacional. O endividamento externo, via txs de juros subsidiadas/baixas, faz com que as decisões de alocação de capital sejam mal feitas, gerando as crises externas ad æternum.
        De resto, de acordo.

      • Aliás, continuando o raciocínio abaixo ( ou acima), se vc quiser fazer um bem ao país, avise o secretário do tesouro nacional para parar de colocar dívida pública com juros acima dos do setor privado (di). “Obrigue” (eles não tem pra onde fugir) o mkt a receber txs abaixo do DI (20, 30bps). É a forma mais fácil de desenvolver o mkt de capitais em reais. 😉

    • Acho que voce não entendeu. Ao contrário, Se você conversar 10 minutos com ele vai ver que ele não condena as escolhas da sociedade. Mas ao contrário de vários economistas que falam mentiras e não sabem fazer contas, o que Samuel diz é que o desejo da sociedade por politicas sociais mais ativas limita o espaço no orçamento para o investimento. Ele não fala que isso está errado, apenas mostra que o governo não terá recursos fiscais de sobra para investir 4% do PIB e aumentar gastos sociais. Na ditadura, a opção foi para investimento. Nas democracias, a opção é em geral por mais politica social principalmente em países de elevada desigualdade de renda como fala o Samuel.

      • Por isso, também, Mansueto, considero o Pessoa um dos economistas liberais que melhor situam a discussão orçamentária no Brasil. A opção democrática da maioria dos brasileiros tem sido (pelo menos, nas últimas duas décadas ) pelo alto consumo, e baixa poupança/investimento —– o que é compreensível, dado nosso nível de desigualdade sócio-econômica ser enorme.

        E, como já disse aqui em outras ocasiões, a demanda das ruas por mais e melhor qualidades dos serviços públicos em geral tende a aprofundar a pressão sobre os orçamentos públicos. Ontem mesmo, li que o projeto Mais médicos demandará R$ 2,8 bi, em 2014. E por aí vai…..

        E tudo indica que o governo central e subnacionais partirão firmes rumo ao investimento em infra-estrutura física e social. Assim espero que se confirme.

        Esse é núcleo da discussão orçamentária no país. Lembrando que não mais poderemos descuidar do controle inflacionário, pois caso contrário, o modelo “pós-88” estará sob enorme risco.

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