Debate no Estado de São Paulo

Para quem não teve a chance de acompanhar, o debate no Jornal o Estado de São Paulo na última quarta-feira foi muito bom. O único problema foi que, na última hora, a Ministra do Planejamento e o Secretário Executivo do Meio Ambiente não puderam comparecer e não foi possível “escutar o governo”.

De qualquer forma foi um debate muito interessante e o jornal o Estado de São Paulo fez um bom resumo do debate em um caderno especial que circulou na sua edição de sexta-feira. Uma parte dessa publicação está disponível na internet – clique aqui para ler.

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As apresentações foram muito boas e todos nós mostramos pontos convergentes. Todos concordamos que no Brasil há um excesso de burocracia, número elevado de impostos e muitas regras tributárias que prejudicam as empresas – aumentam o custo administrativo.

Na minha palestra, eu destaquei alguns pontos na relação gasto público e gestão. Primeiro, mostrei que 84% do crescimento da despesa não financeira do Governo Central de 1999 a 2012 com porcentagem do PIB pode ser explicada pelo crescimento das contas de transferência de renda para famílias: seguro desemprego, abono salarial, bolsa família, LOAS e INSS.

Segundo, mostrei que de 2008 a 2012, a despesa do governo federal que mais cresce é o gasto com educação. Como porcentagem do PIB, o gasto do Governo Federal com educação passou de 0,8%  para 1,4% do PIB – crescimento de 75%- nesses últimos cinco anos.

Terceiro, mostrei isso para destacar que apesar da preocupação saudável com a melhora de gestão, precisamos mudar regras para controlar o crescimento do gasto público. O forte crescimento dos programas de transferência de renda não será alterado por uma melhoria de gestão. E no caso de educação, o foco maior no debate hoje tem sido no aumento do gasto e não na qualidade e gestão.

Por fim, no caso de investimento público, mostrei que há dois problemas. O primeiro é a falta de “espaço fiscal” para aumentar fortemente o investimento público. Mas um segundo problema é que mesmo para os projetos tidos como prioritários, com recursos orçamentários disponíveis, o governo não consegue executar essas obras no preço e prazo definidos. Há claramente um problema de gestão que não é exclusivo do governo atual. O Estado brasileiro tem knowhow para executar programas sociais de transferência de renda, mas o Estado brasileiro perdeu a sua capacidade de investimento e precisamos recuperar. Isso não é culpa exclusiva do governo atual.

Parte do que falei pode ser lido na matéria do Estado de São Paulo (clique aqui).  A propósito, quando citei o Chile e o México foi para mostrar que apesar do gasto público total nesses países ser de apenas 25% do PIB, o nosso é 40% do PIB, os programas sociais desses dois países são modelos para o Brasil (já escutei e li o Ricardo Paes de Barros falar várias vezes isso). Assim, para os próximos anos, o nosso desafio é como manter a rende de bem estar social e criar algum espaço fiscal para redução de carga tributária e aumento do investimento público.

Um último ponto. No evento do Estadão falei que o processo de concessões tem sido marcado por indefinições das regras e um aprendizado custoso. Antes que alguém me critique, aprendi isso com o próprio ministro da fazenda. Quando questionado pela Revista Veja recentemente do porque dos atrasos nas concessões, o ministro da fazenda foi claro: os estudos que o governo se baseou eram antigos e a taxa interna de retorno dos projetos baixa (ver abaixo). É difícil entender porque então não se fez novos estudos antes de se comprometer com um cronograma de concessões que não poderá ser cumprido?

Declaração do Ministro da Fazenda à Revista Veja na edição de 04 de agosto de 2013:

Mantega VEJA

Sobre a Matéria Especial da Revista The Economist

15649660Algumas pessoas apontaram para o radicalismo da revista The Economist que, ao contrário de 2009, traz agora o Cristo Redentor desgovernado. Assim, pela foto da capa poder-se-ia esperar uma matéria com viés excessivamente pessimista sobre o Brasil. Mas a matéria especial de 14 páginas está bem escrita e longe de adotar o conteúdo pessimista que a capa sugere.

Vou mais longe. A grande maioria dos analistas econômicos aqui no Brasil e jornalistas locais teriam escrito algo muito mais radical. A repórter, Helen Joyce, conseguiu fazer uma matéria muito boa que está longe de ser ufanista, como alguns desejariam, e longe de ser pessimista como outros gostariam. Vou destacar aqui 10 pontos para dar uma ideia do tom da matéria.

(1) “…Many have now lost faith in the idea that their country was headed for orbit and diagnosed just another voo de galinha (chicken flight), as they dubbed previous short-lived economic spurts”.

Esse é um bom debate. Há poucos anos muitos apostavam que o Brasil cresceria nos próximos dez anos perto de 4% aa. Agora essa expectativa é mais modesta: 3% a 3,5% aa. Ou seja, o crescimento de 4,6% aa ao longo do segundo governo Lula parece uma realidade muito distante e voltamos a debater o voo de galinha. Isso não é invenção da The Economist.

(2) “..But Brazil has done far too little to reform its government in the boom years. It is not alone in this: India had a similar chance, and missed it. But Brazil’s public sector imposes a particularly heavy burden on its private sector, as our special report explains

Alguém discorda que fomos complacentes com a agenda de reformas a partir do segundo governo Lula? Houve até um esforço do governo de continuar com algumas reformas como a reforma tributária, mas não conseguimos. E demoramos muito para iniciarmos as concessões. Alguém discorda? E, ao contrário de outros países em desenvolvimento que têm espaço para aumentar carga tributária e divida, nós já estamos em um patamar muito acima de outros países em desenvolvimento.

(3) “…..its spending on infrastructure is as skimpy as a string bikini. It spends just 1.5% of GDP on infrastructure, compared with a global average of 3.8%, even though its stock of infrastructure is valued at just 16% of GDP, compared with 71% in other big economies.”

Alguém tem dúvidas que investimos muito pouco em infraestrutura? Há anos Claudio Frishtak da InterB consultoria tem destacado isso, que nosso investimento em infraestrutura nos últimos dez anos não é suficiente nem para manter a qualidade. Esse é um problema tão grave que o governo abraçou uma audaciosa agenda de concessões.

(4) “….These problems have accumulated over generations. But Ms Rousseff has been unwilling or unable to tackle them, and has created new problems by interfering far more than the pragmatic Lula. She has scared investors away from infrastructure projects and undermined Brazil’s hard-won reputation for macroeconomic rectitude by publicly chivvying the Central Bank chief into slashing interest rates. …….and the markets do not trust Ms Roussef.

As pessoas de mercado falam exatamente isso (e muitas pessoas no governo também). Podemos concordar ou discordar dessas avaliações, mas muitos falam exatamente isso e, se for em reunião fechada, o tom é mais forte do que em reuniões abertas.

(5) “…But if Brazil is to recover its vim, it needs to rediscover an appetite for reform. …. Second, it must make Brazilian business more competitive and encourage it to invest. ….. Third, Brazil urgently needs political reform.

Alguma discordância dessa agenda? Mesmo meus amigos que são mais heterodoxos concordam com essas agenda.

(6) “…Ms Rousseff has been hectoring businessmen to invest more, ignoring the fact that it is mainly government obstructionism and heavy-handedness that hold them back. And commodity prices seem unlikely to bail out Brazil’s economy with another growth spurt

Eu escuto isso de grandes economistas, pessoas com experiência de governo e que são consultores econômicos. Todos muito respeitados. O excesso de intervenção na economia aumentou a insegurança dos investidores. Novamente, isso não é tese da revista mas sim de vários economistas brasileiros.

(7) The country has also blown its chance to cash in on its demographic bônus.

Novamente, isso é outra das teses praticamente consensuais entre economistas, que colocaria lado a lado meus amigos Samuel Pessoa (FGV-IBRE), que não acredita em política industrial, e meu amigo Jorge Arbache (UNB), que acredita em política industrial. Nos estamos na década final do nosso bônus demográfico e a poupança doméstica não cresceu e a tendência é diminuir. Um estudo do Ministério da Previdência anexado a última LDO mostra que, a partir de 2016, o déficit do INSS passará a crescer de forma contínua todos os anos.  Isso é estudo oficial do governo anexado à LDO. Novamente, não é tese da revista The Economist.

(8) “Despite all these caveats, this special report will argue that, given the will, there is scope for the social and economic advances of the past two decades to continue….. the government will have to resume the reforms it dropped during the good times: trimming pension benefits, cutting red tape, lowering and simplifying taxes and updating labour laws”.

Eu leio isso em publicações oficiais do próprio governo e escuto isso de economistas de dentro e fora do governo. Hoje, não escuto ninguém defendendo aumento de carga tributária como uma forma de alavancar o nosso crescimento e quase todo mundo fala a favor da agenda de simplificação tributária. No caso da previdência, vamos ter que fazer algo ao longo dos próximos dez anos por imposição demográfica, pode ser uma mudança pequena ou uma grande mas faremos algo.

(9) “…And it makes it harder to persuade the best young graduates to take up teaching in the first place. Pensions form such a large part of total compensation that they squeeze pay. State-school teachers’ salaries are among the lowest for graduate jobs in Brazil, so most high-flyers are not interested.”

A revista fala que os salários de professores são baixos para atrair os nossos formandos mais brilhantes para a sala de aula. Essa é uma tese que escuto de muita gente que estuda o tema educação. Como também que o aumento de recurso para educação deve ser acompanhado por uma melhoria de qualidade que envolve avaliação de professores e alunos e retirar os professores ruins da sala de aula. Se isso vai aumentar o gasto em educação não sei, mas aqui o debate não é apenas reduzir ou simplesmente aumentar o gasto.

(10) “Many Brazilians believe that cutting politicians’ perks would release enough cash to build better roads, schools and hospitals. But although such trimming would be a good thing, only a radical reshaping of public spending, and in particular much later retirement and lower pensions, will produce the required savings.”

Eu concordo 100% com isso. Muita gente acha que o combate a corrupção vai gerar um montanha de recursos que será suficiente para aumentar a oferta e qualidade dos serviços públicos, aumentar o investimento público e ainda reduzir carga tributária. Isso é “wishful thinking”. No Brasil, para criarmos o espaço fiscal para aumentar o investimento público e reduzir carga tributária teremos que mudar regras e rediscutir o gasto público, inclusive o gasto social. Estou aberto ao contraditório mas não me venham com papo furado que fechar 10 ministérios vai nos trazer uma substancial economia. Não vai.

Em resumo, a matéria da The Economist está excepcionalmente bem escrita e longe do tom pessimista que alguns poderiam imaginar, olhando apenas para a capa da revista. O ideal seria crescermos 5% ao ano sem precisarmos fazer reforma alguma. Mas alguém acredita nesta possibilidade? Alguém acredita que o Brasil não fará uma reforma da previdência (pequena ou grande pois vai depender da vontade do eleitor) ao  longo dos próximos dez anos? Infelizmente, teremos que fazer escolhas, mesmo que a escolha seja não avançar nas reformas e crescer menos.

Novo livro sobre investimento e parcerias público-privadas

Há mais ou menos um ano, os economistas Luiz Chrysostomo e Gesner Oliveira organizaram um debate na Casa das Garças para debatermos aspectos regulatórios e financiamento do investimento em infraestrutura por meio de parcerias público-privadas. Na reunião estavam presentes vários pesos pesados do ramo, economistas que trabalham diretamente com esse tema.

Dessa reunião saíram vários trabalhos que foram agrupados em um livro sob a coordenação do  Luiz Chrysostomo e Gesner Oliveira que agora chegou no seu formato final e com o prefácio do economista Edmar Bacha.

Eu tenho um capítulo nesse livro, o capítulo 15, sobre o “paradoxo do investimento público no Brasil” (segue anexa a introdução do meu capítulo – clique aqui).  Pelo teor das discussões que tivemos na Casa das Garças, o livro deve estar muito bom e com textos muito interessantes. Para quem quiser participar do debate sobre investimento, principalmente com o foco em parcerias público e privadas, sugiro fortemente a leitura deste livro que será lançado no dia 08 de outubro no Rio de Janeiro e no dia 17 de outubro em São Paulo. Seguem abaixo os folders de divulgação dos lançamentos do livro. Há ainda a possibilidade de lançamento também em Brasília. Comprem o livro que vale a pena.

Lançamento - Convite RJ - Travessa Leblon

 

 

Lançamento - Convite SP - Cultura Conj. Nacional

Gestão Pública e Burocracia: desafios para o Estado brasileiro

Segue abaixo folder de divulgação de um debate que participarei em São Paulo organizado pelo jornal o Estado de São Paulo. Será uma boa oportunidade para discutir um tema que é fundamental para o aumento do investimento e crescimento do Brasil.

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Os três economistas e o déficit crônico de confiança

Está cada dia mais difícil encontrar tempo para escrever no Blog. Mas vou fazer um post bem curto e rápido para recomendar a leitura da transcrição e das apresentações da audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal com três economistas chefes de bancos privados: (i) Nilson Teixeira do Credit Suisse; (ii) Octavio de Barros do Bradesco; e (iii) Ilan Goldfajn do Itaú-Unibanco.

Eu acompanhei a apresentação pela TV e até arrisquei meus comentários via twitter. Conheço os três economistas e são todos muito bons. Na apresentação achei eles um pouco retraídos ou tímidos de mostrar de quem á a culpa pelo problema de “falta de confiança que os três apontaram”. Mas ficou subentendido de quem é a culpa. Acho que não é do seu José, o padeiro simpático do Brás, que há uma semana não aparece na sua padaria.

Vou destacar três pontos que achei fundamental. Primeiro, a tese da “falta de confiança”. De acordo com essa tese e por motivos diversos, como a tradicional desconfiança dos investidores externos ao comportamento dos países emergentes, o Brasil passa por uma crise de confiança e isso está atrapalhando o investimento e o crescimento. Dito de outra forma, independentemente dos nossos problemas de longo prazo, o Brasil poderia estar crescendo mais rápido caso o governo reconquistasse a confiança dos investidores. Nilson e Octávio deixaram a impressão que há um problema de confiança com as metas anunciadas e nenhum dos dois acreditam na meta de superávit primário.

Segundo, os três falaram que não estamos em uma crise fiscal (isso todos nós concordamos) mas que o governo não precisava ter feito uso de “práticas heterodoxas”, denominadas de contabilidade criativa, para entregar o resultado primário programado. Isso não foi feito apenas em um ano, o uso da contabilidade criativa tem sido recorrente desde 2009, com exceção de 2011. Reconquistar a confiança do mercado e do Banco Central será difícil, mas necessário.

Terceiro, todos falaram na retomada da agenda de reformas e no controle do gasto público (não lembro se o Ilan falou sobre isso, mas Octávio de Barros e Nilson falaram). O problema é que controlar gasto público todo mundo é a favor, mas ninguém fala exatamente como. E quando se passa para o “como” termina o consenso. Uma das reformas apontadas foi a independência do Banco Central. Esqueçam. Apesar do Projeto de Lei do Senador Dornelles, esse é um tema que ainda assusta vários políticos e alguns amigos meus acham que essa é uma agenda de mercado e não da sociedade que não quer um Banco Central independente.

Em resumo, o debate foi esclarecedor, mas os senadores serão levados a agir para solucionar os problemas mostrados pelos três economistas? Acho que não até porque muito dos problemas apontados vem de um outro poder. Vou torcer para que o governo adote as medidas corretas para recuperar a confiança do mercado.

Clique aqui para ver a transcrição preliminar da audiência pública e aqui para ter acesso as apresentações.

Despesa com Educação no Brasil – 3

Algumas pessoas nos comentários dos posts anteriores sobre educação levantaram duas questões: (i) não é justo comparar internacionalmente quanto o país gasta com educação como % do PIB, e (ii) não é justo fazer a comparação de gasto por aluno como % do PIB per capita e o resultado medido por testes internacionais como o PISA.

Por exemplo, o Brasil gastou com educação primária por aluno, em 2009, o equivalente a 20% de sua renda per capita e teve uma nota no PISA para matemática de 385,8. A Finlândia gastou com educação primária por aluno no mesmo ano 20,5% da sua renda per capita e teve uma nota em matemática de 540,5 pontos. Assim, por essa simples comparação, a educação primária na Finlândia seria muito mais eficiente.

Mas de fato essa medida não é muito boa, pois o mesmo porcentual do PIB per capita gasto com educação por aluno no Brasil e Finlândia são números muito diferentes. Para os dados de 2009, esse percentual de 20% do PIB per capita era US$ 1.687,6 no Brasil e US$ 9.194,1 na Finlândia, pois o PIB per capita da Finlândia em 2009, era 5,3 vezes maior que o do Brasil.

OK, mas e se olharmos apenas para o dado de gasto por aluno nas escolas brasileiras e o resultado dos testes aplicados aqui? Neste caso é possível ver uma correlação positiva entre gasto por aluno no primário e as notas em testes de avaliação? Os economistas Cláudio Ferraz, Frederico Finan e Diana Moreira (2009) fizeram isso em um dos seus textos (ver indicação abaixo). Reproduzo o gráfico 3 deste texto. Como se observa, não há correlação positiva entre gasto por aluno e resultado nos testes do prova Brasil.

Gráfico – Gasto por Aluno no Primário e Resultado dos Testes de Matemática e Português do Prova Brasil para 4a série – 2005

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Fonte: Cláudio Ferraz, Frederico Finan e Diana Moreira (2009). Corrupting Learning: evidence from missing federal education learning in Brazil. TD 562, PUC, Rio de Janeiro. (clique aqui)

Para concluir, quero fazer três observações. Primeiro, acho que um maior gasto por aluno per capita pode ajudar a recuperar o nosso déficit educacional. Essa foi inclusive a lógica do FUNDEF e FUNDEB. Mas como mostra o gráfico acima há uma dispersão muito grande no resultado do gasto por aluno no Brasil.

Segundo, de acordo com uma consulta que fez Gustavo Ioschpe ao INEP (clique aqui), no Brasil, haviam 5 milhões de trabalhadores na educação em 2010, sendo 2 milhões de professores e 3 milhões de não professores. Ou seja, para cada professor havia 1,5 funcionário. Na OCDE, a relação entre funcionários e professores em seus países-membros é de 0,43. Se nossa relação aqui fosse a mesma de lá, segundo Ioschpe:

“Se o Brasil tivesse a mesma relação professor/funcionário dos países desenvolvidos, haveria 706.000 funcionários públicos no setor, em vez dos 2,4 milhões que temos. Como é difícil imaginar que precisemos de mais funcionários que as bem-sucedidas escolas dos países desenvolvidos, isso faz com que tenhamos 1,7 milhão de pessoas excedentes no sistema educacional”.

Terceiro e último ponto, embora faça algum sentido compara gasto per capita com saúde e educação entre países, nunca conseguiremos com um PIB per capita de US$ 10.500 gastar a mesma coisa que um país desenvolvido.

A titulo de exemplo, para dados de 2009, se fôssemos gastar por aluno com educação primária no Brasil o mesmo que a Finlândia a conta seria: US$ 9.100 para cada um dos 15,2 milhões de estudantes no ensino primário, uma conta de US$ 140 bilhões, ou de 8,6% do PIB. Como o gasto com educação primária no Brasil é apenas 32% do gasto total, isso significa um gasto total com educação de 27% do PIB.

E se em cima dessa conta colocássemos o gasto com saúde padrão Inglaterra, a conta ficaria ainda maior. O gasto per capita com saúde no Brasil é de US$ 1.000 e, na Inglaterra, é de 3.500. Isso significaria que se fôssemos gastar per capita com saúde o mesmo que a Inglaterra, precisaríamos de 32% PIB.

O gasto público total no Brasil incluindo Juros, segundo o FMI, foi de 40% do PIB, em 2012; um dos três maiores da América Latina (os outros são Argentina e Venezuela). Se hoje quiséssemos ter o mesmo gasto per capita de educação primária da Finlândia com o gasto per capita de saúde da Inglaterra, apenas o custo com saúde e educação seria de 59% do PIB.

Por isso que Peter Lindert fala em paradoxo de Robin Hood em políticas sociais: são os países mais ricos que podem gastar mais com saúde, educação e transferência de renda e não os mais pobres. Quanto mais ricos ficarmos, mais poderemos gastar com educação e saúde em valor real per capita. Por enquanto, a demografia vai nos ajudar na educação mas vai pesar na saúde.

Despesa com educação no Brasil- 2

OBS: continuação do post anterior

Este post complementa o anterior sobre a prioridade de gasto em educação no Brasil. Como já destacado no post anterior, o gasto com educação no Brasil vem crescendo fortemente e, como mostraremos em seguida, quando olhamos a execução orçamentaria de todos os níveis de governo, o gasto com educação é prioritário.

De acordo com a Constituição Federal, 18% da arrecadação de impostos do Governo Federal líquida de transferências tem que ser aplicada na manutenção e desenvolvimento do ensino e, no caso dos estados e municípios, essa vinculação é de 25% da receita resultante de impostos, compreendida a proveniente de transferências O gasto com a função educação é o gasto mais importante nos estados e municípios, e o terceiro gasto de maior importância no governo federal, fincando atrás apenas do gasto com as funções previdência social e saúde (excluindo dessa conta o pagamento de juros e amortização da divida bem como operações de equalização de juros).

Gráfico 1 – Despesa Primária por Função Municípios, Estados e Governo Federal – 2011 (% do PIB)

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Fonte: Balanço Geral da União  – gasto liquidado de pessoal, custeio e investimento. 

 E o que dizer do gasto real por estudante ao longo dos últimos anos? Reproduzo abaixo dados disponíveis na página do INEP.  A tabela mostra o gasto real por estudante para todos os níveis de ensino e para níveis diferentes de ensino. Há alguma dúvida quanto ao crescimento do gasto real por aluno?  De 2005 a 2010 mais do que duplicou em termos reais o gasto para todos os níveis de ensino!!!

Tabela 1 – Gasto Real por Aluno – Níveis de Ensino 2000-2011 – R$ de 2011

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Fonte: INEP. Dados atualizados pelo INPC.

Agora começa o debate mais complicado. No Brasil, não gastamos pouco com educação, mas o retorno do gasto é pequeno. Sim, esse é um problema. A qualidade do ensino público é ruim e mesmo com a melhora nas últimas edições do teste internacional PISA estamos muito abaixo da média da OCDE. No PISA de 2009, a pontuação do Brasil foi de 401 contra a nota média da OCDE de 496. Os EUA estão bem perto da média da OCDE, mas lá isso é motivo de preocupação e um sinal que o sistema de educação americano está com sérios problemas. No nosso caso é muito pior.

Como melhorar o resultado do gasto com educação? Aqui não tem reposta fácil e vou recomendar três leituras. Primeiro, o capítulo já citado no post anterior do economista Fernando Veloso (FGV-IBRE) no qual ele mostra que há várias modelos de escola para melhorar o aprendizado dos alunos (clique aqui). Segundo, recomendo no mesmo livro o texto do economista e professor do INSPER, Naércio Menezes, no qual ele mostra que precisamos testar vários modelos de escola e de ensino e avaliar o que funciona antes de replicar essas experiências no âmbito nacional (clique aqui).

Terceiro, recomendo o novo livro do economista Eric Hanushek e co-autores, Endangering Prosperity: A Global View of the American School (2013), no qual eles analisam o problema das escolas americanas. Neste livro os autores mostram que o problema da qualidade da educação nos EUA não é questão de dinheiro, mas muito mais questões ligadas à organização das escolas. Na opinião dos autores, melhorar o ensino não está ligado diretamente ao gasto, mas na promoção de bons professores e retirar das salas de aulas os professores ruins, o que exige um bom sistema de avaliação do resultado dos alunos e professores.  Como falou Hanushek em um entrevista sobre o livro: “nos países com bom sistema educacional, os professores ruins não ficam na sala de aula por muito tempo”.

Em resumo, o problema com a qualidade da nossa educação não parece ser a falta de recursos. E mesmo se o gasto em educação (entre 5,5% a 6% do PIB) permanecer constante, o gasto por estudante aumentará com as mudanças demográficas em curso no Brasil. De acordo com Fábio Giambiagi em um dos seus brilhantes artigos sobre demografia no Valor Econômico:

Pense-se num crescimento do PIB de 3,5% ao ano, o que pode ser considerado pouco, porém mantido ao longo de 40 anos e com a trajetória populacional prevista, daria uma bela expansão per capita. Ora, como o conjunto de indivíduos de 5 a 14 anos encolherá 1,40% em média a cada ano, a simples manutenção do percentual da despesa em educação no PIB durante 4 décadas vai gerar um aumento da despesa por aluno de nada menos que 596%.”

Acho até que podemos discutir aumentar recursos para educação para contratar melhores professores e colocar crianças em tempo integral nas escolas em bairros e municípios mais pobres.  Mas o debate sobre educação, a meu ver, não deveria começar pela expansão do gasto. Ao invés de se comprometer com um gasto com educação de 10% do PIB em 10 anos, o compromisso deveria ser com a qualidade da educação e, em um segundo momento, se discutir a necessidade ou não de mais recurso público direcionado para educação que, no Brasil, já parece ser grande quando comparado com a média internacional.