O DEBATE NA FIESP: REINDUSTRIALIZAÇÃO DO BRASIL- 1

Ontem participei, na FIESP, do debate sobre a re-industrialização da economia. O debate foi interessante, mas posso afirmar que as teses discutidas ao longo do dia estão longe de serem consensuais entre economistas, entre empresários, entre trabalhadores e nem vou falar dos consumidores. Esse é um primeiro de uma série de posts que vou escrever sobre esse encontro.

A abertura do evento esteve a cargo do presidente da entidade, Paulo Skaf, que para minha surpresa fez um discurso de abertura olhando mais para gestão pública do que para os problemas da indústria. Skaf lembrou que no Brasil não falta dinheiro, mas que há muito desperdício, deixando no ar a tese tão difundida que “com bons gestores podemos fazer mais e melhor”. Eu não discordo disso, mas o bom gestor também terá que sentar na mesa de negociação e propor mudanças de regras duras como, a renegociação da regra do salario mínimo.

Skaf falou também que a competitividade da economia brasileira passa pela competitividade da indústria e, assim essas duas agendas são na verdade a mesma. Em seguida, começou uma longa defesa de investimentos em educação básica e saúde como forma de fortalecer o capital humano. Não me lembro de o presidente ter enfatizado taxa de câmbio ou política industrial, mas enfatizou muito a importância da educação, algo que todos nós concordamos, mas que pelo que senti ao longo do dia não está na preocupação imediata dos empresário com quem conversei.

(1) José Ricardo Roriz Coelho (FIESP): a primeira apresentação técnica ficou a cargo do José Ricardo da FIESP que apresentou o seguinte desafio: o que precisamos fazer para dobrar o PIB per capital do Brasil em 15 anos? A resposta passa pelo aumento da taxa de investimento e a produtividade. Mas é possível? Parece que sim. Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Malásia conseguiram.

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No entanto, como lembrou Roriz, quando esse países conseguiram essa façanha investiam mais que 30% do PIB (nossa taxa hoje é 17,4% do PIB) e a indústria investia acima de 25% do PIB. Isso não é a nossa realidade e acho difícil que ao longo da próxima década haja consenso para uma mudança tão brusca de rota: país passa a priorizar o crescimento ao invés de políticas sociais. Mesmo aceitando a recomendação de Roriz que nosso caso não precisamos aumentar tanto a taxa de investimento por que há um grande potencial de ganho via aumento de produtividade (educação e infraestrutura), ainda assim o cenário proposto abaixo é um desafio muito grande para a nossa realidade atual.

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Quais são as medidas propostas para se alcançar esse novo caminho do crescimento mais rápido? (i) Melhorar o ambiente macroeconômico com a redução do gasto público e da carga tributária; redução dos juros, simplificação tributária e política cambial ativa.; e (ii) política industrial ativa com uso de defesa comercial, política de conteúdo local, uso de incentivos à inovação e compras governamentais.

OK, dada a lista acima todos concordamos? Em termos gerais poderia falar até que sim, em parte, mas quando se passa para os detalhes esse suposto consenso termina. Hoje, no Brasil, não há o mínimo consenso de COMO reduzir o gasto público e o Brasil como o nosso baixo nível de poupança não vai investir 25% do PIB – isso levaria a um déficit em conta corrente monumental de mais de 6% do PIB e não acho que uma taxa de câmbio super desvalorizada resolveria o problema.

Os representantes das centrais sindicais presentes gostaram da proposta de um novo ciclo de crescimento, mas eles não notaram que isso implicaria em renegociar temas que são quase sagrados para as centrais sindicais: mudança na regra de reajuste do salário mínimo, reforma da previdência e taxa de câmbio mais desvalorizada o que significa perda de renda real para o trabalhador no curto prazo.

Meu amigo que Samuel Pessoa (FGV-IBRE) gosta de mostrar um gráfico (ver abaixo) incômodo sobre esse debate de desvalorização da taxa de câmbio que é irrefutável: quanto maior a desvalorização real da taxa de câmbio menor a renda média real medida pela PNAD. O que os defensores do Real desvalorizado contra-argumentam é que o o efeito crescimento da produção puxado pela indústria e crescimento do emprego industrial compensariam essa perda de renda do trabalhador no curto prazo.

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É possível ex ante garantir isso? claro que não e mesmo minha ex-professora Alice Amsden no MIT, escreveu no seu livro de 1989, Asia’s Next Giant, que a desvalorização real da taxa de câmbio da Coreia decorreu muito mais de ganhos de produtividade do que de um movimento artificial puxado pelo governo. Raramente se fala nessa passagem do livro dela, mas vou escanear depois e colocar aqui. Ontem na FIESP fiquei impressionado com a demanda por “taxa de câmbio desvalorizada” – depois falo mais sobre esse ponto.

(2) Ricardo Bielschowsky (UFRJ): Ricardo mostrou que, desde o inicio do governo Lula, havia uma estratégia de crescimento baseado no seguinte tripé: (i) crescimento do mercado consumidor de massa; (ii) maior distribuição de renda; e (iii) efeito demanda que aumentaria escala de produção da indústria, o que reduziria o custos unitário que, junto com o efeito encadeamento para frente e para trás, dinamizaria a indústria de transformação.

O problema é que esse “suposto modelo de crescimento” (que ninguém concordou que existia) não explica o porque da forte perda de dinamismo do setor indústria no Brasil pós-2008, quando a demanda continuou crescendo e a indústria não mais acompanhou o dinamismo do mercado doméstico:

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Ricardo culpou a política cambial errada que fez com que parte do efeito demanda vazasse para fora, os juros elevados no Brasil e falta de incentivos para setores intensivos em tecnologia. Mas a meu ver o problema é mais complexo. Não acredito no modelo Brasil porque crescimento com distribuição de renda foi a regra de quase todos os países da América Latina na primeira década do século XXI explicado pelo boom de commodities.

E, no nosso caso, o “vazamento para fora” é porque passamos a ter custo de produção muito elevado que em conjunto com a elevada carga tributária, excesso de regras tributárias, economia pouco integrada as redes globais de produção, baixo investimento público, etc. tira a nossa competitividade. O modelo de crescimento puxado pela demanda não funcionou e se quisermos fechar a economia para que ele funcione até vamos conseguir aumentar a produção industrial mas às custas de uma elevada ineficiência, preços mais elevados e baixa competitividade que vai puxar para baixo os salários e o crescimento do PIB.

Dito de outra forma, a razão do fracasso do modelo de substituição de importação no Brasil, América Latina e mundo não foi porque a distribuição de renda piorou e não criou um mercado consumidor de massas, mas porque era e ainda é um modelo que não estimula a inovação e competitividade. A ideia de criar setores industriais em ramos intensivos em tecnologia pode até ser sedutora para alguns, mas algo extremamente difícil, complexo e de elevado custo que muitas vezes não compensa o benefício –vide nosso Lei de Informática que morre e ressuscita várias vezes.

Vou parar por aqui. Mas essa série de posts sobre o evento da FIESP vai continuar. E o próximo será sobre o sonho do Bacha.

8 pensamentos sobre “O DEBATE NA FIESP: REINDUSTRIALIZAÇÃO DO BRASIL- 1

  1. Olá o evento foi muito interessante e o debate também. mas, concordo em parte com suas posições e acredito na tese do Bielschowsky (UFRJ). Seria interessante você ler um pouco mais a respeito dessa tese. A partir do Governo Lula, notadamente a partir de 2006, a descontinuidade da política está no que ele implantou de diferente em termos política orientada ao projeto de desenvolvimento, às políticas de dinamismo do mercado interno, apoiando, assim, o setor privado e investimentos do setor de infraestrutura, políticas sociais e políticas de crédito. Não podemos negar isso. E mais, destaca-se a ampliação da política social, com a valorização do salário mínimo e a política de transferência de renda, que, apesar de parte desta ter sido implantada nos governos anteriores, ganha nesse período novos ares, ligados a uma política social mais ativa de geração de renda, de ampliação do acesso às universidades públicas, de elevação do salário mínimo. Agora concordo que o país precisa de uma política de inovação mais direcionada ao setor industrial, de uma maior busca por competitividade de nossas indústrias, e acho que isso não passa apenas por uma política de desvalorização cambial, de modo que os desafios são grandes, mas as oportunidades de investimento também. Com isso, enfatiza-se que as políticas e programas de investimento produtivo tanto do setor industrial como do setor de infraestrutura demandam políticas de adensamento das cadeias produtivas, de competitividade, de ganhos de produtividade, de políticas macroeconômicas acessíveis às condições de investimento, crescimento e desenvolvimento econômico, com juros relativamente baixos e câmbio acessível às condições de comércio exterior e de expansão da capacidade interna de produção, bem como requer uma atuação de coordenação, orientação e condução, por parte do Estado, das políticas de desenvolvimento industrial, com fortalecimento das empresas estatais e canais de financiamento de longo prazo, necessitando mesmo ampliar os canais de financiamento também das instituições financeiras privadas, de modo a permitir a montagem de uma rede de funding para as operações de longo prazo, além do que faz-se necessário a implantação de políticas que possam dinamizar os investimentos das empresas do setor privado, notadamente em relação às médias e pequenas empresas.

    • O Estado necessita coordenar, orientar e conduzir, por meios do fortalecimento das estatais, o desenvolvimento. Mas, peraí? Isso não é o que estamos tentando fazer, entre indas e vindas, desde sempre? Ou seja, temos que seguir tentando fazer o de sempre e que nunca deu certo no longo prazo?

      • Perfeito, José Carlos! É impressionante como as pessoas pedem mais do mesmo esperando resultados diferentes.
        Ah, mas dessa vez será mais bem feito. Brincadeira…
        Mansueto,
        (i) Melhorar o ambiente macroeconômico com a redução do gasto público e da carga tributária; redução dos juros, simplificação tributária e política cambial ativa.; e (ii) política industrial ativa com uso de defesa comercial, política de conteúdo local, uso de incentivos à inovação e compras governamentais.
        Sério?
        Dê uma olhada em quantos rent seekings existem nessas propostas…
        Se todos forem transparentes estará td bem??? Não acho que seja só transparência de que precisemos. Precisamos de menos rent seeking tb…
        Política cambial ativa, defesa comercial, juros baixos… quem pagará essa conta? Os próprios beneficiados? Aí daria tudo no mesmo…
        Redução de gastos públicos e da carga tributária, ok. Mas vc mesmo já mostrou várias vezes que isso é bem difícil, pois depende de decisões políticas democráticas e ninguém quer mexer em gastos sociais.
        Só com reformas verdadeiras. Revoluções. Chegaremos a algum lugar de verdade.
        Medidas paliativas que vêm sendo tentadas há anos como se fossem geniais já se mostraram inóquas.
        Abs.

  2. Tambem participei do evento, e percebi que o governo esta perdido, sem rumo. Ficou claro que existem os meios necessários para a reindustrialização, com novas ideias 100% nacionais diferentemente do que foi alegado, pois o Brasil sofre espionagem industrial do mundo inteiro a decadas e somos capazes sim, de criar novas tecnologias e competir. O que falta é atitude, e perceber que temos que investir no país e não fora dele. É lamentável que não exista apoio a industria nacional, e pior ainda que este apoio seja um factóide corrompido por exigencias absurdas cheias de entraves para não fazer. O empresário nacional é obrigado a custear as pesquisas e os desenvolvimentos de novos produtos pagando impostos e taxas desde o momento em que tem a ideia. Assim realmente fica dificil. Como vamos competir com organizações internacionais se não apoiamos quem pensa, e cobramos impostos por querer fazer alguma coisa, resumo:
    Come-se a semente antes que ela brote, temos atitudes de corvos. Precisamos de um espantalho !

  3. Prezado Prof. Mansueto, li o livro recente do Prof. Bacha e acredito que um novo patamar do dólar, mais valorizado, possibilitará a retomada da industrialização. A competitividade estava travada por conta da cotação desfavorável e do crescimento do custo da mão de obra acima da produtividade. A queda do real contribui muito, ao meu ver, para o ajuste das condições da “reindustrialização’. Faltaria a ponta do investimento. Me parece que o sucesso nos leilões de infraestrutura seriam essenciais para a retomada deste caminho. A alta da selic poderia atrapalhar um pouco, a não ser que linhas especiais de crédito possibilitassem alinhar essa questão. Considerando que a “venda” de reservas de dólares reduziriam o endividamento público, não estariam os financiamentos públicos direcionados a investimento alinhados com este objetivo? Gostaria muito de conhecer sua interpretação dos movimentos das curvas IS, LM e das respectivas políticas fiscal e monetária compatíveis com esta nossa atual conjuntura. Na minha opinião uma política fiscal expansionista e uma monetária contracionista seriam a melhor resposta atualmente. Ou eu estaria enganado? Gostaria muito de uma opinião nesta questão. Abs.

  4. Concordo em genero numero e grau com a sua fala no dia 26/08/13. Infelizmente as apresentações versaram apenas e tão sómente sôbre o lado econômico ( juros, cambio, impostos) custo Brasil e investimentos. Lógico que um dia precisamos falar sôbre isto porém, jamais alguém falou o que realmente vem acontecendo na Indústria Brasileira de fato.
    Se considerarmos o seminário um trem os apresentadores em cada painel seria um vagão e na minha opinião faltou o vagão mais importante que é o vagão Técnico Industrial o qual poderia demonstrar a real realidade da Indústria Brasileira.
    Creio que poucos são aqueles que tem conhecimento de que não temos capacidade para construir mais do que 1/3 da demanda de meios produtivos relativos a todos os commodities ou seja, Linha Branca, Linha Marrom, Linha Automobilística , Máquinas, Equipamentos, etc.., portanto, o resultado desta falta de capacidade é a necessidade de importação de 2/3 e para atender esta demanda precisamos de 100 ferramentarias de porte e consequentemente de 15000 profissionais e ainda não estou mencionando a falta de Produtividade, Competitividade e Qualidade que hoje temos nessa Indústria manufatureira de meios produtivos e as razões que levaram a este caos.
    O mesmo acontece com os fabricantes de peças em geral falta de capacidade, necessário altos investimentos, falta de competitividade, baixa qualidade e baixa produtividade . Este resultado esta embasado em estudos efetuados principalmente no Leste Europeu e Europa. Se considerarmos os países asiáticos que também estudei, os resultados se agravam consideravelmente.
    O que eu só posso imaginar é que, nós nos consideramos as verdadeiras panteras cor de rosa e que estava tudo perfeito. A consequência deste fato e que ficamos na sua grande maioria nivelados por baixo em todos os aspectos seja econômico ou técnico.
    E para finalizar, podemos continuar discutindo economia como desde 2005 data do ultimo seminário e com certeza estaremos dando passos para o maior desastre da História da Industria. Ou vamos, discutir tecnicamente o que devemos fazer para reconstruir a nossa indútria para primeiramente ter capacidade de atender a demanda do nosso País e posteriormente pensar em “impostos, juros e cambio”.

  5. Mansueto,

    Achei muito boa sua exposição no seminário Reindustrialização do Brasil, realizado na FIESP, especialmente sua fala de que o Governo dá dinheiro (juros subsidiados e subvenção) na área de inovação para fazer mais do mesmo.

    Vc sugeriu que o Governo poderia apostar mais em setores ou estar mais disposto a “perder” dinheiro na área de inovação, desde que as empresas beneficiadas se envolvessem em produzir algo diferente (diversificação). Vc poderia abordar melhor esse assunto?

    Vc concorda com o sonho do Bacha? Acrescentaria algo?

    Abraço.

    • Vou elaborar melhor depois. Mas a minha tese é que o governo quer incentivar inovação via crédito subsidiado e acho que isso não funciona. Credito subsidiado funciona bem para financiar a compra de uma máquina nova mas não para inovação. Inovar vem de estímulos com recursos a fundo perdido e com parceria público privada; institutos de pesquisa público, privado e empresas. Nos EUA o departamento de defesa tem uma agência, a A DARPA, que funciona muito bem na promoção de inovação. Eu já escrevi a respeito sobre como funciona essa agência aqui: https://mansueto.wordpress.com/2012/10/20/licoes-de-inovacao-darpa/

      No caso do sonho do Bacha, acho a ideia interessante e todos concordamos: para ser mais competitivo hoje precisamos estar integrado em cadeias globais de produção. Mas não é certo que com uma economia mais aberta a % da indústria no PIB será maior. Eu colocaria que a parcela da industria que sobreviver à maior abertura será mais competitiva mas isso n ão significa que a parcela da indústria no PIB crescerá. Assim, o plano do Bacha a meu ver é um plano para aumentar a competitividade da economia mas isso não significa mais industrialização nem tão pouco mais inovação.

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