“A inflação está completamente sob controle”

O título desse post é uma declaração da Presidente da República depois da divulgação que a inflação de julho foi de 0,03%. Será que isso significa que a inflação de fato está completamente controlada? Claro que não.

O que me impressiona é que bastava a Presidente ligar para o presidente do Banco Central ou algum dos diretores do Banco Central que qualquer um deles esclareceria que o fato da inflação de julho ter sido próxima de zero não significa que uma perspectiva positiva de redução da inflação neste e no próximo ano em direção ao centro da meta.

Vamos aos números. Aqui vou utilizar dois relatórios. O relatório de hoje do Santander para os seus clientes é taxativo:

Entretanto, mesmo com a atual tendência de queda na inflação, o índice de difusão da inflação ex-alimentos se mantem acima de 50% (o índice caiu de 59,2% registrado em junho para 57,3% em julho), o que indica que o processo de inflação generalizada, definitivamente, não acabou….. a desvalorização do real deve começar a pressionar o IPCA a partir de setembro, o que exige que a abordagem mais rígida do Banco Central deve continuar tendo em vista o controle da inflação como prioridade mesmo que isso custe um menor crescimento econômico.

Mas a explicação mais didática, curta e excepcionalmente bem escrita vem da equipe do economista Afonso Celso Pastore (AC Pastore) que produz um relatório, assinado por Marcelo Gazzano, que até quem não sabe economia consegue entender. AC Pastore lembra que no mês de julho tivemos o que ele chama de “perfeito alinhamento (dos astros) com baixíssima probabilidade de ocorrência”.

A baixa inflação de julho pode ser explicada, segundo AC Pastore por três fatores: (i) revogação do aumento das tarifas de ônibus urbano em diversas capitais, (ii) fraca demanda de produtos de vestuário devido ao inverno mais curto; e (iii) a sazonalidade da queda dos preços de alimentos e bebidas.

Mas quais são os fatores de risco? A desvalorização do Real foi maior do que se esperava e isso deve aumentar a inflação a partir de setembro, e (ii) um eventual reajuste dos preços de combustíveis, pois como já mostrei aqui  a defasagem está perto de 30%.  Um ponto que me chamou atenção no relatóriodo AC Pastore  é a inflação reprimida nos preços dos produtos administrados. A inflação de 12 meses nos preços livres está em 7,9% e dos preços administrados está em 1,3%.

Vamos combinar o seguinte. o governo fará de tudo para que a taxa de desemprego não aumente, o gasto público continue crescendo muito acima do crescimento do PIB e vai continuar postergando reajustes nos preços dos produtos administrados e, em algum momento, o dique vai explodir. Assim, não há nada ainda que indique que a “inflação está completamente sobre controle”, a não ser que a meta seja 6,5% e não 4,5% ao ano. Mas se o governo realmente pensa isso, que a inflação está totalmente controlada, temos um grande problema pela frente.

11 pensamentos sobre ““A inflação está completamente sob controle”

  1. Incrível como o governo ainda não entendeu que comentários como este não contribuem em nada para a confiança. Se eles pelo menos ficassem de boca fechada…

  2. Vamos imaginar um 2014 com:
    – Reajuste das tarifas de energia elétrica, que ficaram represadas neste ano.
    – Reajuste das passagens de ônibus/trens/metrô
    – Reajuste de combustíveis
    – Dólar mais caro
    – Copa do Mundo (o que acredito que pode puxar preços para cima nas cidades sede)

    A perspectiva não me parece muito boa e a inflação passa longe de estar completamente sob controle.

    Mas, né, se a coisa começar a escapar é só fazer umas desonerações aqui, botar dinheiro do Tesouro ali…

  3. Provavelmente a própria Presidente não acredita nisso, mas pensa que seja sua obrigação mostrar-se otimista. Acho ingênuo acreditar que tudo irá bem daqui para a frente, mas dá para entender as declarações. Não acho que o governo realmente pense isso. Mas nem por isso vamos deixar de ter problemas pela frente:-)

  4. Bem, acho que a presidente estava olhando para a situação na Venezuela, uma dileta amizade bolivariana, onde a inflação já anda em ritmo de 60% anual, e comparando, acha que a nossa anda nos eixos. De fato, a comparação parece favorável ao Brasil, mas apenas porque a capital do Brasil parece ter se mudado para Caracas…

  5. Mansueto, o que mais tem me irritado nos últimos anos e que vejo pouca gente refutar é que a meta de inflação é 4,5%. Não é uma banda – é UMA meta apenas. Aceitamos uma flutuação de 2% quando algo totalmente atípico ocorre, algo como uma desvalorização monstro, um choque de petróleo, uma quebra de safra, sei lá, o que ou uma terrível crise que gerasse recessão …

    Enfim, o numero é apenas um: 4,5% –> não existe outro numero

    abs

    Teco

  6. Escrevi algo semelhante ontem. Inflação sob controle é quando o Banco Central consegue mantê-la próxima do centro da meta. O governo aproveitou a oportunidade para comemorar, mas a verdade é que se esperava uma deflação em julho por conta da revogação das tarifas de ônibus. A preocupação maior fica por conta da inflação futura, as projeções não são boas e não podemos entrar no ciclo de retomada da inflação global (a partir de 2015) com um IPCA rondando os 6%.

  7. Que teremos um grande problema pela frente, todo mundo já sabe, inclusive as autoridades. Que as declarações da presidente e de seu ministro da fazenda não são levadas em conta pelos agentes econômicos, todos já sabem. Assim, só quem leva em consideração a conversa mole do governo são aqueles a quem essas falas, de fato, são dirigidas: a massa da população que não sabe o que está acontecendo e vota. Assim, a declaração da presidente é política ou, se preferirem, puro 171 eleitoreiro.

  8. Mansueto, estou ansiosa para conhecer sua opinião sobre a PEC do orçamento impositivo. Será que ela vai gerar mais gasto fiscal, prejudicando ainda mais o controle capenga da inflação? Abs,Luiza

  9. [off-topic] Mansueto, uma dúvida! O Márcio Garcia, em artigo no valor de hoje, falou sobre a explicitação, como despesa primária, do custo efetivo do subsídio que o TN dá ao BNDES. A conta “inversões financeiras” não capta, ainda que mal, o custo da política industrial do BNDES? Ou não capta coisa alguma? Em 2010, o valor liquidado dessa conta foi de 36 Bilhões, é muita coisa (a conta “investimentos foi 46 BI).

  10. Entender e elogiar inflação “dentro do intervalo de meta”, não implica em inflação sob controle. A meta é o centro do intervalo, 4,5%. E se possível, abaixo dele. Se a variação de preços atingir o topo do intervalo implica em falha e não em sucesso. Ou seja, cada R$ teria perdido, no mínimo, 6,5% de seu valor de face em 1 ano. Isso sem considerar juros, inadimplementos etc, que elevariam a perda do assalariado.
    A população deveria ser informada desses aspectos e não ser bombardeada com progandas ufanistas., como se o Brasil estivesse com economia estável.

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