O lado ruim do câmbio

Quando a taxa de câmbio se desvaloriza muito rápido como vem acontecendo, isso causa vários problemas para o setor privado e público. No caso do setor privado, o lado positivo é o aumento da competitividade das nossas exportações. No entanto, a desvalorização do Real encarece custo da indústria (insumos, máquinas e equipamentos) e diminui o poder de compra dos consumidores.

No caso do setor público há também os dois lados. Hoje, dado que o governo é credor líquido em dólar (saldo das reservas maior que a a divida externa), uma desvalorização do Real reduz a Dívida Líquida do Setor Público. O lado negativo é que o preço dos produtos importados aumentaria (inclusive combustíveis) e isso aumentaria a inflação.

Mas como o governo não quer que a inflação aumente e não pode segurar o preços dos bens importados pelo setor privado, resta ao governo controlar o preço dos combustíveis (gasolina e diesel). Isso significa uma maior diferença entre os preços praticados no mercado doméstico e os preços internacionais. O gráfico abaixo de um relatório do Credit Suisse de hoje mostra que essa diferença que no final do ano passado era de 4% para gasolina e de 13,7% para o diesel, subiu agora para, respectivamente, 30% e 28%. Ou seja, aqui o preço dos combustíveis é 30% inferior ao do mercado internacional. Isso é bom? não.

Gasolina

Fonte: Credit Suisse

Isso significa que a Petrobras vai bancar essa bondade com prejuízo na distribuição e/ou que os governos municipais terão que aumentar ainda mais os pagamentos para as companhias de ônibus (se o preço do diesel for reajustado). Ou seja, por um lado sangramos a Petrobras e/ou sangramos as finanças municipais (pois com os protestos aumento de custo não seria repassado para aumento de tarifas do transporte público). E ainda tem gente que fala em colocar mais imposto sobre carros para “valorizar” o transporte público.

Não seria mais fácil reajustar o preço dos combustíveis;  pelo menos o da gasolina? Gasolina barata subsidiada é muito bom para quem tem carro grande. Acho até que vou trocar o meu, pois ter carro pequeno não faz sentido em um país “rico” em petróleo onde a gasolina é 30% mais barata do que no mercado internacional.

11 pensamentos sobre “O lado ruim do câmbio

  1. Não sairemos dessa enrascada facilmente porque essa relação câmbio-inflação é bem complicada. Segundo li nas estatísticas da OMC, ~ 70% das nossas exportações de bens são commodities, ou seja, tomadoras de preços. Os termos de troca favoreceram o Brasil nos anos Lula (2003-2010), mas existe a tal lei da gravidade e nada dura para sempre.

    Abraço,

  2. Caro Mansueto,

    O problema do câmbio, é a forma como governo atua nesse mercado. Um país essencialmente agrícola, dever ter uma desvalorizada. Se afeta o custo das importações, que faça o dever de casa e tenha taxas de juros no mercado interno a níveis “civilizados” e baixe os impostos de importação. A nossa competitividade é baixa pelo desajustes que o governo proporciona na economia. Subsidiar a gasolina com “foco eleitoreiro” deu no que deu . . . #Petr4. E ainda, agir no câmbio para segurar alta de inflação sendo que a matriz (governo gastador e ineficiente) não mudar, é jogar pólvora no mercado de câmbio, especulação adora isso . . . Tristemente, é ver pela primeira vez o Bacen ter um presidente técnico e de carreira na Instituição, ao invés de “paraquedista de outrora” mas na realidade vem sendo “tele-guiado” pelo governo.
    Sem palavras para identificar tantos erros grosseiros na ordem econômica.

  3. Petrobras agora simultaneamente passou a ser duas coisas:

    Uma ferramenta arrecadatória, pelos percentuais, volume e concentração que produz de tributos arrecadados(junto com o setor elétrico e de comunicações) e uma ferramenta improvisada, perniciosa e insustentável de controle inflacionário.

    Não pode ser os dois ao mesmo tempo, pois se asfixiará, ou na imagem que sempre é citada, “ficará de marisco”.

  4. Caro Mansuelto, não entendi por que os “governos municipais terão que aumentar ainda mais os pagamentos para as companhias de ônibus”. Você não disse que o governo controla o preço dos combustíveis (gasolina e diesel) através da Petrobrás? Esse preço controlado não se aplica também às compras feitas pelas empresas de ônibus?

    • Boa obervação. Na verdade, isso aconteceria apenas se houvesse o aumento do diesel e os governos municipais não autorizassem o repasse do aumento do preço diesel para as tarifas. Assim, ou perde Petrobras (se preço do diesel não aumentar) ou perde os governos locais (se preço do diesel aumentar e não for repassado para as tarifas). Vou corrigir.

  5. Monsueto

    Com a globalização, surgiu a oferta de bens baratos. Como produzir algo que a China consegue vender por um quarto do preço?

    Quase todos os outros países vieram se adaptando à China ao longo do tempo, e o Brasil não. Na Ásia, a Malásia e a Indonésia cresceram simultaneamente com a China nos últimos vinte anos, a referência deles é a China, com a qual se integraram e industrialmente montaram uma rede. Os Estados Unidos há vinte anos vêm transferindo fábricas em massa para a China, o que significa que estão se adaptando.

    O Brasil ficou à margem. No final dos anos 1990, início dos 2000, entrou numa perspectiva de corrida de competitividade. O Brasil modernizou os produtos, modernizou o processo, modernizou a organização, introduziu o just in time etc., fez tudo para melhorar sua posição na corrida. E quando termina de fazer isso, aí por volta de 2004-05, invade o mercado latino-americano, sobretudo o argentino, mas o mexicano e o venezuelano também, e descobre hoje que aquele jogo acabou, que é outro o jogo.

    Goiás ou Mato Grosso, estados que vêm tendo um crescimento espetacular estão na órbita chinesa. A indústria gaúcha e a indústria catarinense estão sendo agredidas pela competitividade chinesa, mas não estão absolutamente na órbita chinesa.

    O Brasil tem oportunidades espetaculares em termos de infraestrutura. Porque todos esses atrasos se tornaram altamente rentáveis enquanto promessas de projeto, e a eles se acrescentam os novos atrasos em relação à futura infraestrutura necessária, que são mais e mais oportunidades. O portfólio de projetos para a infraestrutura está aumentando em vez de diminuir. O Brasil é um país de oportunidades, de projetos, que por si sós garantiriam, em boa medida, o futuro de muitas outras coisas positivas deste país. E a China ainda nem entrou fazendo infraestrutura aqui, o que é perfeitamente possível de forma complementar.

    Outro aspecto positivo traduz o seu crescimento em diversificação. Não se trata de diversificação industrial à altura das necessidades do Brasil, mas Goiás tem infraestrutura, Anápolis é um centro cruzado por três grandes eixos logísticos, mil quilômetros em volta, um mercado fantástico numa circunferência de mil quilômetros. Então esse crescimento do Mato Grosso é outro fenômeno, muito mais inserido no tecido industrial, sem falar no tecido de serviços. É perfeitamente inserido propício a modernidades. Trata-se do avanço da agricultura do Centro-Oeste em termos do uso de máquinas avançadas, de satélites etc. Isso leva à uma vantagem. Seja pelas capacitações que o Brasil acumulou nessa experiência industrial, urbana, industrial e agro, seja por essas experiências, seja por outros fatores que vou mencionar rapidamente, o Brasil está preparado para colaborar ou participar de transformações que outras áreas primário-exportadoras do mundo não estão.

    Mais que isso, as oportunidades que o Brasil tem, no estágio tecnológico em que se encontra o mundo, são enormemente férteis em termos de efeitos industriais. Os efeitos industriais do pré-sal são inúmeros, espalham-se em todas as direções; nós temos é que selecionar o que nos interessa nesse arco de possibilidades. Mas igualmente no agro e na fronteira do Centro-Oeste, o Brasil está beirando, está beliscando a fronteira das técnicas mundiais.

    E tem capacitações, seja em termos de competência empresarial, seja em termos de técnicos agrônomos, químicos etc. Então entramos no problema do que fazer com essas grandes oportunidades para tentar engatá-las no tecido industrial, sendo que elas já estão a priori semiengatadas, através de serviços e, em parte, através da ponta da tecnologia.

    Há um mar de possibilidades aí de optar por fazer o mais avançado. Qual a vantagem de escolher o mais avançado? É que o mais avançado é aberto, ricocheteia por toda a economia, liga-se, por exemplo, com o agro, com a indústria aeronáutica, com a indústria de bens de capital, com a indústria química. Ao passo que o mais localizado não se liga praticamente com coisa nenhuma. A grande questão no momento é a seguinte: esses produtos de ponta o Brasil não pode fazer rapidamente, não são algo que se absorva depressa. A própria China mostra isso.

    A China, tecnologicamente, tem dado certo naquilo que levou muitos anos experimentando. Não há milagre chinês na base do “vamos produzir Y, que nunca produzimos”, e no dia seguinte estarem produzindo bem. São vinte anos, dez anos pelo menos, errando, batendo a cabeça. E o grande desafio dessa proposta, aparentemente, é o time. Sim, mas e até lá, fazemos o quê? Até lá, primeiro, a exportação de petróleo, de soja e outras resolvem o problema dos balanços de pagamento. Além disso, o Brasil é o país que mais se preparou para fazer política industrial, tendo criado instituições, centros, e um pré-sistema nacional de inovações. Mas isso não se traduz necessariamente em inovações.

    A China pôs em xeque todas as apostas, e só podemos mudar esse quadro se tivermos uma estratégia definindo o que realmente queremos, quais são as prioridades. Há um conjunto de políticas a serem praticadas, que vão desde as políticas setoriais até as políticas regionais.

    O Brasil se depara com uma dupla complexidade: a complexidade chinesa e a complexidade brasileira. São esses os dois pontos de partida indispensáveis para discutir e definir uma estratégia para o Brasil enfrentar o desafio da competição global. O resto, como se dizia antigamente, é folclore.

  6. Uma pergunta completamente off topic; esses dias vi ressurgir um pouco o debate sobre divida bruta vs divida liquida. Percebo que você dá bastante enfase a divida bruta, uma vez que comparado aos países vizinhos o Brasil tem divida bruta alta. Posso estar enganado, mas até onde me lembro a literatura mais acadêmica sempre olhou para divida liquida, até quando vamos fazer estimações baseadas em modelos em geral o usual é pegar a divida liquida, porque no nosso caso não é mais?

    • O governo cria distorções no superávit primário ao fazer uso da contabilidade criativa e ao não considerar a diferença de juros que o TN paga qnd faz repasses ao BNDES. Esses são uns dos fatores que minam a credibilidade da informação dada pelo governo para o cálculo da relação Dívida/PIB. Com isso, o mercado prefere olhar os números da DPF.

      Por sinal, a relação dívida bruta/PIB que é divulgada pelo governo brasileiro é menor que a calculada pelo FMI.

  7. Boa a análise e está completamente correto.

    A Petrobrás controla muito mais a inflação do que a SELIC.
    Um aumento de preço dos combustíveis levaria o BC a aumentar a SELIC em quantos p.p para compensar?
    No fundo, para o governo, não sairia mais caro?

    Quanto aos acionistas, meus pêsames, mas és sócio de um monopólio e de uma empresa que está em fase de investimentos em enorme escala (duvidosos).
    Qualquer empresa (não só a Petrobras) nesta fase tem resultados piores, corre mais risco, distribui menos dividendos, etc.

    A análise do governo é simplória: Inflação no teto da meta de 6,5%a.a. (sic) não vai tirar muito voto. Agora, se subir a gasolina…
    E vida que segue e durma com um barulho desse.

  8. Prof.
    antigamente, o preço da gasolina subsidiava os preços do diesel e do gás de cozinha. Isso criou distorções que foram eliminadas a duras penas. Comparando a estrutura de refino com a de demanda por derivados, percebe-se que o Brasil possui um déficit considerável de diesel e de querosene de aviação, mas também faltou gasolina no ano passado pq o parque do refino está programado para fazer mais diesel e a queda na produção de etanol (que compensaria o gap) causou a necessidade de importação. Portanto, precisamos de mais refinarias de petróleo (ou mais capacidade de refino).

    Observo tb o seguinte: a Petrobras exerce um monopólio de fato. Dessa forma, a melhor forma de avaliar sua rentabilidade deve ser a de receita bruta menos custos totais. Embora o óleo e os derivados sejam tradables, a comparação com preços internacionais só se torna relevante enquanto a estatal for obrigada a importá-los (o que é fato, mas não chega a 10% da produção). Assim, para aumentar a rentabilidade, a estatal precisa aumentar sua eficiência, operando campos mais produtivos, cortando custos desnecessários e projetos de baixo retorno, como biodiesel, etanol e petroquímica.

    Abs.,
    de MarceloF.

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