Curiosidade: infraestrutura é um investimento prioritário! Não.

Ontem à noite estava terminando de escrever uma nota técnica de 12 páginas para uma discussão que terei na próxima semana e me assustei com os dados. O meu objetivo era olhar para o comportamento da despesa no pré-crise (2005-2008) versus o pós-crise (2009-2012) e identificar: (i) o que essa comparação mostra? (ii) Quais tipos de gasto puxaram o crescimento do gasto público? (iii) O padrão do gasto público no Brasil mudou nesses dois períodos?( (iv) olhando para o comportamento da despesa, nesses dois períodos, é possível identificar um padrão da despesa que poderia ser classificada como anticíclica?

Para a minha surpresa consegui responder as perguntas acima, mas como vou aumentar a nota, não vou disponibilizar ainda os resultados. Apenas para aguçar a curiosidade daqueles que acham que investimento no Brasil é prioritário, que tal comparar o gasto total (pessoal, custeio e investimento) de todos os ministérios da área de infraestrutura (sete ministérios) com a despesa de apenas um dos ministérios da área social, por exemplo, com a despesa total do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Qual o resultado?

Olhe a tabela abaixo para os valores de 2012 e como % do PIB. O gasto total conjunto dos sete ministérios da área de infraestrutura, em 2012, foi de apenas 1% do PIB – valor semelhante ao gasto do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Em resumo, no país do pleno emprego, o MTE gasta o equivalente ao gasto total  de todos os ministérios da área de infraestrutura.

Quem foi que falou que a despesas com infraestrutura é prioritária? Pelos dados da execução orçamentária isso não é verdade, infelizmente.

Despesa paga do orçamento do ano e restos a pagar pagos – ministérios selecionados – 2012

MinistériosFonte: SIAFI. Elaboração: Mansueto Almeida. Despesas com pessoal, custeio e investimento.

OBS: 1/ Dado do Ministério das Minas e Energia exclui transferências de royalties para estados e municípios.

2/ O dado do ministério do trabalho não inclui os empréstimos do FAT ao BNDES. O valor do gasto total desse ministério é preponderantemente com dispêndio com seguro desemprego e com abono salarial.

Malditas contas públicas!

A conta fiscal divulgada hoje veio tão ruim que nem vou comentar. Basta mostrar que, em termos nominais, o crescimento da despesa primária do governo federal foi de janeiro a julho deste ano de R$ 57,8 bilhões, ante o mesmo período do ano passado, e desse total o crescimento do investimento foi de apenas R$ 26 milhões, não é erro de digitação, R$ 26 milhões ou 0,1%.

O que aconteceu? O de sempre. O governo brasileiro sabe gastar muito bem com gastos correntes, principalmente programas de transferência de renda. Temos o know how de como transferir recursos arrecadados para famílias. Mas o governo tem uma crescente dificuldade para investir.

O Secretário do Tesouro falava desde o ano passado que mais cedo ou mais tarde o investimento público cresceria de forma muito rápida e que as críticas ao governo eram injustas. Bom, o investimento público não está crescendo e só nos resta rezar para as concessões darem certo, pois até isso será difícil pelo que escutei na minha viagem desta semana a São Paulo.

Por fim, como não tenho tempo para escrever muito no momento (depois escrevo) quero apenas destacar mais um ponto. Na apresentação de hoje da Ministra do Planejamento do Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2014, um slide que apareceu na apresentação do ano passado sumiu: o slide da trajetória do déficit nominal do setor público

No ano passado (ver abaixo) o governo esperava que o déficit nominal do setor público fosse de 1,6% do PIB, em 2012, e de 1% do PIB este ano. Cheguei até escutar que poderia ser “zero” até o final do governo Dilma. Pois bem, no ano passado, o déficit nominal do setor público foi de 2,47% do PIB e, neste ano, acho que será até maior.

Ou seja, apesar do que era projetado pelo governo há poucos meses atrás, o déficit nominal no Brasil vai ficar muito próximo a 2,5% do PIB ou até se aproximar de 3% do PIB neste e no próximo ano. E o risco agora é não termos um primário suficiente para estabilizar a DLSP/PIB que, no curto prazo, vai cair influenciada muito mais pela desvalorização do Real.

Projeções do Governo Federal em agosto de 2012 para o Déficit Nominal em 2012 e 2013defict nominal

Debate na CAE do Senado Federal sobre Gasto Fiscal e Orçamento

A Comissão de Assuntos Econômico (CAE) do Senado Federal fez um interessante debate ontem dia 26 de agosto sobre o problema do orçamento e gasto público. O debate foi entre os economistas Raul Velloso, Fernando Resende (ex-presidente do IPEA) e Cláudio Hamilton – Diretor de Macroeconomia do IPEA.

Como estava lendo aqui em um quarto de hotel de São Paulo tive a chance de assistir o debate via internet e, ao longo da exposição de mais de duas horas, fui escrevendo as minhas impressões no twitter. Envio abaixo as minhas inserções ontem no twitter que foram reagrupadas para tornar a leitura mais fácil. Vale a pena ler.

Comentários que fiz no twitter ao longo do debate fiscal na CAE dia 26 de agosto de 2013

Assistam on line a sessão da CAE no Senado Federal com Fernando Rezende (ex-presidente do IPEA), Raul Veloso (consultor na área de finanças públicas) e Claudio Hamilton, Diretor de Macroeconomia do IPEA e representando o Presidente do IPEA, Marcelo Neri.

O representante do IPEA fala do papel importante do salário mínimo para explicar ganho de renda real nas metrópoles e no mercado formal. O efeito salário mínimo é uma tese aceita por muitos e criticada por outros. Meu colega mostra que crescimento  da arrecadação foi resultado do dinamismo do mercado de trabalho. A tese principal do Cláudio é que: “as transferências custam caro mas beneficiam muitos” e respondem por 1/3 do aumento da renda e os outros 2/3 são renda do trabalho afetado pelo salário mínimo. 

Meu colega do IPEA defendeu retirar o gasto com investimento público do resultado primário. Confesso que penso diferente, mas de qualquer forma todos concordamos que o mais essencial é a estatística de déficit nominal. 

Estou gostando da fala do Raul Velloso. Começou mostrando a rigidez do gasto = uma grande folha de pagamento de pessoas e transferências. Ponto do Raul Veloso: 72% do gasto do Gov. Federal é com a “grande folha”: salários + transferências. Congresso fica brigando pelo resto.

Raul Velloso mostrou que investimento público caiu muito e que o Brasil gasta mais e pior que países de renda per capita semelhante. Até agora o debate está no seguinte pé: Raul Velloso: gastamos muito e isso atrapalha o investimento e exige alta carga tributária. Cláudio Hamilton: modelo que está ai é escolha social e pode até ser bom. Dinamizou o mercado de trabalho e a economia. Não é fácil solucionar esse debate com dados. 

Vamos agora para meu amigo Fernando Resende. Começou mostrando que a reforma do orçamento é a reforma esquecida. Ninguém fala dessa reforma. Fernando fala que o orçamento olha para o passado e não para o futuro. Logo, o orçamento perdeu importância.Fernando faz um bom ponto: como queremos discutir orçamento se nem mesmo fazemos uma previsão séria da receita?

Em seguida explica o “efeito cremalheira” que vem da separação entre impostos e contribuições. Criamos contribuições que aumentam o orçamento da seguridade social que dá origem a novos gastos. Ou seja, governo aumenta contribuição p/ não dividir arrecadação com estados e municípios, mas teve que criar a DRU para tirar recursos do orçamento da seguridade social. Mas como o orçamento da seguridade social fica com mais recursos, apesar da DRU, aumenta demanda por políticas sociais. Tudo isso levou a uma armadilha do “baixo crescimento” e reduziu o espaço fiscal para crescimento do investimento.

Como o governo conciliou tudo isso? Gastos crescente com a necessidade de economizar para pagar a divida? aumentando restos a pagar que estão cada vez mais rígidos.Bom, o debate está terminado e chegou a hora de dormir. Mas como não poderia ser diferente, o debate está terminando na CAE com Senador Suplicy falando do seu programa renda mínima. 

Um último ponto. Os três debatedores são excelentes economistas e a discordância entre eles mostra como é difícil se chegar a consensos na área fiscal. E esse debate como sempre falo é um debate político.

O DEBATE NA FIESP: REINDUSTRIALIZAÇÃO DO BRASIL- 1

Ontem participei, na FIESP, do debate sobre a re-industrialização da economia. O debate foi interessante, mas posso afirmar que as teses discutidas ao longo do dia estão longe de serem consensuais entre economistas, entre empresários, entre trabalhadores e nem vou falar dos consumidores. Esse é um primeiro de uma série de posts que vou escrever sobre esse encontro.

A abertura do evento esteve a cargo do presidente da entidade, Paulo Skaf, que para minha surpresa fez um discurso de abertura olhando mais para gestão pública do que para os problemas da indústria. Skaf lembrou que no Brasil não falta dinheiro, mas que há muito desperdício, deixando no ar a tese tão difundida que “com bons gestores podemos fazer mais e melhor”. Eu não discordo disso, mas o bom gestor também terá que sentar na mesa de negociação e propor mudanças de regras duras como, a renegociação da regra do salario mínimo.

Skaf falou também que a competitividade da economia brasileira passa pela competitividade da indústria e, assim essas duas agendas são na verdade a mesma. Em seguida, começou uma longa defesa de investimentos em educação básica e saúde como forma de fortalecer o capital humano. Não me lembro de o presidente ter enfatizado taxa de câmbio ou política industrial, mas enfatizou muito a importância da educação, algo que todos nós concordamos, mas que pelo que senti ao longo do dia não está na preocupação imediata dos empresário com quem conversei.

(1) José Ricardo Roriz Coelho (FIESP): a primeira apresentação técnica ficou a cargo do José Ricardo da FIESP que apresentou o seguinte desafio: o que precisamos fazer para dobrar o PIB per capital do Brasil em 15 anos? A resposta passa pelo aumento da taxa de investimento e a produtividade. Mas é possível? Parece que sim. Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Malásia conseguiram.

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No entanto, como lembrou Roriz, quando esse países conseguiram essa façanha investiam mais que 30% do PIB (nossa taxa hoje é 17,4% do PIB) e a indústria investia acima de 25% do PIB. Isso não é a nossa realidade e acho difícil que ao longo da próxima década haja consenso para uma mudança tão brusca de rota: país passa a priorizar o crescimento ao invés de políticas sociais. Mesmo aceitando a recomendação de Roriz que nosso caso não precisamos aumentar tanto a taxa de investimento por que há um grande potencial de ganho via aumento de produtividade (educação e infraestrutura), ainda assim o cenário proposto abaixo é um desafio muito grande para a nossa realidade atual.

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Quais são as medidas propostas para se alcançar esse novo caminho do crescimento mais rápido? (i) Melhorar o ambiente macroeconômico com a redução do gasto público e da carga tributária; redução dos juros, simplificação tributária e política cambial ativa.; e (ii) política industrial ativa com uso de defesa comercial, política de conteúdo local, uso de incentivos à inovação e compras governamentais.

OK, dada a lista acima todos concordamos? Em termos gerais poderia falar até que sim, em parte, mas quando se passa para os detalhes esse suposto consenso termina. Hoje, no Brasil, não há o mínimo consenso de COMO reduzir o gasto público e o Brasil como o nosso baixo nível de poupança não vai investir 25% do PIB – isso levaria a um déficit em conta corrente monumental de mais de 6% do PIB e não acho que uma taxa de câmbio super desvalorizada resolveria o problema.

Os representantes das centrais sindicais presentes gostaram da proposta de um novo ciclo de crescimento, mas eles não notaram que isso implicaria em renegociar temas que são quase sagrados para as centrais sindicais: mudança na regra de reajuste do salário mínimo, reforma da previdência e taxa de câmbio mais desvalorizada o que significa perda de renda real para o trabalhador no curto prazo.

Meu amigo que Samuel Pessoa (FGV-IBRE) gosta de mostrar um gráfico (ver abaixo) incômodo sobre esse debate de desvalorização da taxa de câmbio que é irrefutável: quanto maior a desvalorização real da taxa de câmbio menor a renda média real medida pela PNAD. O que os defensores do Real desvalorizado contra-argumentam é que o o efeito crescimento da produção puxado pela indústria e crescimento do emprego industrial compensariam essa perda de renda do trabalhador no curto prazo.

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É possível ex ante garantir isso? claro que não e mesmo minha ex-professora Alice Amsden no MIT, escreveu no seu livro de 1989, Asia’s Next Giant, que a desvalorização real da taxa de câmbio da Coreia decorreu muito mais de ganhos de produtividade do que de um movimento artificial puxado pelo governo. Raramente se fala nessa passagem do livro dela, mas vou escanear depois e colocar aqui. Ontem na FIESP fiquei impressionado com a demanda por “taxa de câmbio desvalorizada” – depois falo mais sobre esse ponto.

(2) Ricardo Bielschowsky (UFRJ): Ricardo mostrou que, desde o inicio do governo Lula, havia uma estratégia de crescimento baseado no seguinte tripé: (i) crescimento do mercado consumidor de massa; (ii) maior distribuição de renda; e (iii) efeito demanda que aumentaria escala de produção da indústria, o que reduziria o custos unitário que, junto com o efeito encadeamento para frente e para trás, dinamizaria a indústria de transformação.

O problema é que esse “suposto modelo de crescimento” (que ninguém concordou que existia) não explica o porque da forte perda de dinamismo do setor indústria no Brasil pós-2008, quando a demanda continuou crescendo e a indústria não mais acompanhou o dinamismo do mercado doméstico:

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Ricardo culpou a política cambial errada que fez com que parte do efeito demanda vazasse para fora, os juros elevados no Brasil e falta de incentivos para setores intensivos em tecnologia. Mas a meu ver o problema é mais complexo. Não acredito no modelo Brasil porque crescimento com distribuição de renda foi a regra de quase todos os países da América Latina na primeira década do século XXI explicado pelo boom de commodities.

E, no nosso caso, o “vazamento para fora” é porque passamos a ter custo de produção muito elevado que em conjunto com a elevada carga tributária, excesso de regras tributárias, economia pouco integrada as redes globais de produção, baixo investimento público, etc. tira a nossa competitividade. O modelo de crescimento puxado pela demanda não funcionou e se quisermos fechar a economia para que ele funcione até vamos conseguir aumentar a produção industrial mas às custas de uma elevada ineficiência, preços mais elevados e baixa competitividade que vai puxar para baixo os salários e o crescimento do PIB.

Dito de outra forma, a razão do fracasso do modelo de substituição de importação no Brasil, América Latina e mundo não foi porque a distribuição de renda piorou e não criou um mercado consumidor de massas, mas porque era e ainda é um modelo que não estimula a inovação e competitividade. A ideia de criar setores industriais em ramos intensivos em tecnologia pode até ser sedutora para alguns, mas algo extremamente difícil, complexo e de elevado custo que muitas vezes não compensa o benefício –vide nosso Lei de Informática que morre e ressuscita várias vezes.

Vou parar por aqui. Mas essa série de posts sobre o evento da FIESP vai continuar. E o próximo será sobre o sonho do Bacha.

Entenda os problemas fiscais: colunas Miriam Leitão

Miriam Leitão fez duas excelentes colunas no Jornal O Globo sobre o debate que tivemos no seu programa na Globo News junto com Gil Castello Branco, secretário geral do Contas Abertas.

A coluna de ontem no jornal o Globo foi sobre custo fiscal anual das operações do Tesouro Nacional com o BNDES  (bolsa empresário) e a de hoje é sobre investimento público (investir pouco e mal). Recomendo a leitura das duas, pois são ambas bons resumos do debate que tivemos no programa.

Truques com o Custo Fiscal do PSI

Irresponsabilidade Fiscal e Truques com o Custo Fiscal do PSI: o que você sempre quis saber e ninguém lhe contou. 

Acho que o governo tem todo o direito de dar subsídios e seguir o seu plano de governo desde que o aumento do gasto esteja aprovado no orçamento. Mas no Brasil “transparente” de hoje, o governo está tomando um conjunto de medidas que a meu ver vai contra ao espírito da Lei de Responsabilidade Fiscal, apesar de sua legalidade (os truques fiscais estão amparados por legislação).

Um dos truques que me assusta é a postergação dos pagamentos de subsídios no âmbito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES. Vou agora explicar essa maluquice e a tentativa de esconder o custo do programa. Resolvi fazer isso porque acho que a própria equipe econômica não sabe muito o que fez.

Primeiro, quando o PSI começou, em 2009, o volume de empréstimos do BNDES que poderia ter algum tipo de subsídio estava limitado a R$ 44 bilhões. Mas, em 2010, com a economia crescendo e com a demanda por crédito subsidiado explodindo, inventaram a Medida Provisória 487 de 26 de abril de 2010 baseada em uma justificativa sem sentido. Era algo mais ou menos assim: como a demanda por crédito subsidiado está muito grande e superou a oferta, teremos que aumentar o volume de crédito subsidiado e também ampliar o prazo do programa. Não acreditam? Olhem o post que escrevi em  2010 sobre isso (clique aqui). E no mesmo mês, abril de 2010, o BACEN aumentou a taxa de juros SELIC em 0,75 ponto.

Agora, o volume de empréstimos passível de subsídios na linha do PSI passou de R$ 44 bilhões, em 2009, para R$ 312 bilhões (MP 594 de 6 de dezembro de 2012 convertida na Lei 12.814 de 16 de maio de 2013). O Gráfico abaixo mostra o crescimento dos limites.

Volume de Crédito do BNDES (direto e indireto) passível de subsídio orçamentário no  PSI – 2009-2013 – R$ bilhões correntes

PSI_Volume

Vamos supor que toda essa montanha de crédito tenha uma equalização de juros média de 1,5%. Assim, o custo anual da equalização seria por volta de R$ 4,7 bilhões (1,5% * R$ 312 bilhões). Mas pode apostar que a equalização é MUITO maior. O mínimo que o BNDES pode emprestar é TJLP+1% ao ano = 6% ao ano. Mas as taxas do PSI-FINAME para caminhões em, 2012, chegaram a ser de apenas 2,5% aa e, em 2013, as taxas do PSI-FINAME para compra de caminhões, ônibus, máquinas e equipamentos foram de 3% ao ano, no primeiro semestre, e agora de 3,5% ao ano.

Ou seja, a equalização é muito superior a 1,5% e o prazo médio da maior parte das operações é de 10 anos. Isso é uma conta que vai pressionar a despesa primária pelos próximos dez anos, mas vai pressionar mais os próximos governos e não este como explico a seguir.

O segundo problema com o PSI é que o governo federal, como é sempre “bem intencionado” e não quer atrapalhar a meta do primário, resolveu dar um calote temporário no BNDES. Mas é possível fazer tal absurdo? Não só é como já foi feito por meio da Portaria nº. 357, de 15 de outubro de 2012 do Ministério da Fazenda (clique aqui). Olhem o que diz o incido III do Art. 7o dessa (irresponsável) portaria:

Art. 7o……..

I – ………

II – ……….

III – os valores apurados das equalizações a partir de 16 de abril de 2012, relativos às operações contratadas pelo BNDES, serão devidos após decorridos 24 meses do término de cada semestre de apuração e atualizados pelo Tesouro Nacional desde a data de apuração até a data do efetivo pagamento.

O que isso significa? Bom, os subsídios antigos não foram ainda pagos (estão inscritos em restos a pagar) e, desde o ano passado, o governo passou a ter autorização legal para iniciar o pagamento dos novos subsídios (equalização de juros) depois de dois anos, i.e. joga a conta para frente, quase toda para o próximo governo, pois os subsídios de julho a dezembro de 2012 só passarão a serem devidos depois de dezembro de 2014.

Achou um absurdo? Pois se prepare que tem mais e se possível pegue um chá para se acalmar. Um outro problema é que o inciso III acima fala que “serão devidos depois de dois anos”, não significa que serão necessariamente pagos. Isso pode atrasar ainda mais. Assim, podemos falar com certeza que: (1) as equalizações de juros do PSI apuradas a partir do segundo semestre de 2012 só serão pagas depois de 2014, ou seja, pelo novo governo, e (2) há chance desses pagamentos “devidos” serem ainda atrasados depois de dois anos.

DROGA! Agora finalmente acabou? Infelizmente não. Há mais um truque dos magos de plantão. O que acontece se você cidadão atrasar um pagamento com a Receita Federal? Bom, nesse caso a sua dívida é corrigida pela taxa básica de juros, a  Selic. Mas o mesmo não vale para o governo. A atualização da conta de equalização de juros para os 24 meses posteriores (2 anos) quando passará a ser devida é feita pela TJLP que hoje é de 5% ao ano, menor que a inflação, e sempre uma taxa muito menor do que a Selic (clique aqui para ver a formula de correção especificada na Portaria 357 do Min. da Fazenda).

Ou seja, além de atrasar o pagamento, o governo ainda faz um truque para comer parte do valor real de sua conta de subsídios para reduzir o seu impacto na despesa primária e, logo, no superávit primário. E quem fica com o prejuízo? O credor que é o BNDES. Banco Privado não toma prejuízo e, assim, desconfio que, no caso dos bancos privados, eles estejam sendo pagos pelo BNDES que concentra todo o crédito a receber do Tesouro no seu balanço. P.S: Como seria bom se o contador do BNDES tomasse um porre e abrisse o jogo para gente!!!!

DROGA, DROGA! CHEGA! ACABOU? Infelizmente não. Tem outro ponto. É claro que o Tesouro não vai querer matar a “galinha dos ovos de ouro” e, assim, uma das formas de evitar perdas elevadas para o BNDES é fazendo o seguinte. Quando o Tesouro empresta novos recursos para o BNDES, o que o Tesouro faz é emitir títulos para o BNDES que fica com os títulos em carteira até emprestar rendendo Selic e com uma dívida junto ao Tesouro sendo corrigida por TJLP. Hoje, essa diferença é de 3,5% aa.

Ou seja, até emprestar o dinheiro, o BNDES fica lucrando (3,5%) com o carregamento dos títulos e isso deve compensar, em parte, a perda que o banco tem com a fórmula de correção artificial da conta de equalização de juros – que é uma conta do ativo do BNDES.

POR FAVOR, ME DIGA QUE ACABOU? Ainda não. Eu desconfio que, apesar de tudo que foi dito acima – atraso de dois anos no pagamento (que pode atrasar ainda mais) do custo de equalização de juros do PSI e correção desse custo a uma taxa menor do que a inflação (TJLP) – lá na frente o governo poderá ainda sentar com o BNDES na mesa e fazer um encontro de contas. Por exemplo, “BNDES você me deve R$ 500 bilhões e eu te devo R$ 50 bilhões. Pega dos R$ 500 bi que você me deve e abate esses R$ 50 bilhões”.

Se isso acontecer, no momento desse encontro de contas a Divida Liquida do Setor Público (DLSP) vai aumentar na mesma magnitude. Eu não tenho dúvidas que isso vai ocorrer no futuro. Se fosse hoje, R$ 50 bi, por exemplo, seria pouco mais de 1% do PIB.

Ainda querem alguma prova da falta de transparência da conta de subsídios do PSI, um programa que permite que R$ 312 bilhões dos empréstimos do BNDES sejam subsidiados e que a conta seja jogada para os próximos governos?

O que não posso afirmar é se tudo isso que descrevi acima foi pensado por apenas um ou vários “feiticeiros” que gostam de fazer truques fiscais. Mas tudo isso nos faz lembrar muito as maracutaias da década de 1970. Pra Frente Brasil! ou seria, Pra Frente Sucupira!

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Foto retirada de miltonmarchioli.com.br

Entrevista à jornalista Miriam Leitão (Globo News)

Nesta ultima quinta-feira (15 de agosto de 2013), participei junto com o secretário geral do Contas Abertas, Gil Castello Branco, do programa da jornalista Miriam Leitão na Globo News. Conversamos sobre contas fiscais, riscos fiscais, empréstimos do Tesouro para o BNDES, orçamento, etc.

Para aqueles que se interessam pelo tema e não tiveram a chance de assistir ao programa disponibilizo aqui o link para o programa na página da Globo News (clique aqui). sugiro também que olhem a coluna que a Miriam Leitão fez no jornal o Globo (Bolsa Empresário) de hoje, a partir do debate no programa e que ficará disponível no blog da jornalista (clique aqui).

Sei que o debate fiscal é às vezes complicado, mas tenho me esforçado para ser o mais didático possível no trato desse tema. E antes que alguém venha atirar pedras em mim vou repetir algo que sempre falo quando trato desse assunto: O debate fiscal é um debate político. Nenhum manual de economia vai definir o mix do gasto público nem tão pouco se um sociedade deve tributar mais ou menos. Mas, em uma democracia, cabe ao governo deixar o mais claro possível para a população o custo das políticas públicas, algo que, a meu ver, não estamos fazendo de forma adequada.

Globo News