Para onde caminhamos?

Vamos resumir a história recente do Brasil? vamos olhar os dados de crescimento do PIB depois da redemocratização do Brasil para ter uma real dimensão do que está acontecendo.

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Estimativas para PIB 2013 e 2014: 2% e 2,5%.

O governo Sarney (1985-1989) entregou um bom crescimento em um período complicado no qual o Plano Cruzado foi de um imenso sucesso a um retumbante fracasso. Mas essa taxa de crescimento de 4,4% do PIB aa não fez muita diferença porque naquela época as pessoas ainda gostavam muito de ter filhos. Inflação volta, mas mudanças institucionais estavam em curso: fim da conta movimento, criação da Secretaria do Tesouro Nacional, e inicio do processo de abertura comercial.

Collor (1990-1992) com seu plano de ajuste com “uma bala na agulha” mostrou ser um desastre. Muita gente culpou o presidente e a sua ministra da fazenda, Zélia Cardoso de Melo. Muita gente esquece que por trás deles e do plano Collor de calote na dívida pública tinha outro grupo de economistas que ainda hoje goza de relativo prestígio no mercado. Inflação volta, mas tivemos forte abertura da economia (“nossos carros são carroças”), esforço fiscal com corte de ministérios e custeio se mostrou inútil para contrabalançar crescimento do INSS e gasto com pessoal devido à nova Constituição. Não termina o mandato e o crescimento do PIB é negativo: -1,3% aa. Deixou também a herança “bendita” de um estoque de dívida pública bem menor.

Governo Itamar (1993-1994) assume com o apoio dos partidos que ajudaram a derrubar o presidente Collor. PT ajudou a derrubar o presidente, mas Lula lembra no programa Roda Viva, em 1993, porque não vai participar do novo governo: “as pessoas no Brasil precisam entender que para ajudar o país não precisa ser governo. Pode ser oposição”. Presidente Itamar convida FHC para assumir o ministério da fazenda, depois do ministério das relações exteriores, e junto com economistas da PUC faz o bem sucedido Plano Real, em 1994. Crescimento do PIB de 5% aa, mas parte era recuperação da queda do período Collor.

FHC (1995-1998) assume a presidência em 1995 e dá continuidade ao Plano Real e ao processo de modernização da economia com a privatização, ajuste do sistema financeiro (PROER e PROES), negociação das dívidas dos estados, etc. Mas no meio do caminho havia a Constituição Federal e o fim do imposto inflacionário. Os indicadores fiscais pioram, governo demora o ajuste, há medo de liberar o mercado cambial e indicadores macro pioram, mas dá tempo para o governo se reeleger. O PIB cresceu 2,5% aa.

No segundo mandato, FHC (1999-2002) aprofunda a agenda de reformas. Governo adota o famoso tripé macroeconômico: câmbio flutuante, meta de inflação e superávit primário. Aprofunda agenda de reformas (reforma parcial da previdência, reforma administrativa, Lei de Responsabilidade Fiscal, etc.). É também definida uma regra para financiamento da saúde com a Emenda Constitucional 29 de 2000. Brasil sofre com sucessivas crises em países emergentes, mas governo ainda entrega crescimento do PIB de 2,1% ao ano com várias reformas institucionais que seriam importantes para o crescimento dos pais nos próximos anos. A dívida dos entes federados foi renegociada e o país começaria um longo período de estabilidade fiscal. Nesse período ocorre o famoso apagão, em 2001, que leva o governo a se mexer e definir o uso das termelétricas como um seguro do sistema de geração, que está sendo fundamental hoje.

Lula (2003-2006) assume o governo, em 2003, sob forte desconfiança do mercado, pois seu partido sempre falou em calote da dívida, em estatizar novamente a VALE, controlar o sistema financeiro e era contra a LRF, etc. Lula procura economistas bons no PT e não encontrou, mas descobre um médico (Palloci) que se mostra um excelente economista (apesar da Casa dos Prazeres do Lago Sul). Governo Lula continua agenda de reformas (Lei de Falências, patrimônio de afetação, nova mini-reforma da previdência do setor público, crédito consignado, etc.). Dada a continuidade do ciclo de reformas e um cenário externo benigno, PIB cresce 3,5% ao ano.

No seu segundo mandato, Lula (2007-2010) dá forte guinada na política econômica e abraça uma agenda (populista?) de colher o fruto da bonança externa e do ciclo de reformas de governos anteriores (o seu inclusive). Começa forte intervenção do Estado na economia, aumento da dívida pública para financiar BNDES e a política industrial, novos programas de subsídios que aumentam a cada ano, forte reajuste dos salários de funcionários públicos, aumento do investimento público, etc. A ordem era gastar e não se preocupar com reformas, pois o Brasil havia entrado em uma trajetória de crescimento sustentável, diziam seus “brilhantes economistas”.  A crise de 2008/2009 foi utilizada como justificativa para maior intervenção do Estado na economia e começa o uso extensivo e abusivo da contabilidade criativa – truques fiscais para enganar o povão. O PIB cresce 4,6% ao ano, mas no meio da festa há uma nítida piora da política econômica e o pavê estava estragado com uma substância que afeta o aparelho digestivo no longo-prazo. Em 2009, começo o meu blog estimulado por um conjunto de amigos com quem converso.

Em 2011, começa o governo Dilma (2011-2014)  que segue o receituário econômico deixado pelo seu antecessor. Mas como a nossa presidente é economista, resolve ser mais ousada e passa a ser também ministro da fazenda. Começa o microgereciamento da economia, intervenção em vários setores, uma agenda confusa de novas regras para concessão de serviços públicos com controle da taxa interna de retorno dos projetos, o fetichismo do Estado pode tudo e os truques fiscais continuam. A única reforma aprovada é a regulamentação da aposentadoria dos funcionários públicos (FUNPRESP), cujo efeito será gradual e aparecerá apenas em duas décadas. No mais, piora a comunicação com o mercado e governo entra em um período de fragilidade ainda em curso que começa sinalizar um baixo crescimento do PIB de 2% ao ano (ou menos). Está em gestação uma herança maldita para ela própria ou para o seu sucessor. Ninguém sabe o final exato dessa história, mas é cada vez mais certo que o país entra sala de operação depois da eleição de 2014 e o cortisona não está mais fazendo efeito positivo e aumentou seus efeitos colaterais.

19 pensamentos sobre “Para onde caminhamos?

    • Entrevista boa.

      Pinçando algo interessante: “a redução da inflação, e do desemprego, de certa forma, saíram da agenda, assim como o arroz e o feijão”.

      Faz um diagnóstico —- com o qual concordo —– de que a sociedade brasileira vem evoluindo, e que a vida melhorou bastante para as famílias mais desassistidas, elevando o nível de exigências.

  1. Bom resumo.

    Relativamente ao período de transição Itamar/FHC, é preciso relevar com intensidade a negociação do Plano Brady para que o Plano Real fosse viabilizado. Em outras palavras: sem a reestruturação de nossa dívida externa —- em resumo, troca de passivo contratual por títulos ( os bradies ) —– não teríamos crédito novo no mercado voluntário externo de recursos, premissa básica dado que o Plano Real previa câmbio valorizado para ajudar no combate à inflação, via importação.

    Passando adiante: lembrando que um resumo da história recente de nossa economia política deve considerar variáveis de caráter social. Até porque, não fossem elas, Lula, Dilma e o PT não estariam, ainda, no poder.

    Ou seja, as inversões sociais têm sido decisivas nos resultados das eleições presidenciais mais recentes. Vamos ver o que ocorrerá em 2014, ou seja, o quanto a instabilidade política, e o nível de inflação também irão impactar negativamente a percepção de ganhos sociais da maioria da população brasileira.

    A chance de o PSDB voltar ao poder passa pelo roteiro acima.

    Abraço

    • “Em outras palavras: sem a reestruturação de nossa dívida externa —- em resumo, troca de passivo contratual por títulos ( os bradies ) —– não teríamos crédito novo no mercado voluntário externo de recursos”

      bem lembrado.

      tks to Mr. Malan.

      • Além do Malan, participaram o Jório Dauster, Lara Resende, e equipes…………..

        Necessário entender a conjuntura da época, em que todos os países em desenvolvimento, que estavam em moratória, voltaram ao mercado financeiro internacional ( a partir de então, títulos ), após longa ausência, pois havia ampla liquidez no mercado de títulos, ou seja, havia interesse de absorção de “novos clientes” por parte do capital internacional.

        Daí que a implantação do Plano Brady foi uma premissa fundamental para a implementação do Plano Real.

  2. Gostaria que alguém fizesse uma estatística ponderando o crescimento em cada governo em relação a economias de mesmas características. Por exemplo se considerarmos o quanto o Brasil cresceu com FHC com o quanto a Argentina cresceu durante este período, observaríamos que dadas as circunstâncias (ou seja sem o efeito commoditties) o Brasil teve um crescimento relativamente mais significante sob condições adversas do que até mesmo no governo Lula em que apesar de tudo o país foi um dos que menos cresceu na América do Sul neste período. Além disso a falácia de que a dívida pública cresceu no governo FHC em termos percentuais, a rigor de uma análise contábil mais realista não procede pois o FHC tomou várias medidas que visavam uniformizar e dar credibilidade a contabilidade das contas públicas, dentre elas podemos citar a inclusão das dívidas dos Estados com a posterior renegociação (antes os Estados criavam dinheiro pelos Bancos Estatais Estaduais, vide Banespa), a capitalização do Banco do Brasil e CEF para que atendessem os critérios do acordo de Basiléia (motivo pelo qual passaram a ser instituições sólidas, hoje nem tanto), o próprio fato da redução da inflação reduzir a arrecadação, entre outras medidas (tenho ótimas literaturas que podem demonstrar isso numericamente, sem golpismos ou ideologias baratas). Ou também ninguém sabe que primeiro deve-se preparar, ir as aulas, fazer a lição de casa e só depois dá para passar na prova. É mais do que óbvio de que o Lula está estragando a herança do FHC e hoje só estamos vendo a consequência desta falta de continuidade nas Reformas – não existe almoço grátis. O PT só sobrevive ainda porque cooptou os funcionários públicos (e posso falar com isenção pois sou um deles), os sindicatos (até a UNE!) e os miseráveis (com o bolsa-família) e os peões de obra pois o que mais se gastou neste governo foi concreto, porque só este tipo de obra que eles sabem incentivar (vide estádios elefantes brancos ou transposição do São Francisco).

  3. Mansueto. EXCELENTE !! Fica claro que até o Palloci estávamos indo bem. Depois o caldo entornou (ainda tinha o Meireles), e com a trinca, Mantega, Arno e Dilma (coitado do Trobini) o caldo azedou geral.
    Vale mencionar também os excelente comentários, lembrando da renegociação da dívida pelo Malan e da necessidade de fazer uma comparação dos crescimentos da era FHC e Lula vis a vis o crescimento mundial.
    Parabéns. Seu BLOG vem se tornando cada vez mais parada obrigatória para àqueles que querem entender os mistérios e as estripulias da economia brasileira.

  4. Cara,…mto bom o blog. Por isso me dou ao trabalho de avisar que tem um erro de digitação no cabeçalho que não faz jus ao resto do conteúdo. DESEvolvimento local…keep um the good work

  5. Talvez porque tenho 62 anos, senti falta de uma comparação do grande e aterrador monstro, a famigerada Dívida Externa.
    Na minha adolescência era o grande assunto. Era impagável. Um terror.
    Acho que diminuiu. Mas não tenho noção da oscilação ao longo do tempo.
    Mas isto é só uma curiosidade pessoal.
    O que interessa é que o seu “apanhado” dos acontecimentos ficou muito bom.

    Ticão

    PS: De 84 até 90 fui sócio de uma produtora. Me lembrei que de 85 em diante, a validade dos orçamentos era de uma semana, 3 dias. E depois já não eram em cruzeiros, ou seja lá qual era a moeda. Já mandávamos orçamento em OTN, ORTN, BTN, UFIR, sei lá que indexador. No final acho que era dólar mesmo. Um período estimulante.

    • Sim, tens toda razão. O problema agora é que temos a impressão de oportunidade perdida. Ou seja, entramos em uma fase de baixo crescimento e avançamos muito pouco em reformas institucionais. Olhe o tempo que levou para “cair a ficha” que o governo não conseguiria fazer os investimentos necessários em infraestrutura. Abs,

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