Bancos Públicos? Benção ou maldição?

Em 2008, o volume de crédito dos bancos privados, no Brasil, era de R$ 628 bilhões; 94% superior ao total de créditos dos bancos públicos que naquela época era de R$ 322,4 bilhões. Tudo isso muda depois de 2008.

Como sabemos, desde o último trimestre de 2008, o governo começou a utilizar ativamente bancos púbicos para “melhorar” a oferta de crédito no Brasil. A hipótese não explicita nesse movimento é que, em geral, bancos privados são gananciosos, não sabem alocar crédito e querem apenas especular – me desculpe a linguagem chula, mas é mais fácil explicar dessa forma.

Assim, “para salvar o Brasil” precisaríamos de um papel mais ativo dos bancos públicos. Qual foi o resultado disso? Em maio deste ano o volume emprestado pelos bancos públicos (R$ 1,23 trilhões) praticamente empatou com o volume emprestado pelos bancos privados (R$ 1,25 trilhões) e, nos próximos meses, os bancos públicos devem ultrapassar o volume de empréstimos dos bancos privados.

Gráfico 1 – % dos empréstimos de bancos privados e públicos no Brasil 2004-2013

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Fonte: Banco Central do Brasil

O que acho disso? Acho isso tudo muito ruim por três motivos. Primeiro, o governo não tinha recursos para promover uma expansão tão rápida do funding dos bancos públicos. Assim, a contrapartida desse movimento foi uma expansão, irresponsável, da dívida pública bruta que varias pessoas da “elite” da equipe econômica acham normal. Mas quase 100% dos assessores do Ministério da Fazenda e Banco Central  acham um absurdo – sei porque converso com eles e sei razoavelmente bem o que ocorre na cozinha de Brasília.

Vale lembrar que o total dos empréstimos do Tesouro Nacional para bancos públicos era de apenas R$ 14 bilhões (0,4% do PIB), no final de 2007, e passou para R$ 406 bilhões, (9,22% do PIB) no final de 2012. Acha muito? Não se assuste que até o final do ano essa conta vai para perto de 10% do PIB e entre este e o próximo ano vamos superar o valor de R$ 500 bilhões, meio trilhão de reais de empréstimos para bancos públicos.

Segundo, o efeito dessa mega-expansão de crédito dos bancos públicos é a elevada divida pública bruta que é pressionada por essas operações. Mas a dívida no Brasil não é pequena? Quem disse isso? Pelo amor de Deus olhem os dados e comparem o Brasil com o resto do mundo. A dívida bruta no Brasil pelo critério do FMI era de 68% do PIB no final de 2012. Esse valor é o dobro da dívida pública bruta média dos 20 maiores países emergentes (33,7% do PIB) (ver tabela anexa do FMI) e muito maior do que a de outros países da América Latina. Assim, vamos pagar mais juros e perdemos parte do nosso esforço de economia fiscal (superávit primário) dos últimos anos porque alguém acha que banco público é o “missing link of economic development”.

Gráfico 2 – Dívida Pública Bruta – % do PIB – 2012

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Fonte: FMI, world economic outlook, abril de 2013

Terceiro, a expansão do crédito dos bancos públicos foi muito rápida é, por enquanto, não dá para avaliar o resultado positivo e/ou negativo dessa expansão. Do ponto de vista do funding o efeito foi claramente negativo: expansão da dívida pública. Do ponto de vista do resultado, essa forte expansão do crédito dos bancos públicos não alterou a taxa de investimento no Brasil que continua abaixo de 20% do PIB. Alguém poderia contra-argumentar que a taxa de investimento no Brasil hoje seria ainda menor que os atuais 18% do PIB sem a forte expansão do crédito público. Isso é uma mera hipótese. O mais provável é que parte considerável do crédito privado e/ou captações no mercado de capital tenham sido “expulsas” pelo crédito público subsidiado.

Não há almoço grátis. Por trás da forte expansão irresponsável do crédito dos bancos públicos há um forte aumento da dívida pública e, assim, o Brasil continuará a ter uma conta salgada de juros (entre 4,5 e 5% do PIB) por causa da ideia maluca de um grupo de economistas que tinham e tem a convicção que podem “fazer um puxadinho” para o crescimento. Infelizmente, acho que isso ainda vai piorar até que já seja muito tarde para voltar atrás e, assim, acho que mais do que uma benção o uso que se está fazendo do bancos públicos é uma “maldição”.

21 pensamentos sobre “Bancos Públicos? Benção ou maldição?

  1. Pingback: A heterodoxia continua piorando a situação… | De Gustibus Non Est Disputandum

  2. Bom, o problema está mesmo no uso… Veja bem, políticas anticíclicas representam a vitória do bom senso à la Keynes contra o darwinismo social e as incertezas do tempo de retorno “ao normal” do sistema econômico.

    O problema maior, creio, está no relacionamento entre crédito e financiamento de campanha política:

    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,empresa-que-elege-mais-politicos–recebe-mais-recursos-do-bndes-,809497,0.htm

    Esse é um tema suprapartidário de cultura política no Brasil! Inclui ainda o tempo das privatizações nos anos 1990.

    Abraço,

  3. Dada a clara dominância fisical observada na economia brasileira, o aumento forte da taxa de juros será, no curto prazo, talvez, um mal menor. A resultante dessa irresponsabilidade fiscal, não havendo aumento compatível das taxas de juros, seria maior maior aceleração da inflação. Claro que, pensando na desagradável aritmética monetarista de Sargent e Wallace, tudo se mantendo como está, o abismo virá, mais cedo ou mais tarde.

  4. “A dívida bruta no Brasil pelo critério do FMI era de 68% do PIB no final de 2008” está correto? no gráfico diz 2012. parabéns pelo ótimo artigo.

  5. Sugestão – a soberana deveria incluir mais uma pergunta no plebiscito: vocês querem que essa barbeiragem continue, lembrando que o único resultado concreto tem sido o aumento da nossa dívida pública bruta e que ao final e ao cabo vocês pagarão essa fatura, com juros?
    PS: qual era o resultado perseguido com isso? Aumentar a taxa de investimentos?

  6. Parabéns Mansueto, resumiu bem o que muitos de nós estamos pensando nesse exato momento. Se a justificativa disso tudo é um incentivo ao estilo Keynesiano, Keynes está se remoendo no túmulo nesse exato momento. Alto e rápido endividamento, mas Investimento não aumenta, gastos correntes e despesa de capital crescendo. O PT está afundando o Brasil, começou o processo quando alguém disse a famosa frase: “A crise no Brasil vai ser uma marolinha”. Não realizamos mudanças estruturais no momento do “boom”, agora bem vindo à realidade, ou nos endividamos ainda mais para assegurar um crescimento zero, ou libertamos a economia nacional desse jogo de interesse político e entramos em recessão, prefiro a segunda opção.

  7. Mais um grande texto, parabéns, Mansueto. Mas, se me permite, acho que vale levar em conta o papel da crise de 2008. Eu vi uma apresentação outro dia dizendo que os bancos públicos ao redor do mundo podem ter sido importantes no combate à crise no curto prazo (quando não tinha ninguém para ser crowded-out), mas não pararam de emprestar quando deveriam ter deixado o setor privado assumir de novo seu papel. Essa explicação talvez descreva bem a situação no Brasil, reconhece o problema atual mas admite o lado positivo da atuação dos bancos públicos no momento anterior.

    Quanto ao crowding-out, você acha que há alguma solução de médio prazo para substituir o BNDES (eu sei, caso diferente de BB, Caixa, etc.) no financiamento de longo prazo?

    Mais uma vez, parabéns pelo texto.

    • Celso, tens toda razão.

      O problema não foi a expansão em 2008 e 2009, mas a expansão que continuou muito forte após 2009 quando os bancos privados voltaram a emprestar. E o problema adicional que vejo é a falta de transparência do custo dessa politica. Explico. Gastar muito ou pouco é decisão politica do governo. No entanto, seria aconselhável que ficasse claro o custo dessa politica para que a sociedade possa fazer a escolha com o que e como quer gastar.

      No caso dos bancos públicos, o governo vem alterando as regras para esconder, sempre que possível, o custo dessa politica de endividamento-fortalecimento dos bancos públicos. Vou provar isso no meu post de amanhã. E esse tipo de medida tem custo elevado que não fica claro para a sociedade. Adicionalmente, temos um problema com a Lei de Responsabilidade Fiscal – LRF. Para gastar R$ 1 a mais com saúde e educação, por exemplo, o governo tem que provar ex ante que existe a fonte de recurso. Para fazer politica setorial não precisa provar que existe o recurso pois o gasto não é considerado gasto corernte- pode simplesmente aumentar a dívida.

      Assim, independentemente da minha posição pessoal sobre o assunto, expandir o papel dos bancos públicos na economia é uma decisão legítima de um governo democraticamente eleito desde que o custo da politica fique claro para a sociedade, algo que a meu ver não está acontecendo. Grande abraço e obrigado pelo comentário, mansueto

  8. Só acho importante salientar que a gastança não está no DNA dos governos do PT. No pré-crise, a dívida bruta caiu no governo Lula, e se estabilizou em torno de 56% do pib entre 2004-2008.

    A grande questão me parece ser quanto tempo deve durar uma política anticíclica…

    Agora, há espaço pra se retirar incentivos com o cenário, tanto interno quanto externo, tão adversos?

    • Acho que esse é o debate Rafael. A minha impressão é que isso foi muito além de uma política anticíclica e o custo dessa política não é explicitado. Explico. É legítimo um governo democraticamente eleito querer fortalecer o papel dos bancos públicos. Não gosto disso mas o governo está no seu direito. Mas para que a sociedade possa decidir com o que quer gastar e como, o custo dessa politica deveria ficar claro como exigimos dos gastos com educação e saúde.

      Como o custo de empréstimos e capitalizações dos bancos públicos não é explicitado, o governo termina exagerando nessas operações. Amanha vou escrever um post mostrando medidas legais que foram e estão sendo tomadas para esconder o custo do fortalecimento dos bancos públicos.

  9. Caro Mansueto, parabéns pelo post.

    Suponha que o governo note que está errado e decida reverter essa expansão excessiva dos bancos públicos, encerrando as capitalizações.

    É possível que isso seja feito repentinamente ou os desembolsos já comprometidos exigem novos aportes à frente, e por consequência, uma lentidão no processo de reversão da política parafiscal?

    • Há dois anos o governo havia anunciado que os empréstimos para bancos públicos seriam sucessivamente menores. Isso não aconteceu e agora eles estão em um sinuca – criaram vários problemas (excesso de empréstimos p/ bancos públicos com aumento da dívida) e a economia não respondeu como se esperava. Com a mudança do cenário mundial e queda do crescimento no Brasil aliado à piora fiscal e inflação em alta, governo precisa sinalizar maior esforço fiscal, mas não consegue.

      O problema agora é o seguinte: (1) quer continuar com bancos públicos ativos, então deixe claro o custo e defina a fonte de recurso (imposto) para isso; (2) fazer mais do mesmo é continuar com emissão de divida para turbinar bancos públicos – a conta chega mais à frente com a conta de juros que não vai cair; e/ou (3) governo para de emprestar para bancos públicos e esses passam a financiar projetos de maior retorno social e param várias da linhas de empréstimos que hoje são subsidiadas. Vale lembrar que sem nenhuma ajuda do Tesouro BNDES consegue emprestar ainda R$ 100 bilhões por ano – é muito dinheiro.

      Eles criaram o problema e eles que devem resolver. Abs, Mansueto

  10. Toda essa gastança para produzir um ‘pibinho’ de 1%. Fortuna dilapidada para oBNDES, o Lula e o PT criar o ‘Madoff’ brasileiro – Eike Batista, especulador, aventureiro e trapaceiro que utilizou o despachante de luxo que atua com a faixa presidencial para intermediar empréstimos para ele, empreiteiras e multinacionais (Vivo, Oi, Fiat, etc…), que não usam dinheiro proprio, lucros das suas empresas para investimento e expansão das empresas. O BNDES é caso de polícia, investigação dos sinais de riqueza da diretoria e parentes iria surprender o País! Tá na hora de o Ministério Público federal valorizar a reprovação da PEC 37.

  11. Manuseto, qual o dado que vc usou para crédito público? A serie “20593 – Saldo da carteira de crédito com recursos direcionados – Total” do BC fornece dados ligeiramente diferentes do seu, principalmente em relação a maio/13 (1,23 contra 1,06).
    Abs

    • Usei a série 2007 e a 2043 pelo SGS – Sistema Gerenciador de Séries Temporais na série “saldo por atividade econômica por controle de capital”. 2007 – Saldo das operações de crédito por atividade econômica das instituições financeiras sob controle público – Total e
      2043 – Saldo das operações de crédito por atividade econômica das instituições financeiras sob controle privado – Total

  12. “Terceiro, a expansão do crédito dos bancos públicos foi muito rápida é, por enquanto, não dá para avaliar o resultado positivo e/ou negativo dessa expansão. ”

    tem um resultado claro q está aí para todos verem nos grandes centros: inflação de ativos imobiliários (de 100% a 200% de aumento no preço do m2 – período 2009-2012).

  13. Parabéns pelo texto, a leitura foi muito tranquila e simples. Já virei fã. 🙂

    Tenho algumas dúvidas sobre esta questão de bancos públicos/privados que nunca foram respondidas.

    Com as taxas de juros cobradas no Brasil, o lucro dos bancos públicos não está garantido? Seria possível calcular um spread médio destas aplicações para saber em que buraco o tesouro está se metendo?

    Dizem que há o risco de inadimplência. Mas, esta inadimplência não entra no cálculo dos spreads?
    Ou seja, ela não sai de graça para os bancos?

    Quando um banco privado quebra, o tesouro não tem que arcar com o prejuízo de qualquer forma?

    Abraços e mais uma vez, parabéns.

  14. Excelente texto.No entanto, não acho que essa política seja fruto de um erro de diagnóstico da equipe econômica sobre crescimento, ou, como você coloca: ” por causa da ideia maluca de um grupo de economistas que tinham e tem a convicção que podem “fazer um puxadinho” para o crescimento.” Penso que seja, na verdade, e infelizmente, uma política deliberada com fins eleitorais e para favorecer ( e enriquecer!) os “amigos do rei” à custa da população.

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