Piorou o humor do mercado com o Brasil

Em recente almoço no início deste mês, em Brasília, com representantes de um dos maiores fundos de investimento do mundo, um deles resumiu bem a impressão que ficou da última visita ao Brasil: “Nessa nossa última visita ao Brasil fiquei com a impressão que o setor privado e governo estão em mundos diferentes. O setor privado continua com elevada incerteza e preocupado com o rumo da política econômica e o governo tem convicção que tem adotado as medidas corretas“.

Em outro almoço com um grupo de investidores de um fundo soberano escutei que: “todos os países do mundo têm problemas. Mas, no caso do Brasil, estamos com a sensação que as pessoas no governo se negam a ver os problemas e isso nos deixa decepcionados. Quando as coisas iam bem, éramos recebidos aqui em Brasília pelo primeiro escalão. Depois passamos a ser recebidos pelo segundo escalão. Agora, temos dificuldades de nos reunir com o terceiro escalão.”

Essa turma faz o circuito tradicional dos investidores: Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília e sempre conversam com o mesmo grupo de economistas. O que tem me assustado é a velocidade da piora do humor desses investidores em relação ao Brasil. Isso significa relatórios mais pessimistas, diminuição da exposição das aplicações dos fundos que eles representam no Brasil e maior incerteza.

Infelizmente, além de eu não ter mandato para defender o governo, o máximo que consigo argumentar é que apesar de o cenário econômico ter piorado e não esperar nenhuma reforma substancial até as eleições, espero que o próximo governo retome a agenda de reformas. Sim, mesmo na hipótese de a presidente Dilma ser reeleita acho que haverá mudanças na equipe econômica e sempre recorro ao “pragmatismo da presidente” – “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. É claro que isso é uma aposta (e esperança), mas vale lembrar que o governo demonizava as privatizações e hoje jogou a toalha – começou a privatizar rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, etc., apesar das incertezas regulatórias.

Independentemente de o governo valorizar ou não a opinião de investidores externos sobre o Brasil, há hoje um déficit de confiança crescente em relação ao rumo da política econômica e os investidores começaram a apostar em um cenário muito pior para o Brasil; um cenário que estava completamente fora do radar há três anos.

Além do editorial desta semana do Financial Times (go-go to go-slow) que falou da falsa sensação de bem estar no Brasil, o relatório de hoje da consultoria de análise macroeconômica Capital Economics sobre o Brasil traz um cenário bastante morno e aponta corretamente o problema de nossa baixa taxa de poupança:

“Accordingly, without measures to raise domestic savings, it will be difficult to achieve a significant rise in investment. Among other things, this will require bold (and unpopular) welfare reforms, including to Brazil’s generous public pension system. And we doubt the government has the apetite for such measures, particularly with elections looming in 2014.

The upshot of all this is that Brazil’s savings – and investment – rate looks set to stay low by Emerging Markets standards. In macro-economic terms, this means that growth is likely to remain lacklustre and accompanied by relatively high rates of inflation. (from Why Brazil Must Save to Invest – Capital Economics May, 21st 2103).

Não há mais o que questionar, o humor do mercado em relação ao Brasil mudou e ainda não há sinais que o governo esteja conseguindo reverter as expetativas. Ao contrário, a cada visita desses investidores estrangeiros em Brasília eles saem mais pessimistas. Chegamos a um ponto, na minha modesta opinião, que o desafio agora não é apenas melhorar a comunicação com o mercado, mas sinalizar também mudanças concretas na política econômica, o que parece, por enquanto difícil.

13 pensamentos sobre “Piorou o humor do mercado com o Brasil

  1. Caro Mansueto, tudo bem? Venho acompanhado seus posts e também essa parte sobre a opinião dos investidores externos. Eles vêm dizendo já faz algum tempo que o cenário brasileiro não está muito favorável ao investimento. Dei uma olhada no saldo da conta financeira e de capital e dá para perceber uma queda em 2012, mas nos três primeiros meses desse ano o saldo é positivo e elevado, o que contradiz um pouco o que os investidores estão falando, não acha? Outro ponto é a ênfase no investimento. Nós já temos uma relação capital-produto elevada (em torno de 3, que é semelhante ao de países desenvolvidos, como os EUA) e o crescimento brasileiro é muito afetado pela PTF, historicamente, e me parece que esse é o problema atual. Será que não damos muita ênfase ao investimento (os economistas e a mídia de forma geral) e deixamos de olhar de perto essa variável que é essencial para gerar um crescimento sustentável? Tenho minhas dúvidas se as taxas de poupança e investimento no Brasil estão correlacionadas com a taxa de crescimento da PTF. Um grande abraço!

    • Luciano,

      tudo bem? acho que é preciso investigar um pouco mais os dados. De fato os dados de ingresso de capital não são ruins e o IDE para o Brasil nos últimos anos foi bastante positivo, apesar da percepção cada vez maior de deterioração, na margem, da política econômica. Mas acho que a composição do IDE tem modificado. Por exemplo, segundo trabalho do Credit Suisse, o IDE no Brasil vai preponderantemente para setor de serviços e setores da indústria que são menos expostos à concorrência internacional. Assim, o país pode estar piorando (competitividade internacional), mas ainda atraente para investimentos direcionados para setores com proteção natural (serviços) ou artificial (setor automotivo, por exemplo), pois temos problema de demanda e setores mais protegidos repassam aumento de custos para preços. Ou seja, a turma inda investe no Brasil mesmo acreditando que o país está se tornando menos competitivo.

      Quanto ao segundo ponto, a sua tese é a mesma defendida pelo Roberto Ellery da UNB que argumenta que o nosso problema não é investimento baixo mas a baixa PTF. Mas essa relação de causalidade está longe de ser consensual. O Bacha e Bonelli acreditam, por exemplo, que há learning-by-doing com o aumento do investimento, que aumentaria a PTF. E nos modelos de safra de capital o investimento é importante e tira parte da causalidade que imputamos à PTF.

      Adicionalmente, no caso do Brasil, estudos empíricos do Claudio Frischtak mostram que os investimentos em infraestrutura, nos últimos 10 anos, não foram suficientes nem mesmo para manter a qualidade da infraestrutura. E existe evidência que há sérios gargalos de infraestrutura no Brasil. Assim, tenho dificuldades de conciliar a visão macro que nossa taxa de investimento não é baixa com a evidência micro que aponta à péssima qualidade da nossa infraestrutura. Assim prefiro seguir a linha do Bacha e Bonelli e enfatizar as duas coisas: investimento e produtividade (PTF).

      Um último ponto. Se eu concordar com a sua opinião da PTF e do meu amigo Roberto Ellery teria razões para ficar mais e não menos preocupado. O crescimento da PTF depende de uma série de coisas (reformas institucionais) e tudo indica que estamos caminhando no sentido contrário d que deveríamos estar fazendo para aumentar a PTF: aumento da intervenção do governo na economia que aumenta o incentivo de rent-seeking; maior proteção comercial,aumento da exigência de conteúdo local, etc. Neste caso, como a agenda de reformas está parada, olhar para a PTF nos dá um cenário ainda mais pessimista. Não achas?

      Grande abraço, Mansueto

  2. Caro Mansueto, concordo que olhando para o cenário da PTF fica ainda mais sombrio, pois é mais difícil saber o que afeta a PTF, além da piora institucional que você mencionou. Concordo que o investimento em infraestrutura é essencial e também deve afetar a PTF. Obrigado pelo retorno. Um grande abraço! Luciano

  3. Mansueto, será que a percepção do investidor externo em relação ao Brasil piorou mesmo ??
    No triênio a findar em dezembro próximo, o ingresso via IDE baterá na casa dos US$ 200 BI, ou US$ 65 BI / ANO. “É pouca coisa ??”. Será mau humor ??
    Esses valores representam uns 40% da captação de todo o continente.

    Petrobrás ( US$ 11 BI ) e BRF acabaram de captar recursos externos via emissão de papéis, além da OAS, Santander, Fibra, etc….
    No caso da Petrobrás, a demanda chegou à casa dos US$ 60 BI.

    Nossos indicadores macroeconômicos estão todos, como já dito em outros posts deste mesmo blog, “bem comportados”, e com tendência alvissareira.

    Não há dúvida que nossa infraestrutura está por demais atrasada. Mas parece que, finalmente, a coisa começa a andar…..

    Um flanco que estava um pouco a descoberto era a inflação, e já vem tendo o devido tratamento pelo Bacen.

    “No mais” e na média, creio que estamos procurando fazer a coisa certa.

    • Hilário,

      Primeiro, olhe para o acumulado de JAN-ABRIL deste ano que o retrato não é tão bonito assim. Por exemplo, no caso do IDE, o valor liquido de ingresso passou de US$ 27,5 bi no ano passado p/ US$ 16,3 bi. Ou seja, na margem diminui o ingresso.

      Segundo, você vê alguma possibilidade de uma empresa como a Petrobras falir? eu não porque ;e uma empresa pública e ainda com reserva de mercado (no caso do pré-sal). O que a Petrobras fez foi lançar bônus – isso é dívida- e como é um empresa sem risco de falir poderia ate’ter vendis 4 vezes mais. Emprestar para a a Petrobras todo mundo quer ninguém quer mais é ser acionista da empresa.

      Terceiro, empresas privadas com o foco no mercado interno, principalmente no setor de serviços continuam sendo boas apostas para o Brasil. O que os investidores estão fugindo são de setores que estão sujetos à competição internacional pq o Brasil tornou-se um país caro.

      Quarto, a inflação continua como fonte de incerteza. A expectativa do mercado para este e para o próximo ano está em 5,8% e tem muita gente contado com mais uma onda de desonerações pontuais para segurar a taxa nesse patamar.

      Quinto, o déficit em conta corrente o aumentou muito (3% do PIB em 12 meses) para uma taxa de investimento ainda inferior a 20% do PIB. Se a taxa de investimento crescer o déficit em conta corrente cresce ainda mais. E o passivo externo líquido do Brasil que era de US$ 400 bi, no início de 2007, é hoje de US$ 800 bi. Isso significa mais obrigações no futuro o que vai exigir mais crescimento da exportação que hoje é incerto.

      Sexto, a divida pública bruta do Brasil não caiu nada desde 2007: 59% do PIB e a tendencia é aumentar porque o BNDES terá que subsidiar parte do investimento em infraestrutura. A nossa divida bruta é a maior da América do Sul e o dobro do nível dos países emergentes.

      Por fim, quando se olha para frente temos que o Brasil está no fim do bônus demográfico, o que puxa para cima gastos da previdência e da saúde segundo estimativas do próprio governo. Com tudo isso, o governo com a quantidade excessiva de intervenções pontuais conseguiu ainda mais aumentar a incerteza e os relatórios sobre o Brasil que tenho lido são cada vez piores.

      Acho que estamos fazendo a coisa errada e, quem quer que seja o próximo presidente, vai ter um grande trabalho para recuperar o otimismo com o Brasil. E na minha opinião se a presidente Dilma ganhar muda a equipe econômica. O cenário para o Brasil piorou.

  4. O Brasil, nada obstante “a tal crise de confiança do mercado”, ficou, em 2012, atrás apenas de EUA e China no que tange à absorção de investimentos externos diretos. E agora mesmo o leilão de blocos de petróleo, dirigido pela ANP, atraiu investidores externos —- o que foi um grande sucesso. Inclusive na receita dos bônus de assinatura.
    A Petrobrás é uma S/A, controlada pela União, e essas dificuldades pelas quais passa são conjunturais, apenas.

    O B.B., sim, fez uma IPO da BB-Seguridade que foi um êxito, inclusive com ampla participação de capitais externos.

    As captações via capital exigível por empresas financeiras e não financeiras têm ocorrido com freqüência e a taxas competitivas. Não estamos tão mal na fita assim…….

    A decorrência de um déficit em c/c não financiável é, e será a desvalorização da moeda nacional com inevitáveis impactos inflacionários, e o importante, nesta hipótese, será controlar e administrar a potencial desvalorização. Porém, não se vislumbra a curto/médio prazo esta possibilidade. Não esquecendo de nossas reservas cambiais.

    Mesmo com o chamado “aumento da incerteza”, o fluxo de capital estrangeiro tanto de IDE, como de capital exigível continua aportando à economia brasileira.

    Acho que estamos avançando. Ao nosso ritmo e velocidade, sim (lento). Mas a agenda proposta e que vem sendo realizada ( aos trancos e barrancos ) é atual.

    Um abraço

    • Sim, mas grande parte do dinheiro que entrou aqui está agora vindo da China. O Credit Suisse fez um trabalho e apontou que de 2009-2012, a principal fonte de recursos (país de origem) para F&A no Brasil foi a China. E na margem o IDE diminui. Ainda é bom, claro que é ma sele vai para setores ligados ao mercado doméstico – planos de saúde, seguradoras, mercado imobiliário, serviços alimentos, e/ou commodities etc.

      No caso do leilão do setor Petróleo, o leilão foi para exploração e as empresas participam desses leilões em qualquer lugar com o mínimo de segurança jurídica. Vale lembrar que esse modelo foi feito pelo regime antigo – modelo de concessão que vem desde 1997. Isso em nada indica “maior confiança no Brasil”.

      O IPO do BB se trata de uma aposta muito segura em um ramo -mercado de seguros- que o banco tem uma grande inserção por sua escala e que é um mercado (pelo pouco que conheço) de forte concentração. Há varias oportunidades de investimento no Brasil desde que ligados ao mercado doméstico e em setores que o governo não determine o preço.

      As captações de empresas cresceram e devem continuar crescendo pq com excesso de liquidez lá fora todo mundo estar atrás de tomadores de crédito. O Brasil está com um nível de reservas muito elevado (15% do PIB) e, assim, pegar emprestado todo mundo consegue, como as empresas conseguiram também na segunda metade dos anos 70. Isso não é sinal que aumentou a confiança. Ao contrário, começo a me preocupar com isso porque a divida externa privada passou a crescer muito rápida.

      Quanto a conta corrente, ninguém vislumbra crise alguma. Apenas que a magnitude de sua deterioração de 2006 para 2012 foi muito rápida e a tendência e piorar. Ao contrário dos outros países da Am. Latina, o Brasil é o mais dependente do resto do mundo apesar da taxa de investimento inferior a 20% do PIB.

      O que me preocupa é isso, na margem, os indicadores estão piores e os velhos problemas continuam. Não é que vamos ter crise, mas que houve sim uma piora no mix de política econômica e um governo que parece perdido – após os anúncios das concessões todas as semanas ou meses a regras são modificadas.

      Vamos ver no que isso vai dar. Abs,

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  8. Não temos que melhorar a comunicação e sim trocar o comando, ela é ruim e vários amigos empresários já sentiram isso.Dilma foi um erro ,só que em um estado paquidérmico como o Brasil,que controla um montão de grana poucos tem coragem de falar isso em público.

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