Perspectivas nebulosas para 2015

Na minha visão, a cada dia que passa se cristaliza um cenário complicado para a economia brasileira ao longo dos próximos dois anos. A economia do governo federal (resultado primário) já vem se reduzindo pela combinação de queda de arrecadação com crescimento forte do gasto público e a redução do juros não terá o efeito positivo esperado. Ademais, a queda da conta de juros do setor público, que passou de 5,7% do PIB, em 2011, para 4,8% do PIB, em 2012, não se transformou em poupança do setor público, mas sim em aumento de gastos de custeio.

Para piorar o cenário, o governo federal sinalizou que o objetivo do superávit primário não será mais a redução da dívida, mas a expansão da economia.  Simultaneamente, como o governo vem promovendo novas desonerações, sem redução do gasto, a situação fiscal tende a piorar este ano e no próximo que é ano de eleição, quando os gastos, naturalmente, crescem. E vale lembrar que os Estados e Municípios estão recebendo sinal verde para aumentarem a dívida.

O BACEN, por sua vez, começou a corrida para combater a alta inflação de forma tímida e “correndo atrás”  do mercado. O banco parece ter confiado, excessivamente, na postura fiscal do governo que tem um discurso de austeridade que não corresponde à realidade.

Para piorar ainda mais o cenário, a expansão da divida bruta para emprestar para bancos públicos vai continuar e, em 2015, se a taxa de desemprego nos EUA voltar para o patamar de 6,5%, é possível que a politica monetária por lá volte a se preocupar com inflação e menos com liquidez e crescimento.

Dado o cenário acima, independentemente de quem seja o presidente, em 2015, ele (ou ela) terá um primeiro ano de governo muito difícil, com resultado primário baixo, inflação muito acima do centro da meta e com a indústria ainda enfrentando os mesmos problemas de hoje. Não é um cenário de crise, mas um cenário de inflação elevada e crescimento por volta de 3% ao ano.

Em anexo, a entrevista que dei ao jornal Valor Econômico sobre o cenário descrito acima  (clique aqui) e a entrevista do Armando Castelar do IBRE, no Estado de São Paulo (clique aqui), que segue a mesma linha do que falei. É claro que gostaria de estar errado e que o Brasil crescesse 4,5% com inflação convergindo para o centro da meta. Mas não acredito nisso e, cada vez que converso com amigos que trabalham em bancos e consultorias, noto que todos estão com cenário parecidos. Não é um cenário de crise, mas um cenário de crescimento medíocre e sem espaço fiscal para o governo promover um forte desoneração da indústria.

Por culpa exclusivamente nossa, nos metemos em uma armadilha que a China não poderá resolver por nós. E o fato de termos confiado excessivamente no boom de commodities e parado a agenda de reformas está cobrando agora o seu preço. Matéria de hoje do Financial Times coloca o Brasil junto a Argentina e Venezuela como nossos parceiros de baixo crescimento (clique aqui) e, há duas semanas, Marcos Lisboa do INSPER mostrou em artigo para o jornal Valor (clique aqui) que passamos nos últimos anos por um período de “retrocesso institucional”. Nas palavras dele:

“A opção por soluções institucionais e políticas horizontais, que não escolham privilegiados, adotada pelo governo FHC e pelo primeiro Lula, tem sido sistematicamente revertida desde meados da década passada, sobretudo após 2008. A política oportunista prefere defender que medidas de austeridade não são necessárias, acreditar que a concessão de privilégios aos próximos do governo estimula o espírito empreendedor bem como o crescimento econômico e escolher vilões para responsabilizar pelas eventuais frustrações. As soluções oportunistas podem postergar o enfrentamento das dificuldades existentes, porém adicionam novos e crescentes problemas e, progressivamente, nos condenam de volta à mediocridade. ” (Marcos Lisboa, 2013)

Por enquanto, não dá ainda para ser otimista, mas torço para que o governo consiga reverter esse cenário pessimista que eu e outros analistas enxergamos.

8 pensamentos sobre “Perspectivas nebulosas para 2015

  1. Infelizmente, estamos caminhando para o buraco, tomara que não chegemos ao fundo. Ainda há tempo para mudar essa politica econômica de privilégio aos amigos da coroa. Reduzir os gastos em época de eleição cuja campanha já esta na rua é dificil e gera perda de apoio dos amigos dos cofres públicos.
    Só mente Deus pode nos salvar nesta situação.
    Tomara que estejamos errados e a turma dos trapalhões esteja certos.

  2. 2015?
    Duvido que segurem o rojão até as eleições.
    Serão obrigados a subir juros e soltar as amarras do dólar muito antes disso e o país vai explodir.
    O custo de vida vai se tornar escorchante para o bananense ufanista de outrora…

    Infelizmente ja passamos do ponto de ruptura. Agora é beber a agua até o final!

  3. Concordo com sua entrevista. Só adiciono em 2015 uma crise imobiliária no Brasil, caso haja aumento dos juros americanos.

    E não há mínima esperança deste cenário ser alterado. Em 2013, nenhum movimento de diminuição do custeio público. Em 2014, vão ser gastos públicos no piloto automático.

  4. “Ingressamos nessa nova fase de crescimento, entre 2003 e 2004, com uma poupança altíssima, de 4,2% do PIB”

    No caso, poupança externa?

    • Na verdade estava pensado em superávit primário e não poupan.ca. Acho que na hora fui falar em economia do governo e devo ter tido “poupança” ao invés de superávit primário. Mas o que quis dizer foi superávit primário.

  5. Concordo com caro marcelo vasconcelos, acredito numa crise imobiliária para 2015, pois o aumento dos imoveis chegaram ao limite e agora tendência será queda de imoveis.

  6. Fico muito triste com este cenário que vocês estão prevendo. Espero que estejam enganados, mas o Brasil é um País que nunca consegue resolver seus problemas mais básicos. Ex.: A construção de uma refinaria que deveria durar 3 ou 4 anos demora o dobro do tempo, com um custo 6 vezes maior. A morosidade na implantação de infraestrutura contribui muito para uma estagnação econômica. A crise que poderá acontecer em 2015 é muito complexa e deverá ser a maior prova de fogo para a frágil democracia brasileira. Esta é uma realidade que teremos que enfrentar.

  7. em 2015 teremos uma crise economica gigantesca acompanhado de recessao. PIB em queda ano a ano, inflacao aumentando gradativamente, divida interna altissima (aumentando mais ainda por causa da Copa/Olimpiadas), endividamento maior do povo brasileiro, saida brusca de investimentos estrangeiros, etc. Preparem-se para o Apocalipse. Economizem meus amigos ! guardem dinheiro e contentem-se com o que voces tem agora !

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