Análise de conjuntura: razões para ficar pessimista

A sucessão de notícias negativas para economia brasileira nos últimos meses são as seguintes: 1) inflação em alta (projeções para este e o próximo ano por volta de 6%); 2) redução da meta do resultado primário, 3) crescimento do déficit em conta corrente (3% do PIB em 12 meses); 4) atrasos no cronograma de concessões das rodovias e ferrovias, 5) forte redução no saldo da balança comercial (menos de US$ 10 bilhões projetado para 2013 e 2014 – pior resultado dos últimos 12 anos); 6) fraca recuperação da indústria; 7) valorização do Dólar devido à recuperação em curso da economia americana, e 8) crescimento fraco do PIB (crescimento médio projetado entre 2,3% aa e 2,5% aa para 2011-2014).

Dado esse cenário, o aconselhável seria tentar  melhorar os fundamentos da economia para que o crescimento seja retomado em bases mais sustentáveis nos próximos anos– mas no meio do caminho há uma eleição. Se o governo ficar muito preocupado e adotar novas medidas com o foco no curto-prazo, corre-se o risco de piorar ainda mais o cenário para o médio prazo.

O problema do excesso de ativismo do governo com a sua agenda de curto prazo foi que essa agenda ocasionou novos desequilíbrios. As desonerações, por exemplo, aumentaram o risco fiscal, pois essa agenda teve início sem que se tenha criado o espaço fiscal adequado. Logo, as desonerações resultaram na forte redução do primário e aumentaram a incerteza quanto a trajetória de redução da Dívida Líquida do Setor Público (DLSP).

Por sua vez, o gasto público continua crescendo à mesma taxa de anos anteriores. O  resultado do Tesouro Nacional divulgado no dia 29 de maio veio muito ruim. De janeiro a abril deste ano, a despesa primária do governo federal cresceu R$ 34 bilhões, sendo que, desse total, o crescimento do investimento foi de apenas R$ 1,9 bilhão; ou 5,6% do crescimento da despesa.

Do lado da despesa, portanto, o crescimento do gasto não é anticíclico. É aumento de gasto permanente e não poderá ser revertido nos próximos anos. O que exatamente aconteceu com a despesa? Isso vou detalhar depois de olhar os dados com mais cuidado, mas não estou otimista. Vale lembrar que, neste ano, o crescimento real do salário mínimo foi de 2,7% (crescimento do PIB de 2011), ante o crescimento real de 7,5% no ano passado.

Mesmo assim, o crescimento da despesa primária do governo federal este ano até abril foi semelhante ao crescimento do mesmo período do ano passado, crescimento nominal de 13%, com piora na margem,  pois o crescimento do investimento (inclusive com o Minha Casa Minha Vida) foi menor.

Em relação ao Minha Casa Minha Vida, esse programa, no ano passado, ajudou ao governo turbinar a estatística de investimento público. Acontece que não se espera mais crescimento forte dessa despesa e, assim, apesar do valor elevado dessa conta (mais de R$ 10 bilhões), ela não mais contribuirá para o crescimento do investimento. O que tem puxado o investimento para baixo é o Ministério dos Transportes. Neste ano até abril, o investimento do Ministério dos Transportes acumulou R$ 2,8 bilhões, um crescimento de R$ 450 milhões frente ao mesmo período do ano passado, mas ainda muito inferior aos R$ 4,5 bilhões que esse ministério investiu no primeiro quadrimestre de 2011 – queda nominal de quase 40% em relação aos primeiros quatro meses do mandato da Presidenta Dilma. Ao que parece, o ministério do transporte ainda não se recuperou totalmente da faxina nos seus quadros no final do primeiro semestre de 2011.

No caso da despesa primária do governo federal, acho que será cada vez mais provável o seguinte cenário: como percentagem do PIB, o governo Dilma será o governo mais gastador do Brasil desde 1999, quando o país começou o tripé macroeconômico baseado no regime de metas de inflação, regime de câmbio flutuante e metas de resultado primário.

É provável que a despesa primária termine o governo Dilma por volta de 19,45% do PIB, crescimento de 2 pontos do PIB frente ao último ano do governo Lula (17,43% do PIB) e sem aumento significativo do investimento público.

Gráfico 1 – Crescimento da Despesa Primária 1999-2014* – pontos do PIB

Conjuntura01

OBS: 1/Crescimento projetado para despesa primária nominal, em 2013 e 2014 de, respectivamente, 11% e 14%.

2/ Não inclui capitalização da Petrobras de 2010.

Isso significa que o crescimento da despesa primária, no mandato da presidenta Dilma, seria superior aos oito anos de governo Lula. Não é que o governo Lula foi mais econômico, mas que o governo atual trabalhou com uma agenda de expansão do gasto na expectativa que o crescimento do PIB ficasse entre 4% e 4,5% ao ano. Como o crescimento do PIB no governo Dilma será baixo (algo próximo a 2,3% aa), a despesa terá um crescimento forte (% do PIB).

Crescimento do PIB por mandato presidencial – 1995-2014*

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OBS: Crescimento real projetado para o PIB em 2013 e 2014 de, respectivamente, 2,5% e 3,3%.

Assim, a cada dia que passa, se configura um cenário fiscal difícil para o próximo governo, que será um governo de ajuste, terá que cortar subsídios e explicitar no orçamento despesas que estão sendo postergadas como, por exemplo, os pagamentos de subsídios do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Adicionalmente, o próximo governo terá uma tarefa difícil para convencer as centrais sindicais dos riscos de se renovar a regra de reajuste atual do salário mínimo.

Por fim, como ocorreu uma antecipação do debate eleitoral, é difícil acreditar na retomada de uma agenda de reformas antes das eleições do próximo ano. Se o tempo econômico vai esperar o tempo político não sei e, por isso, estou pessimista. Como o calendário eleitoral ainda está longe, corremos o risco de passar quase um ano e meio, administrando o dia a dia, sem nenhuma reforma econômica significativa e sem melhora no cenário econômico para os próximos anos.

E para piorar o cenário descrito acima, o BACEN, corretamente, fez opção por uma postura mais agressiva no aumento de juros em 0,5 ponto para tentar recuperar a confiança do mercado e ancorar novamente as expectativas de inflação. O que não é certo é se conseguirá essa façanha sem aumentar a taxa de juros SELIC para dois dígitos.

Qualquer que seja o ângulo que se olhe hoje para a economia brasileira não há como ser otimista. E o maior culpado pelo que está acontecendo não é a crise, mas os excessos cometidos pela equipe econômica desde 2006, quando se acreditou que a agenda de reformas estava completa e que o governo poderia liderar o crescimento do investimento doméstico por meio do crescimento do investimento público e de incentivos setoriais via bancos públicos financiado com a expansão da dívida pública.

Infelizmente, a estratégia de política econômica do governo não deu certo. Agora, com esse cenário mais pessimista, será que o governo terá a humildade de aumentar o diálogo com empresários e economistas que divergem da sua política econômica e escutar sugestões? Acho difícil a não ser que o cenário descrito acima piore ainda mais.

Crescimento do PIB de 0,6% no 1o TRIM: isso é uma piada!

Já havia alertado neste blog (PIB no Brasil: o gato subiu no telhado) sobre a continua revisão para baixo das expectativas de crescimento do PIB para este ano. Mas o dado divulgado pelo IBGE hoje de crescimento no trimestre de apenas 0,6% ante o último trimestre de 2012 foi muito pior do que o consenso médio do mercado esperava (crescimento de 0,9%). Assim, a turma que faz projeção está trabalhando duro hoje rodando os modelos e o BACEN terá uma decisão difícil pata tomar mais tarde. 

Mas o relatório que acabo de receber do Credit Suisse, que estimava um crescimento do PIB de 4% para este ano, já descarta tal possibilidade. O banco, que no ano passado foi um dos primeiros a apontar o baixo crescimento, escreve hoje no relatório para seus clientes que:

The 1Q13 figures show that the economy is not accelerating as much as we would expected, in view of the government stimulus measures implemented in the last few quarters. Thus, GDP growth in 2013 might be much lower than we had previously forecasted. The 1Q13 GDP result and its breakdown increase the probability of GDP growth below 3.0% this year. For instance, GDP growth of 0.5% qoq in the next three quarters would lead to GDP growth of around 2.0% this year, while a 1.0% qoq growth throughout the year would result in GDP growth of 3.0% in 2013.”

Apostar agora em crescimento do PIB de 3% para 2013 passou a ser ser projeção otimista. E olha que mesmo os pessimistas do mercado achavam há 3 meses que crescer 3% (ou um pouco mais) seria possível. Agora, todo mundo vai namorar com um número por volta de 2,5% (pode ser um pouco acima ou um pouco abaixo) e rezar para que o cenário não fique ainda pior.

E tem como piorar? claro que tem. A recuperação dos EUA com a valorização do dólar pressiona a taxa de câmbio e põe mais fogo na inflação, a deterioração do saldo da balança comercial foi muito rápida e tem gente no mercado que já fala de superávit da balança comercial de apenas US$ 4 bilhões este ano (ante US$ 19,4 bilhões, em 2012, que já havia sido o pior resultado em 10 anos), e muita gente começou a rever para cima projeção de inflação. O economista Affonso Celso Pastore no seu último relatório já estima que a taxa de inflação este ano pode bater em 6,1% e 6,5% no próximo.

Há mais tem a notícia boa do investimento? Bom, se você for otimista e acreditar vai ocorrer um boom de investimento então você tem que piorar ainda mais o seu cenário de inflação e o cenário de déficit em conta corrente. O mais provável é que o investimento cresça um pouco este ano e menos (ou a mesma coisa se este ano for muito ruim) no ano que vem.

Em resumo, o cenário de crescimento baixo e inflação elevada está cada vez mais se consolidando. E os sinais que vem da Esplanada dos Ministérios são os piores possíveis. Hoje, até os bons técnicos do Ministério da Fazenda estão mudos e alguns  fizeram voto temporário de silêncio não por questões religiosas, mas para não mostrarem as discordâncias com os seus superiores.

Gasto com passagens de avião é sinal que o governo é perdulário?

Ontem, domingo dia 26 de maio, matéria de capa do jornal o Estado de São Paulo chamava atenção para um estudo da Controladoria Geral da União (CGU) no qual apontava desperdício e a falta de planejamento generalizados na compra de bilhetes aéreos por órgãos do governo federal (clique aqui). O título da matéria destacava que o relatório da CGU afirmava que o governo federal era perdulário nas compras de passagens aéreas, identificando, por exemplo, diferenças de preço na compra de passagens para o mesmo trecho de até 155%.

Há vários problemas com esse relatório do CGU e a interpretação que alguns leigos podem dar à matéria. Será que relatório do CGU analisado pelo O Estado de São Paulo é evidência de que o governo é perdulário? A resposta é não.

Primeiro, os dados estão até subestimados, pois falam de uma gasto com passagens de R$ 1,2 bilhão de 2011 até 15 de maio de 2013. Apenas em 2011 e 2012, sem contabilizar 2013,  o gasto do governo federal com passagens e despesas de locomoção foi de R$ 1,6 bilhão. No entanto essa despesa nos dois primeiros anos do governo Dilma cresceu apenas R$ 32,6 milhões, crescimento nominal de 3,3% que foi muito abaixo da inflação de 2011 e 2012. Assim, ao longo dos dois primeiros anos do governo Dilma,  o gasto com com passagens e despesas de locomoção teve queda real.

Gráfico 1 – Gastos com Passagens e Despesas com Locomoção – 2009-2012 R$ milhões correntes

Passagens

Fonte: SIAFI. Elaboração: Mansueto Almeida

Segundo, diferença de preços de até 155% para um mesmo trecho está longe de ser evidência de planejamento deficiente. Viajar no setor público exige que se faça o pedido da passagem com 10 dias de antecedência. Mas, se a viagem for de emergência, o preço que se paga é absurdo, mas isso vale para setor público e privado. Os jornalistas inclusive sofrem quando precisam se descolocar de última hora por causa de uma entrevista que só foi confirmada com um ou dois dias de antecedência em outra cidade. É absurdamente caro no Brasil comprar passagem de avião para viajar na mesma semana.

Terceiro, a despesa primária no Brasil, em 2012, foi de R$ 804,7 bilhões (18,24% do PIB). Desse total, o gasto com passagens e despesas de locomoção foi de R$ 1 bilhão, ou 0,12% da despesa primário do governo federal, equivalente a 0,02% do PIB. Ou seja, na hipótese absurda que nada fosse gasto com passagem de avião, mesmo assim, a economia para o governo federal seria de 0,02% do PIB, i.e. a despesa primária do governo federal teria sido de  18,22% do PIB ao invés de 18,24% do PIB. É uma economia muito pequena.

Quarto e último ponto, isso não significa que não seja preciso controlar esse tipo de despesa. É preciso e deve ser controlado porque, quando se olha o dado por ministério, há sim grandes anomalias que não se consegue explicar. Na tabela em Excel anexa (clique aqui) mostro o gasto com passagem de avião por ministério para 2009, 2010, 2011 e 2012.

É possível destacar os seguintes pontos: (i) ministério do planejamento e o do meio ambiente tiveram gastos “anormais” com passagem de avião em 2010, por que? (ii) de 2010 a 2012, Câmara dos Deputados, TCU, Justiça do Trabalho, ministério da previdência, ministério da ciência, tecnologia e inovação, Min. Público, entre outros aumentaram as despesas com passagens acima de 50%. Por que? O que aconteceu para justificar um crescimento dessa magnitude; e (iii) os dois ministérios que mais gastam com passagens de avião são o da educação e o da defesa. Mas não se observa nesses casos nenhum anomalia de crescimento.

Em resumo, o gasto total do governo federal com passagens de avião, R$ 1 bilhão, em 2012, é pouco para explicar a dinâmica do crescimento do gasto do governo federal. Mas quando se olha a despesa por ministério, há várias anomalias que não se consegue explicar e que precisam ser investigadas, como já destacado acima.

Infelizmente, não há como falar em economia fiscal sem que se olhe para a composição da despesa social e as regras que afetam o crescimento dessa categoria da despesa. Se o problema fosse passagens de avião, seria muito mais fácil resolver.

Frase da Semana: Marcelo Odebrecht

Alguém me enviou e achei fantástico o resumo da Conferência Internacional Itaú BBA+ do dia 25 de abril de 2013, em São Paulo. Em especial, gostei muito do seguinte ponto do discurso do empresário Marcelo Odebrecht, presidente da Odebrecht S.A.:

De forma geral, as oportunidades no Brasil, segundo o executivo, são maiores para quem “está mais perto da mãe natureza”. Para ele, quanto mais avançado na cadeia produtiva industrial estiver o negócio, e quanto mais tradable for o produto, maiores são as dificuldades.

“Como país, somos caros e tendemos a permanecer caros nos próximos anos”, avaliou, ressalvando que os serviços são favorecidos por não sofrerem o mesmo nível de competição internacional. A ordem do jogo agora é aumentar a produtividade.

Antes que alguém venha me chamar de pessimista, quem falou isso não fui eu, mas sim o presidente de um dos grupos empresariais mais fortes do Brasil e com livre acesso ao  ex-presidente Lula e à Presidente da República.

PIB no Brasil: o gato subiu no telhado

A cada semana, os dados de projeção do crescimento esperado do PIB para este ano, infelizmente, pioram. Nesta semana, a mediana das projeções do relatório FOCUS para o crescimento do PIB este ano rompeu a barreira de 3% e cravou 2,98%, É claro que essas projeções são passiveis de revisões com as divulgações dos dados pelo IBGE.

Mas, por enquanto, o cenário de crescimento é cada vez menos animador. O novo boletim de conjuntura do IBRE-FGV de maio de 2013 joga um balde de água fria quando se olha para os próximos meses. Como fala o relatório na p. 9: “Fatores transitórios explicam, em grande medida, o crescimento de 1,0% no primeiro trimestre. Mas, para o restante do ano, um cenário de crescimento morno ainda é o mais provável.”

Um dado que preocupa são as sondagens empresariais e do consumidor do IBRE-FGV. A reversão para cima dos índices de confiança setoriais ainda não ocorreu e o índice de confiança do consumidor despencou (ver os gráficos abaixo). Ou seja, empresários e famílias estão preocupados. Leiam o relatório de conjuntura do IBRE-FGV que está muito bom.

Figuras IBRE

Adicionalmente, um sinal muito claro da reversão do otimismo para o crescimento do PIB este ano foi um relatório recente do Credit Suisse. O banco era um dos mais otimistas do mercado e apostava em crescimento do PIB de 4% este ano. Mas no seu relatório desta semana, os analistas do banco já alertam que essa aposta poderá ser revista:

Reconhecemos que uma expansão do PIB no 1T13 versus o 4T12 de 1,0% ou inferior a esse patamar aumenta a probabilidade de um crescimento do PIB em 2013 inferior à nossa projeção formulada em novembro de 2012 de 4,0%. Não obstante, um crescimento do PIB no 1T13 ante o 4T12 de 1,0% indica que a expansão da economia em 2013 tende a ser, provavelmente, superior a 2,5%.” (Credit Suisse, Macro Brasil 22 de maio de 2013)

Agora, vamos torcer para que ninguém comece a namorar com 2,5% porque isso seria um completo desastre e sinalizaria mais um ano de crescimento baixo e inflação alta. A propósito, é claro que o Brasil não pode mais crescer à taxas de 7% ao ano. Mas para um país de renda média (US$ 12.000) deveríamos crescer pelo menos entre 4% a 5% ao ano, que era a expectativa de muitos de nós economistas antes de 2009.

Infelizmente, o nosso cenário de crescimento mudou, estruturalmente, para pior. Antes que alguém diga que o FMI ainda projeta crescimento do PIB no Brasil de 4% ao ano a partir do próximo ano, quero dizer que Fundo já reconhece que sua projeção é otimista e, mais cedo ou mais tarde, poderá (ou deverá) rever as projeções para o Brasil.

Antes que alguém diga que crescer 2,5% ao ano é melhor do que países da Europa, essa comparação é totalmente descabida. O que vamos fazer rezar ou chorar? Nenhuma das duas coisas. Vamos escrever, falar e argumentar para que o governo retome a agenda de reformas institucionais e que possamos recuperar o nosso otimismo. Se não der certo, ai sim poderemos começar a rezar ou chorar.

Quem é a nossa presidente?

O jornal Valor Econômico desta sexta-feira traz um matéria interessante sobre o estilo de comando da nossa presidente Dilma Rousseff. Vale a pena ler a matéria que vai ao encontro do que se escuta nas conversas de bar, em Brasília. Quero destacar quatro parágrafos da matéria:

O estilo “mandão” de Dilma era conhecido desde que se tornou ministra das Minas e Energia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Outros traços marcantes apareceram ou se tornaram mais visíveis quando chegou à Presidência. “Eu sou a presidenta, eu posso”, passou a ser frase rotineira em conversas com assessores próximos. Alguns pensavam, mas não diziam: “Pode, mas será que deve?”.

…….

Ela está cercada de pessoas medíocres, que não a questionam. Todo mundo morre de medo dela. Ela não tem humildade para escutar os outros. Não dá para ter 39 ministérios, 39 subordinados. Em uma empresa, esse modelo não funcionaria”, disse um alto executivo de um banco de investimento. A imagem de pessoas centralizadoras hoje está muito associada a empresas de donos, fundadores de grandes grupos de primeira geração. “Fui muito centralizador, mas esse modelo não funciona mais. Tem que delegar e ouvir mais”, disse um grande empresário do setor de infraestrutura e energia“.

……..

“O processo de governo é muito ruim”, diz um ministro que tem uma pilha de projetos sendo “espancados” na Casa Civil. Os empresários criticam os ministros e os ministros, com raras exceções, criticam a Casa Civil da ministra Gleisi Hoffmann, habitada, segundo eles, por técnicos jovens, inexperientes e, às vezes, arrogantes.Não é raro um deles ligar para um ministro de Estado a fim de tomar satisfações sobre algum projeto”

…..

“Na equipe econômica chama-se as escolhas de Dilma de “estilingadas”, decisões que, depois de tomadas, batem num muro e voltam. Só um ano e meio depois de estar no comando do governo ela se convenceu de que o Estado brasileiro não está em condições de investir e admitiu fazer as concessões. Ainda assim, tabelou por baixo o lucro das empresas, no caso das rodovias. Voltou atrás, quando percebeu que não daria certo.”

Acho que os trechos acima dão uma boa ideia da gestão centralizadora do governo. O que me impressiona é por que a presidente só conheceu os limites da maquina pública para fazer investimento depois de um ano e meio do governo, se ela já era ministra da casa civil. Espero que a presidenta continua identificando as falhas do seu governo e adotando essa postura pragmática de voltar atrás e mudar.

O problema é que agora, com o clima eleitoral nas ruas, ninguém espera mudanças substanciais até as eleições. Assim, essa tarefa será do próximo presidente, quem quer que seja ele ou ela.

Pedro Passos e o Novo Mapa de Competitividade da Indústria.

Já há algum tempo tenho observado as opiniões do empresário Pedro Passos da Natura e presidente do IEDI. As suas declarações agradam tanto defensores quanto críticos da política industrial e mostra que, talvez, suas ideias seja o que se poderia chamar de o “denominador comum” nesse debate.

O empresário deu uma entrevista para a coluna da Maria Cristina Farias, na Folha (clique aqui), e deu uma palestra no fórum de BioEconomia, em outubro de 2012 (vídeo pode ser assistido aqui), onde destaca que: (i) o governo ajuda excessivamente o setor automobilístico, que para ele é desnecessário; (ii) fala que os incentivos à inovação no Brasil são baixos e a economia ainda é excessivamente fechada, (iii) o Mercosul hoje mais atrapalha do que beneficia a  inserção externa de empresas brasileiras, (iv) precisamos estabelecer metas para educação – conseguir nos próximos vinte anos estar entre os dez melhores países do mundo na qualidade de educação (medida pelo PISA), (v) reduzir  a proteção da economia, etc.

Quais setores da indústria o Brasil deverá promover para ser mais competitivo? Nos pronunciamentos do empresário isso não parece ser importante. O que parece ser mais relevante é o fomento à inovação e maior integração com o resto do mundo que, naturalmente, favoreceria os setores da indústria mais ligados aquelas cadeias produtivas que Brasil já tem vantagem comparativa. Assim, nossa política seria diferente tanto do modelo Coreano quanto da política de estímulos setoriais que o Brasil tem feito intensivamente desde 2008.

O pensamento do presidente do IEDI me parece algo muito particular dele, não sei se é consenso no próprio IEDI. No entanto, e para a minha surpresa,  o novo mapa estratégico da indústria da CNI (clique aqui), divulgado esta semana, vai ao encontro das opiniões que Pedro Passos vem defendendo. O novo mapa estratégico da indústria da CNI parece corroborar a tese de críticos da política industrial de que a competividade da indústria depende pouco  ou nada de estímulos a setores da indústria (política industrial) e muito mais de medidas horizontais e consistência das políticas macroeconômicas.

O mapa fala de controle dos gastos públicos, aumento do investimento público, melhoria da qualidade da educação, segurança jurídica, produtividade, eficiência do Estado, tributação, produtividade, etc.  O documento quando fala de políticas setoriais na p. 59 –exatamente três parágrafos- o faz de maneira tímida. Assim, ao que parece, a própria CNI não acredita mais em política industrial. Não seria então o caso de a entidade deixar isso claro para o governo?

É verdade que no mapa há uma macrometa de aumentar de 1,7% para 2,2% a participação do valor adicionado da manufatura no Brasil em relação ao valor adicionado da manufatura no mundo, mas isso pode ser alcançado com a sensível diminuição da participação de vários setores da indústria de transformação (o que é provável acontecer) na economia brasileira.

Adicionalmente, ao contrário do Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), de 2008, ou do Plano Brasil Maior, de 2011, o mapa estratégico da indústria não cita um única vez, nas suas 141 páginas, nenhum setor econômico específico como confecção, têxtil, química, etc. Ou seja, o mapa de competitividade da indústria é talvez o melhor documento contra a política indústria nos moldes que se faz hoje. Resta saber se de fato ele reflete o pensamento dominante da CNI ou se é um conjunto de idéias além das políticas setoriais que a instituição tradicionalmente defende.

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Fonte: Mapa Estratégico da Indústria, CNI.