Existe um modelo Latino Americano?

De uma forma geral, podemos definir o crescimento da América latina, a partir de 2002, como resultado de: (1) reformas liberais da década de 1990, (2) crescimento maior da China (10,5% ao ano 2002-2011) e do mundo; e (3) o impacto que esse crescimento maior do mundo e da China teve nos preços das commodities agrícolas e minerais, que reduziu a restrição externa e fiscal para o crescimento dos países da América Latina.

Os gráficos abaixo mostram o crescimento do preço das commodities com base nos dados do World Economic Outlook do FMI, com a projeção para 2013 e 2014.

Gráfico 1 – Índice de preço das commodities (inclui petróleo) 1992-2014* (índice 2005=100)

GRAF1

Gráfico 2 – Índice de preço das commodities agrícolas – 1990-2014* (índice 2005=100)

GRAF2

 

Gráfico 3 – Índice de preço das commodities minerais – 1990-2014* (índice 2005=100)

GRAF3

Como já falei antes neste blog (clique aqui), não consigo ver um modelo de crescimento da América Latina ou brasileiro que poderia ser exportado para outros países.

O que se chama de “nova política social” não é algo exclusivo do Brasil. Quase todos os países da América Latina implementaram reformas ao longo da década de 1990 para reduzir o custo da previdência nas contas públicas e passaram a adotar programas sociais mais baratos e direcionados ao combate da extrema pobreza, entre os quais os programas de transferência de renda condicionada. Além disso, em vários países, houve um aumento do investimento em educação básica, como foi o caso do Brasil, e reformas no sistema de saúde pública.

Depois do período duro de reformas e com o boom de commodities, os governos puderam expandir programas sociais e ganhar a aprovação do eleitor. O que pouco se destaca no meio político foi o esforço dos governos que “limparam a casa” na década de 1990. Com exceção de um ou outro caso, essa é a história da América Latina, desde 1990, e acho difícil se falar em modelo Latino Americano e em modelo brasileiro, pois estamos apenas tentando fazer o catching up com países da OCDE e montar a rede de assistência social que esses países montaram no pós-guerra. É bom, lembrar que mesmo um dos países mais liberais da Europa, a Inglaterra, tem educação básica pública e gratuita, quase todas as universidades são públicas (mas cobram anuidade) e sistema de saúde universal público.

O que o Brasil e América Latina podem ensinar ao resto do mundo? Sinceramente é algo que não tenho a resposta, pois a América Latina não é um grupo homogêneo e, no caso do Brasil, continuo com a impressão que temos mais a aprender do que ensinar.

É claro que podemos ajudar países mais pobres com transferência de tecnologia via EMBRAPA, desenhar e implementar reformas do setor público, melhorar a focalização da politica social, e replicar alguns programas específicos (microcrédito do BNB,  testes de avaliação das escolas e alunos, etc). Mas o que temos a ensinar do  ponto de vista macro é muito mais baseado no que fizemos entre o final da década de 1980 até 2005, o período caraterizado pelas reformas institucionais e abertura da economia, do que pelo que temos feito desde 2006, que foi muito mais colher os frutos do crescimento do resto do mundo e do conjunto de reformas, que parou em 2005.

Assim, fico curioso para saber o que o ex-presidente Lula poderá ensinar ao mundo por meio de sua coluna mensal no jornal The New York Times. Se ele mostrar que o crescimento da economia brasileira não decorreu apenas de medidas de seu governo, acho que será muito bom, inclusive se ele mostrar as reformas que ele próprio patrocinou e loucuras que foram sugeridas a ele e que ele abortou. Mas se tentar vender lá fora o que seu partido tentou vender aqui dentro, que o sucesso de seu governo foi resultado de medidas heterodoxas, será uma grande decepção, pois isso não é verdade.

O que fascina os estrangeiros sobre o Brasil e o governo Lula é justamente o Brasil não ter seguido os passos da Argentina e Venezuela, apesar do apoio incondicional do governo brasileiro, desde 2003, a esses dois países. Espero que o ex-presidente Lula saiba disso e que tenha consciência que ele pode ensinar muito mais baseado no que fez no seu primeiro mandato (aqui estou falando de reformas econômicas) do que pelo que fez no segundo.

6 pensamentos sobre “Existe um modelo Latino Americano?

  1. Mansueto

    Essa notícia do Lula colunista do NYT precisa ser melhor entendida. Não é coluna fixa no jornal, mas um produto que será vendido pela agência de notícias do NYT. Há uma diferença, portanto.

    No ano passado, aconteceu o 9º Congresso Brasileiro de Jornalismo da ANJ: “Conheça o CBJ: “Jornalismo e inovação – construindo novos modelos de negócios” será o tema do 9º Congresso Brasileiro de Jornais (9º CBJ), a ser realizado nos dias 20 e 21 de agosto de 2012, no Sheraton São Paulo WTC Hotel.”

    Presentes ao evento o Financial Times e o NYT. Ambos interessados no mercado brasileiro. O FT anunciou que iria testar no Brasil um sistema digital da HP para impressão em baixa tiragem. Não sei no que deu.

    O gerente geral do serviço de notícias do NYT, Michael Greenspon, que fechou o contrato com Lula, comemorou os bons resultados na China com o site em mandarim, lançado no ano passado.

    Não sei bem quais são os planos Greenspon para o Brasil, mas seguramente o contrato com Lula, sem dúvida o maior caso de sucesso de marketing de Duda Mendonça e João Santana, deve render dividendos ao NYT. Greenspon é o vendedor da agência de notícias do NYT. A coluna de Lula é mais um produto para o NYT vender.

    O jornalismo dos jornalzões é uma indústria, Mansueto, e com produtos para todos os gostos.

    Eu não trocaria a leitura de apenas uma frase de um dos seus inúmeros posts por dezenas de colunas do Lula comercializadas por Greenspon, via agência de notícias do NYT.

    Aqui os áulicos e a militância cumprirão o papel que deles se espera com a notícia “Lula no NYT”.

    O que eu gostaria mesmo de saber é a remuneração do contrato (fixa?; porcentagem sobre vendas?) e quem será o ghost writer do Lula nessa empreitada.

    Também não resistiria à leitura de uma coluna do Lula cujo título fosse: “Por que assinei a Carta aos Brasileiros?” Ou então, “Quem escreveu a Carta aos Brasileiros?”.

    Abs.

  2. Acho que uma das coisas mais importantes que podemos ensinar ao mundo é como manter a população, boa parte da imprensa e a oposição anestesiados, em meio a uma sucessão infindável de escândalos. Sem falar na falta de estratégia para qualquer tipo de assunto e na implantação de gambiarras diárias, travestidas de tecnicismos e de rigor gerencial.
    Sinceramente, é difícil acreditar que alguém leve a sério a ideia de que essa conjuntura produzirá boa coisa no curto, médio ou longo prazos. Aqui dentro tudo bem, pois as grandes preocupações nacionais estão voltadas para a Comissão de Direitos Humanos e para a Copa das Confederações, mas lá fora?

  3. Mansueto,

    terminei de escrever esse post e lembrei do seus textos aqui no blog sobre um modelo Latino Americano:

    http://econapproach.blogspot.com

    É claro que não tento propor uma “resposta”, até porque analiso muito rapidamente outros aspectos, mas achei interessante os resultados (embora, confesso, já os esperava).

    Abraço,

    João Ricardo

  4. Parece difícil ter o Brasil algo a ensinar aos demais países do mundo. Contudo, deve ter alguma coisa que os demais países possam ensinar ao Brasil. E não seriam poucas. Notadamente os da UE e da Zona do Euro. Chipre, Islândia, Espanha, França, Portugal, por exemplo, teriam muito a ensinar sobre o que não fazer.
    O problema, porém, é que o Brasil ainda continua “pensando-se”, a julgar pelos discursos de lideranças políticas, como um farol ou como uma palmatória.
    Pode dar com “os burros n’água” a continuar assim. Por exemplo, o ex-presidente do Brasil, que governou de 2003 a 2010, andou dizendo que “…os economistas deveriam fazer ‘mea-culpa’…”
    Ou algo assemelhado. Se for este o diapasão, estaremos em papos de aranha já em 2014. E colocando a conta no balcão, com certeza, em 2015.

    O ano de 2013 praticamente acabou sem ter sequer iniciado, dado a antecipação dos debates eleitorais. E a cada discurso, mais promessas de medidas microgerenciais, com mais gastos a serem compensados pelo Tesouro.
    Assim, não dá para enxengar qualquer modelo da AL para o mundo. Nem da AL da Alba, da Unasul e do Mercosul. Como também não dá para falar em modelo da Colômbia, Chile, Peru e México, estes que, ao que parece, estariam olhando mais par ao Pacífico do que para o Atlântico.

  5. De modelo, não dá para falar, mesmo. Mas, dá para respirar mais aliviado pelo fato do Brasil não ter seguido Venezuela e Argentina. Ou, pelo menos, seguido pouco estes dois países e seus “modelos”. Se isso for minimamente verdadeiro, serve de mero consolo.

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