O amor do FMI pelo Brasil

A esquerda brasileira e o governo brasileiro não têm nenhum motivo para reclamar do FMI. As recentes projeções do Fundo no World Economic Outlook de abril de 2013 para a economia brasileira, se não conseguem o milagre de nos colocar relativamente melhor em relação aos nossos pares Latino Americanos, pelo menos traçam um cenário para economia até 2018 que está entre os mais otimistas que conheço.

Nos comentários que faço abaixo vou comparar as projeções do FMI para o Brasil com Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru, Uruguai e Venezuela.

(1) Inflação: Em relação à inflação, o FMI projeta uma inflação de 4,5% aa para o Brasil já em 2014 e para todos os anos do próximo mandato (2015-2018). Bom, sabemos que a projeção de 2015-2018 de todo mundo é chute e o FMI chutou o centro da meta, mas inflação de 4,5%, em 2014, é muito otimismo e bem inferior à mediana das projeções do Boletim FOCUS que está em 5,71% para 2014.  Desconfio até que esse cenário do FMI seja mais otimista do que o do próprio Banco Central do Brasil.

Em relação ao grupo de países citados acima, o Brasil teria ao longo dos próximos anos uma inflação menor que Argentina, Uruguai e Venezuela; o que não é mérito algum.

(2) Investimento e crescimento: sabe-se hoje que um desafio para o crescimento do Brasil é aumentar a nossa taxa de investimento, principalmente, se você tem dúvidas da nossa capacidade de acelerar o crescimento da produtividade. Nesse aspecto, o cenário do FMI é esquisito.

A instituição projeta que a taxa de investimento no Brasil ficará entre 18,3% do PIB, em 2013, e 18,9% do PIB, em 2018. Ou seja, o FMI não acredita em um “boom” de investimento no Brasil. Apesar disso, a instituição projeta crescimento do PIB no Brasil de 4% ao ano a partir de 2014 até 2018, o que significa um cenário maior de crescimento da produtividade, já que não haverá, pelas projeções do Fundo, aumento substancial da taxa de investimento. Mas de onde vem esse aumento maior de produtividade que está implícito no cenário do FMI para o Brasil?

Em relação ao grupo de países identificados acima, o FMI espera que de 2015-2018 o Brasil cresça mais do que Argentina, México, Equador e Venezuela. A aposta do Brasil crescer mais do que o México é a grande surpresa, pois o Fundo estima que a taxa de investimento do México será, na média, de 24% do PIB, muito acima da taxa de 18% do PIB projetada para o Brasil.

(3) Superávit primário e dívida: o cenário que o FMI coloca para finanças públicas no Brasil é talvez o mais otimista que conheço e completamente descolado dos sinais que o próprio governo vem dando sobre esse assunto. Em relação ao primário, o Fundo trabalha com a hipótese que o Brasil vai aumentar o esforço primário este ano para 3,2% do PIB e entregar a meta cheia de 3,1% do PIB de 2014 até 2018. Nem o próprio governo acredita nisso.

Com um cenário tão bom para o resultado primário, a Div. Liquida do Setor Púbico (DLSP) passaria de 35% do PIB, em 2012, para 29% do PIB, em 2018 e, nesse mesmo período, a Dívida Bruta passaria de 68,4% do PIB (metodologia do FMI) para 60,4% do PIB. Mesmo assim, em 2018, o Brasil continuaria com uma Div. Bruta maior do que todos os outros países Latino Americanos citados acima.

Aqui há dois pontos que quero enfatizar. Primeiro, não há a mínima possibilidade desse cenário se concretizar. Segundo, mesmo que ele viesse a se concretizar, continuaríamos relativamente mal (dívida bruta como % do PIB) em relação a Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru, Uruguai e Venezuela.

(4) Carga tributária e gasto público: Bom, você deve estar imaginando que pelo menos a maior economia que o FMI espera para o Brasil (primário de 3,1% do PIB) será resultado de uma forte redução do gasto público (% do PIB). Esqueça. O Fundo estima que o gasto público total no Brasil permanecerá praticamente constante entre 2013 e 2018 em 38,7% do PIB e a carga tributária (arrecadação) cresceria um pouco em 2015-2018 para 37,1% do PIB. Isso significa que continuaremos a ser um país que gasta muito e com elevada carga tributária.

Se servir de consolo, o Fundo estima que a carga tributária da Argentina (42% do PIB) será maior, mas o Brasil ganha de todo o resto. Isso significa também que o Brasil continuará sendo um país caro e vamos continuar lotando nossas malas nas viagens aos EUA.

(5) Déficit em conta corrente: Por fim, como o cenário do FMI não contempla um forte crescimento da taxa de investimento que ficaria, no máximo, em 18,9% do PIB, o Fundo projeta que o nosso déficit em conta corrente fique por volta de 3,2% do PIB de 2014 a 2018, que mesmo assim será o maior em relação ao grupo de países identificado acima.

No entanto, se a nossa taxa de investimento for maior e crescer para além de 20% do PIB como espera o governo, pode-se esperar um déficit em conta corrente muito maior e superior a 4% do PIB. Qualquer que seja o cenário, vamos precisar mais da ajuda do resto do mundo para crescer do que Argentina, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru, Uruguai e Venezuela.

Comentário final: quem falou que o FMI é formado por economistas neoclássicos? O cenário do FMI para o Brasil é MUITO otimista e, para alguns indicadores, até mais otimista que as projeções do próprio governo brasileiro. A imprensa brasileira olhou muito para a revisão do PIB para baixo, em 2013, mas não prestou atenção ao cenário do Fundo para o Brasil para 2014-2018 que é otimista. O mais interessante é que as observações cuidadosas que o economista-chefe do Fundo, Olivier Blanchard, faz hoje em entrevista ao jornal Valor Econômico, não parece encontrar respaldo nas projeções (otimistas) da instituição. Acho, inclusive, que apesar das críticas  (injustas) da esquerda brasileira ao FMI, a esquerda precisa entender que “os brutos também amam”.

Agnaldo Osbrutos 1972 Capa

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