Uma imagem marcante: o colar de tomates

Não havia notado. Mas conversando com pessoas que conhecem bem a “cozinha” do Ministério da Fazenda eles me alertaram que o programa da Ana Maria Braga irritou algumas pessoas em Brasilia. E deixou outras pessoas felizes porque ficou mais fácil convencer membros da equipe econômica da importância de segurar a inflação para que o governo não perca popularidade. A frase de impacto é a seguinte: “A inflação está tão grave que até a Ana Maria Braga usou um colar de tomates”.

Podem acreditar ou não, mas algo simples assim causou mais debate aqui em Brasilia do que os modelos de equilíbrio geral do BACEN e as regressões econométricas. Dona da casa não sabe o que é inércia inflacionária, núcleo da inflação, taxa de dispersão da inflação. etc. Mas sabe muito bem o que é tomate, ainda mais quando alguém como Ana Maria Braga fala sobre o assunto.

Isso é tudo que não poderia acontecer em um cenário no qual o governo se preocupa mais com o que pensa o eleitor do que com os modelos econométricos do BACEN. Sei que as revistas semanais também trouxeram fotos engraçadas sobre o tema, mas dona de casa não tem muito tempo de ler revistas semanais. A imagem abaixo foi para mim a mais importante no debate econômico da semana passada!

Ana-Maria-Braga-e-o-tomate

 

 

8 pensamentos sobre “Uma imagem marcante: o colar de tomates

  1. Artigo do conservador Mendonça de Barros, no Valor Econômico de hoje, abre possibilidade de melhor qualificar o debate acerca do renitente repique inflacionário neste inicio de ano.

    Cabe mencionar que a inflação no período de vigência do regime de meta de inflação está na faixa de 5,8% a.a. Ou seja, nos últimos 15 anos a inflação, na média, esteve sempre à frente do centro da meta, e mais próxima do teto.

    Portanto, como afirma Mendonça de Barros, majorar a taxa Selic não resolverá o problema. Será medida emergencial, apenas. Útil, no curto prazo, porém não busca tentar resolver as causas estruturais —– que é a essência do problema.

    O importante, no contexto atual, é a busca de alternativas de possíveis soluções para o problema do resquício inflacionário do bem quisto Plano Real, que não a simplória e comoda elevação da Selic.

    Os dados macroeconômicos, como já vimos em outros posts do Mansueto, estão “bem-comportados”, tipo relação dívida líquida/PIB cadente, deficit nominal próximo à 2,5% do PIB, superavit primário ainda robusto, deficit em c/c financiado por IDE, reservas cambiais na casa dos 15% do PIB, desemprego baixo. Ou seja, a gestão macroeconômica vem sendo bem conduzida nos últimos anos. Tivemos grandes percalços fiscais quando da implantação do Plano Real, além de sucessivas crises internacionais que impactaram negativamente nossa economia, mas o saldo ( “o preço pago” ) final compensou, creio.

    A nova pauta, a nova agenda que deve ser aberta para discussão, por exemplo, é desarmar os resquícios de indexação em setores da economia que realimentam a inflação, como energia, remédios, transportes, e outras tarifas e contratos, estoques reguladores. Outra questão a ser levantada: “minimizar” o peso no cálculo do índice inflacionário de elevações sazonais de preços ( feijão, tomate…).

    Fato é que a elevação da taxa básica não passa de paliativo. A sociedade, e a nossa inteligência devem procurar discutir e propor ( oferecer) alternativas que tenham conteúdo mais estrutural e que sejam ao menos relativamente sustentáveis ao longo do tempo.
    Os investimentos em infraestrutura física e social — que impactam positivamente nossa produtividade —- precisam e estão sendo priorizados e virando realidade. À baixa velocidade, mas estão.

    O mais importante, neste contexto, é entender ( como diz Mendonça de Barros ) que aumentar e discutir taxa Selic é menos importante.

    • Hilario,

      Acho que neste ponto discordamos. Acho que o BACEN vinha sim fazendo um bom trabalho até 2008/2009 e depois perdeu a mão e aceitou uma expansão muito forte da demanda com impactos na inflação.

      Simultaneamente, a politica fiscal foi excessivamente expansionista quando a economia já estava em recuperação na segunda metade de 2009 até 2010, e voltou a ser expansionista no ano passado e neste.

      Confesso que achei o artigo do Luiz Carlos Mendonça de Barros confuso. O resultado do regime de metas é progressivo, melhorar um pouco a cada ano, mas acho que desde 2010 desistimos de perseguir o centro da meta. E com a queda da poupança doméstica um eventual boom de investimento vai piorar ainda mais a inflação se não houver redução do consumo.

      Acho que na margem a politica econômica piorou muito desde 2008/2009: o governo expandiu excessivamente a divida bruta, vem promovendo fortes desonerações sem ter reduzido o crescimento das despesas, e o investimento público ainda não aumentou. Mesmo que o primário fique perto de 1,8% do PIB e seja suficiente para reduzir a DLSP, como não aproveitamos a queda dos juros para aumentar a poupança pública, acredito que vamos ter uma forte piora no déficit em conta corrente.

      As causas estruturais que atrapalham o crescimento não serão solucionadas, necessariamente, com SELIC a 7,25% ao ano ou com SELIC a 10% ao ano. Mas acho que para controlar a inflação estou do lado daqueles que defendem juros maiores para esfriar a demanda. É claro que a maior ou menor intensidade da política monetária vai depender da politica fiscal, que está colocando mais lenha na fogueira.

      No mundo todo, inflação é um fenômeno monetário ligado ao excesso de demanda e taxa de juros sempre conseguiu fazer o trabalho de reduzir a inflação – em economias normais sem elevada indexação e que não estejam com hiperinflação. Concordo que podemos avançar na desindexação da economia, mas isso é mais fácil de fazer quando inflação está baixa e não o contrário.

      Assim, defendo aumento da taxa de juros. Não será nenhum grande desastre. É um aumento temporário e logo depois o BACEN volta a reduzir quando a inflação mostrar sinais de queda.

  2. Concordo com o Mansueto.
    Uma retração da demanda neste momento, ajudaria um novo patamar de preços ser fixado. Estamos andando para situação pré-1994. Ou seja, o empresário quer antecipar o aumento da inflação para lucrar mais um pouco, porque quando o tempo passa torna-se mais rígido transferir os custos para o consumidor e a alternativa seria reduzir a margem de lucro. Portanto, adianta-se ao máximo o impacto da inflação nos preços finais. Sendo um efeito seguido por vários empresários, formando o preço de mercado, e o consumidor tendo renda disponível para continuar comprando, a inflação entra em um estado inercial.
    É importante que a Autoridade Monetária dê um recado para o mercado, ou seja, que não irá aceitar a inflação em um novo patamar. Isso torna os preços mais racionais, tira este componente inercial, evita que a inflação dispare, mexe com as expectativas futuras (preços futuros) e, enfim, mantém a maldita em um padrão aceitável, apesar de alto (de 5,5% a 6,0% a.a.).

  3. É um equívoco a argumentação de que a inflação não está ligada à demanda – estimulada por crédito farto, juros baixos, aumentos salariais acima da inflação e aumento dos gastos do governo nos últimos anos – mas à um choque de oferta externo associado a elevação sazonal dos preços de alimentos aqui, ou ainda, a uma produção abaixo da capacidade da indústria pela redução da confiança do setor privado no futuro da economia. Para analistas dessa linha, não adiantaria ao BC aumentar os juros. A inflação está alta porque a demanda está aquecida sim. É bom lembrar que a inflação acelerou em 2010/2011 com a expansão dos gastos do governo em 2010 para fins eleitoreiros. O setor de serviços, onde importar substitutos é difícil, também está aquecido pelo aumento da renda da população. Também há uma drástica redução da balança comercial, devido ao aumento das importações, inclusive alimentos, para saciar o consumo interno que, associado à política de depreciação do real no ano passado, impactou a inflação. Num contexto internacional onde o dólar depreciou, aqui o governo desvalorizou o real, perdendo um fator que ajudaria a tornar importações mais baratas. A intervenção do governo na queda dos juros e na desvalorização do real foi na contramão da tendência de aceleração da inflação desde 2010, num cenário de pleno emprego e altos salários da população, e aumento dos gastos públicos. Um aumento dos juros poderia reduzir as pressões inflacionárias além de sinalizar ao mercado que o BC estará vigilante, gerando confiança para os investimentos. Mudanças estruturais são fundamentais para o crescimento de longo prazo, e ninguém questiona a sua urgência, mas demoram para pactuar na sociedade e para colher seus frutos. Abrir mão da política monetária a partir de diagnósticos equivocados é suicídio e vai jogar o Brasil no chão. Enquanto isso, a presidente anda se “aconselhando” com Delfim Netto, Luiz Gonzaga Belluzzo e Yoshiaki Nakano. Desse jeito, para que Banco Central? Ninguém merece…

  4. Não se esqueçam de que “Sarney e simpatizantes” meio que se retiraram da cozinha, mas continuam atentos, roxos pra meter a colher na panela…

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