Entrevista do ex-presidente FHC à ÉPOCA

FHC

Ex-presidente FHC – Foto: Jairo Goldslus/ÉPOCA

Recomendo a leitura da entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) à revista ÉPOCA. A revista está de parabéns por disponibilizar a entrevista na sua página da internet para não assinantes. Essa é a primeira de uma série de entrevista que a revista começa a fazer, a partir desta semana, com líderes brasileiros. (clique aqui para ler a entrevista)

O ex-presidente faz uma análise interessante do momento político e econômico do Brasil. E também aproveita para fazer alguns questionamentos pertinentes, como, por exemplo, por que o governo do PT se esforçou tanto em montar uma base ampla de apoio político no Congresso se não estava disposto a retomar a agenda de reformas?

Não vou comentar a entrevista porque concordo com quase tudo que o ex-presidente falou. Mas para aguçar a sua curiosidade, vou apenas destacar alguns poucos trechos:

–  Na política, não adianta só ter ideia. Tem de fulanizar. Não adianta sentar aqui três meses com um clube de sábios e escrever um projeto. Tem de tocar nas pessoas. E a pessoa tem de ser capaz, ela mesma, de inspirar isso.

– A pior coisa que pode acontecer no país é não haver alternativa. Ainda que seja contra minha escolha, é preciso haver a possibilidade de mudar. Quanto mais pessoas digam alguma coisa, melhor.

– (voltamos) para um Brasil anterior a 1990. Estamos agora na realidade do Ernesto Geisel (presidente brasileiro entre 1974 e 1979). No momento em que o mundo vai sair da crise, o Brasil está voltando nas suas concepções quanto ao desenvolvimento da economia. Isso me preocupa.

A ideia de economia primária ou secundária é antiga. Em lugar de se preocupar com os 12% da indústria no PIB, devíamos nos preocupar com o resto. Qual o coeficiente tecnológico da indústria? Essa é a chave da questão. E isso leva à educação de novo

– ….a expansão da economia e das políticas sociais anestesiou muita coisa. …..o governo Lula tomou, implicitamente, a decisão de não mexer com o Congresso. Ele não precisava do Congresso para praticamente nada. Não fez nenhuma mudança constitucional. Nunca entendi uma coisa: para que uma base de sustentação tão grande? Para não fazer nada? Eu precisava da base porque precisava de três quintos do Congresso para as reformas. 

18 pensamentos sobre “Entrevista do ex-presidente FHC à ÉPOCA

  1. De fato, FHC permanece um grande pensador. Mas por vezes me parece politicamente ingênuo, ou muito leniente com o projeto político lulo-petista. Ele pensa que se trata apenas de uma das alternativas para o desenvolvimento do Brasil, com um pouco mais de “bondades sociais”, de distributivismo. Não percebeu ainda que se trata de um projeto de poder, não de um projeto de governo. Não percebeu a natureza profunda dos companheiros, e acha que eles apenas erraram um pouco ao fazer certas coisas que ele não aprova, por não serem “racionais”, do seu ponto de vista.
    FHC, e com ela toda a “burguesia” brasileira — como gostam de dizer os companheiros — se enganam redondamente quanto ao projeto lulo-petista e os caminhos que o Brasil percorre atualmente.
    Vejo o Brasil na mesma trajetória (por modalidades diferentes) de sociedades passadas (China) ou presentes (Argentina, Venezuela) que se precipitaram na ou se arrastam em direção à decadência estrutural, não simplesmente setorial, conjuntural, econômica ou política, mas uma decadência de ordem moral, em primeiro lugar, de perda de visão, a mesma cegueira que conduziu Roma ao abismo, a China dos Qing (manchus) a uma secular decadência, e que ainda arrasta a Argentina para o abismo…
    Infelizmente, FHC não vê isso, e com ele a maior parte da elite dita pensante no Brasil.
    Paulo Roberto de Almeida

  2. Concordo com o Paulo Roberto, apenas creio que o ex-presidente FHC não é de forma alguma ingênuo. Ele me parece tomar muito cuidado com as suas palavras, pois quase sempre os lulo-petistas as distorcem, fazendo com que parece que ele diga coisas totalmente contrárias ao raciocínio que ele expressou. Infelizmente, o ex-presidente FHC não tem, em seus companheiros de partido, quase ninguém a defender o seu legado. Perderam três eleições seguidas para pessoas despreparadas, sem projeto de governo algum,e ainda não aprenderam a lição.

  3. E o mais complicado e que pessoal do PT é bom de papo para levar adiante o seu projeto de poder. Falam coisas superficiais mas de forma simples, não aprofundam nada e são bons no uso de frases feitas.

    • Mais prudente, realmente, é aquela expressão popular: “muita calma nessa hora”.

      Como sugeriu, recentemente, o economista Chico Lopes é manter o sangue frio, e aguardar o 2º semestre, quando a pressão altista de preços deverá ceder, por fatores diversos.

      Parece notória a tentativa de açodamento do ambiente feito pelo lobby dos fundos, rentistas e do mercado financeiro, em geral, com o intuito de “incentivar” o Bacen a elevar a taxa básica. E ainda contam com parcela razoável da mídia econômica e política para amplificar seus interesses imediatos e particulares.

      • As medidas dos núcleos, o IPCA cheio, itens como serviços e preços livres, calculados nos períodos de 12 meses até 4 anos, estão entre 6% e 8%. Sem dúvida que são números gerados pelo lobby dos rentistas, afinal 4 anos é um período muito pequeno para se ter certeza.

  4. Um artigo no site Why Nations Fail sobre a persistencia do populismo na America Latina:

    http://whynationsfail.com/blog/2013/3/19/the-political-origins-of-populism.html

    abaixo uma mencao sobre a “economia” heterodoxa” dos populistas:

    Populist regimes have historically tried to deal with income inequality problems through the use of overly expansive macroeconomic policies. These policies, which have relied on deficit financing, generalized controls, and a disregard for basic economic equilibria, have almost unavoidably resulted in major macroeconomic crises that have ended up hurting the poorer segments of society.

    Os autores acham que a populacao constantemente elege radicais “anti-establishment” pois nao confia nas instituicoes ja que suas vidas sao sofridas e necessidades ignoradas. Tambem apoia a destruicao dos “checks and balances” que acaba levando o pais a uma ditadura pela mesma razao.

    O raciocinio eh de que se o sistema nao funciona ele deve ser destruido pelo novo lider. A ironia eh que o lider e seu grupo acabam se tornando a “nova elite” em um sistema tao injusto quanto o substituido (PRI no Mexico, Peronistas na Argentina, Pt no Brasil e Chavistas na Venezuela)

      • Meus caros,
        O problema é que algumas “verdades” são repetidas até serem aceitas. Sem querer criticar o Rodrigo, a Venezuela era, em 1999, um dos países menos desiguais da América Latina e um dos melhores em termos de IDH. Não era uma tragédia antes de Chavez. Seu índice de Gini em 1999 é melhor que o índice brasileiro hoje. É simplesmente balela isto dos pobres venezuelanos sempre esquecidos antes de Chavez.
        Saudações

      • Do ponto de vista do desenvolvimento social, o período de Chavez à frente do governo representou um avanço para a sociedade venezuelana. Tanto os dados do IDH ( quanto mais próximo de um(1), melhor ), como o coeficiente de Gini ( quanto mais próximo de um(1), pior )demonstram tal evolução.

  5. De fato, trata-de de um grandíssimo sociólogo, oriundo do mundo acadêmico, que logrou êxito pessoal na empreitada político-partidária.

    No entanto, fazendo-se leitura dos grandes fatos e números de sua passagem pelo Planalto Central, verifica-se que alcançou a tão sonhada estabilidade monetária ( fim da inflação ), com a implantação do Plano Real a um custo altíssimo para a sociedade brasileira.

    Particularmente, creio que o saldo foi positivo, pois debelamos a cultura inflacionária, a cultura da indexação de preços, e abrimos horizonte para vôos mais altos e sustentáveis.

    Mas é interessante lembrar o quão caro foi o preço da estabilização monetária dos anos 1990: aumento do desemprego, aumento expressivo dos deficits nominais, aumento dos deficits em conta corrente, aumento dos altos estoques de passivo interno e externo, aumento da carga tributária, crescimento da atividade econômica errático, e na média medíocre são alguns dos altos custos que a sociedade brasileira pagou.

    É como tenho reiterado: avanços da magnitude como o do fim da inflação caem, via de regra, no colo do contribuinte.

    E como FHC diz à Época, a conjuntura internacional é fator importante para o (in)sucesso de programas de governo.

    Assim como a alta liquidez no mercado internacional de recursos voluntários viabilizou o Plano Real (valorização do R$), inclusive com a reabertura dos mercados ao Brasil após a reestruturação (troca de dívida contratual por títulos) de nossa dívida externa, com a conclusão do Plano Brady, o governo FHC deparou-se com várias crises internacionais —- que acabaram por prejudicar sua performance.

    Pode-se discutir a vulnerabilidade externa a que o País ficou exposto, como decorrência da própria política macroeconômica da época, mas o fato é que a volatilidade dos mercados impactou negativamente o desenrolar dos acontecimentos, prejudicando a gestão FHC. Já o período Lula, inversamente, foi bafejado pela sorte com o boom das commodities, China, possibilidades de formação de reservas cambiais, etc…. além de aperfeiçoar e incrementar sobremaneira o programa bolsa família ( criado por FHC ).

    • Além das várias crises, em países subdesenvolvidos, no período FHC, o Plano Real não foi um plano de demarragem.
      Antes, foi um plano de estabilização. Era preciso limpar a cultura inflcaionária e a maneira de cuidar das contas públicas, com estatais improdutivas e gastadoras, bancos estaduais falidos etc.
      O desafio foi o de fazer o Pais cerescer na estabilidade, coisa que teria de vir depois da casa arrumada.
      O advento da crise do México, Rússia e Ásia, entes de ser uma desculpa, foram sim fatores que motivaram a saída de capitais.
      Mas, no geral, o Brasil do Real é mito melhor que o Brasil “sem moeda” de antes.
      Os cálculos econômicos puderam ser feitis sem a recorrência a insanos efeitos de inflação e indexações. Os preços relativos convergiram e um bastonete de batom não valia mais três frangos congelados.
      Há lucidez no que diz FHC e há futuro.
      O problema que há é da batida palavra e conceito de herança que foi deixada pelo período 2003/2010: desrticulação dos preceitos de estabilização, intervenção estatal em quasse todos os setores e medidas de efeito duvidoso na economia.
      Tanto que depçois de 2011 e 2012, 2013 também pode apresentar resultados de PIB baixo e inflação crescente.
      Com o agravante de as eleições de 2014 já estarem determinando as ações governamentais.
      Os resultados, em tal clima, são, no mínimo, flexíveis para baixo em termos de produtividade e PIB e flexíveis para baixo em termos de gastos públicos e gestão.

      • Meus caros,
        Existe um fator muito importante também para analisar os governos FHC e Lulla que normalmente não é citado. O Lulla não tinha, em seu mandato, um partido político de oposição com peso eleitoral suficiente para chegar ao poder e que “mudaria tudo isto que está aí”. Ninguém cita isto, mas qual o peso da mudança do PT (E sua mudança de agenda política foi um estelionato eleitoral) na queda do risco-país do Brasil? Parece-me óbvio que isto é muito relevante. O Lulla quase chegou lá tanto em 94 quanto em 98. Por melhor que fosse o FHC, você colocaria dinheiro aqui com as perspectivas efetivas de um mandato Lulla? Isto é extremamente importante a meu ver e ninguém toca neste assunto.
        Saudações

      • Este é o ponto que venho argumentando com o Mansueto: o custo fiscal da estabilização monetária bancada pelo governo FHC foi altíssimo, conforme escrevi acima. Os aperfeiçoamentos macroeconômicos, sociais, institucionais enfim “não caem do céu”. A(s) correções destas distorções surgidas durante o período discricionário(ditadura) e inflacionário estão acontecendo, e onera o erário público.

        Faço esse contraponto, citando o ônus fiscal produzido pela gestão FHC, para enfatizar que o gasto, por exemplo, com a unificação do ICMS, será também, embora em dimensão menor, um avanço para a sociedade brasileira.

  6. Uma coisa que FHC disse que passou despercebido:

    ÉPOCA – Por que o brasileiro é tão relutante em reformar o Estado?
    …A concentração de renda, provavelmente, cresceu muito recentemente.

    Tambem acho que, principalmente no governo da Dilma, a desigualdade aumentou pois o governo esta ajjudando muito mais a elite diretamente (BNDES) e indiretamente (concentracao de mercados) do que os pobres com a assistencia governamental.

    • FHC está correto.
      Basta ver as provas do Enem, a posição do Brasil no IDH, o analfabetismo funcional dentre outros fatores. Isso explica a intervenção estatal em quase tudo.
      Por isso a profusão de planos chorosos como Brasil Carinhoso, R$ 70,00 para “tirar pessoas da miséria”, criação de ministério e mais nomeações de cargos de livre provimento DAS6. Agora, já há 39 ministérios e caso cada ministério seja uma prioridade, quem é que teria como gestor 39 prioridades?

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