Os bancos públicos são mais eficientes?

Há muita gente soltando fogos de artifício porque o Banco do Brasil e CEF tiveram lucros recordes acompanhado de forte expansão dos empréstimos. Mas será que a evidência de apenas um ano seria suficiente para mostrar que bancos públicos são mais eficientes que os bancos privados no Brasil? A resposta pura e simples é não.

Há pelo menos cinco bons argumentos para não bater o martelo nesse debate baseado apenas na evidência de um único ano. Aqui vou utilizar também argumentos de colegas meus que escreveram recentemente sobre o assunto.

Primeiro, um ponto muito simples. Se os bancos públicos fossem claramente mais eficientes do que os bancos privados, eles não precisariam do seu e do meu dinheiro. Eles fariam captações exclusivas por meio do mercado privado. Mas não é isso que acontece. Os bancos públicos têm recursos carimbados, ou melhor direcionados, que  resultam do pagamento de impostos e que são transferidos para esses bancos.

Além disso, os bancos púbicos são remunerados pelo governo por administrar recursos públicos. Por exemplo, a CEF ganha uma montanha dinheiro por administrar o patrimônio do FGTS e o BNB ganha uma montanha de dinheiro para ser o agente financeiro do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste.

Se os bancos públicos são tão eficientes, por que precisam de recursos especiais do governo? Porque eles não são tão eficientes quanto alguns pensam. Se tivessem que captar 100% dos seus recursos no mercado privado não conseguiriam manter a mesma política de empréstimo e nem cobrar taxa de juros que muitas vezes são menores que a taxa de inflação.

Segundoainda é muito cedo para avaliar a real taxa de inadimplência dos bancos públicos. No caso do BNDES, por exemplo, vários dos empréstimos de longo-prazo têm carência. Em vários desses empréstimos a carência chega a ser superior a dois anos. Os empréstimos para automóveis e imóveis da CEF e Banco do Brasil também têm carência (em alguns casos de seis meses). E no caso do financiamento de imóveis é muito difícil que mutuários que fazem uma dívida de 15, 20 ou 30 anos fiquem inadimplentes nos meses iniciais do pagamento da dívida.

Na década de 1970, o Sistema Financeiro de Habitação (SFH) era um verdadeiro sucesso e o BNDES não tinha grandes problemas de inadimplência. Um década depois, o SFH quebrou (deixou uma divida monstruosa com o Fundo de Compensação da Variação Salarial- FCVS) e o BNDES começou o seu programa de privatização lá no final de década de 80 porque o banco ficou dono de um bocado de empresas inadimplentes.

Terceiro, Samuel Pessoa escreveu hoje no seu artigo semanal na Folha de São Paulo (clique aqui) que, quando se controla pela fonte de recursos ou, o que é a mesma coisa, pelo tipo de crédito (recursos livres versus recursos direcionados), a taxa de inadimplência dos bancos púbicos é maior do que a taxa de inadimplência de bancos privados no segmento de recursos livres:

“Com dados do BC (e fazendo algumas hipóteses), calculamos a taxa de inadimplência dos bancos públicos no crédito livre, aquele que é concedido em condições de mercado. Nossas estimativas apontam para taxas de inadimplência dos bancos públicos) nos créditos livres significativamente maiores que as dos bancos privados.”

Quarto, Pedro Ferreira Cavalcanti e Renato Fragelli (EPGE-FGV) em artigo recente no VALOR (clique aqui) alertam que, se um devedor em dificuldade tiver que priorizar a quem pagar, é mais sensato pagar ao banco que, com recursos de impostos, concede crédito à juros subsidiados:

Tendo que escolher entre honrar um empréstimo junto a um banco que lhe fornece crédito subsidiado, e outro que lhe cobra uma taxa de mercado, ela sabe que as portas para novos financiamentos se fecharão no primeiro banco, caso ele sofra sua inadimplência. A decisão empresarial mais sensata, então, é priorizar o serviço da dívida de menor custo, preservando essa fonte barata de recursos para futuros empréstimos, e atrasar o serviço da dívida mais cara que será objeto de renegociações e brigas judiciais futuras.”

Os autores lembram, adicionalmente, que créditos de bancos públicos são com frequência renegociados. Um bom exemplo disso é inclusive o crédito rural. Esse é um tipo de crédito que sempre é renegociado com subsídios do governo federal e, assim, a taxa de inadimplência é sempre menor do que realmente seria sem essas renegociações aprovadas em lei.

Quinto e último ponto, o economista Adolfo Sachsida, recentemente, me alertou para algo interessante que ele deverá escrever com mais detalhes em breve. A CEF vem se negando a refinanciar contratos de financiamento imobiliários à taxas mais baixas. Mas quem não consegue refinanciar a sua dívida, consegue facilmente fazer esse refinanciamento com o Banco do Brasil e em, um empréstimo imobiliário longo, isso significa uma redução de mais de quatro anos de prestações. Não é muito certo o efeito que essa prática terá no balanço da CEF, mas terá algum para pior.

Em resumo, não é possível afirmar que a baixa taxa de inadimplência dos empréstimos dos bancos públicos, em 2012, é uma prova da superioridade desses bancos. Dada a carência dos empréstimos e a expansão dos empréstimos dos bancos públicos concentrada no segmento de crédito direcionado, ainda é muito cedo para falar que há um “novo modelo de bancos públicos”.

É claro que voce sempre pode achar normal o governo brasileiro emitir dívida nova para emprestar e capitalizar bancos públicos.  No entanto, em um passado não tão distante, no período do milagre brasileiro (1968-1973) e da marcha forçada (1974-1980), muitos achavam a mesma coisa e deu no que deu. Será que agora será diferente?

7 pensamentos sobre “Os bancos públicos são mais eficientes?

  1. Na verdade, nao sao apenas os bancos publicos que sao uma aberracao, mas todo o sistema de creditos, e talvez ate todo o mercado financeiro, no Brasil, que padecem de deformacoes assombrosas, distorcoes jabuticabais, que se manifestam pela extrema concentracao de creditos no setor publico, pela concentracao dos creditos do setor privado em 4 ou 5 grandes bancos, falta de concorrencia e estrutura cartelizada, fechamento a competicao externa, promiscuidade entre o Estado e esses grandes grupos, financiamento eleitoral de tipo mafioso entre eles e os partidos dominantes, enfim, um sem numero de caracteristicas nocivas para una economa capitalista normal, como desejariamos para o Brasil. Mas, infelizmente, o Brasil nao e’ um pais normal, e vai demorar muito para se tornar um…

  2. Mansueto,

    Ao meu ver o diagnostico da Presidente é bastante equivocado e se continuar assim ira nos levar ao período que vc colocou no final do seu texto. O Alex, escreveu um artigo que tem a ver com o tema.

    O link é esse: http://maovisivel.blogspot.com.br/2012/07/numeros-1016.html

    No artigo ele demonstra que “os spreads não são tão gordos, nem crescentes e o retorno dos bancos não é muito distinto do que se observa no restante da economia”.

    Mas como vc frisou no sua entrevista a Globo News, o estimulo foi bom do ponto de vista da concorrência, mas a interferência do governo é perigosissima.

    Abs

  3. Prezado Mansueto,
    Infelizmente já assistimos a esse filme “ruim” caracterizado por direção titubeante, atores canastrões, patrocínio estatal, desperdício na aplicação dos recursos super-faturados captados através da lei Rouanet e efeitos especiais risíveis, cujo resultado final penaliza o espectador honesto, que induzido pela propaganda oficial e a crítica chapa-branca, vai ao cinema na esperança de se divertir. O título do filme bem que poderia ser “O retorno dos esqueletos” uma vez que estamos caminhando inexoravelmente na direção de reeditá-los, com nefastas consequências para toda a sociedade.
    Abraços,
    Ricardo Dunshee de Abranches

  4. Prezado,
    Sou estudante de economia da UFMA e trabalho no banco do brasil.
    Acredito que os bancos publicos estão em uma direção de aumento de competitividade importante. Não acredito que a capitalização é a fundo perdido. Entretanto acredito que para mercados estratégicos para o país como a produção rural é patente a necessidade de crédito subsidiado para enfrentar o mercado internacional pesadamente subsidiado pelos paises grandes. Não vejo que esles PRECISEM de recursos públicos. Mas também não vejo lógica de entregar ao setor privado que ja anda com as próprias pernas uma receita com a administração de recursos públicos direcionados como no caso do crédito agrícola que o banco do brasil tem um market share expressivo. Isso é o que acontece com recursos do BNDES que bancos privados repassam em e são remunerados.
    Não aprofundo meus estudos nessa área mas tenho essa observação de dentro do negócio.
    Abraços,

    • Paulo,

      o Banco do Brasil é um dos bancos mais transparentes entre os bancos públicos justamente por ter acionistas privados e ações negociadas em bolsas, o que acho positivo para o banco. O problema não é a existência de bancos públicos, mas o uso que se faz dos mesmos com o tesouro não esclarecendo para a sociedade o custo dos empréstimos que são feitos com recursos públicos.

      Não há problema algum bancos privados serem agentes do BNDES. Ao contrário, eles ate ajudam as liberações pois o risco de crédito fica com o agente financeiro – banco privado. O problema é tentar demandar dos bancos públicos uma atuação que não tem absolutamente nada de estratégico ou de retorno social como, por exemplo, o BNDES participar de operações de F&A e a CEF fazer a mesma coisa.

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