Tesouro Nacional e Bancos Públicos

Este post é simples. Cada vez mais vou mostrar aqui que, no Brasil, perdemos a dimensão de valores. O Tesouro emitir R$ bilhões em dívidas e emprestar a bancos públicos passou a ser algo normal. Até o final do governo tenho absoluta certeza que o montante de empréstimos para bancos públicos  vai superar meio trilhão de reais!!!

O que os dados mostram é que os empréstimos do Tesouro Nacional para bancos públicos (total emprestado) passou de R$ 14 bilhões (0,5% do PIB), no final de 2007, para R$ 406 bilhões (9,2% do PIB), no final de 2012 – ver gráfico.

Gráfico 1 – Empréstimos do Tesouro Nacional para bancos públicos – R$ bilhões e % do PIB – 2007-2012

GRAF11BNDES

Fonte: Quadro 5 – Nota Fiscal para imprensa – Banco Central do Brasil

O BNDES, em especial, é cada vez mais um departamento de intervenção setorial do Tesouro Nacional (A caixa Econômica Federal vai na mesma direção). Tradicionalmente, a dívida do BNDES junto ao Tesouro Nacional não passava de 14% do passivo do banco. Em junho de 2011, essa divida já representava 55% do passivo do BNDES. 

Gráfico 2 – Divida do BNDES junto ao Tesouro Nacional – % do Passivo Total

GRAF20BNDES

Fonte: Lamenza, G, Pinheiro, F e Giambiagi, F. (2011) A capacidade de desembolso do BNDES durante a década de 2010.

Quando isso vai parar? quando já for muito tarde. Quando o crescimento começar a impactar de tal forma na correção da Dívida Líquida do Setor Público que o governo será obrigado a parar com essas operações.

Se a emissão de novas dívidas e empréstimos maiores via bancos públicos para o setor privado fosse a solução para o problema do desenvolvimento, o mundo hoje não teria países pobres.

As perguntas que você tem que fazer leitor são as seguintes: (1) como foi aplicada essa montanha de dinheiro? (2) o Brasil hoje é um país muito mais competitivo por causa dessas operações? (3) Qual o custo desses empréstimos crescentes do BNDES para bancos públicos? (4) todos esses empréstimos eram essenciais?

15 pensamentos sobre “Tesouro Nacional e Bancos Públicos

    • Apenas a conversão não. Mas com a criação da CAIXAPar é possível que o governo aumente o empréstimos a aplicações na Petrobras. Vou escrever mais sobre isso depois. Será um dos meus próximos posts.

  1. Um dos posts mais brilhantes que já passou pelo blog. Foi direto na ferida, direto no ponto nevrálgico da relação entre BNDES e dívida pública.

  2. E o pior é que essa gente não é muito afeita à transparência. O que vale é criar um ambiente que favoreça no curto prazo a reeleição da candidata do PT, não importando as consequências. Com essas atitudes fica cada vez mais minada a confiança dos empresários em relação ao governo, que é a explicação verdadeira para a falta de investimentos privados. Como os empresários vão investir em um país que está sendo administrado na área econômica com tanta irresponsabilidade, talvez até com certa ingenuidade? Enquanto isso, não são encaminhadas as soluções para os problemas reais da economia e da sociedade brasileira.
    Parabéns pelo trabalho de esclarecimento que você vem realizando em seu Blog. Esse é o milagre da Internet, a invenção que está mudando o mundo!

  3. Parabéns pela escolha do tema Mansueto! Acho que essa é a questão!

    Se você tem um filho irresponsável, não lhe dê um carro. Se você tem um governo irresponsável, limite o crédito. Daqui a alguns anos, vai ficar claro que esse governo foi fraco. Todavia, o que realmente vai nos preocupar vai ser a tremenda elevação do endividamento público e privado.

    Abraços

  4. Uma pergunta sincera, aguardando uma resposta honesta:

    Mansueto, esse estouro nos empréstimos do tesouro para os bancos públicos não é uma consequência natural da queda da taxa de juros no Brasil, queda esta induzida pelo governo?

    Por que nenhum economista previu isso, e por que todos os economistas elogiaram esta ação do governo?

    Cada dia me decepciono mais com as análises de economistas, são extremamente superficiais e não encadeadas.

    • Thyago acho que é mais do que isso. Com a queda das taxas de juros era previsível o crescimento dos empréstimos, mas a extensão desse crescimento por parte do bancos públicos em conjunto com empréstimos crescentes do tesouro para bancos públicos mostra uma atividade muito ativa por parte do governo.

      No caso do BNDES, por exemplo, não há como o banco emprestar para tudo. Mas como o Tesouro fica emitindo divida e emprestando para o banco, o BNDES se dá ao luxo de financiar operações, como a venda de ativos de um grupo empresarial para outro, que não precisaria financiar. Isso está errado. O que justifica a Caixa Econômica Federal ter um banco de investimento? absolutamente nada, mas o governo acabou de criar a CAIXAPAr. Em um país com oposição fraca o governo (qualquer governo) sempre faz exageros.

      Ao contrário, vários economistas alertaram que isso era errado e continuam alertando. Eu quase todos os dias falo que isso é errado e apenas na semana passada falei com a agencia de notícias da Dow Jones, Bloomberg, Valor e Revista Exame. E deixei de atender vários jornalistas.

      • Mansueto, já vi contestações sua, do Sachsida, do Ubiratan Iorio e do Alexandre Schwartsman sobre essa questão, de qualquer forma, é muito pouco, considerando a magnitude e o custo que isso terá para o país (leia-se, pagadores de impostos).

        Ainda assim, já li de você e também do Schwartsman sobre o lado bom da questão (queda de juros).

        Tae uma humilde sugestão: Considerando que a maior parte dos economistas apenas elogia queda de juros, quando uma notícia como essa for lançada, buscar apontar num único post os dois lados da moeda. Isso apenas engrandecerá a análise do seu trabalho e lhe diferenciará ainda mais do restante do pessoal.

        Um grande abraço e continue esse trabalho importante que vem fazendo!

  5. Gostaria de perguntar se já é visível aumento de estrutura e quadro funcional desses bancos, além de reestruturação salarial, visto o volume de grana que anda passando por eles..

  6. Parece que ninguém discorda de que o governo federal está liberando um monte de dinheiro, e cada vez mais, para execução de ações que são, digamos, “descentralizadas”. Descentralizadas no sentido de que apesar de a decisão de empreender a ação e a alocação dos recursos permanecer no estrito núcleo central do governo, com pouca transparência e sempre com fortes motivações políticas, a execução propriamente dita fica a cargo de empresas escolhidas que são financiadas para realizar as chamadas “políticas públicas” Isso pode se dar através dos empréstimos subsidiados do BNDES a empresas privadas mas acontece também pelo repasse de verbas para ONGs, OSCIPs, OSss e similares (repasses que não param de crescer).

    Já que parece haver razoável consenso sobre essa maré de grana, interessante é pensar sobre as razões para estar acontecendo. Por que? Mesmo quando grande número de economistas critica?

    Consigo pensar em duas coisas:

    a) a hipótese benigna: o pessoal do governo de fato e sinceramente imagina ter todas as informações necessárias, e acredita que através de forte planejamento central e através de escolhas feitas pelo núcleo governante, pode conduzir a economia e o povo brasileiro à rota do crescimento, prosperidade e igualdade;

    b) a hipótese maligna: um determinado grupo político, não precisamente o PT, mas alguma coisa muito parecida com ele, o que alguns chamam de “os companheiros”, deliberadamente usa as tais políticas públicas para carrear recursos para ONGs e empresas amigas, que se disponham a retornar parte dos benefícios recebidos na forma de dinheiro ou poder. Em paralelo, busca-se é claro a manutenção no poder, como forma de perenizar as fontes de recursos e benefícios para os participantes do grupo.

    Sei que a segunda hipótese tem cheiro de teoria conspiratória. Não gosto dessas teorias, mas quanto mais olho em volta mais sou levado a crer que o objeto da ação penal 470 foi apenas um grosso braço de rio, por acaso identificado dentro de um complexo sistema hidrográfico, cheio de riachos, córregos, pequenos canais, que desaguam em benefícios aos participantes do grupo dominante.

  7. É um dado preocupante, meio trilhão de reais em empréstimos, uma alavancagem altíssima para uma demanda por crédito dos bancos tão grande quanto, alinhados a fusões empresariais globais, que como citado não precisariam desse financiamento. Acredito que se deva expandir nosso poder económico, investir no crescimento das empresas, mas com consistência, com alicerce, o que me parece meio vago………..ainda nos falta um modelo de crescimento bem fundamentado. Enquanto isso se injeta dinheiro em todos que tem cacife para com a bancada do BNDES, na esperança de que a “improvisação técnica” funcione o máximo possível.

  8. Parabéns, Mansueto.
    As questões do post são um desafio maior que adivinhar o que teria dentro da Caixa de Pandora. Ou como desatar o Nó Górdio. Neste último caso, Alexandre não quis esquentar a cabeça com charadas e de um golpe de espada, cortou o famoso “Nó”.
    Abraços

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