O modelo dos países Nórdicos

The economist2013Sugiro a leitura da matéria especial de 14 páginas da nova edição da revista The Economist. Enquanto o mundo se divide entre os modelos intervencionistas dos BRICs, o modelo do Estado grande da Europa e o modelo mais liberal dos EUA e Inglaterra, a revista traz um matéria de capa sobre o modelo dos países Nórdicos que seria o próximo “supermodelo”.

O mero fato desse tipo de tese aparecer na capar desta revista é interessante. De fato, os países Nórdicos têm coisas fantásticas que todos os outros poderiam aprender e tentar replicar. Mas o Estado nesses países é grande e não sei se os incentivos à inovação são os mais adequados.

É claro que não se deve tirar do modelo dos países Nórdicos que Estado grande leva a mais crescimento e desenvolvimento. Na verdade, Estado grande é resultado do desenvolvimento. O economista Peter Lindert no seu famoso livro (“Growing Public”) mostra que existe na história de crescimento dos países o que ele denomina de “paradoxo de Robin Hood” – os Estados mais ricos gastam mais com social (% do PIB) do que os países pobres.

Por que? Porque os ricos podem, entre outras coisas, tributar mais e compensar parte da carga tributária mais pesada com maior produtividade. Infelizmente, países pobres (baixa renda per capita) não conseguem fazer o mesmo. Assim, cuidado com a evidência que você vai tirar desta leitura.

24 pensamentos sobre “O modelo dos países Nórdicos

  1. Falando em transparência, na Noruega se você digitar o nome de algum cidadão no google, a primeira coisa que aparece é sua delcaração de rendimentos. Qualquer pessoa pode saber a renda de qualquer pessoa, não só a dos servidores públicos (e não só a renda advinda do serviço público). Se o seu vizinho achar que seu carro novo não condiz com seu salário, ele denuncia à receita federal de lá, que fará uma averiguação.
    Isto dificulta que os rendimentos de corrupção, caixa dois etc. sejam usados, inibindo também a própria corrupção, caixa dois…
    Pena que se tal política fosse adotada aqui, os principais interessados seriam os sequestradores, ladrões, estelionatários…

  2. Mansueto,
    É preciso ter muito cuidado com a afirmação de que países ricos (eu substituiria por países com alto % de idosos) necessariamente são países com um Estado grande.
    Acho que o melhor exemplo que contrapõe essa afirmação é Taiwan.
    Taiwan é um país com uma renda per capita superior a US$ 38.000 (PPP), com uma carga tributária média de 19% do PIB e com um gasto público médio de 23% do PIB.
    Taiwan se tornou um grande produtor de bens de alta tecnologia.
    Acompanhando o debate econômico no Brasil, eu percebo que há uma visão de que apenas o Estado está habilitado para fornecer bens e serviços sociais.
    Eu não concordo com essa visão.
    O Mercado tem todas as condições de oferecer educação, saúde, previdência social, habitação e etc a um custo mais baixo e com mais qualidade do que o Estado.
    Eu li alguns dias atrás uma previsão do FMI de que daqui a 5 anos Taiwan terá o décimo terceiro maior PIB per capita do mundo, superando, por exemplo, a Alemanha e o Canadá.
    Abraço.

  3. Mansueto,

    Você precisa considerar que o sistema tributário é progressivo e que se investe qualificadamente em educação e infraestrutura nesses países destacados por The Economist. Os empresários lá se consideram cidadãos e compartilham do excedente com o restante da sociedade.

    Acompanhe o que está rolando no GOP dos EUA (Lincoln teria vergonha dessa turma):

    http://www.nytimes.com/2013/01/28/opinion/krugman-makers-takers-fakers-.html?partner=rssnyt&emc=rss&_r=0

    Não existe um “estado de natureza” econômica. (Aquele da ciência sombria, por exemplo.) O que existem são opções, conscientes ou não, feitas pelas sociedades.

    Cordialmente,

  4. Mansueto,
    É preciso levar em consideração que esses países são grandes produtores de petróleo e possuem uma população pequena. Então é mais fácil você fornecer saúde, educação e assistência social do que em países que não possuem uma relação de barris de petróleo per capita tão favorável.

    • Mas, há países grandes produtores de petróleo com populações talvez até menores que algum país nórdico e com altíssimo nível de pobreza. Deve ter algo mais nisso.

  5. Caro Mansueto, primeiramente gostaria de te agradecer pela dica do Café Colombo (genial!). Quanto ao modelo nórdico, sempre fui um admirador… mas infelizmente penso que seja muito dificil aplicá-lo em outros lugares: 1- ´Países como Reino Unido e EUA, com altos gastos militares, nunca terão recursos suficientes para investir plenamente em capital humano; 2- países emergentes como Brasil, sabemos muito bem que precisam melhorar muito sua burocracia estatal para começar a inovar…

    grato

  6. “Os empresários lá se consideram cidadãos e compartilham do excedente com o restante da sociedade.” — Essa é boa…

    É importante notar que tem caído a carga tributária nestes países. A Suécia, por exemplo, está realizando mais um corte nos impostos das empresas: http://www.marketwatch.com/story/sweden-proposes-corporate-tax-cut-to-22-2012-09-13

    E, salvo engano, já tem uma das menores tributações empresariais da Europa.

    A alta renda permite “tirar” mais dos cidadãos em troca de bem estar. Se analisarmos direito, o “Estado” como estrutura burocrática é pequeno, voltado quase todo em prestar serviços diretos ao cidadão. Aqui no Brasil grande parte dos impostos é “esterelizado” somente na existência da máquina, ficando pouco em retorno.

    • Tem outras coisas boas na matéria: “This is not to say that the Nordics are shredding their old model. They continue to pride themselves on the generosity of their welfare states. About 30% of their labour force works in the public sector, twice the average in the Organisation for Economic Development and Co-operation, a rich-country think-tank”.

      • A média da OCDE é 22%. No Brasil é 12%. Os EUA tem 1,85 milhão de servidores públicos ativos, enquanto o Brasil tem 1,1 milhão na União.Ou seja, é preciso analisar no conjunto. (segundo números que pesquei agora, não sei se são 100% corretos). A maior parte deste funcionalismo certamente são profissionais da saúde e educação em todos os casos.

      • “A média da OCDE é 22%. No Brasil é 12%. ”

        Regis, esses 12% do Brasil correspondem apenas ao Governo Central. Há ainda os empregos públicos de Estados e Municípios.

      • não me convenci.

        a imprensa costuma se enrolar com esses números.

        agora, estou falando mesmo de orelhada.

        lembro-me de (há alguns anos) ter tido acesso a uma fonte q me pareceu confiável, dando conta de q esse % baixo só considerava a União.

  7. Paises escandinavos – Noruega, Finlandia, Suecia, Dinamarca e Islandia

    Diria que o mais estatista e com o maior numero de pessoas da esquerda antiliberal (mesmo assim ainda sendo um grupo peqeno) eh a Noruega.

    A Suecia e a Dinamarca sao as mais liberais e com as reformas que foram feitas e as que planejam fazer caminham em direcao a uma sociedade de livre mercado com um Estado menor (custos e pessoal) e fiscalmente responsavel.

    Nao existe banco nem estatal nem apoio do governo a monopolios e oligopolios nestes paises. Os mercados sao aberto ao mundo em condicao igual de competicao. A populacao tem tradicao de poupar e nao cai no consumo desenfreado e enormes dividas. O rule of law e a transparencia sao fortissimos.

    Quem ja morou, visitou ou conviveu com escandinavos sabe que eles nao tem semelhanca cultural nenhuma com brasileiros e outros latinos, sao muitissimo mais proximos de anglo saxoes.

    A esquerda religiosa-irracional, estatista, totalitaria brasileira nao tem ideia do que diz quando aponta para os escandinavos como justificativa e exemplo imaginario para manter o pais no atraso.

  8. Não se pode mistificar o modelo dos nordicos e os países são bastante diferentes entre si. Para uma outra visão do Estado grande e eficiente, o que não é exatamente verdade, sugiro consultar o trabalho de Nima Sanandaji chamado: The surprising ingredients of Swedish success – free markets and social cohesion (IEA n. 14, Agosto 2012) que pode ser encontrado no site do iea.org.uk.
    As coisas mudaram muito na Suecia e na Escandinavia em geral…
    Paulo Roberto de Almeida

  9. Ter um Estado grande é para quem pode não para quem quer. Se a classe média tivesse educação e saúde de boa qualidade, acharia que um pouco mais de imposto seria justo. Mas para bancar um legislativo que torra dezenas de bilhões por ano, como bem disse o Regis, dinheiro para a burocracia é duro pensar que estamos a cem anos dos países nórdicos. É como querer o câmbio chinês sem ter a poupança deles.

  10. Meus caros,
    Ainda não li a reportagem mas temos que ter muito cuidado com os termos utilizados. O que é estado grande? É ter um BNDES que recebe centenas de bilhões de reais para repassar para os amigos do rei? É ter uma petrobrás para que os políticos de plantão se esbaldem? Se for isto (e temos milhões de outros exemplos), nós teríamos um estado grande.
    Mas se estado grande é ter um estado provedor de infra-estrutura de qualidade (em grande quantidade), ou provedor de educação (ou saúde) de qualidade da pré-escola até o segundo grau para todos os brasileiros ou fazer grandes programas de transferência de renda para (somente) as parcelas mais pobres da população, nós teríamos um estado mínimo.
    É simples assim. Utiliza-se como desculpa o segundo parágrafo pela corja para aumentar as atividades citadas no primeiro parágrafo.
    Saudações

    • Correto Claudio. Um exemplo mais. O Estado chines, com menos de 22% do PIB como carga fiscal, oferece uma infraestrutura de primeira qualidade para os exportadores do pais, que sao, emsua qase totalidade, empresas privadas concorrendo fortemente entre si e nos mercados internacionais. A presenca do Estado e’ mais forte no setor financeiro, mas o foco do credito esta’ na mobilizacao das poupancas privadas para fins de investimento.

  11. Países pequenos em território e população, com divisão do tempo em antes e depois da neve, aprendem a poupar para sobreviver. Com neve pobre (no nosso conceito) morre. Com sol o ano todo se vive melhor sem camisa do que de terno e gravata. A verdade é que um país pequeno é gerenciado com mais facilidade. Além de tudo sempre foram exportadores de mão de obra para os USA. Uma cidade pequena que exporta mão de obra, com o tempo passa a ter todos os benefícios do desenvolvimento: ruas calçadas, água à vontade, luz para todos, postos de saúde, escolas e até cemitério bonito. As necessidades não aumentam, continuam as mesmas e com o tempo vão sendo feitas (claro que não contam as cidades das regiões onde os políticos eleitos se consideram o dono de tudo, não entendem o que é a coisa pública).
    O Brasil (assim como a China, a Índia, a antiga URSS e os USA) é uma federação complexa e de difícil gerência. O exercício da política é difícil. Governar é muito difícil. As corrupções são mais frequentes (até nos USA e na China onde se mata corruptos). O pior de tudo é que aceitamos como corretas as legislações que privilegiam partes da sociedade (todos esperam um dia entrar para a mamata.). A nossa legislação é de fato o maior empecilho ao enriquecimento do país. Sem as reformas (política, tributária, previdenciária, trabalhista) seremos eternamente pobres, um país de minoria privilegiada e difícil de produzir.

    • Essa história de culpar o sol é balela. Grande parte da história os Nórdicos foram os “bárbaros” e o mundo em 100 anos mudou muito mais que nos 3 mil anos anteriores de civilização.
      O que sempre nos atrasou foi nossa cultura patrimonialista, arraigada desde o descobrimento, típica dos povos latinos católicos.

      Segue uma aula do Marco Antonio Villa, sobre política e história do Brasil…

  12. Regis: eu não culpei o sol. Apenas quis demonstrar que a geografia adversa dos países do báltico – nórdicos (e de todos que sofrem invernos rigorosos) os obrigou a uma formação de poupança adequada para enfrentar – às vezes – 6 meses de período improdutivo (isto influenciou fortemente a cultura deles). A poupança é uma variável muito importante na construção da riqueza nacional. Existe uma diferença muito grande entre um país exportador de mão de obra (os nórdicos) e outro importador, os USA. O Brasil, por diversos motivos, tem uma formação de poupança pequena (isto nos obriga a importar poupança – a contrapartida são juros ou dividendos.). Resumindo: não podemos comparar coisas diferentes. A carga tributária alta dos países nórdicos não é exemplo para o Brasil.
    O filme anexado é uma aula de crítica, só (o mais fácil que existe. É apenas uma parte da análise, faltou o contraditório e o mais difícil a conclusão.). Parece discurso político (um lado só).

  13. Será mesmo que se a carga tributária brasileira fosse “organizada” como a da Noruega não haveria nenhum impacto benéfico na economia nacional?
    Se ela não onerasse tanto a produção e recaísse mais sobre a renda, se ela fosse progressiva, se os encargos trabalhistas não fossem tão altos, se parte da arrecadação retornasse de fato em investimentos em pesquisa, etc.

    Nunca fui convencido de que o Brasil NÃO PODE ter uma carga tributária elevada. Pra mim o grande problema é como o sistema de arrecadação é organizado, nem tanto a % em relação ao PIB.

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