As previsões que fiz em 2011

Em agosto de 2011, conversei com o Estado de São Paulo e falei que dava para fazer com segurança uma previsão de que, em 2012, haveria um impulso fiscal de pelo menos R$ 83 bilhões (clique aqui). Nas minhas previsões cometi três erros porque confiei demais nas declarações da equipe econômica.

Primeiro, o impulso fiscal foi maior do que aquele que calculei. Apenas a despesa primária cresceu R$ 80 bilhões, sem contar com o efeito das desonerações. Segundo, esperava um aumento maior do investimento, o que não aconteceu. Terceiro, esperava uma atuação mais forte do BACEN no controle da inflação, algo que também não ocorreu.

Mas uma coisa que já havia destacado em 2011, sobre as contas de 2012, se comprovou. Falei, em 2011, nessa matéria do Estado de São Paulo que:

2012 deve repetir 2009, quando a política anticíclica foi baseada em aumentos de despesas correntes em vez de investimento público”, explicou o economista em nota técnica sobre os gastos fiscais no próximo ano. Ele se refere ao estímulo à economia realizado pelo governo no início da crise global. Agora, apesar das promessas de que qualquer incentivo – caso a situação internacional afete a economia brasileira – virá dos juros, e não dos gastos, Almeida aposta que o padrão de 2009 será repetido.”  

Antes mesmo dessa entrevista, em julho de 2011 (clique aqui), havia declarado para o Estado de São Paulo que: “Do ponto de vista do superávit primário, o governo está entregando mais ou menos o que prometeu, mas é um resultado baseado em aumento da arrecadação que reflete o crescimento do ano passado”, concorda o economista Mansueto Almeida, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “A questão é que os grandes problemas fiscais foram transferidos para 2012.” É o caso do aumento do salário mínimo, que em 2012 incorporará o crescimento de 7,5% da economia registrado em 2010 e a alta inflação de 2011.”

E no final do governo Lula, em dezembro de 2010, alertei em artigo que publiquei no Estado de São Paulo que o chamada “ajuste fiscal” deveria focar os próximos quatro anos para reduzir, gradualmente, as despesas de de custeio, inclusive  sociais como proporção do PIB e não apenas 2011 (clique aqui).

Já no artigo “esclarecendo debate fiscal” que escrevi no jornal Valor Econômico, em 6 de fevereiro de 2012,  (clique aqui), terminava o artigo alertando que:

A nossa situação fiscal, apesar da elevada carga tributária e da qualidade dos serviços públicos muito aquém do desejável, chega a ser confortável em relação ao resto do mundo. É claro que esse equilíbrio tem custos e a indústria sente o peso desse modelo, mas se quisermos mudá-lo, seria bom combinar com o eleitor. Enquanto isso não ocorrer, os ajustes no gasto público serão marginais e o “espaço fiscal” para o investimento dependerá cada vez mais da arrecadação e da pouca margem de manobra que o governo tem para conciliar maior crescimento com o desejo imediato da sociedade por mais transferência de renda.”

Já na coluna do jornalista Cristiano Romero, em 24 de agosto de 2011, enquanto o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, falava em gerar superávit primário de 3,1% do PIB até 2014, eu alertava que achava difícil e que não via interesse do governo em manter o esforço fiscal de 2011 e sacrificar programas sociais (clique aqui).

Termino esse post com uma declaração que dei, em julho de 2012, à Agência Broadcast (clique aqui): “….o governo pode ainda tirar uma “carta da manga” para cumprir a meta, como fez em 2009 e 2010, mas essa possibilidade é bem mais difícil hoje. “Uma coisa é tirar carta da manga em 2012 e outra tirar carta da manga como em 2009 e 2010. Lá atrás, quando o governo precisou de receita chegou a vender crédito a receber da Eletrobrás para o BNDES. Esse tipo de truque o mercado já conhece”, afirmou. “Se tiver esse tipo de truque vai pegar muito mal.”

E pegou. Por sinal, sugiro a releitura da minha entrevista na Broadcast em julho deste ano que está transcrita aqui no blog nos arquivos de julho de 2012.

Em resumo, foram muitas entrevistas e alertas sobre a dinâmica fiscal e, no final, eu desejaria ter errado todas essas previsões e que hoje o investimento público fosse maior e as despesas de custeio menor. Infelizmente, isso não aconteceu e acredito cada vez mais que será necessária uma redução permanente do superávit primário.

4 pensamentos sobre “As previsões que fiz em 2011

  1. Mansueto,
    Entendi perfeitamente a sua autocritica. Muito válida por sinal. A questão é: Estamos esperando um “mea culpa” do Mantega e etc e não sai. Merece aplauso sua atitude.

  2. Duas previsoes faceis de fazer e certeiras no acontecer: o Governo vai continuar gastando do mais do que deve e o excesso de gastos continuara’ a ser coberto pela pressao fiscal (maior eficiencia extrativa).
    Conclusoes faceis de tirar: a Industria vai continuar perdendo Competitividade e o Governo vai continuar adotando remedios defensivos.
    Em outros termos: o Brasil vira um avestruz.

  3. Bem e já que desarticulou o “tripé” e parece, tenta furar a LRF, nada mais a esperar do que aprofundamento da estagnação. Já que falar agora em estagflação…

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