Adeus Keynes!

É claro que gosto muito do economista John Maynard Keynes e que tenho um profundo respeito pela sua obra. E nesse debate sobre o baixo crescimento do PIB nos EUA tomo o lado daqueles que defendem maior estimulo à demanda no curto-prazo na linha do Paul Krugman. Mas, no Brasil, a situação é completamente diferente.

O gráfico abaixo produzido pela Fundação Getúlio Vargas é excelente para mostrar o nosso problema. No eixo esquerdo você pode ver o crescimento das vendas de varejo e da produção industrial. O ano base é 2002 = 100. As barras azuis mostram a diferença (o gap) entre as vendas de varejo e a produção industrial (eixo direito).

Vendas no Varejo versus Produção Industrial – jun/2005-out2012

Vendas varejo e industria

 

Fonte: FGV-IBRE

O que o gráfico mostra? Até 2008, o gap entre o crescimento desses dois indicadores não cresceu (na verdade caiu), o que mostra que a expansão da demanda se transformava no crescimento da produção industrial. Isso deixou de acontecer a partir do final de 2008.

Como se observa, a demanda continuou crescendo (linha azul), mas a produção industrial (linha vermelha) perdeu o seu dinamismo, i.e. aumentou o gap entre as vendas de varejo e a produção industrial e as barras azuis crescem. Por que? Bom, depois de 2008, temos um mundo com excesso de oferta de bens manufaturados muito mais baratos do que aqueles que são produzidos aqui.

Demanda nós temos e mais estímulos à demanda aumentará ainda mais as importações (e/ou inflação). O que não temos é uma estrutura de custo de produção para competir com a produção industrial do resto do mundo – não temos salário baixo para competir com o Vietnam (e graças a Deus não temos) nem produtividade alta para competir com a Alemanha (que pena!).

Assim, o nosso problema não é falta de demanda. Nós conhecemos muito bem Keynes, mas ele hoje não explica o que atrapalha o nosso crescimento.

17 pensamentos sobre “Adeus Keynes!

  1. Ótimo post. Vários economistas batendo nessa tecla, mas parece que o governo não entende…estudo em uma instituição heterodoxo e aqui crescimento é sempre puxado pela demanda, que pena!!
    Você poderia escrever sobre essa sua defesa dos estímulos à demanda nos EUA.
    Parabéns!!

  2. Muito esclarecedor o gráfico e a análise. Boa parte da boa análise econômica reside nas curvas de oferta e demanda!!!!!

  3. Ótimo post.
    Infelizmente nossos governantes eleitos, que se responsabilizam, no Poder Executivo, de traçar o planejamento estratégico e posicionar o país no mundo e mercado modernos, só enxergam primeiramente a sede por verbas e pedidos imediatistas de sua ‘base aliada’ (legislativo) e, ‘segundamente’, seu horizonte eleitoral para sobrevivência política de até 4 anos à frente.
    É o que nos restou do trauma da ditadura militar – e longe de querer retorno-, mas foram os últimos vestígios que tivemos, mesmo tímidos, de planejamento econômico de longo prazo.

  4. Caros colegas,

    O post é simples e esclarecedor.

    Não acredito, todavia, que a insistência do governo em fortalecer/sustentar a demanda se deva unicamente à crença de que seja esse o problema essencial da economia.

    Creio que o governo está preso ao clima ufanista e de glória que ele próprio criou. Ou seja, a razão seria política. Ora, quando o Lula disse tudo aquilo que disse, ele impossibilitou uma discussão mais séria e de longo prazo dos problemas econômicos.

    Digo isso porque creio que, no meio de tantos técnicos, muitos tenham competência para conhecer e saber interpretar dados que já são claros há muito tempo.

    Abraços

    • Caro Rafael, concordo com você.

      A demanda hoje é o menor dos problemas do país, mas o governo precisa justificar seus gastos, e o faz usando o nome do Keynes.

      Uma vez que Keynes escreveu sua teoria para economias desenvolvidas em crise de demanda, e uma vez que o Brasil nao está nesse grupo, estou certo que Keynes jamais concordaria com a política economica praticada pelo nosso governo.

      Grande abraço

  5. Prezado Mansueto, não sou economista, e seu post me estimula a fazer uma pergunta que me incomoda há algum tempo. Existe algum economista importante no Brasil, cuja voz tenha alguma importância no setor público, e não seja adepto de Keynes? Algum que goste do Liberalismo de Hayek e von Mises, por exemplo? É que só vejo gente defendendo o Keynesianismo como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, como se fosse uma solução incontroversa – não é o seu caso neste post, obviamente. E, pelo pouco que leio, eu não acho que seja tão óbvio assim, não. Como sou quase um leigo no assunto, achei que talvez você pudesse citar os nomes de alguns liberais brasileiros, que defendam a escola austríaca e cujas opiniões sejam escutadas pelos especialistas. Obrigado.

    • Existem vários bons economistas no Brasil na tradição de Hayek. Mas hoje nenhum deles tem interlocução com o governo. E vários desses economistas discordam radicalmente do receituário de estimulo à demanda adotado pelo governo. Depois cito alguns nomes. Abs,

  6. Mansueto,

    O Brasil sempre foi um “pouco” diferente” em muitos campos. (rs) Afinal, 4 séculos de escravidão deixaram marcas profundas até o presente. A industrialização do País não poderia ocorrer em ambiente de mentalidade escravocrata. Você disse que assistiu Lincoln. Pois bem.

    Keynes foi além da fórmula de aumentar G em tempos de recessão ou depressão:

    http://www.folhavitoria.com.br/geral/blogs/livrepensar/2012/10/02/keynes-e-a-ordem-economica-liberal/

    Você conhece a ‘Grande transformação’ de Karl Polanyi? Pois bem, lá é adeus ao liberalismo econômico clássico e suas variantes de ciência sombria.

    Cordialmente,

    • Sobre ciência sombria: en.wikipedia.org/wiki/The_dismal_science .

      O inventor do termo objetava a discussão liberal sobre abolir a escravidão.

      • Sempre é possível complicar… (rs) Entre os Pais Fundadores dos EUA existiam senhores de escravos – George Washington, James Madison e Thomas Jefferson. Todos eles eram donos de escravos e assim permaneceram durante toda a vida.

        Já entre os clássicos economistas liberais havia quem defendesse o sufrágio restrito e a responsabilização dos pobres por sua situação social precária. Liberalismos político e econômico não são necessariamente convergentes.

        Sobre “ciência sombria” recomendo:

        http://www.livrariacultura.com.br/Produto/LIVRO/IMAGINACAO-ECONOMICA-A-GENIOS-QUE-CRIARAM-A/30177782

        Cordialmente,

  7. Eu realmente acho curioso como, sempre quando se fala de Liberalismo, alguém aparece para rechaçá-lo de modo categórico, usando de rótulos absolutos, como “liberalismo e suas variantes de ciência sombria”. Será que o Liberalismo é tão estúpido assim? Sinceramente, não é o que vejo, não. Por exemplo, não me parece óbvio que o Estado deve intervir em momentos de crise, não! Só para as empresas não quebrarem? Só para não haver desemprego? Ora, as crises do capitalismo servem justamente para colocar ordem na economia. Se, sempre que há uma crise, o Estado aparece para ajudar todo mundo (ou aqueles ramos que tem mais influência junto ao governo) sob a desculpa de “aumentar a demanda”, então se cria um sistema doente. E nem vou falar sobre a capacidade do Estado de decidir como aumentar a demanda. Eu acredito que o keynesianismo é muito mais um sistema de jogo político, via instrumentos econômicos, do que propriamente uma teoria econômica. Mas sei lá… Eu não sou economista e muito menos um economista “genial”, desses para quem tudo é bastante claro e já resolvido. Desses que falam de “ciência”, mas que, em muitos casos, não são capazes sequer de defini-la. Quanto ao Polanyi, encontrei um artigo interessante sobre ele – https://mises.org/daily/1607 – Já que todo mundo faz lobby pró-keynes e tenta desmoralizar o Liberalismo, acho que também se pode fazer lobby pró-Liberalismo e menosprezar keynes, esse malandrão demagógico.

  8. Vamos Ter Calma!! Keynes foi um grande economista. A questão é que políticos de plantão, que adoram gasto público, subverteram seu receituário. Como disse Victoria chick ao analisar a utilização no pós-guerra da teoria Keynesiana: “…se Keynes fosse vivo, nem ele seria Keynesiano”.

  9. Pingback: Alguns bons… « De Gustibus Non Est Disputandum

  10. Existe vária palavras para definir bem o que acontece no Brasil: excesso de corrupção e interferência e ingerência do governo na economia, e a sinergia do governo do PT SEMPRE foi anti-progresso e favor de reservas de mercado da MISÉRIA.

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