Novo recado do professor Delfim

A cada dia que passa os recados enviados ao governo pelo professor Delfim Netto nos seus artigos nos jornais ficam cada vez mais interessantes. E não se trata aqui de um critico da equipe econômica.

Mas se alguns desses recados vão ao encontro do mesmo alerta que outros economistas têm feito, isso pode sugerir que as criticas não têm nada a ver com ataques pessoais, mas uma preocupação real com o rumo da política econômica em um contexto de queda do investimento público e privado, risco de apagão, baixo crescimento do PIB e inflação consistentemente acima da meta.

No seu artigo de hoje no valor (clique aqui) o professor Delfim fala que:

“………Os subsídios (que devem ser claramente consignados no Orçamento) devem ser reservados àqueles projetos que, sem nenhuma dúvida, possuem taxa de retorno social maior do que a do mercado, como é, seguramente, o caso de alguns projetos de infraestrutura.

Não há justificativa social ou econômica para subsidiar “ganhadores escolhidos” para criar gigantescos oligopsônios e oligopólios privados em detrimento, mais dia menos dia, dos interesses dos consumidores como já estamos vendo. E, muito menos, proteger fortemente setores de insumos básicos, sem levar em conta os seus efeitos sobre as tarifas efetivas dos bens que os consomem.”

Se alguém quiser entender o que o professor quis dizer com evitar “proteger fortemente setores de insumos básicos” sugiro que leiam a entrevista do presidente-executivo do Instituto Aço Brasil (IABr), Marco Polo de Mello Lopes, no Valor da última segunda feira (clique aqui).

Como o aço no mundo está muito barato, há uma demanda do setor por maior proteção, para manter a capacidade de produção do aço brasileiro. OK, mas se essa é a lógica,  por que não proteger todos os produtos brasileiros dos produtos baratos lá de fora? Maior proteção ocasionará perdas para os consumidores e nenhum ganho de competitividade (o argumento da indústria nascente não vale para o aço).

Se o problema é a excessiva carga de impostos e a qualidade ruim da infraestrutura, então vamos resolver esses problemas e não criar um novo problema com mais proteção comercial e aumento de preços domésticos.

10 pensamentos sobre “Novo recado do professor Delfim

  1. Esta reposta na entrevista do presidente-executivo do Instituto Aço Brasil, se verdadeira, é bastante reveladora do real problema do aço brasileiro, e do que, empresários e governo, querem jogar nas nossas costas, como sempre:

    Valor: Como fica o Brasil no cenário siderúrgico global?

    Lopes: Cada vez mais perdendo competitividade. A nossa indústria é competitiva globalmente ATÉ A FASE DOS CUSTOS, ANTES DE IMPUTAR IMPOSTOS NA PRODUÇÃO, NAS VENDAS E NOS INVESTIMENTOS. Estudo da consultoria Booz, que contratamos em 2010 e que foi replicado no ano passado, mostra bem isso. Foram mapeados dois produtos-base – bobina laminada a quente e vergalhão – em seis países: Brasil, Rússia, Alemanha, EUA, Turquia e China. QUANDO SE APLICA A CARGA TRIBUTÁRIA, CAÍMOS DE PRIMEIRO E TERCEIRO LUGARES, RESPECTIVAMENTE, PARA A ÚLTIMA POSIÇÃO. Em bobina, o custo tributário total é de 44,3% e no vergalhão de 36,2%. A média dos seis países foi de 24%. Para se instalar uma usina integrada de aço plano no Brasil, como Usiminas e CSN, o custo chega a US$ 1,8 mil por tonelada. Na Índia é US$ 1 mil e na China fica em US$ 550.

    Custo tributário de 44,3% e 36,2% existe onde, além do Brasil?

    Seria interessante saber do do presidente-executivo qual percentual de aço é utilizado na construção civil no Brasil, relativamente aos EUA, já que ele falou na maior cara-dura em imitar o “Buy American”. Ou seja, ainda construímos aqui do mesmo modo que se faz desde o começo do século XX: concreto, vergalhão, cimento e tijolo.

    Se temos tanta capacidade de produção, porque raios a tecnologia da construção com robustas estruturas de aço (edifícios de grande porte) e do steel framing (edifícios de pequeno e médio porte de até nove andares) não decola no Brasil? Por que as siderúrgicas não se movimentam para agitar a cadeia produtiva da construção em aço a frio e por que não investem no desenvolvimento dessa tecnologia brigam por financiamento. Por que são mamadores crônicos, acostumados a somente reclamar por proteção.

    Desafio o Sr Marco Polo de Mello Lopes a apresentar números referidos ao steel framing no Brasil. Simplesmente não existem ou então devem ocupar a segunda casa, depois do zero, em termos percentuais

    E, vejam só, nos EUA o concorrente do steel framing é o woody framing!

    Para quem se interessar

    http://www.steelframing.org/index.php

    PS: Enquanto isso, a política da criação de “gigantes nacionais” patrocinada pelo BNDES, e paga com os impostos dos cidadãos, segue de vento em popa.

    PS: Desculpe o desabafo da minha irritação, Mansueto

  2. Para dar um exemplo da ineficiencia da indústria siderurgica brasileira, a Usiminas vendeu 6 milhões de toneladas em 2011 com 30 mil funcionários. A Steel Dynamics nos EUA vendeu a mesma quantidade com apenas 6 mil funcionários.

  3. Pô… Vi você no JN amenizando o absurdo cometido pelo governo na tarifa de energia! Fiquei muito decepcionado! O que o governo fez foi um jogo demagógico de muito baixo nível! E vc sabe disso! Não tem essa de “tem lado negativo, MAS tem lado positivo”. Isso aí só tem lado negativo! Não gostei!

    • Mas reduzir o custo de energia é positivo. O ruim foi a forma e fonte da receita para a desoneração. Veja o meu próximo post e as minhas declarações amanhã no Valor, Estado de São Paulo e o Globo. Na TV, eles editam muito e ali era só uma parte pequeno do que conversei com o jornal.

      Abração,

  4. Esta “mandrakaria contábil” assola o mundo todo.Na Alemanha um discurso exaustivo e repetitivo no Congresso….”nao podemos fazer dividas para nossos filhos pagarem” mas as dividas aumentam de governo para governo.Os EUA tem uma divida astronomica beirando os 17 trilhoes de dolares e aparentemente poucos se preocupam com isto.A palavra que vale é “rolagem”….os “filhos ” que se danem.Onde fica o “lastro ouro”?
    De nada serve criticar este ou aquele governo,eles nao tem outros recursos a nao ser a “rolagem inventiva”. ….como o novo prefeito de SPaulo na sua primeira reuniao de gabinete teve que fazer.
    Ainda sou da opiniao(ultrapassada como dizem meus filhos) que certos servicos essenciais nao devem ser privatizados já por motivos de seguranca nacional e Energia é um deles…..mas o mundo nao me ouve!!!!
    D.Rollus

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