Lincoln (2012): filme excelente.

Neste último final de semana assisti ao filme Lincoln (2012) do Steven Spielberg. O filme é simplesmente fascinante e os diálogos profundos e espetaculares. Transcrevo abaixo uma das passagens que mais me chamou atenção no filme que serve como uma luva para os debates políticos de hoje.

A conversa se dá entre o congressista Thaddeus Stevens, interpretado por Tommy Lee Jones, e o presidente Abraham Lincoln, interpretado por Daniel Day-Lewis. Na conversa reservada entre os dois sobre a estratégia para aprovar a 13a emenda que proibiu a escravidão nos EUA, em 1865, os dois travam o seguinte diálogo em uma sala reservada na Casa Branca:

Lincoln: Since we have the floor next in the debate, I thought I’d suggest you might… temper your contributions so as not to frighten our conservative friends?

Stevens: Ashley insists you’re ensuring approval by dispensing patronage to otherwise undeserving Democrats.

Lincoln: I can’t ensure a single damn thing if you scare the whole House with talk of land appropriations, revolutionary tribunals, punitive…

Stevens: When the war ends, I intend to push for full equality, the Negro vote, and much more. Congress shall mandate the seizure of every foot of rebel land and every dollar of their property. We’ll use their confiscated wealth to establish hundreds of thousands of free Negro farmers, and at their side soldiers armed to occupy and transform the heritage of traitors. We’ll build up a land down there of free men and free women and free children and freedom. The nation needs to know that we have such plans.

Lincoln: That’s the untempered version of reconstruction. It’s not… It’s not quite exactly what I intend, but we shall oppose one another in the course of time. Now we’re working together, and I’m asking you….

Stevens: For patience, I expect.

Lincoln: When the people disagree, bringing them together requires going slow till they’re ready to make up.

Stevens: Ah, shit on the people, and what they want, and what they’re ready for, I don’t give a goddamn about the people and what they want! This is the face of someone who has fought long and hard for the good of the people without caring much for any of ‘em. And I look a lot worse without the wig. The people elected me! To represent them! To lead them! And I lead! You ought to try it!

Lincoln: I admire your zeal, Mr. Stevens, and I have tried to profit from the example of it. But if I’d listened to you, I’d’ve declared every slave free the minute the first shell struck Fort Sumter*. Then the border states would’ve gone over to the confederacy, the war would’ve been lost and the Union along with it, and instead of abolishing slavery, as we hope to do in two weeks, we’d be watching helpless as infants as it spread from the American South into South America.

Stevens: Oh, how you have longed to say that to me. You claim you trust them. But you know what the people are. You know that the inner compass that should direct the soul toward justice has ossified in white men and women, north and south, unto utter uselessness through tolerating the evil of slavery. White people cannot bear the thought of sharing this country’s infinite abundance with Negroes.

Lincoln: A compass, I learnt when I was surveying, it’ll…it’ll point you True North from where you’re standing, but it’s got no advice about the swamps and deserts and chasms that you’ll encounter along the way. If in pursuit of your destination, you plunge ahead, heedless of obstacles, and achieve nothing more than to sink in a swamp…What’s the use of knowing True North?

*OBS: Os tiros no Fort Sumter foi quando teve início a guerra civil nos EUA. O presidente Lincoln se refere nesta frase que, se houvesse defendido a libertação imediata de todos os escravos, em 1861, a união poderia ter perdido o apoio dos estados de Delaware, Kentucky, Maryland e Missouri, os chamados “border states”, que apesar de serem estados escravistas, continuaram leais à união na guerra civil contra os Estados Confederados que se rebelaram contra a união e que defendiam a escravidão.

A lição que tiro deste debate para um político é simples: muitas vezes, mesmo quando alguém tem razão e acredita que está fazendo o que é certo, o radicalismo pode atrapalhar quando não há um consenso pró-reformas. Política é arte da negociação e mudanças em um sistema democrático são, em geral, lentas. O caso da igualdade racial nos EUA é um bom exemplo.

Depois da aprovação da 13a emenda da constituição americana que proibiu o trabalho escravo, novas mudanças foram feitas (14a e 15a emendas) nos anos seguintes depois do fim da guerra civil, garantindo igualdade de condições para as pessoas de cor. No entanto, o processo para acabar com a segregação racial nos EUA ainda levaria mais de 100 anos até que fosse aprovado o “Civil Rights Act” no governo do presidente Lyndon Johnson (1963-1969), em 1964. 

Será que todo esse processo (o fim da segregação racial nos EUA) poderia ter ocorrido de forma mais rápida como desejava o congressista Thaddeus Stevens no sec XIX? Difícil dizer. Por trás de mudanças que parecem rápidas, há anos (ou décadas) de luta de pessoas que sofreram muito por defenderem ideias que hoje a grande maioria considera normal.

4 pensamentos sobre “Lincoln (2012): filme excelente.

  1. O último diálogo do Licoln me fez lembrar das metáforas do Bobbio sobre a história. “Uma imensa floresta na qual não há uma única estrada previamente traçada, e na qual não sabemos nem mesmo se há uma saída”. E a do labirinto: “Acreditamos saber que existe uma saída, mas não sabemos onde está. Não havendo ninguém do lado de fora que nos possa indicá-la, devemos procurá-la por nós mesmos. O que o labirinto ensina não é onde está a saída, mas quais são os caminhos que não levam a lugar algum”.

    Prof. Orlando Tambosi, autor do excelente “O Declínio do Marxismo e a Herança Hegeliana” (traduzido na Itália sob o título: Perché il marxismo ha fallito. Lucio Colletti e la storia di una grande illusione. Mondadori, 2001) escreveu uma boa resenha a respeito da autobiografia do Bobbio: “Diário de um século”. Prefácio de Raimundo Faoro.

    Para quem quiser ler a resenha:

    http://www.ced.ufsc.br/~turma787/resen02.html

  2. Leia atentamente Alexis de Tocqueville… (kkk) “Democracia na América”. Os negros lutaram bravamente em diversas guerras até que fosse aprovado o “Civil Rights Act” no governo do presidente Johnson, em 1964.

  3. Realmente o diálogo é brilhante, mas na terra da banania, os bananenses podem assistir mil vezes não vai sentir e nem imaginar a substância contida nas palavras.

  4. Que nada! Era só resolver tudo à base de cotas! E outra coisa: é preciso muito cuidado com esse rótulo de “radicalismo”. Às vezes, é preciso ser radical, sim, na defesa de princípios inegociáveis, como a legalidade, por exemplo. Há muitos discursozinhos amigáveis e mansos por aí, mas que, na verdade, fazem parte de um esforço lento e constante pela destruição de uma república democrática.

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