A bênção disfarçada do baixo crescimento

Segue anexo (A bênção disfarçada do baixo crescimento – clique aqui) o meu primeiro artigo do ano no jornal Valor Econômico. Recomendo também a leitura do artigo do Ilan Goldfajn publicado ontem no Estado de São Paulo (As surpresas de 2012 e suas implicações – clique aqui) e o artigo da jornalista Miriam Leitão no jornal O Globo do dia 01 de janeiro de 2013 (Em busca do tempo perdido – clique aqui).

No meu artigo espero ter deixado claras algumas mensagens: (1) olhar mais para os determinantes do crescimento de longo prazo, (2) recuperar a agenda de reformas e evitar o mix de políticas contraditórias; (3)  garantir a independência e fortalecer as agências reguladoras; (4) deixar que a taxa interna de retorno dos investimentos seja definida nos leilões pelo próprio setor privado e não pelo governo.

Em especial, quero destacar também um ponto que aparece no meu artigo e no do Ilan. No meu: “Alguns analistas apontam que apesar do baixo crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), nos últimos dois anos, a pobreza e a desigualdade de renda continuaram a cair. Infelizmente, ainda não se inventou na teoria econômica a possibilidade de crescimento sustentável da renda em uma economia com crescimento medíocre do PIB.” 

No artigo do Ilan: “A dicotomia entre o crescimento fraco do PIB e a força do mercado de trabalho não se pode perpetuar. Algo terá de mudar. A retomada do PIB, mesmo que moderada, sustenta o emprego e os salários. Um PIB persistentemente fraco ameaça a força de trabalho e seus subprodutos: consumo, a nova classe média e melhoras socioeconômicas, incluindo a distribuição de renda.”

O que espero, baseado nas minhas leituras de Albert Hirschman, é que o baixo crescimento de 2012 tenha sido uma “benção disfarçada”, i.e. um evento ruim que poderá ocasionar mudanças positivas. Às vezes,  fazemos “a coisa certa” apenas em circunstâncias adversas, daí a origem do termo “bênção disfarçada” ( ou no seu original “blessing in disguise”).

10 pensamentos sobre “A bênção disfarçada do baixo crescimento

  1. Olá Mansueto, muito bom o artigo (e a seleção dos outros dois) como de costume! Acho que as quatro mensagens sintetizam (muito) bem as diretrizes que a política econômica deveria tomar. Mas confesso não estar muito otimista.

    Coincidentemente, meu último post também aborda evidências de “problemas de longo-prazo” no Brasil (e em outros pares na América Latina), se quiser dar uma olhada:

    http://econapproach.blogspot.com

    Cordialmente,

    • João,

      acabei de ler o seu ultimo post e concordo com o seu ponto de que não houve um catching up. Mas até que fizemos um conjunto de reformas positivas desde a segunda metade da década de 1980 e que parou depois de 2005.

      O risco hoje é tentar olhar para trás, década de 70, ao invés de olharmos para frente e retomarmos a agenda de reformas. Mas ainda sou moderadamente otimista e por isso acho que o baixo crescimento pode servir como um bom freio de arrumação ou piorar de vez o nosso mix de política econômica.

      Na minha visão para onde o governo está caminhando ainda está indefinido. Mas pelo menos, ainda que de forma tímida, a agenda de reformas entrou, com atraso, no debate.

      Grande abraço,

  2. Dr Mansueto,

    Quando você fala “deixar que a taxa interna de retorno dos investimentos seja definida nos leilões pelo próprio setor privado e não pelo governo” isso ainda não é possível no Brasil, apenas para alguns setores que tem uma concorrência maior é possível, setores como aeroportos, estradas, energias esses só tem 4 ou 5 concorrentes não podemos deixar na mão dos investidores essa opção, temos que dar um limite.
    Esse modelo de leilão pelo menor preço já é feito a algum tempo e a cada leilão aumenta o numero de participantes. Pode ser que no futuro com uma maturidade do mercado brasileiro e com a participação maior de empresas internacionais façam que o próprio mercado chegue a um equilíbrio entre o taxa de retorno proposta pelo governo e a taxa de retorno aceitável pelo mercado.

    um abraço e feliz ano novo Mansueto

    • Na verdade Régis, ter 5 ou 6 empresas interessadas em um leilão me parece ser um numero razoável. Os leilões baseado em menor preço não entregaram os investimentos prometidos e quase todos os contratos precisaram de aditivos (de mais de 50%) e muitos foram renegociados. No caso das concessões de rodovias baseados na menor tarifa, o economista César Matos escreveu sobre assunto (http://www.brasil-economia-governo.org.br/2011/12/07/por-que-o-modelo-de-concessoes-de-rodovias-federais-no-brasil-nao-esta-apresentando-bons-resultados/) e mostra porque esse modelo não funcionou.

      No caso da falta de interesse de empresas internacionais, isso não é causa da baixa concorrência mas sim consequência da intervenção excessiva do setor público e na sua tentação de arbitrar qual a “taxa interna de retorno correta”. Ou seja, a suposta baixa concorrência a que você se refere é ainda agravada pelo fato de o governo interferir em assuntos privados do âmbito das empresas.

      É claro que em setores em que há a presença de monopólio natural é preciso regulação do setor público. Mas isso não é o caso nem do setor elétrico, nem de portos e muito menos de rodovias. E regulação no Brasil precisa melhorar muito pois, como falei no artigo, as agências reguladoras fazem um trabalho muito aquém do que seria desejável.

      Grande abraço e feliz ano novo,

      Mansueto

  3. Olá amigo Mansueto, antes de tudo um feliz ano novo para voce e sua família.
    Parabéns pelo seu artigo, muito pertinente. O que vemos na prática é que o nosso país, por todas estas amarras está limitando seu crescimento a patamares muito baixos 2% ou 3%, pois logo acima disso como tivemos em anos anteriores, o que vemos é a inflaçao com as suas consequencias futuras, uma reforma trabalhista, que necessariamenta não significa redução de renda para os trabalhadores agregado a um programa de desregulamentação da economia visando a redução da burocracia em todos os niveis até e principalmente no judiciário traria bons resultados….abrs

    • Marcelo, feliz ano novo para você e família. Sim, estamos em situação complicada em uma armadilha de baixo crescimento e inflação elevada. É por isso que espero algumas mudanças. Vamos ver o que vai acontecer.

      • O que intriga é que, não faz tanto tempo assim, PIB menor que a inflação causava queda de ministros, queda da popularidade de governos, grita geral, choques ortodoxos, heterodoxos, pacotes, ajustes na correção monetária…Enfim, era um verdadeiro “fuzuê”.Diziam que com “a ciranda financeira” era necessário apenas saber comprar, porque vender, venderiam ao preço que quisessem. Isso num ambiente de inflação correndo a cerca de 1% ao dia, 20% ao mês, mais de 1000% ao ano. Agora, há um quase sepulcral silêncio, enquanto a inflação corre a cerca de 5% ao ano e o PIB a 1%, no máximo a 2%, por três anos consecutivos. Creio não ser questão para economistas, mas para alquimistas ou prestidigitadores ou pitonisas ou oráculos.

  4. Mansueto, saúdo-o pela disposição de enfrentar as convicções expressas em entrevista pelo ministro Mantega ao final do ano. Gostei muito de sua entrevista a CBN e no alerta quanto ao custo não contabilizado dos recursos do Tesouro empregados na capitalização do BNDES. Esse ponto está intimamente ligado com a tentativa de reduzir a TIR esperada dos projetos de infraestrutura a serem licitados. Como grande parte dos projetos conta com recursos do BNDES, poderemos ter um mecanismo em que a TIR dos projetos é reduzida pelo componente de dívida, reduzindo o custo médio ponderado do capital, mas essa redução do custo privado de captação poderá acarretar crescimento dos custos de financiamento do Tesouro. Mais um expediente que pode trazer benefícios de curto prazo e custos de longo prazo…

  5. Não sei se você leu essa matéria na Economist sobre o Hirschman:

    http://www.economist.com/news/business/21568708-great-lateral-thinker-died-december-10th-exit-albert-hirschman

    Pois bem, talvez estejamos vivendo um “momento Hirschman”, no qual a voz política tenha que se sobressair ao mercado (exit). Estou falando de uma política séria, que reconhece o mau funcionamento das agências reguladoras brasileiras e que ainda possui sérias dúvidas em relação à onda de fusões e aquisições autorizada pelo Cade no ano que se passou.

    Cordialmente,

  6. Mansueto,
    Ao longo de 2012, a relação Dívida Bruta/PIB teve um comportamento ascendente muito forte. A relação Dívida Bruta/PIB passou de 54,15% (dez/2011) para 59,70% (nov/2012).
    Você não acha que o Brasil poderá passar por problemas fiscais no futuro se continuar essa tendência de crescimento forte da relação Dívida Bruta/PIB.
    Eu me preocupo com isso porque a nossa relação Dívida Bruta/PIB não está tão distante assim dos países europeus em crise.
    Se não for pedir demais, eu gostaria que você escrevesse um post a respeito desse crescimento da relação Dívida Bruta/PIB.
    Abraço..

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