Sinal Amarelo: o governo tem problemas de comunicação e gestão

Escutar críticas à política econômica de economistas que não simpatizam com a equipe econômica e com o menu de politicas adotado pelo palácio do Planalto é comum.Mas o que dizer quando essas críticas vêm de economistas simpatizantes do governo e da equipe econômica?

Hoje na sua coluna semanal no jornal o Valor Econômico, o ex-ministro Delfim Netto (clique aqui), depois de elogiar o governo na primeira parte do seu artigo dispara alguns recados:

“As medidas do governo estão na direção correta, mas têm enfrentado enormes problemas de execução, tanto pela dúvida sobre a qualidade e competência da intervenção regulatória, quanto da compreensível resistência dos setores atingidos.”

“…..não foi correto ter desrespeitado as relações impostas pela federação ignorando, sistematicamente, os pedidos de renovação dos Estados que aconteceram no passado.”

“A excelente Lei dos Portos de 1993 só não funcionou melhor porque o Estado não cumpriu o seu papel. As alterações propostas, apesar de avanços competitivos, avaliam muito mal o possível desenvolvimento futuro do setor e, talvez, será mais um motivo de judicialização de um problema administrativo. É ilusão pensar que nesses dois casos não haverá postergação dos investimentos”

“….a teoria dos “leilões” é sofisticada demais para continuar na mão dos amadores que produziram os últimos.”

E fecha o artigo com um parágrafo que poderia ter sido escrito pela economista Elena Landau que foi a voz técnica mais ativa no embate sobre as mudanças da legislação do setor elétrico:

“O Brasil precisa desesperadamente de um aumento dos investimentos para voltar a crescer a 5% ao ano, mas eles só voltarão se tratados com justiça. E se, com regras de jogo claras e definitivas, protegermos os investidores nacionais e estrangeiros, garantindo-lhes que se continuará como até aqui, respeitando rigorosamente a estabilidade dos contratos. A falta disso aumentará a erosão da confiança entre o Estado e o investidor privado, que é o pior dos mundos. Nele só navegam com tranquilidade os pescadores de águas turvas…”

O outro economista simpatizante ao governo e que mandou um recado hoje em entrevista ao jornal o Estado de São Paulo foi o economista Luiz Gonzaga Belluzzo (clique aqui):

“…..Há um problema de coordenação, diálogo e negociação. Os projetos são atraentes. Mas tem um problema que o setor privado sempre levanta que é a taxa de retorno. É preciso haver conversa, pois assim é que funciona o capitalismo moderno. Não há como negar. Não pode ficar numa discussão estéril.”

“Tem de discutir com o setor privado a questão da taxa interna de retorno (TIR) dos projetos, ver se é atraente ou não. Não há uma regra. Certos critérios de mensuração da TIR não servem para obras de infraestrutura porque elas têm baixa liquidez. Não pode usar o mesmo método usado para um ativo líquido, negociado no mercado todo dia.”

Três rápidos comentários. Primeiro, o governo pode e deve conversar com o setor privado, mas a taxa interna de retorno deve ser decidida nos leilões de concessões. Como o Delfim falou, chegou a hora de tirar os amadores do desenho desses leilões. Segundo, a insegurança jurídica já aumentou e agora o governo vai precisar de muito esforço para consertar o seus erros e recuperar a confiança do investidor. Hoje, não há no governo um interlocutor que seja respeitado pelo setor privado. Terceiro, me assustou um ponto levantado por Belluzzo:

“Essa questão (troca de autoridades da equipe econômica) veio de outros interesses, de quem faz arbitragem com juros e câmbio. Eu sei o nome dos fundos, corretoras e bancos de investimentos que estão nesse negócio.”

Quais são? Eu adoraria saber quais são esses fundos, corretoras e bancos de investimento. Seria bom saber quem aposta contra o Brasil ou se essa suposta conspiração é fruto da interminável batalha entre “nós os defensores da indústria” e “eles os defensores da banca”.

10 pensamentos sobre “Sinal Amarelo: o governo tem problemas de comunicação e gestão

  1. A professora Maria da Conceição Tavares explicitou a “nova” teoria da conspiração:

    “Não acredito nessa geração espontânea nas páginas da Economist, por mais que isso combine com o seu conservadorismo. Não acredito que a motivação seja econômica e não acredito que o alvo seja o Mantega.

    Pela afinação do coro vejo mais como algo plantado daqui para lá; o alvo é 2014 e o objetivo é fortalecer o mineiro (NR Aécio Neves). […]

    A meu ver o Brasil tem que ser ainda mais destemido na redução do superávit primário –e nisso Mantega está sendo até excessivamente fiscalista, para o meu gosto.

    Mas com certeza a malta que pede a sua cabeça não pensa assim. Também não pensa, como eu penso, que o governo deve ir mais depressa no investimento estatal, fazer das tripas coração no PAC , porque é daí, do investimento público robustecido que pode irradiar a energia capaz de destravar a inversão privada.

    Mas não. A coisa toda cheira eleitoral. A economia internacional não vai crescer muito em 2013. O Brasil deve ficar acima da média. Mas, claro,nenhum desempenho radiante e eles sabem disso.

    Então imaginam ter encontrado a brecha para fincar o pé de palanque do mineiro. E começam a disparar para atingir Dilma.”

    http://cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=6&post_id=1152

    Gosto da professora (não gosto das ideias dela), Gosto do jeito lusitano dela dizer o que pensa sem meias palavras. Por mais delirante que seja a visão dela, é preciso reconhecer que ela não se furtou de nomear o boi.

    Falta a esses nossos destemidos mandadores de recados a boa rudeza retórica da professora.

  2. O problema é que já estão conseguindo, ou ao menos tentando, jogar tudo pelo lado eleitoral.
    E nas teorias da “conspiração midiática”, “contra aqueles que promovem a redenção do povo”.

    O Aécio sequer aceitou ser nada e já está sendo alvejado como “palanque do mineiro”, “e disparos contra a presidente”, com poder para tirar o ministro? Dai para “golpista”, será apenas a questão de alguns pontos nas primeiras pesquisas de intenção de votos.

    Se há quem saiba quem são “os bancos e as corretoras”, que os nomeie. No caso, o mundo e os brasileiros seriam poupados de verem e ouvirem a presidente do Brasil discursando na França, hoje, 11/12/2012.

    Ela deu “aulas de economia” para o mundo e particularmente, quase que na base da palmatória, “ensinou” a Zona do Euro como sair da crise: via estímulos fiscais e pela criação de uma autoridade monetária única e independente, como emprestador de última instância.

    Só faltou dizer que falta o nosso BC e nossa Fazenda à Zona do Euro.

    Todo mundo sabe que a política econômica, em curso no Brasil, é a política da presidente. O ministro da Fazenda é apenas o seu executor.
    Como o é o BC, que deixou de buscar o centro da meta de inflação e enclausurou o “dólar flutuante” numa banda.
    De todo modo, se há quem esteja tentando desestabilizar alguma coisa, o BC deveria entender e rastrear, por ofício.

    E a professora esgoela que o superávit primário deve ser menor ainda, sendo que o mesmo sequer foi gerado no último período. Isso dito pelo próprio ministro da Fazenda?

    O ministro da Fazenda se sair, não será por causa da revista, da inflação, do dólar, dos juros. Mas, por que se ela, a presidente, quiser que ele saia.
    Pode aparecer na capa da revista o Cristo Redentor caindo de cabeça no morro.

  3. The Economist tem o hábito de pedir demissão de ministros da Fazenda de outros países ou só nós temos o privilégio de contar com a astúcia política de revista tão prestigiada?

    • Os brasileiros também tinham tal hábito salutar, sempre que a inflação, na época um mal a ser exorcizado, chegava ou ultrapassava 20% a.m.
      Agora, com perspectivas de PIB de 1% em 2012 e inflação acima de 5%, os dirigentes e muito mais gente ainda fala em “crescimento sustentável” da economia.
      Mudou o mundo ou inflação não é mais inflação e PIB não é mais PIB?
      a revista entrou na onda do “Brics emergente” e potência do G-20, num mundo multipolarizado. Agora, deve estar revendo suas recomendações.
      Os brasileiros, muitos, é que pararam de ser mais duros contra a inflação.

      O recente discurso da presidente na França, amedronta. Parecia estar falando de outro mundo e principalmente de outro país. Ela, simplesmente, deu aulas aos europeus de como estabilizar a Zona do Euro e gerar crescimento, recomendando a política brasileira.
      Algo não está indo bem. Com certeza.

  4. O artigo da Economist é banal e apenas reproduz o que muita gente já vem dizendo há muito tempo. Acho que a receptividade ao artigo foi exagerada. Há alguns anos que o Brasil fala o que quer. Hoje tem mais espaço na mídia internacional, que passou a acompanhar o que se passa aqui.

    De qualquer forma, acho que o governo usou o caso Mantega para fugir de outros dois: chefe intrometida e economia moribunda. Verdades que não interessa discutir.

    Quero ver como que o governo vai sanar as besteiras que têm feito. Valeu pelo artigo Mansueto; estava na hora do Delfim apresentar posições mais interessantes.

    Abraços

  5. Quanto À teoria da conspiração, não creio que é inteiramente possível descartar interferências e críticas motivadas, mesmo quando não se trate dos donos do Itaú e do Bradesco a perder dinheiro e plantar matérias por ai.

    A permanência longeva dos juros onde estavam era realmente o último peru disponível. Seria de se estranhar se não houvesse resistência alguma de seus antigos beneficiários. E essa força se expressa na comunicação, no lobby, no congresso.

    Finda que o debate, que tem dois bons e sustentados lados, é poluído por uma superidologização. Salta aos olhos que o ponto focal da argumentação da The Economist não se sustenta: a crise de confiança do investidor ainda é tênuemente verificável, como mostraram essa semana o relatório do Credit Suisse e o último artigo do Chico Lopes

    ——————————–

    Mansueto, aproveito pra te perguntar. Por que não se fala mais no imposto de renda? Temos um grande debate em torno de receitas e gastos, ICMS virou um grande vilão, regressivo e improdutivo. Outras fontes de receita foram debatidas nas eleições recentes. Mas simplemente não vejo ninguem falando sobre IR.

    Pergunto isso porque imagino que a transição pra uma economia que tribute menos o consumo e a produção e seja mais progressista precise arranjar outras fontes de receita. Não seria iminentemente o IR? Se não me engano, este está no Brasil comparativamente baixo, e com duas faixas somente. Será que pode nos dar alguns detalhes sobre esse imposto e a causa pela qual ele não figura como peça chave na reforma tributária?

Os comentários estão desativados.