Paul Krugman: Traição?

Os economistas brasileiros, que adoram ler e concordar com tudo que o professor Paul Krugman escreve, ficarão decepcionados com a resposta que Krugman deu as duas últimas perguntas de uma entrevista ao número especial de aniversário da revista Exame (edição 1030 ano 46 No 24 – 05/12/2012). A entrevista pode ser lida aqui.

Quando Krugman é questionado sobre política industrial voltada para a criação de campeões nacionais, ele responde…..

EXAME – O governo brasileiro parece empenhado na criação de campeões nacionais — a formação de empresas com tamanho suficiente para brigar pelos primeiros lugares no ranking internacional dos setores em que atuam. O que o senhor acha dessa estratégia?

Paul Krugman – Essa estratégia não funcionou bem em nenhum lugar do mundo. Quem defende essa tese costuma citar a experiência francesa, mas a verdade é que as evidências não são convincentes. O fato é: não há empresas com importância e sucesso global que sejam produto dessa estratégia.

EXAME – Há quem argumente que as empresas da Coreia do Sul e do Japão são exemplos bem-sucedidos dessa política?

Paul Krugman – No caso da Coreia do Sul, o sucesso não foi baseado nas empresas que o governo decidiu promover. No caso do Japão, essa afirmação é mais absurda ainda. O clássico argumento de que foi a promoção de empresas pelo governo japonês que resultou no sucesso do país não é válido. Falo isso porque trabalhei muito nesse tema quando o Japão era considerado um grande sucesso global e nunca encontrei comprovação nenhuma de que esse tenha sido o caso.

A revista está muito boa com entrevistas e artigos de pensadores importantes. Você descobrirá coisas interessantes como, por exemplo, a declaração do ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos, de que foi ele quem deu a idéia do Bolsa Escola para o Brasil (será que isso é verdade?):

“No começo dos anos 90, por exemplo, o Chile introduziu uma bolsa de retenção para os estudantes do ensino médio com alto risco de deserção escolar. A condição para receber o benefício era que os alunos seguissem estudando. Lembro-me de ter falado sobre esse programa com o Paulo Renato Souza quando ele foi nomeado ministro da Educação no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Assim, nasceu o Bolsa Escola no Brasil….”

O artigo do Dani Rodrik está também muito bom e termina alertando para a necessidade de fortalecer o mercado doméstico e diminuir a dependência das exportações, financiamento externo e investimento direto externo. o ponto de equilíbrio, segundo Rodrik, é descobrir como conciliar modernização do mercado doméstico com distribuição de renda. i.e. como conciliar políticas de fomento ao crescimento com políticas sociais.

E claro que, no pensamento de Rodrik, fortalecimento do mercado doméstico está ligado à diversificação e crescimento da indústria, algo que ele sugere ser importante e cada vez mais difícil.

15 pensamentos sobre “Paul Krugman: Traição?

  1. O artigo do Rodrik está muito bom. Quanto ao Krugman, penso que há visões distintas em relação aos países citados por ele. A pessoa pode ser a favor ou contra, mas campeões nacionais foram favorecidos mundo afora. Até na Alemanha… (rs), nem precisa parar na França! Nos EUA, há inclusive o Comitê sobre Investimentos Estrangeiro:

    http://www.treasury.gov/resource-center/international/Pages/Committee-on-Foreign-Investment-in-US.aspx

    Vejamos: “CFIUS is an inter-agency committee authorized to review transactions that could result in control of a U.S. business by a foreign person (“covered transactions”), in order to determine the effect of such transactions on the national security of the United States”.

    Os nossos neoliberais aceitariam isso no Brasil como algo normal?

    • Não entendi o exemplo. Segurança nacional não tem muito a ver com “campeões nacionais”, ou tem? No Brasil estrangeiros são proibidos de ter, por exemplo, empresas aéreas. É uma política comum no mundo todo…

      Agora, veja que nossa “campeã nacional”, a JBS, comprou diversas empresas nos EUA (e parece não estar lá estas coisas ainda). Já a AMBEV, empresa bem administrada, não precisou de empurrão de governo algum para conquistar o mundo…

      • Para alguns países tidos como sérios tem. (rs) O fato de termos 38 ministérios no governo federal revela a falta de coesão política brasileira. Tal situação dificulta qualquer ação coerente de governo e resulta invariavelmente nos “malfeitos”.

  2. Não sei se aceitariam, mas existe algo não exatamente igual mas parecido. O governo brasileiro tem uma “golden share” na vale e petrobras e temos liberdade de controlar investimento direto externo por questão de segurança nacional – agora se exercemos ou não esse direito é outra coisa.

    O que tenho duvidas é dessa estrategia de turbinar empresas grandes em setores que já temos vantagens comparativas. A petrobras é um bom caso. A empresa teve apoio do governo mais de meio século. Ainda precisamos ter uma politica especial para a empresa por mais 50 anos?

    • Para alguns países os campeões nacionais representam questões de segurança nacional… (rs) Por que o Obama não deixou a GM quebrar? Hummm… Bem, parece que a empresa fornece componentes para as forças armadas e ainda representa um locus de inovação.

      Gostei dessa passagem do Krugman: “Temos de voltar aos anos 30 e 40 do século passado, quando a revolução keynesiana estava só começando e muitos economistas eram furiosamente contrários a qualquer uma dessas noções de intervenção do Estado para criar crescimento. Estamos, de certa forma, recapitu­lando a história intelectual dos anos 30. Isso é meio triste, pois imaginávamos ter progredido bastante. Agora, estamos passando pelas mesmas questões”.

      http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1030/noticias/viviamos-em-um-paraiso-de-tolos-declara-paul-krugman?page=2

      Cordialmente,

      • Acho que o caso da GM não está ligado ao debate de politica industrial. acho que foi um “bailout” tradicional como se fez com os bancos. Os EUA fizeram politica industrial para o setor na década de 80 com restrição à importação de automóveis.

        Não sou contra a intervenção do Estado na economia a depender das circunstâncias. Mas aqui o que estamos fazendo vai muito além do que Keynes sugeriu.

  3. Desde que o Paul Krugman se tornou um colunista, ele esqueceu princípios básicos de economia que ele aprendeu.
    Mesmo assim, o Paul Krugman não faz pseudo-ciência como os nossos keynesianos de quermesse lá daquela universidade do interior de SP e de mais algumas outras universidades.
    Sempre que algum keynesiano de quermesse traz o argumento da segurança nacional para criar reservas de mercado e beneficiar os amigos do Rei, eu lembro do saudoso Roberto Campos e da sua previsão precisa dos efeitos deletérios da Lei da Informática.
    O argumento da segurança nacional no setor de informática condenou o Brasil ao atraso!

    • E o problema de segurança nacional era tão evidente e grave, que fazem mais de 100 anos que não damos um tiro sequer em qualquer exército de qualquer de nossos vizinhos de fronteiras praticamente abertas. Só não temos, mesmo, produtos de informática “nacionais”.

  4. Acho que as causas que geraram as duas décadas perdidas em termos de crescimento estão longe da política econômica para o setor de informática. De qualquer forma, acho que o papel do governo é fundamental em vários sentidos, mas estou cada vez mais convencido que ele tem que focar nas falhas de mercado (bens públicos, externalidades e monopólios), em melhorar as instituições e investir em educação e saúde. A correlação de tamanho de governo e corrupção é elevada, sobretudo no Brasil. Portanto, quanto maior o tamanho do Estado além de seu “papel tradicional”, acho que pode ser negativo no crescimento de longo prazo.
    Acho que existe espaço para estimular alguns setores, mas sem investimento direto do governo e integrando os segmentos com o resto do mundo, como enfatizado por Edmar Bacha.

    • Conclusão perfeita, Luciano. Mas se as duas décadas perdidas não foram causadas pela proteção ao setor de informática, os malfeitos da lei foram óbvios mesmo para qualquer leigo, uma transferência de riqueza pura e sem sentido. Parece que gostamos de contar a mesma estória, com algum twist no roteiro e protagonistas, como se a simples repetição gerassse alguma melhora na lógica da coisa. A GM foi apoiada para manter os empregos, balanceando o zilhão de $ dado aos bancos, nada além disso. O Brasil é engraçado mesmo, açougues e empresas X agora moram no coração da esquerda brasileira. As pessoas de senso comum acham um absurdo a montanha de dinheiro subsidiado, mas são tachados de filhotes do Friedman. Non-sense total. O Krugman, realmente um economista fora de série que não aceitaria nem tomar um cafezinho com essa esquerda concentradora de renda do Brasil, tirou o tapete dos desmiolados.

  5. Tem toda a razão Luciano Nakabashi.
    No caso, bastariam investimentos na Educação e na Saúde. Já seria um passo adiante digno de ser chamado de homérico.
    O único problema é que se iniciasse hoje, os resultados só apareceriam daqui a uns 50 anos. Coisa impossível de ser aceita pelos nossos fazedores de milagres.

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