Livro: Rio de Janeiro – um estado em transição.

O Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas vai lançar na próxima quinta-feira, dia 13 de dezembro, o livro “Rio de Janeiro: um estado em transição” organizado pelos economistas Armando Castelar Pinheiro e Fernando Veloso. O lançamento será às 19 hs na Livraria da Travessa de Ipanema, Rua Visconde de Pirajá, 572, Rio de Janeiro.

AF_Rio_de_Janeiro2.ai

Apesar do foco do livro ser o estado do Rio de Janeiro, recomendo a leitura do livro mesmo para aqueles que não estejam particularmente interessados na economia, política, mercado de trabalho e segurança pública do Rio de Janeiro. As análises do livro são muito mais gerais e vários capítulos fazem a comparação da economia do Rio de Janeiro com a economia de outros estados do Sudeste e com o Brasil.

Ainda não consegui ler o livro todo, pois consegui o meu exemplar apenas na terça-feira à noite. No entanto, é possível aguçar a curiosidade do leitor para comprar o livro com alguns comentários.

Por exemplo, um dos grandes debates no Brasil hoje é quanto ao risco de uma concentração excessiva da atividade econômica nos setores ligados à indústria extrativa e a primarização da nossa pauta de exportação. O Rio de Janeiro talvez seja o melhor estudo de caso para começar a investigar essa questão no Brasil por vários motivos:

(i)  desde meados da década de 1990 a indústria de transformação perdeu participação no PIB do estado com o aumento da participação da indústria extrativa (petróleo e gás);

 (ii)  a economia do Rio de Janeiro sempre foi mais dependente do setor de serviços do que a economia brasileira. O setor de serviços voltou, em 2009, a ter o mesmo peso que tinha na economia do estado na década de 1940: 73% do valor adicionado total;

 (iii)  o crescimento recente (2003-2009) do Rio de Janeiro como o crescimento do Brasil foi puxado pelo crescimento da Produtividade Total dos Fatores (PTF), ao contrário do crescimento de 1995 a 2003 que foi caracterizado pelo crescimento da intensidade do uso de fatores de produção (trabalho e capital);

 (iv)  o crescimento do PIB do estado do Rio de Janeiro no período recente (2003 a 2009) foi puxado por aqueles setores ligados à expansão do crédito: setor financeiro, comércio e construção civil. Esses três setores responderam por 79% da elevação da taxa de crescimento do estado entre 1995-2003 e 2003-2009. No caso do Brasil, esses mesmos três setores tiveram participação ainda mais importante na aceleração do  crescimento: 97,5%;

 (v)  forte mudança observada na composição da pauta de exportação do estado, com a indústria de transformação reduzindo sua participação na pauta de 99% (média 1997-99) para 29,3%, em 2011, e a indústria de extração de petróleo e gás aumentando sua participação nas exportações totais do estado, no mesmo período, de 0,2% para 70%.

 Os dados de crescimento da produção e exportações do Rio de Janeiro mostram uma economia que aumentou sua dependência da indústria extrativa de petróleo e gás nos últimos anos, algo que fatalmente ocorrerá com a economia brasileira quando começarmos a extrair e exportar o petróleo do Pré Sal. Adicionalmente, a aceleração da taxa de crescimento puxada por setores dependente do crédito vale tanto para o Rio de Janeiro quanto para o Brasil. O que o “caso do Rio de Janeiro” pode ensinar ao Brasil?

Primeiro, o debate é muito mais complicado do que parece. Por exemplo, se olharmos apenas para os dados de produtividade do trabalho por setor,  a migração de trabalhadores de outros setores para indústria de petróleo e gás, em 2003-2009, contribuiu para o crescimento da produtividade do estado. Mas a produtividade do trabalho relativamente elevada deste setor está diminuindo, o que é um fator de preocupação para o crescimento de longo prazo.

Segundo, apesar da queda da produtividade do trabalho da indústria de petróleo e gás (produtividade elevada, mas em queda de 2003 a 2009), houve um forte crescimento na Produtividade Total dos Fatores (PTF) no estado para o mesmo período, o que sugere que de alguma forma a transformação dos fatores de produção (trabalho e capital) passou a ser mais eficiente e levou a maiores taxas de crescimento. O grande “mistério” para o Rio de Janeiro e Brasil é como conseguir que a PTF volte a crescer, principalmente em uma economia cada vez mais próxima do pleno emprego como parece ser o nosso caso. Será que o Brasil precisa de uma nova agenda de reformas? O Rio de Janeiro pode caminhar sozinho nessa tarefa, i.e a agenda do estado é independente da agenda do governo federal?

Terceiro, a maior especialização na indústria do estado no setor de petróleo e gás e a consequente concentração da pauta de exportação não teve o efeito negativo que alguns poderiam esperar. Ao contrário, o crescimento da indústria de petróleo e gás ocasionou o crescimento do setor de serviços (principalmente outros serviços pelo efeito encadeamento) que pode ter contribuído para o crescimento de outro setores. Por exemplo, apesar da forte concentração da pauta de exportação, a exportação de manufaturados de 2002 a 2011 cresceu a uma taxa anual de 19%, taxa elevada apesar da queda da participação da indústria de transformação na pauta de exportação do estado.

Se fizermos um paralelo com o caso do Brasil, cuja primarização ocorreu em menor escala, nota-se algo semelhante ao observado para o Rio de Janeiro. As exportações de manufaturados de 2000 a 2011 praticamente triplicaram no Brasil, apesar da diminuição relativa da  indústria de transformação na pauta de exportações.

Quarto, o maior crescimento do estado impactou positivamente na arrecadação local e o crescimento da indústria de petróleo levou ao crescimento das transferências que o estado do Rio recebe a titulo de royalties e participação especial. A dúvida é se os municípios do estado estão aproveitando essa injeção nova de recursos para melhorar a oferta de serviços públicos, o que não parece ser o caso, e se o estado aumentou sua capacidade de investir sem ter que recorrer a novas dívidas.

O livro é muito rico em detalhes e há capítulos sobre o comportamento do mercado de trabalho, setor financeiro, formalização de micro e pequenas empresas, retorno do investimento em educação, segurança pública, etc. Eu e um amigo e colega do IPEA, Alexandre Manoel da Silva, escrevemos o capítulo 13 do livro sobre a estrutura das finança públicas do Rio de Janeiro.

Quem estiver no Rio na próxima quinta-feira, dia 13 de dezembro de 2012, apareça na livraria da Travessa de Ipanema para o lançamento. Os organizadores e vários dos autores estarão por lá e, no próximo ano, em algum  momento, talvez tenhamos um debate sobre o livro no IBRE-FGV e, quem sabe, em algumas universidades e entidades de classe.