Professor, o que o governo pode fazer para promover o crescimento?-3

Para entender este post, leiam os dois anteriores. Esta é a conclusão.

É claro que a lista abaixo dos dois post anteriores não é exaustiva e apenas coloquei aqueles professores que mais aparecem no debate de desenvolvimento. Há um outro grupo grande de economistas que defenderia o básico:  governo deve se preocupar com educação, segurança e direitos de propriedade.

Para esses economistas, o que o governo pode fazer para promover o desenvolvimento é não atrapalhar o funcionamento do livre mercado, deixar o país  explorar as vantagens comparativas que já tem, investir em educação e até dar incentivos para inovação. Mas nada de política industrial ou de programas voltados para “planejar o desenvolvimento”. Na visão desse grupo, desenvolvimento não pode ser planejado e quem tentou fazer isso se deu mal. Os exemplos de países que planejaram o desenvolvimento e tiveram sucesso são exceções que confirmam a regra (Easterly tem um bom texto sobre isso).

O que fazer? Bom, todos os dias alguém me pergunta o que o governo deve fazer. Como é que vou saber se nem os economistas famosos concordam no que fazer e cada um fala mal do livro do outro? Para cada um dos economistas citados acima há uma legião de professores e profissionais em diversos órgãos internacionais que divulgam suas ideias e todos acham que têm a última solução para o problema do desenvolvimento.

Pelo menos a turma do RE (Banerjee, Duflo e seguidores) tem uma vantagem: não sofrem do problema de megalomania apesar da tentação de alguns dos seus seguidores em generalizar experimentos que não podem ser generalizados – essa turma vai ainda suar muito para convencer que a metolodologia deles não sofre dos mesmos problemas tão criticados dos estudos de caso: vale apenas para o caso ou os casos analisados.

Quer um conselho? Pergunte ao seu professor de economia favorito quem tem razão neste debate. Eu mesmo vou começar a perguntar aos meus amigos que estão na academia o que fazer para promover o crescimento. O problema é que já fiz isso uma vez e não houve consenso. Enquanto isso dois economistas velhinhos devem estar pensando……

Professor Albert O. Hirschman

Solow, muita gente me criticou por que não formalizei minhas ideias sobre desenvolvimento econômico e que sempre fui muito otimista com a América Latina. Mas depois de quase meio século de avanço na teoria, até que ponto esses jovens de fato avançaram na proposição de políticas públicas? e alguns deles continuam com essa fixação nos “obstáculos ao crescimento” que tanto critiquei na década de 60.”

 

 

Professor Robert Solow

Hirschman, apesar de nossas diferenças de metodologia para estudar crescimento econômico, sempre houve um respeito mútuo.  Sofri também várias criticas porque me acusaram de desenvolver um modelo no qual não conseguia explicar o principal fator por trás do crescimento de longo-prazo: o crescimento da produtividade que no meu modelo é um resíduo. Mas quando vejo a briga desses caras e as propostas deles me pergunto: no que extamente eles avançaram em relação ao meu modelo?

É verdade que Lucas e Romer mostraram na década de 1980  que investimento em capital humano e inovação são importantes.  “And so what”? como transformar essas descobertas em politicas públicas? Como o Estado deve fomentar inovação e de que forma inovação se tranforma em crescimento da produtividade total dos fatores (PTF) e crescimento de longo prazo? A relação causal é de inovação (variável exógena) para PTF ou que o aumento da taxa de investimento levaria a mais inovação (endógena) via learning-by-doing que afeta o progresso técnico?

8 pensamentos sobre “Professor, o que o governo pode fazer para promover o crescimento?-3

  1. Mansueto: muito boa esta sua síntese!
    Mas uma coisa eu tenho certeza: é que o avanço em bem-estar social de bilhões de pessoas no mundo nos últimos 200 anos se deveu mais ao aumento da produção econômica mundial do que à direta redistribuição de recursos dos ricos para os pobres. E sobre este argumento não há pluralidade entre os economistas: só há os que concordam e os discordam!
    Grande abraço,
    José Carlos Cavalcanti

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  4. Olá Mansueto, tudo bem? Como você conseguiu essas entrevistas? São excelentes, principalmente ao mostrar a discordância entre os grandes economistas. Vou dar um pitaco, pois essa é uma área que gosto muito. Acho que o grande problema é a relação de causalidade entre desenvolvimento econômico e as variáveis supostamente explicativas, além do grande emaranhado de relações causais entre as próprias variáveis explicativas.

    De qualquer forma, acho que o conhecimento evoluiu muito e hoje temos uma noção melhor desse processo. Acho que as regras do jogo são fundamentais, principalmente em relação à propriedade privada. Não necessariamente boas instituições, pois um governo ditatorial pode estabelecer regras de propriedade privada e respeitá-las. É claro que, nesse caso, as regras mudam com a alteração de ditador, mas no caso de uma ditadura estável, a confiança dos investidores, pelo menos domésticos, pode ser o suficiente para estimular investimentos, sobretudo em capital humano, até o ponto onde o surgimento de uma nova classe com poder econômico favoreça o surgimento de instituições mais democráticas.

    Outra coisa é o capital humano, que é fundamental no processo do crescimento, que depende de ações governamentais e das próprias instituições. Acho que o governo tem um papel relevante nesse sentido (estimular a acumulação de capital humano diretamente e via melhora institucional). Mas o desenvolvimento propicia maior nível de investimento em capital humano por elevar os recursos disponíveis e aumentar o retorno desse tipo de investimento (problema da causalidade).

    Também acho que o governo é relevante ao investir em áreas que aumentam a produtividade marginal do capital privado, como em infraestrutura. Mas para se ter um bom governo, boas instituições são necessárias para reduzir o nível de corrupção, rent-seeking, etc. Daí entra novamente no problema da causalidade…

    Por fim, acho que a cultura também é de grande importância, mas não deixa de fazer parte das instituições (informais). Mas o problema da causalidade também é importante aqui e existe uma interação relevante com as instituições formais. Um exemplo da cultura está em uma matéria interessante que estava lendo hoje como sugestões de um aluno de graduação: “The expert analysis in the report suggests that, more important than money, is the level of support for education within the surrounding culture. While there is no doubt that money invested in education reaps rewards, cultural change around education and ambition is equally, if not more, important than income in promoting better educational outcomes”, que está no endereço http://www.pearson.com/news/2012/november/pearson-launches-the-learning-curve.html

    Poderia escrever muito ainda sem arranhar o tema, mas como o tempo é um recurso escasso… Um grande abraço, Luciano

  5. Caro Mansueto,

    eu tenho minha proposta de desenvolvimento para o Brasil.

    Economistas heterodoxos não se cansam de argumentar que precisamos de uma estratégia de desenvolvimento….
    Pois bem, aqui vai a minha estratégia de desenvolvimento. O encontro anual da AKB está para acontecer e o governo deveria financiar tal encontro em navio luxuoso com direito a uma parada em uma ilha paradisíaca e deserta no Caribe (aposto que eles iriam adorar tal estímulo). Seria ótimo para o desenvolvimento do país se todos akbistas fossem deixados em tal ilha para sempre.
    Perfeito não é???!!! Duvido que alguém tenha melhor estratégia que essa!!

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