Tchau, Brasil!

Hoje, recebi de um amigo esse comunicado abaixo da Raymond James, uma firma de consultoria financeira que atua em vários países e que administra uma carteira de investimento de US$ 43 bilhões no mundo. Hoje, essa firma soltou, aqui no Brasil, o seguinte comunicado:

“After careful consideration, Raymond James is closing its affiliated Brazilian equity research operation in Sao Paulo, Brazil, and will likely eliminate a small number of supporting Latin American Institutional Sales and Trading positions in New York / London. The firm has concluded that the costs, structural impediments, and complex legal, tax, and regulatory environments are impeding sufficient return on invested capital. This decision is specific to the Brazilian operation and Raymond James continues to maintain its affiliated operations in Argentina and Uruguay, in addition to its global operations in the US, Canada, and Europe. We are deeply grateful for the outstanding work accomplished by our associates. For more information, please email infobrasil@RaymondJames.com.”

Será que isso é um fato isolado ou um sinal amarelo? Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa, mas que o excesso de regulação e de impostos no Brasil atrapalham isso é certo. Quem não sofre concorrência externa não esquenta a cabeça porque repassa qualquer aumento de custo para preços, mas quem compete com o resto do mundo sofre com burocracia excessiva e pesada carga tributária no Brasil.

Quando Brasil vai de fato fazer um esforço visível de desregulamentação? Nem vou falar em tamanho de carga tributária porque, neste caso, todo mundo sabe minha opinião: não adianta querer falar em redução da carga tributária sem antes controlar o crescimento o gasto. Esse é, por sinal, a minha grande discordância da entrevista do empresário André Esteves à Folha de São Paulo na semana passada (clique aqui). Nunca ouvi falar que “se consegue emagrecer comprando roupas mais apertadas”.

E como nem mesmo o Ministério do Planejamento parece conhecer as contas fiscais – ver meu post anterior- ainda vamos quebrar muito a cabeça com baixo crescimento até que se resolva fazer alguma coisa séria na área tributária, na área de legislação trabalhista e diminuição do número de impostos e contribuições. Acho que o governo não vai ficar parado. Acredito em algum avanço nesta área, mas nada substancial a ponto de o Brasil melhorar de forma perceptível o ambiente de negócios.

Acham que sou pessimista? OK, me mostrem a evidência que eu mudo de opinião. Não tenho problema algum em mudar de opinião à luz de nova evidência. mas o que vejo agora é que caminhamos para um redução permanente do primário sem que tenha ocorrido ainda uma forte retomada do investimento público (e privado).

E a economia com a redução dos juros não será tao grande quanto se esperava porque o equivalente a 25% do PIB de nossa Dívida Líquida do Setor Público que está um pouco acima de 35% do PIB está aplicada em reservas estrangeiras e empréstimos para bancos públicos com elevado custo fiscal. O Banco Central já havia alertado para isso no primeiro relatório trimestral da inflação no ano passado e o último artigo do professor Affonso Celso Pastore no Estado de São Paulo mostra de forma bem didática este problema (clique aqui).

Assim, não há muito o que falar para Raymond James a não ser “farewell”, pois aqui ainda estamos longe de criar o consenso para retomada da agenda de reformas.

14 pensamentos sobre “Tchau, Brasil!

  1. Olá Mansueto!
    Li alguns artigos que comparam a carga dos tributos no Brasil com a de outros países e, pelos números mostrados, a diferença não seria de ordens de grandeza – pelo menos quando o termo só significa o percentual de impostos sobre a remuneração total.
    Em um ponto do texto, você aponta o “número de impostos”. Será então que deveríamos criticar a *complexidade tributária* primeiro, pra atacar os percentuais depois?
    Pergunto isso pois, considerando nossa história, a redução da carga vai demorar mesmo (o governo ainda está na fase de segurar mais as rédeas) mas a complexidade, a essa sim, não há muitas desculpas para mante-la..
    Qual a sua visão sobre isso?

    • Daniel,

      a diferença de ordem de grandeza é muito grande quando se compara a nossa caga tributária com países de renda média semelhante a nossa. O que não é muito diferente é a nossa carga tributária em relação à média dos países da OCDE, mas nesses países a qualidade do serviço público é muito melhor e a produtividade maior.

      Mas concordo com você que, no nosso caso, a agenda prioritária é simplificaçao tributária e redução do numero de impostos. Não há consenso na sociedade para forte redução de carga tributária. Acho muito difícil o Brasoil chegar em 2020 com carga tributária de 30% o PIB como li recentemente em editorial da Folha de São Paulo.

      Abs,

  2. Eu acho que este caso, como de outros bancos, corretoras e consultorias estrangeiras, é mais um erro de avaliação com os potenciais retornos no Brasil do que culpa direta do ambiente de negócios. Note quantos bancos de investimento estrangeiros ou similares montaram operações no Brasil nos anos de bonança e foram embora poucos anos depois – montam uma operação caríssima, pagam fortunas para tirar profissionais de outros lugares e só então descobrem que fazer negócios no país é mais difícil do que se supunha. Em algum momento todos se convencem que “é preciso estar no Brasil”; poucos percebem a complexidade por trás disso.

    • Drunkeynesian,

      o seu ponto é muito bom. Talvez os caras supestimaram o retorno esperado e quebraram a cara e sairam culpando o ambiente de negócios.

      Mas não podemos falar que o ambiente de negócios no Brasil é uma maravilha. Acredito até que para grandes empresas não faça muita diferença, mas para empresas médias deve prejudicar bastante.

      Ou seja, o Brasil pode ate’ser bom para ganhar dinheiro, mas o custo de transação é muito alto e, muitas vezes, os investidores subestimam esse custo.

      Abs

  3. Olá,

    Faz sentido a observação de que o fechamento deste escritório esteja associado a problemas específicos desta empresa.

    Todavia, fosse o futuro tido como extremamente promissor será que ela mesmo assim encerraria seus negócios?

    Mansueto, vejo você e o José Afonso como dois economistas que pensam as finanças públicas mais profundamente. Os problemas de organização institucional são enormes e têm que ser repensados. Nem tanto para este governo, que sempre me pareceu politicamente amarrado às ideologias e promessas do governo anterior, mas para um futuro já não tão distante (acho que ainda que com a própria Dilma), em que ficará clara a necessidade de se construir um Estado mais barato e eficaz.

    No plano dos estudos, vejo carência de sugestões que efetivamente possam orientar o Estado brasileiro de daqui a dez, vinte anos.

    Abraços

    • Rafael,

      entendo o seu ponto mas tem até um bocado de proposta boa na preteleira. O Zé Roberto Afonso uma vez me falou que quase tudo que se discute de reforma tributária já existem uma proposta pronta em formato de Projeto de Lei no Congresso Nacional. O desafio é tirar tudo isso da prateleira.

      Abs,

  4. Este Blog é o único até o momento que me chamou a atenção, me parece ser diferenciado e por isso recebo as notícias no meu e-mail.
    O meu nível de conhecimento nestes assuntos e realmente de um leigo, no entanto vou arriscar e opinar a respeito.
    Realmente nossa carga tributária é alta e as regulamentações complexas, no entanto é complicado determinar se o prognóstico deste investidor tem realmente a ver com estas questões, visto que não sabemos o que ele considera como ideal este “retorno suficiente sobre o capital investido”. Tantas empresas se instalaram no país, trouxeram muitos investimentos, muitas declaram ter operações mais rentáveis no Brasil do que em outros países, por vezes ampliam seus investimentos. O que as levam a isso ?
    Sinceramente para os leigos são informações que parecem não se encaixar, por mais que nos esforcemos para entender.
    Circulam muitas informações, acho que muitas são meras especulações.
    Não sei se de repente estou destoando do contexto, mas enfatizando simplesmente às informações disseminadas neste país, estas nos remetem a muitas interpretações controversas e que nos causam dúvidas. Um exemplo: temos um conglomerado de indústrias como o Grupo Votorantim, atuando em vários segmentos do mercado, uma empresa acredito que centenária ou quase, Antônio Ermirio de Moraes. A eles nunca foi concedido tamanho alarde como hoje é feito para o Grupo EBX, que não tem tantos anos e seu controlador hoje desponta como o homem mais rico do Brasil. É para ficarmos alertas ou comemorarmos ? É somente um empresário ou um especulador ?
    Acho que também devemos enfatizar e nos manter atentos às formas e intenções com que as empresas almejam desembarcar e explorar nosso país em seus diversos aspectos.
    Acho que isso foi mais um desabafo e agradeço o espaço, bem como peço desculpas se acabei viajando nos meus pensamentos.

    Abraços

    • Viajou nada. Suas ponderações foram muito boas. Há no Brasil atividades rentáveis e boas oportunidades de ganhar dinheiro. Temos diversos casos de sucesso que inclusive foram levados para fora.

      Quer um exemplo? A 3G capital teve um bom retorno com a ferrovia ALL e parte do aprendizado aqui eles utilizaram para modificar a operação da U.S. railway CSX, quando eles passaram controlar a ferrovia americana. Eu já conversei com eles sobre esse assunto e me impressionou como eles fizeram um revolução na CSX nos EUA.

      Dito isso e apesar do nosso crescimento recente, o Brasil é um país com excesso de burocracia e um ambiente não muito amigável ao setor privado e com várias distorções – lucros elevados em alguns setores, baixo em outros e uma economia ainda muito protegida.

      abs,

  5. Ganhar dinheiro no Brasil (entendido como gerar consistentemente fluxos de caixa positivos) é bem difícil, acho (e nessa conta entra o ambiente de negócios, também, que de fato não é dos mais atrativos)… E durante muito tempo isso foi confundido com valorização de ativo; o curioso é que justo os players de mercado financeiro às vezes não percebam isso.

    Tem uma lista grande de players estrangeiros relevantes que tentaram entrar aqui e não conseguiram fazer muita coisa: ING, Standard Chartered, Ashmore, Brevan Howard, Royal Bank of Scotland, BBVA, etc… e certamente a Raymond James não vai ser a última.

    • Por que essa turma não se deu bem por aqui? em um mercado competitivo, eu esperaria que os bons do resto do mundo fossem também bons aqui.

      Os grupos nacionais têm vantagem comparativa em saber lidar com o ambiente de negócios e custo Brasil? faço essa provocação porque alguns usam esse argumento (claro que não é o seu caso) para mostra a importância de promover grupos nacionais quando o correto seria usar essa evidência para melhorar o ambiente de negócios.

  6. Pingback: Links de Sexta | Ordem Livre

  7. O que mais me enfurece sobre isso que você escreveu é que os brasileiros não tão nem aí para isso. Contei para colegas sobre isso (resalta-se pessoas de alta escolaridade, o supra sumo da sociedade). A reação? “E dai?”

    Me lembra de um texto recente na Economist sobre a França. Tanto a população quanto a elite politica da França acredita que qualquer assunto sobre as “engrenagens” do capitalismo (burocracia, tamanho do governo, distorções economicas atraves de leis e subsidios, etc) é simplesmente assunto filosófico de babaca que nao tem impacto na realidade. Como discutir poesia ou.

  8. Eu entendo a decisão da empresa. O que eu não entendo — e não entendo sobre muitas outras empresas — é continuarem a fazer negócios na ARGENTINA. Pois lá o país da dona Cristina seria desburocratizado, livre, cumpridor de contratos, bem estruturado? A lógica me escapa…

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