As queixas do investidor externo

Na semana passada tive uma longa conversa com o jornalista do Estado de São Paulo, Fernando Dantas (clique aqui para ler o blog dele), sobre as várias reuniões que tive em setembro e outubro, em Brasília, com grupos de estrangeiros que por aqui passaram trazidos por bancos do Rio de Janeiro e São Paulo.

Fernando Dantas fez um excelente trabalho e conseguiu a proeza de resumir com perfeição a longa conversa que tivemos sobre os temas tratados nessas reuniões.

As queixas do investidor externo

29 de outubro de 2012 | 14h51

Fernando Dantas – O Estado de São Paulo

O economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), tem sido muito requisitado por investidores estrangeiros que visitam o Brasil. Especialista em contas públicas, e conhecedor profundo dos meandros da política econômica, Almeida reuniu-se recentemente com diversos grupos de investidores estrangeiros, incluindo gestores de um fundo de investimento de mais de US$ 100 bilhões, de um fundo soberano asiático, de um fundo de pensão americano, além de banqueiros e interessados em investimentos em infraestrutura no Brasil.

Almeida está bastante preocupado com o que ele vê com uma mudança forte para pior na visão do Brasil por parte de todas estas categorias de investidores. É bom registrar que os investimentos estrangeiros diretos continuam em alta, mas ainda assim a deterioração da imagem do País junto a investidores dos mais diversos tipos é preocupante no médio e longo prazo, considerando-se que a poupança brasileira é baixa e precisa ser complementada pela poupança externa.

O economista nota que, no período entre 2004 em 2010, embora o Brasil já crescesse menos do que a média da América Latina, grandes ganhos foram realizados nos mercados de renda fixa, por causa dos juros altos, e no mercado acionário, por causa do desempenho relativamente bom da economia. Agora, porém, os ganhos em ambos os mercados cessaram, e os investidores começaram a prestar mais atenção a questões estruturais e de longo prazo que podem comprometer a trajetória de crescimento do País.

Há consenso de que os fundamentos macroeconômicos do Brasil são bastante sólidos, com juros baixos, dívida pública em nível muito melhor do que a dos países ricos, e passivo externo líquido sob controle. As críticas se direcionam principalmente ao excesso de intervenção do governo na economia.

Almeida se recorda que uma das reuniões, no início de setembro, foi pouco depois de o governo anunciar o aumento da tarifa de importação de 100 produtos. Os investidores, na discussão, se dividiram em dois grupos. Alguns achavam que se tratava de algo passageiro, em linha, inclusive, com medidas que muitos países no mundo estão tomando. Outros se preocupavam que o Brasil estivesse indo mais longe do que isso, e se aproximando um pouco do modelo argentino.

Segundo o economista, os investidores gostariam de ver sinais muito claros de que o governo brasileiro reprova as medidas que vêm sendo tomadas pela Argentina, de protecionismo, aumento de tarifas de importação e imposição de controles nas importações e nos mercados em geral.

Almeida foi questionado sobre se seria possível garantir que um novo aumento de tarifas de importação de um conjunto grande de produtos não ocorreria nos próximos 12 meses no Brasil. Ele respondeu que não tinha como garantir.

Outro ponto muito repisado pelos investidores é o de que outros países da América Latina, como Peru, Colômbia, Chile e México, estariam com perspectivas de crescimento nos próximos dez anos bem melhores do que a do Brasil.

O economista relata que lhe pediram que tentasse convencê-los do contrário, mas ele admitiu que não tinha como. Para Almeida, o modelo econômico do Brasil não comporta nenhuma redução substancial da carga tributária, por causa do que ele classifica como despesas públicas “brutais”. A economia fiscal do governo com a queda dos juros, que ele estima em 1,5 ponto porcentual do PIB, “é pequena para os desafios que temos de aumentar os investimentos públicos e privados”.

Almeida nota que, mesmo que o aumento do investimento venha do setor privado, via concessões, o governo teria de fazer um grande esforço de poupança, para aumentar a poupança nacional como um todo, e evitar uma ampliação muito forte do déficit em conta corrente. Desta forma, o espaço para a política de desonerações tributárias não é muito grande.

Outra crítica frequente dos investidores internacionais é o que eles veem como leniência do governo e da sociedade brasileira com a inflação. “Eles acham esquisito que a gente considere que uma inflação de 5,5% é baixa”, diz Almeida. E existe a preocupação de que, no futuro, se algum choque elevar a inflação ainda mais, ficará cada vez mais difícil baixá-la de novo, e o custo disto seria uma freada que iria comprometer ainda mais o crescimento brasileiro, que hoje é visto como fraco.

O pacote de redução do preço da energia e de renovação das concessões de empresas do setor, segundo Almeida, foi um dos pontos mais mencionados pelos investidores como preocupante. “Eles ficaram muito assustados com o fato de o governo ter lançado um plano que, de um dia para o outro, levou a uma perda muito grande do valor de mercados das empresas.”

Isto foi algo que desagradou particularmente o fundo de pensão americano e o fundo soberano asiático. O economista explica que estes são investidores de longo prazo, e, portanto, interessados nos projetos de infraestrutura oferecidos pelo Brasil. “Mas eles estavam completamente às cegas em relação às regras da concessão, e muito preocupados com o fato de que, com uma canetada, poderiam perder grande parte do valor dos seus empreendimentos de um dia para o outro”, acrescenta Almeida.

Também houve preocupação com o regime cambial brasileiro. Alguns banqueiros ficaram perplexos ao ver que havia uma torcida para que o preço das commodities não suba muito (o que beneficia o Brasil diretamente), por causa da inflação. Isto, por sua vez, está ligado ao fato de que o governo mantém o dólar na faixa de R$ 2, não deixando que ele se aprecie quando as commodities sobem, o que neutraliza o efeito inflacionário.

Almeida costuma repetir aos investidores que o atual governo brasileiro atua muito na base de tentativa e erro (o que os americanos chamam de “learning by doing”, ou aprender fazendo), e que isso sinaliza uma postura mais pragmática do que ideológica da presidente Dilma Rousseff. O seu principal exemplo de tentativa e erro foi o leilão de concessão dos aeroportos de Viracopos, Guarulhos e Brasília. O governo vai mudar as regras, porque não gostou do resultado.

Segundo o economista, os investidores não se impressionaram muito com a sua colocação sobre o pragmatismo do governo da presidente Dilma Rousseff. De maneira geral, eles acham ruim, porque cria insegurança e o país acaba pagando um custo muito alto.

Há, finalmente, o problema de comunicação com o governo. Os investidores têm dificuldade de ir além do Ministério da Fazenda e do Banco Central, e não encontraram ainda interlocutores em áreas como o Ministério das Minas e Energia ou o de Ciência e Tecnologia. Como hoje a preocupação macroeconômica é menor, e as regras do jogo importam mais, as áreas de contato tradicionais com a Fazenda e o BC são consideradas insuficientes.

E, mesmo nesses órgãos, segundo Almeida, os investidores se queixam de que sentem um certo “desprezo”, nas palavras do economista. “Eles relatam que os interlocutores no governo geralmente têm a posição de que o Brasil é muito bom, está crescendo, está dando certo, e que não estão muito preocupados se os investidores virão ou não para cá”.

O economista vê nisso um certo sintoma de megalomania: “A gente deveria tratar esses caras com tapete vermelho, porque o Brasil vai aumentar o déficit em conta corrente para entrar num novo ciclo de investimento, e vai precisar de financiamento para isso”.

Esta coluna foi publicada na AE-News/Broadcast na quarta-feira, 24 de outubro de 2012.

4 pensamentos sobre “As queixas do investidor externo

  1. Mansueto, como sempre uma análise muito boa.

    Só fico intrigado com uma coisa. Você realmente acha que esse governo é mais pragmático do que dogmático? Eu não sei se consigo concordar. A alteração dos pilares da política econômica para algo como câmbio fixo, protecionismo e maior conivência para com a “convergência” da inflação me parecem evidenciar que exista uma crença em um modelo econômico (a la anos 70 talvez) que está sendo seguido “cegamente”.

    O que acha?

    Abraço,

  2. Sugestão de pauta: análise, com os critérios antigos (pré-crise, MCMV, etc), dos recentes resultados de “superávit” “primário”.

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