Para ler, parar e pensar -3

Para ler, parar e pensar -3

Para terminar esses posts sobre artigos de jornais, nada melhor que a entrevista do empresário Eike Batista ao jornal Folha de São Paulo neste último domingo – clique aqui.

Antes que alguém me critique, quero deixar claro que admiro o espírito empreendedor do empresário e a sua capacidade de ganhar dinheiro. Acho inclusive que seria saudável para o Brasil ter mais empresários como o Eike Batista que busca criar um conglomerado e conseguir parceiros aqui e lá fora para os seus empreendimentos. Dito isso, a entrevista do empresário ao jornal tem uma série de equívocos quanto ao papel de um empresário e a relação público-privado.

(1) Empresário social versus ganância

Para começar, Eike fala que: “Tudo o que eu faço é construir o Brasil. Alguém vai ter que fazer uma estátua para mim em algum lugar. Vamos evitar o apagão.”

O correto seria ele ter falado que: “Tudo o que eu faço é para ficar muito rico e, como  consequência, acabo contribuindo para o crescimento do Brasil”. Eike não é melhor nem pior do que o seu José da padaria da minha quadra. Empresários querem ficar rico e, na busca de seus interesses individuais, contribuem para o crescimento do país. Assim, ele deveria ter deixado de lado esse papo de bom samaritano e ter festejado a ganância, um ensinamento que vem desde Adam Smith.

E ao festejar a ganância ele estaria alertando ao governo que, se quiser aumentar a taxa de investimento no Brasil e ter sucesso nas concessões, deveria  ter cuidado com o excesso de intervenção e a insegurança jurídica que está causando.

(2) “O BNDES devia vir mais. Faço o pleito toda hora. Os fundos de pensão estrangeiros me compram e são meus sócios. E os fundos brasileiros, cadê? Alô, vocês estão perdendo 15%, 20% de taxa de retorno”

Aqui tenho dificuldades de entender o raciocínio. A grande maioria dos projetos do grupo EBX são em setores nos quais o Brasil tem vantagens comparativas. Assim, em princípio, seria mais fácil conseguir funding privado. O problema é que o retorno dos investimentos tem sido aquém do esperado e, por isso, as ações do grupo tiveram queda substancial este ano.

E no caso do BNDES, o banco já investiu R$ 8,1 bilhões no grupo em quatro anos. Isso é pouco? E no caso dos fundos de pensão é interessante o ponto que o empresário levanta. Por que os fundos de pensão lá de fora investem nas suas empresas e os fundos de pensão doméstico não?

(3) “A turma da minha geração pensa: “Cadê a teta do governo para eu ganhar um contrato?”. Não tenho contrato com governo. Tenho meus bilhões em risco.”

Estranho. O empresário não para de elogiar o governo e inclusive empresta seu avião pessoal para o governador do Rio de Janeiro. E parte dos investimentos do seu grupo dependem de projetos e concessões do governo e de recursos do BNDES, que são recursos de impostos.

O grupo EBX com o portfólio de investimentos que tem, não pode brigar com o governo. O seu plano de controlar a Vale, que já foi motivo de diversas reportagens de jornais e revistas, vai depender da boa vontade do governo.

(4) “Hoje tenho o compromisso de não tirar mais gente de lá (Petrobrás). Sem autorização, não tem conversa. A não ser o cara que esteja se aposentando, aí não tem problema.”

Por que o empresário fez esse acordo com a Petrobrás? ainda mais de um empresário que falou que não precisa de governo e não tem contrato com o governo. Esse tipo de concorrência é boa para as empresas e para os trabalhadores.

Quando uma empresa corre o risco de perder um trabalhador experiente, ela tem que fazer um plano de carreira melhor para segurar esses trabalhadores mais qualificados. E se o trabalhador for muito qualificado a ponto da Petrobrás não conseguir segurá-lo é bom que ele vá para o setor privado e se torne um executivo.

Qual o problema de uma empresa privada lutar por trabalhadores qualificados? Isso é ruim para a empresa que perde, mas não é ruim para a economia.

Vamos torcer para que os empresários façam a sua parte para o crescimento do Brasil. E o melhor que podem fazer é tentar ganhar dinheiro sem ter que bajular o governo. No momento, ser bem ou mal visto pelo governo faz toda a diferença e por isso o tom de “eu trabalho para o Brasil e mereço uma estátua” da entrevista do empresário.

7 pensamentos sobre “Para ler, parar e pensar -3

  1. Todos nós trabalhamos para o Brasil e nem por isso mereçemos estatuas. Estatuas são para egolatras que acham que ficar mamando na teta do governo – atraves do BNDES – é sinal de empreendedorismo. Idéias boas todo mundo tem. Ser amigo do LULLA é condição promirdial para colocar tais idéias em pratica.

  2. Parece que estou mesmo errado a respeito do Eike Batista. Antes eu achava que só os inexperientes acreditavam nele, mas a cada dia vejo mais pessoas com capacidade analítica e conhecimento de mundo maiores que os meus admirando o cara.

    Para mim ele não passa de uma criança mimada que quando era mais novo brincava de pilotar lanchas rápidas e namorar modelos. Depois que envelheceu trocou os brinquedos. Fazendo uma caricatura, vejo o Eike como o meninão que diante de um período de tédio pediu para o pai: Quero brinquedos novos!!! Com dó do filho o senhor Eliézer Batista, que foi um dos responsáveis por organizar o mercado de minérios, óleo e gás no Brasil resolveu, como sempre, atender aos pedidos do birrento. Usou seus conhecimentos, experiências e contatos e emprestou seu prestígio para o filho a criar um negócio promissor, mas que ainda sequer começou a produzir qualquer coisa.

    Só um acontecimento nestes moldes, na minha opinião, explicaria as decisões imaturas e inconsequentes do Eike Batista com relação ao seu grupo, do tipo: demissões de executivos chave sem qualquer fundamento, suspensão do pagamento dos bônus acordados, chilique por conta da queda da cotação das ações, diversificações esdruxulas e outras. Ou vocês acreditam mesmo que alguém que bate boca no twitter com desconhecidos tem idade mental para liderar um grupo com o tamanho e com os desafios do grupo EBX??

  3. Mansueto

    Que eu me lembre, Eike levou da Petrobrás para o seu grupo, e a peso de ouro, duas encrencas: os então festejados Rodolfo Landim e Paulo Mendonça. Os dois foram demitidos por Eike. Por quê? Não entregaram o que prometeram.

    Breve história de uma jabuticaba estatal: O porto de Itaguaí (Área do meio) da CDRJ

    Recentemente, a imprensa noticiou o atraso de mais de dez anos na construção do terminal de minério de ferro no Porto de Itaguaí (RJ) da Companhia Docas do Rio (estimativa: 24 milhões de toneladas de minério/ano).

    A MMX constrói um terminal para exportação de minério também em Itaguaí (projetado para 50 milhões ton/ano e podendo ser expandido em até o dobro). Lá, já operam os terminais da Vale e da CSN.

    A CSN exporta, por Itaguaí, 45 milhões de ton/ano e no ano que vem espera ampliar a capacidade para 85 milhões.

    Quanto a Vale, todo o minério produzido em MG (Vale + outras mineradoras que vendem para a Vale) é transportado para o Complexo Portuário de Tubarão, em Vitória, pela Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM), e para o Porto de Itaguaí (RJ), pela MRS Logística.

    Resumo da ópera: Não sei quanto o governo já enfiou da nossa grana nesse projeto do terminal de Itaguaí. A última previsão é de que o terminal entrará em operação em 2015. Ou seja, mais de 15 anos para entregar um terminal cuja estimativa de embarque é de 24 milhões ton/ano.

    Até antes de 2015, a se confirmar o porto da MMX, a capacidade de embarque da iniciativa privada em Itaguaí vai para 165 milhões de ton/ano. Ou seja, o triplo do que foi exportado em 2011.

    Se todos os projetos para a região forem efetivados, incluindo o da CDRJ, Itaguaí poderia exportar 100% do minério de ferro exportado em 2011: 310 milhões de toneladas.

    Ocorre que apenas 25% do minério pode sair por Itaguaí porque as maiores áreas de produção estão distantes e conectadas a outros portos.

    Pergunta: Se esses números estão corretos, de onde virá o minério para a exportação pela MMX e CDRJ? Imagino que a MMX e a CDRJ vão disputar o mercado de MG com a Vale. Explico: A Vale não exporta apenas o que produz. Ela compra minério de vários produtores. Não sei a quanto chega essa produção. Seria interessante olhar esse número.

    Que eu saiba, Eike está bem longe de ter nas mãos os 50 milhões/ano de minério que poderá exportar. Ele andou comprando alguma coisa em Serra Azul, na região metropolitana de Belo Horizonte. Mas A CSN também. Estima-se que a produção anual das mineradoras da região da Serra Azul varia de 1,6 milhão de toneladas a 5 milhões de toneladas e que as reservas chegam a 2 bilhões de toneladas de minério. Pode parecer muito. Mas seria preciso ver quanto desse montante já é controlado pela CSN e Vale. E também quanto isso representa no total de minério exportado de MG e que pode sair por Itaguaí.

    Tubarão é (bom, acho que ainda é) o maior porto de embarque de minério de ferro do mundo, exportando algo próximo a 65 milhões de toneladas por ano.

    O atual presidente da CDRJ, Jorge Luiz de Mello (antes, ele foi diretor-administrativo da Companhia Ferroviária do Nordeste que iria entregar a Transnordestina em 2010. Em fevereiro deste ano, dos 1728 km de trilhos previstos apenas 170 km estavam prontos, menos de 10%. A última estimativa de custo passou dos 3 bilhões iniciais para 5,4 bilhões e o prazo de entrega foi esticado para 2014) justifica os atrasos no porto de Itaguaí (Área do meio) pela demora da licitação e de licenças ambientais. É certo que as privadas não dependem de licitações, mas fora isso os outros constrangimentos são os mesmos. Por que, então, por exemplo, uma estatal sofre mais (demora mais) para conseguir as licenças ambientais do que as privadas?

    Fala-se que o terminal da CDRJ em Itaguaí já é mais um dos micos na mão do governo. Eu pergunto se o terminal de minério da MMX, também em Itaguaí, não seria outro. Não sei quanto o BNDES enfiou até agora nesse porto da MMX.

    PS: Não chequei os números em fontes seguras. Basei-me em pesquisa via Google por notícias da imprensa.

  4. Eike é tão fenomenal que a Luma de Oliveira precisou de um ‘bombeiro’ para apagar o fogo dela, samplando-lhe um par de chifres. É fácil ser “empresário” tendo como aliado o dono da chave do cofre do BNDES – LULA, o chefe da ‘quadrilha-mensaleira-lulo-petista’, despachante de luxo com a faixa presidencial. Vá disputar créditos no mercado como qualquer empresário honesto paa ver se tornara o ‘homem mais rico do brasil’! Ildo Sauer bem alertou que “o ato mais entreguista da história foi o leilão do petróleo para Eike”. Quem era o propedeuta da presnidência. ´Lula é sócio oculto desse disparate, e é preciso que as pessoas, a sociedade fique de lhos aberto para controlar as despesas do chefe da quadrilha dos ‘mensaleiros”.

  5. A riqueza não santifica nem sataniza ninguém. Bem como a pobreza. Eike tenta criar uma imagem, mesmo que infantilizada, de empreendedor que visa a construção de um país melhor. Ele segue discursando para classe C e D, e acho que ele conseguiu gerar uma visão surpreendemente positiva de sua figura. Ele sabe que ser bem aceito pela sociedade é importante para mantê-lo ao lado deste governo.

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