Para ler, parar e pensar -2

Para completar o post anterior sobre matérias interessantes dos jornais sobre economia, sugiro a leitura do artigo do empresário Benjamin Steinbruch do dia 9 de outubro na Folha de São Paulo (clique aqui) e a entrevista do empresário Eike Batista no dia 21 de outubro na Folha de São Paulo. Comento neste post o artigo do Benjamin Steinbruch e, no post seguinte, a entrevista do Eike Batista.

O artigo e a entrevista tem várias hipóteses subjacentes que merecem ser explicitadas para o bom debate. E quando se analisa o que os dois disseram, confesso que tenho dificuldades de entender a lógica da argumentação dos dois.

No caso do Benjamin Steinbruch, o empresário fala no seu artigo que:

Era uma vez um país que, durante muitos e muitos anos, privilegiou os investimentos financeiros. Quem aplicava o dinheiro no mercado financeiro tinha ganhos bem superiores à taxa de inflação -ganhos reais, como dizem os economistas…..

…….Num belo dia, porém, alguém acendeu uma luz e o discurso já cansativo e repetitivo dos empresários começou a ser melhor observado. A jabuticaba dos juros desse país diferente não poderia continuar para sempre…….Quem quiser obter rendimentos mais elevados terá de arregaçar as mangas, investir em operações produtivas de longo prazo e correr mais riscos. Será um país igual aos outros. Ou, no mínimo, menos diferente”

Eu até entendo a tese central do artigo que a redução dos juros será positiva para o investimento produtivo e nisso todos concordamos. O que não concordo é que o artigo passa a impressão que redução de juros é ato da boa vontade do palácio do planalto. O Brasil por muitos anos “privilegiou o setor financeiro” por causa de uma série de distorções da nossa economia e parte dessa culpa são dos próprios empresários.

Por exemplo, risco Brasil elevado, baixa poupança doméstica, elevada inflação, elevada dívida pública, elevado passivo externo liquido, histórico de calotes, etc. tudo isso estava por trás da elevada taxa de juros. À medida que o Brasil resolveu esses problemas desde 1995, os fundamentos da economia melhoraram e ocasionaram a redução dos juros. Com a crise internacional, o Banco Central pode testar uma taxa de juros básica excepcionalmente baixa, que não deverá se manter.

E os empresários, qual o papel deles nesse processo? Empresários, professores, funcionários públicos (o meu caso), banqueiros, etc. todos defendem os seus interesses. E todos ao defender os seus interesses acham que estão contribuindo para o crescimento sustentável do país. E alguns casos de fato estão, mas nem sempre isso ocorre.

Por exemplo, acho difícil que a onda de protecionismo atual defendida por muitos empresários seja positiva. Acho também estranho que os empresários nunca tenham se mostrado contra o aumento da dívida do Tesouro para repassar recursos novos para o BNDES. Se querem um BNDES mais forte, porque não definir uma nova fonte de recursos (um novo imposto)? Porque isso aumentaria mais ainda o custo Brasil. E aumento da divida não teria problema? Inclusive no efeito que essa divida nova terá sobre a taxa de juros? e a taxa de câmbio fixo? quais os prós e contra dessa opção?

O Brasil por muitos anos “privilegiou os investimentos financeiros” porque privilegiou também por muitos anos o setor real da economia e adotou politicas publicas financiadas por inflação e aumento de dívida. Hoje, sem tirar o mérito da presidente Dilma que deu um puxão de orelha nos bancos públicos e aumentou a concorrência no setor, os juros mais baixos refletem medidas de vários governos e de muitos economistas que são tidos como inimigos da indústria e que, na verdade, foram eles que ajudaram a indústria.

2 pensamentos sobre “Para ler, parar e pensar -2

  1. Nada contra os empresários, muito pelo contrário. Mas dadas as relações muito peculiares entre governo e determinados segmentos empresariais, a leitura tem que ser muito cuidadosa e crítica. O que não a invalida.

  2. Parabéns pela série de postagens. Muito boas.
    Sobre taxas de juros: é duro ler empresários, analistas e economistas escreverem sobre juros e não diferenciarem juros de mercado de taxa básica (selic). A taxa básica é uma variável controlável pela autoridade monetária, já os juros de mercado não (são apenas influenciados). O que o BC pode fazer é influenciar os juros de mercado de lp fixando uma taxa básica mais alta que a taxa neutra para fazer as expectativas de inflação cairem e os juros acompanharem.
    SOBRE OS JUROS NO MOMENTO ATUAL: FOI O BC OU MF QUE FEZ OS JUROS DE MERCADO CAIREM? NÃO.
    FOI A QUEDA NA TAXA BÁSICA QUE FEZ OS JUROS DE MERCADO CAIREM? NÃO.
    FOI A QUEDA DOS JUROS DE MERCADO QUE PROPORCIONOU A QUEDA DA TAXA BÁSICA? SIM.
    QUAL O MOTIVO DOS JUROS DE MERCADO CAIREM TANTO? A CRISE E A QUEDA DOS JUROS NOS USA E NO EURO. ASSIM QUE A ECONOMIA BRASILEIRA DESAQUECEU (ou dsacelerou), A DEMANDA POR CRÉDITOS ACOMPANHOU E AS TAXAS DE JUROS DE MERCADO FIZERAM O MESMO (não existem negócios com expectativas de lucros que motivem pagar juros mais altos). A SELIC APENAS ACOMPANHOU (mesmo assim sempre ficando um pouco acima do DI 360).
    VEJA QUE A SELIC CAIU MUITO MAS SEMPRE FICOU ACIMA DA TAXA DE MERCADO DE UM ANO (DI 360).
    QUAL A NOVIDADE? A CRISE FEZ A TAXA DE MERCADO FICAR ABAIXO DA TAXA NATURAL (NEUTRA OU DE EQUILÍBRIO). A TAXA NATURAL É VIRTUAL MAS EXISTE. VEJA: apesar da selic (taxa de 1 dia) ter sido fixada acima da taxa de mercado de um ano, ela não conseguiu segurar a inflação (a taxa de dispersão de aumento dos preços dos ítens pesquisados é superior a 68%. Isto já é um processo inflacionário bastante difícil de ser contido. MUITOS PREÇOS ESTÃO REPRIMIDOS PELO GOVERNO OU PELO MERCADO. SE A DESACELERAÇÃO REVERTER A INFLAÇÃO VIRÁ VIRULENTA.). A taxa de mercado de 1 ano está negativa desde abril (pelo critério do aplicador: DI 360 – IRRF DE 20% E MENOS IGPM). E AS BOLHAS DE ATIVOS QUE NÃO MOEDA PÁTRIA, ONDE SE FORMARAM? AS AÇÕES SUBIRAM? NÃO (A COMPARAÇÃOM É ENTRE JUROS E RESULTADOS DAS EMPRESAS). OS IMÓVEIS SUBIRAM? SIM (mas parece que já estão muito acima do custo de construção.). A maioria refugiou-se no ouro (neste mês está em queda. Início do furo da bolha? Acompanhar dados diariamente.).

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