Para ler, parar e pensar -1

Há coisas boas publicadas neste domingo e nos últimos dias nos jornais. Para começar, o jornal o Estado de São Paulo iniciou há alguns dias uma série de entrevistas com ex-presidentes do Banco Central sobre o tripé da política econômica (superávit primário, taxa de câmbio flutuante e regime de metas de inflação). O mero fato de o jornal ter iniciado essas entrevistas já mostra que há uma desconfiança real quanto à condução da política econômica.

A primeira entrevista foi o com o economista Gustavo Franco (clique aqui) no dia 14 de outubro de 2011. Gustavo é taxativo: “A manutenção do tripé como uma doutrina ensejou a busca de brechas, como as medidas macroprudenciais e a emissão de dívida pública para emprestar ao BNDES. Com essas brechas, o tripé fica descaracterizado.”

Se o tripé foi modificado, cabe ao governo explicar de forma clara as mudanças para o mercado e não fazer uma coisa e falar outra. Apenas a velhinha de Taubaté acredita que o Banco Central persegue o centro da meta de 4,5% ao ano e que a taxa de câmbio é flutuante. Como fala Langoni (clique aqui):

O BC claramente deixou de ter apenas um único objetivo e – a exemplo de outros bancos centrais do mundo, mas por razões distintas – começou a se preocupar também com o crescimento. Simultaneamente, o câmbio deixou de ser flutuante para se tornar quase fixo em R$ 2….. a redução dos juros não pode ser artificial como um ato da vontade dos governos. Reduzir os juros quando a economia está estagnada é o que os bancos centrais fazem. Mas manter esse nível sem elevar a taxa de poupança doméstica é impossível.” 

Sobre o regime cambial, Pastore (clique aqui) também é taxativo: “O governo nega, mas, do meu ponto de vista, estamos num regime de câmbio fixo. Não sei por quanto tempo. Não é eterno, mas a minha impressão é de que vamos ficar por um extenso período….. Não gosto de câmbio fixo. É um regime inferior. Mas não é incompatível com manter a inflação nesse nível mais alto. Se o governo tiver de subir os juros, vai pagar um custo brutal de controle de capitais para manter esse câmbio.”

E na questão dos juros, Gustavo Franco, Carlos Langoni, Affonso Celso Pastore emitem a mesmo opinião: a taxa de juros é uma variável de mercado e o governo não tem o poder de colocar a taxa de juros onde bem quer e que o  Brasil não conseguirá manter a taxa de juros real no nível atual, menos de 2% real ao ano. Nem mesmo o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central por oito anos e chefe do atual presidente do Banco Central acredita nisso. Meirelles escreve na sua coluna de hoje na Folha de São Paulo (clique aqui) que:

A experiência internacional mostra que o manejo da taxa base de juros é o instrumento de controle da inflação mais eficaz e o que gera menores distorções na economia. Quando a inflação sobe, o BC, subindo os juros, influencia a demanda, a atividade econômica e a inflação por diversos mecanismos, chamados canais de transmissão, como o crédito, o câmbio e as expectativas de inflação, entre outros.”

E fala mais à frente no mesmo artigo que: “A melhor maneira de derrubar a taxa de juros de forma sustentável, sem gerar inflação à frente ou outros riscos, é assegurar à sociedade que não só o governo seguirá atuando para controlar a dívida pública, mas, principalmente, que o BC tomará as medidas necessárias para manter a inflação na meta.”

Não há problema algum o Banco Central alongar o prazo de convergência para a meta de inflação. O problema é que essa estratégia nunca foi comunicada de forma muito clara para o mercado e a redução dos juros, em um contexto de aumento da expectativa de inflação, aumenta as incertezas. Adicionalmente, Langoni lembra que mesmo o centro da meta de inflação no Brasil de 4,5% ao ano é elevada (as economias emergentes adotam como meta uma inflação anual entre 3% e 3,5%) e Pastore destaca que, apesar da tolerância com inflação mais elevada e juro real excepcionalmente baixo, vamos ter este ano um crescimento pífio de apenas 1,6%.

É claro que ninguém tem que concordar com o affonso Celso Pastore, Gustavo Franco, Carlos Langoni e Henrique Meirelles. Afinal, eles são apenas economistas brilhantes que insistem em nos lembrar que o governo não tem o poder de ajustar variáveis econômicas por canetada.

O Brasil caminha para um cenário de inflação elevada (6% ao ano), aumento da taxa de juros em algum momento entre julho de 2013 e julho de 2014, regime de câmbio fixo com maior controle da entrada de capitais e maior dificuldade de financiamento das empresas brasileiras. O que isso vai ocasionar? Mais intervenção do governo na economia até que fique muito claro que os múltiplos objetivos de política econômica perseguidos pelo governo  não se sustentam.

Há um grupo de economistas dentro do governo que acredita na ideia que o que prejudicou o crescimento do Brasil nos últimos anos não foi a baixa poupança doméstica, baixo investimento, alta carga tributária, baixa qualidade da educação, falta de reformas institucionais, etc. O que faltou foi “coragem do governo para enfrentar os empresários gananciosos do setor privado”. E o governo quem decide quais setores e quais empresários são gananciosos.

8 pensamentos sobre “Para ler, parar e pensar -1

  1. Li a entrevista e concordo com o esse ponto que o Bacha levantou. Vou falar mais sobre isso no meu próximo post, Mas concordo com o seu ponto e com o dele. Por sinal, essa mesma crítica cabe como uma luva para os EUA – a força das elites e dos grupos de interesse na condução da politica economica.

    Essa é por sinal a tese principal do livro mais novo do Luigi Zingales: A Capitalism for the People: Recapturing the Lost Genius of American Prosperity, 2012.

    Abs,

  2. Caro Mansueto,

    muito bom o texto, como de costume!

    Gostei da parte “É claro que ninguém tem que concordar com o affonso Celso Pastore, Gustavo Franco, Carlos Langoni e Henrique Meirelles. Afinal, eles são apenas economistas brilhantes que insistem em nos lembrar que o governo não tem o poder de ajustar variáveis econômicas por canetada.”

    Arrisco alguns palpites aqui:

    http://econapproach.blogspot.com

    e por sinal meu último post foi sobre a política econômica tupiniquim.

    Abraço,

  3. Oi, Mansueto.

    Onde se lê:

    “Apenas a velhinha de Taubaté acredita (…) que a taxa de câmbio é fixa”, deveria talvez ser “que a taxa de câmbio é flutuante,” não?

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