O “fabuloso” modelo Argentino

Confesso que me irrita quando alguém cita a Argentina como modelo para o Brasil. A Argentina “foi o único país desenvolvido que, entre a Segunda Guerra Mundial e os dias de hoje, conseguiu deixar esse grupo por questões de má administração.”(ver o texto Sin-ming Shaw hoje no valor – clique aqui).

No artigo do valor, o economista mostra que: o governo falsifica os índices de inflação, o governo ameaça com processo criminal quem se atreve a divulgar números diferentes dos números oficiais, ágio do dólar paralelo em 50% e, agora, racionamento da compra de produtos nos supermercados.

Na mesma linha, matéria da última edição da revista Veja mostra que: “As restrições impostas pelo governo vão desde a compra de dólares e o uso de cartões de crédito até a importação de qualquer tipo de produto, supérfluo ou não, passando pelos investimentos privados nos setores de comunicação e de petróleo. Viajar para o exterior exige passar por um calvário burocrático. Livros e remédios estão escassos e caros. Os cidadãos são bombardeados por propaganda oficial ameaçadora e estão vendo milhares de vagas de trabalho ser fechadas pela fuga de investidores estrangeiros e pela impossibilidade de importar insumos básicos para a indústria.” – clique aqui para ler a matéria.

E na excelente entrevista do historiador argentino Luís Alberto Romero ao caderno Aliás do Estado de São Paulo no último domingo (A dama do antagonismo – clique aqui), o professor fala do retrocesso institucional da Argentina: “O governo Kirchner devorou o Estado argentino. E, como o Estado está deteriorado, a única forma de governar esse aparato é na base da pancada. É um estilo de confronto e de arbitrariedade que se usa para governar um país cujos mecanismos normais não funcionam bem.”

Hoje, a régua pela qual os investidores medem o sucesso da economia brasileira é comparando as nossas políticas com as políticas da Argentina. Todas as vezes que os investidores encontram qualquer semelhança mesmo que superficial entre Brasil e Argentina, ficam assustados e o Brasil ganha ponto negativo. Mas quando olham o Brasil diferente da Argentina, o Brasil ganha ponto positivo.

A Argentina está em um longo período de decadência e o “modelo Argentino” é o modelo que nenhum país deveria imitar. A crise vai se agravar na Argentina e seria importante para o Brasil sinalizar com atitudes corretas que o modelo brasileiro é o oposto do modelo argentino, i.e. que no Brasil as instituições funcionam e estão sendo fortalecidas.

É por isso que não gosto dos bate-boca entre governo e setor bancário, setor de energia (elétrica e petróleo) e telecomunicação. O ideal é que as agências reguladoras sejam fortalecidas e que passem a penalizar qualquer empresa independentemente da nacionalidade e do seu porte que não estejam cumprindo com os contratos de concessão ou que estejam exercendo poder de mercado.

O papel do governo é identificar projetos prioritários e implementar esses projetos, melhorar a legislação para promover saúde, educação, segurança pública, saneamento, etc. e até mesmo adotar politicas de incentivos voltadas para inovação em sentido amplo – não apenas inovação radical mas também absorção de tecnologia.

Hoje, as política de microgerenciamento de setores começaram a afetar o cenário macro e os investidores externos estão cada vez mais preocupados com o Brasil. E parte da preocupação  desses investidores é o medo do Brasil olhar de forma “carinhosa” para um país que deveria ser modelo do que não fazer.

6 pensamentos sobre “O “fabuloso” modelo Argentino

  1. Simon Kuznets disse certa vez que existem basicamente quatro tipos de países – desenvolvidos, subdesenvolvidos, Argentina e Japão. Seria, portanto, fácil explicar porque os desenvolvidos são desenvolvidos e como os subdesenvolvidos são subdesenvolvidos, mas o difícil seria explicar bem a Argentina e o Japão. (rs)

  2. Para registro, vale recordar que não foram poucos os economistas e os colunistas do jornalismo econômico que até recentemente saudavam a Argentina como uma especie de farol (paradigma) do auto-proclamado “novo-desenvolvimentismo”. Estes, sempre tão loquazes, hoje guardam um conveniente silêncio obsequioso.

    • Talvez porque o mote era mostrarem-se independentes dos recursos internacionais, notadamente dos EUA. Não faz muito tempo os emergentes , hoje pode-se imaginar em pouco tempo, imergentes, iniciaram procedimentos para utilizarem as moedas nacionais nas transações entre os países. O tem ficou basicamente congelado, talvez, pelo fato da hegemonia chinesa na corrente de comércio, razão pela qual o yuan/renminbi poderia ser a moeda dominante. Foi um processo, em tese, mais ideológico do que econômico, mesmo sabedores de que a China tem um fortíssimo comércio com os EUA, a UE e a ZE. Então, qual a independência teriam com suas moedas não conversíveis? Difícil falar em ingenuidade de autoridades com tais responsabilidades na representação dos respectivos cidadãos. Mas, ação temerária, pode-se dizer sem dúvidas.

  3. Mansueto,
    Foi ótimo o complemento do artigo do Sin-ming Shaw.
    Concordando contigo, acredito que estamos seguindo a Argentina em muitas coisas, até mesmo no futebol, pois achamos que o Neymar é o maior craque do mundo. Mascaramos a inflação mudando a metodologia de cálculo ano sim ano não. Estamos aumentando as barreiras comerciais como nossos vizinhos.
    Agora, quando chegaremos a ser uma Argentina?
    Seremos sempre o país do futuro!

  4. Há uma passagem no livro “The ascent of money” do Niall Ferguson que menciona o calote argentino – e na América do Sul – lá no séc XIX. É uma leitura fascinante sobre a economia pré 1929

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