As queixas do investidor externo

Na semana passada tive uma longa conversa com o jornalista do Estado de São Paulo, Fernando Dantas (clique aqui para ler o blog dele), sobre as várias reuniões que tive em setembro e outubro, em Brasília, com grupos de estrangeiros que por aqui passaram trazidos por bancos do Rio de Janeiro e São Paulo.

Fernando Dantas fez um excelente trabalho e conseguiu a proeza de resumir com perfeição a longa conversa que tivemos sobre os temas tratados nessas reuniões.

As queixas do investidor externo

29 de outubro de 2012 | 14h51

Fernando Dantas – O Estado de São Paulo

O economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), tem sido muito requisitado por investidores estrangeiros que visitam o Brasil. Especialista em contas públicas, e conhecedor profundo dos meandros da política econômica, Almeida reuniu-se recentemente com diversos grupos de investidores estrangeiros, incluindo gestores de um fundo de investimento de mais de US$ 100 bilhões, de um fundo soberano asiático, de um fundo de pensão americano, além de banqueiros e interessados em investimentos em infraestrutura no Brasil.

Almeida está bastante preocupado com o que ele vê com uma mudança forte para pior na visão do Brasil por parte de todas estas categorias de investidores. É bom registrar que os investimentos estrangeiros diretos continuam em alta, mas ainda assim a deterioração da imagem do País junto a investidores dos mais diversos tipos é preocupante no médio e longo prazo, considerando-se que a poupança brasileira é baixa e precisa ser complementada pela poupança externa.

O economista nota que, no período entre 2004 em 2010, embora o Brasil já crescesse menos do que a média da América Latina, grandes ganhos foram realizados nos mercados de renda fixa, por causa dos juros altos, e no mercado acionário, por causa do desempenho relativamente bom da economia. Agora, porém, os ganhos em ambos os mercados cessaram, e os investidores começaram a prestar mais atenção a questões estruturais e de longo prazo que podem comprometer a trajetória de crescimento do País.

Há consenso de que os fundamentos macroeconômicos do Brasil são bastante sólidos, com juros baixos, dívida pública em nível muito melhor do que a dos países ricos, e passivo externo líquido sob controle. As críticas se direcionam principalmente ao excesso de intervenção do governo na economia.

Almeida se recorda que uma das reuniões, no início de setembro, foi pouco depois de o governo anunciar o aumento da tarifa de importação de 100 produtos. Os investidores, na discussão, se dividiram em dois grupos. Alguns achavam que se tratava de algo passageiro, em linha, inclusive, com medidas que muitos países no mundo estão tomando. Outros se preocupavam que o Brasil estivesse indo mais longe do que isso, e se aproximando um pouco do modelo argentino.

Segundo o economista, os investidores gostariam de ver sinais muito claros de que o governo brasileiro reprova as medidas que vêm sendo tomadas pela Argentina, de protecionismo, aumento de tarifas de importação e imposição de controles nas importações e nos mercados em geral.

Almeida foi questionado sobre se seria possível garantir que um novo aumento de tarifas de importação de um conjunto grande de produtos não ocorreria nos próximos 12 meses no Brasil. Ele respondeu que não tinha como garantir.

Outro ponto muito repisado pelos investidores é o de que outros países da América Latina, como Peru, Colômbia, Chile e México, estariam com perspectivas de crescimento nos próximos dez anos bem melhores do que a do Brasil.

O economista relata que lhe pediram que tentasse convencê-los do contrário, mas ele admitiu que não tinha como. Para Almeida, o modelo econômico do Brasil não comporta nenhuma redução substancial da carga tributária, por causa do que ele classifica como despesas públicas “brutais”. A economia fiscal do governo com a queda dos juros, que ele estima em 1,5 ponto porcentual do PIB, “é pequena para os desafios que temos de aumentar os investimentos públicos e privados”.

Almeida nota que, mesmo que o aumento do investimento venha do setor privado, via concessões, o governo teria de fazer um grande esforço de poupança, para aumentar a poupança nacional como um todo, e evitar uma ampliação muito forte do déficit em conta corrente. Desta forma, o espaço para a política de desonerações tributárias não é muito grande.

Outra crítica frequente dos investidores internacionais é o que eles veem como leniência do governo e da sociedade brasileira com a inflação. “Eles acham esquisito que a gente considere que uma inflação de 5,5% é baixa”, diz Almeida. E existe a preocupação de que, no futuro, se algum choque elevar a inflação ainda mais, ficará cada vez mais difícil baixá-la de novo, e o custo disto seria uma freada que iria comprometer ainda mais o crescimento brasileiro, que hoje é visto como fraco.

O pacote de redução do preço da energia e de renovação das concessões de empresas do setor, segundo Almeida, foi um dos pontos mais mencionados pelos investidores como preocupante. “Eles ficaram muito assustados com o fato de o governo ter lançado um plano que, de um dia para o outro, levou a uma perda muito grande do valor de mercados das empresas.”

Isto foi algo que desagradou particularmente o fundo de pensão americano e o fundo soberano asiático. O economista explica que estes são investidores de longo prazo, e, portanto, interessados nos projetos de infraestrutura oferecidos pelo Brasil. “Mas eles estavam completamente às cegas em relação às regras da concessão, e muito preocupados com o fato de que, com uma canetada, poderiam perder grande parte do valor dos seus empreendimentos de um dia para o outro”, acrescenta Almeida.

Também houve preocupação com o regime cambial brasileiro. Alguns banqueiros ficaram perplexos ao ver que havia uma torcida para que o preço das commodities não suba muito (o que beneficia o Brasil diretamente), por causa da inflação. Isto, por sua vez, está ligado ao fato de que o governo mantém o dólar na faixa de R$ 2, não deixando que ele se aprecie quando as commodities sobem, o que neutraliza o efeito inflacionário.

Almeida costuma repetir aos investidores que o atual governo brasileiro atua muito na base de tentativa e erro (o que os americanos chamam de “learning by doing”, ou aprender fazendo), e que isso sinaliza uma postura mais pragmática do que ideológica da presidente Dilma Rousseff. O seu principal exemplo de tentativa e erro foi o leilão de concessão dos aeroportos de Viracopos, Guarulhos e Brasília. O governo vai mudar as regras, porque não gostou do resultado.

Segundo o economista, os investidores não se impressionaram muito com a sua colocação sobre o pragmatismo do governo da presidente Dilma Rousseff. De maneira geral, eles acham ruim, porque cria insegurança e o país acaba pagando um custo muito alto.

Há, finalmente, o problema de comunicação com o governo. Os investidores têm dificuldade de ir além do Ministério da Fazenda e do Banco Central, e não encontraram ainda interlocutores em áreas como o Ministério das Minas e Energia ou o de Ciência e Tecnologia. Como hoje a preocupação macroeconômica é menor, e as regras do jogo importam mais, as áreas de contato tradicionais com a Fazenda e o BC são consideradas insuficientes.

E, mesmo nesses órgãos, segundo Almeida, os investidores se queixam de que sentem um certo “desprezo”, nas palavras do economista. “Eles relatam que os interlocutores no governo geralmente têm a posição de que o Brasil é muito bom, está crescendo, está dando certo, e que não estão muito preocupados se os investidores virão ou não para cá”.

O economista vê nisso um certo sintoma de megalomania: “A gente deveria tratar esses caras com tapete vermelho, porque o Brasil vai aumentar o déficit em conta corrente para entrar num novo ciclo de investimento, e vai precisar de financiamento para isso”.

Esta coluna foi publicada na AE-News/Broadcast na quarta-feira, 24 de outubro de 2012.

Para ler, parar e pensar -3

Para ler, parar e pensar -3

Para terminar esses posts sobre artigos de jornais, nada melhor que a entrevista do empresário Eike Batista ao jornal Folha de São Paulo neste último domingo – clique aqui.

Antes que alguém me critique, quero deixar claro que admiro o espírito empreendedor do empresário e a sua capacidade de ganhar dinheiro. Acho inclusive que seria saudável para o Brasil ter mais empresários como o Eike Batista que busca criar um conglomerado e conseguir parceiros aqui e lá fora para os seus empreendimentos. Dito isso, a entrevista do empresário ao jornal tem uma série de equívocos quanto ao papel de um empresário e a relação público-privado.

(1) Empresário social versus ganância

Para começar, Eike fala que: “Tudo o que eu faço é construir o Brasil. Alguém vai ter que fazer uma estátua para mim em algum lugar. Vamos evitar o apagão.”

O correto seria ele ter falado que: “Tudo o que eu faço é para ficar muito rico e, como  consequência, acabo contribuindo para o crescimento do Brasil”. Eike não é melhor nem pior do que o seu José da padaria da minha quadra. Empresários querem ficar rico e, na busca de seus interesses individuais, contribuem para o crescimento do país. Assim, ele deveria ter deixado de lado esse papo de bom samaritano e ter festejado a ganância, um ensinamento que vem desde Adam Smith.

E ao festejar a ganância ele estaria alertando ao governo que, se quiser aumentar a taxa de investimento no Brasil e ter sucesso nas concessões, deveria  ter cuidado com o excesso de intervenção e a insegurança jurídica que está causando.

(2) “O BNDES devia vir mais. Faço o pleito toda hora. Os fundos de pensão estrangeiros me compram e são meus sócios. E os fundos brasileiros, cadê? Alô, vocês estão perdendo 15%, 20% de taxa de retorno”

Aqui tenho dificuldades de entender o raciocínio. A grande maioria dos projetos do grupo EBX são em setores nos quais o Brasil tem vantagens comparativas. Assim, em princípio, seria mais fácil conseguir funding privado. O problema é que o retorno dos investimentos tem sido aquém do esperado e, por isso, as ações do grupo tiveram queda substancial este ano.

E no caso do BNDES, o banco já investiu R$ 8,1 bilhões no grupo em quatro anos. Isso é pouco? E no caso dos fundos de pensão é interessante o ponto que o empresário levanta. Por que os fundos de pensão lá de fora investem nas suas empresas e os fundos de pensão doméstico não?

(3) “A turma da minha geração pensa: “Cadê a teta do governo para eu ganhar um contrato?”. Não tenho contrato com governo. Tenho meus bilhões em risco.”

Estranho. O empresário não para de elogiar o governo e inclusive empresta seu avião pessoal para o governador do Rio de Janeiro. E parte dos investimentos do seu grupo dependem de projetos e concessões do governo e de recursos do BNDES, que são recursos de impostos.

O grupo EBX com o portfólio de investimentos que tem, não pode brigar com o governo. O seu plano de controlar a Vale, que já foi motivo de diversas reportagens de jornais e revistas, vai depender da boa vontade do governo.

(4) “Hoje tenho o compromisso de não tirar mais gente de lá (Petrobrás). Sem autorização, não tem conversa. A não ser o cara que esteja se aposentando, aí não tem problema.”

Por que o empresário fez esse acordo com a Petrobrás? ainda mais de um empresário que falou que não precisa de governo e não tem contrato com o governo. Esse tipo de concorrência é boa para as empresas e para os trabalhadores.

Quando uma empresa corre o risco de perder um trabalhador experiente, ela tem que fazer um plano de carreira melhor para segurar esses trabalhadores mais qualificados. E se o trabalhador for muito qualificado a ponto da Petrobrás não conseguir segurá-lo é bom que ele vá para o setor privado e se torne um executivo.

Qual o problema de uma empresa privada lutar por trabalhadores qualificados? Isso é ruim para a empresa que perde, mas não é ruim para a economia.

Vamos torcer para que os empresários façam a sua parte para o crescimento do Brasil. E o melhor que podem fazer é tentar ganhar dinheiro sem ter que bajular o governo. No momento, ser bem ou mal visto pelo governo faz toda a diferença e por isso o tom de “eu trabalho para o Brasil e mereço uma estátua” da entrevista do empresário.

Para ler, parar e pensar -2

Para completar o post anterior sobre matérias interessantes dos jornais sobre economia, sugiro a leitura do artigo do empresário Benjamin Steinbruch do dia 9 de outubro na Folha de São Paulo (clique aqui) e a entrevista do empresário Eike Batista no dia 21 de outubro na Folha de São Paulo. Comento neste post o artigo do Benjamin Steinbruch e, no post seguinte, a entrevista do Eike Batista.

O artigo e a entrevista tem várias hipóteses subjacentes que merecem ser explicitadas para o bom debate. E quando se analisa o que os dois disseram, confesso que tenho dificuldades de entender a lógica da argumentação dos dois.

No caso do Benjamin Steinbruch, o empresário fala no seu artigo que:

Era uma vez um país que, durante muitos e muitos anos, privilegiou os investimentos financeiros. Quem aplicava o dinheiro no mercado financeiro tinha ganhos bem superiores à taxa de inflação -ganhos reais, como dizem os economistas…..

…….Num belo dia, porém, alguém acendeu uma luz e o discurso já cansativo e repetitivo dos empresários começou a ser melhor observado. A jabuticaba dos juros desse país diferente não poderia continuar para sempre…….Quem quiser obter rendimentos mais elevados terá de arregaçar as mangas, investir em operações produtivas de longo prazo e correr mais riscos. Será um país igual aos outros. Ou, no mínimo, menos diferente”

Eu até entendo a tese central do artigo que a redução dos juros será positiva para o investimento produtivo e nisso todos concordamos. O que não concordo é que o artigo passa a impressão que redução de juros é ato da boa vontade do palácio do planalto. O Brasil por muitos anos “privilegiou o setor financeiro” por causa de uma série de distorções da nossa economia e parte dessa culpa são dos próprios empresários.

Por exemplo, risco Brasil elevado, baixa poupança doméstica, elevada inflação, elevada dívida pública, elevado passivo externo liquido, histórico de calotes, etc. tudo isso estava por trás da elevada taxa de juros. À medida que o Brasil resolveu esses problemas desde 1995, os fundamentos da economia melhoraram e ocasionaram a redução dos juros. Com a crise internacional, o Banco Central pode testar uma taxa de juros básica excepcionalmente baixa, que não deverá se manter.

E os empresários, qual o papel deles nesse processo? Empresários, professores, funcionários públicos (o meu caso), banqueiros, etc. todos defendem os seus interesses. E todos ao defender os seus interesses acham que estão contribuindo para o crescimento sustentável do país. E alguns casos de fato estão, mas nem sempre isso ocorre.

Por exemplo, acho difícil que a onda de protecionismo atual defendida por muitos empresários seja positiva. Acho também estranho que os empresários nunca tenham se mostrado contra o aumento da dívida do Tesouro para repassar recursos novos para o BNDES. Se querem um BNDES mais forte, porque não definir uma nova fonte de recursos (um novo imposto)? Porque isso aumentaria mais ainda o custo Brasil. E aumento da divida não teria problema? Inclusive no efeito que essa divida nova terá sobre a taxa de juros? e a taxa de câmbio fixo? quais os prós e contra dessa opção?

O Brasil por muitos anos “privilegiou os investimentos financeiros” porque privilegiou também por muitos anos o setor real da economia e adotou politicas publicas financiadas por inflação e aumento de dívida. Hoje, sem tirar o mérito da presidente Dilma que deu um puxão de orelha nos bancos públicos e aumentou a concorrência no setor, os juros mais baixos refletem medidas de vários governos e de muitos economistas que são tidos como inimigos da indústria e que, na verdade, foram eles que ajudaram a indústria.

Para ler, parar e pensar -1

Há coisas boas publicadas neste domingo e nos últimos dias nos jornais. Para começar, o jornal o Estado de São Paulo iniciou há alguns dias uma série de entrevistas com ex-presidentes do Banco Central sobre o tripé da política econômica (superávit primário, taxa de câmbio flutuante e regime de metas de inflação). O mero fato de o jornal ter iniciado essas entrevistas já mostra que há uma desconfiança real quanto à condução da política econômica.

A primeira entrevista foi o com o economista Gustavo Franco (clique aqui) no dia 14 de outubro de 2011. Gustavo é taxativo: “A manutenção do tripé como uma doutrina ensejou a busca de brechas, como as medidas macroprudenciais e a emissão de dívida pública para emprestar ao BNDES. Com essas brechas, o tripé fica descaracterizado.”

Se o tripé foi modificado, cabe ao governo explicar de forma clara as mudanças para o mercado e não fazer uma coisa e falar outra. Apenas a velhinha de Taubaté acredita que o Banco Central persegue o centro da meta de 4,5% ao ano e que a taxa de câmbio é flutuante. Como fala Langoni (clique aqui):

O BC claramente deixou de ter apenas um único objetivo e – a exemplo de outros bancos centrais do mundo, mas por razões distintas – começou a se preocupar também com o crescimento. Simultaneamente, o câmbio deixou de ser flutuante para se tornar quase fixo em R$ 2….. a redução dos juros não pode ser artificial como um ato da vontade dos governos. Reduzir os juros quando a economia está estagnada é o que os bancos centrais fazem. Mas manter esse nível sem elevar a taxa de poupança doméstica é impossível.” 

Sobre o regime cambial, Pastore (clique aqui) também é taxativo: “O governo nega, mas, do meu ponto de vista, estamos num regime de câmbio fixo. Não sei por quanto tempo. Não é eterno, mas a minha impressão é de que vamos ficar por um extenso período….. Não gosto de câmbio fixo. É um regime inferior. Mas não é incompatível com manter a inflação nesse nível mais alto. Se o governo tiver de subir os juros, vai pagar um custo brutal de controle de capitais para manter esse câmbio.”

E na questão dos juros, Gustavo Franco, Carlos Langoni, Affonso Celso Pastore emitem a mesmo opinião: a taxa de juros é uma variável de mercado e o governo não tem o poder de colocar a taxa de juros onde bem quer e que o  Brasil não conseguirá manter a taxa de juros real no nível atual, menos de 2% real ao ano. Nem mesmo o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que foi presidente do Banco Central por oito anos e chefe do atual presidente do Banco Central acredita nisso. Meirelles escreve na sua coluna de hoje na Folha de São Paulo (clique aqui) que:

A experiência internacional mostra que o manejo da taxa base de juros é o instrumento de controle da inflação mais eficaz e o que gera menores distorções na economia. Quando a inflação sobe, o BC, subindo os juros, influencia a demanda, a atividade econômica e a inflação por diversos mecanismos, chamados canais de transmissão, como o crédito, o câmbio e as expectativas de inflação, entre outros.”

E fala mais à frente no mesmo artigo que: “A melhor maneira de derrubar a taxa de juros de forma sustentável, sem gerar inflação à frente ou outros riscos, é assegurar à sociedade que não só o governo seguirá atuando para controlar a dívida pública, mas, principalmente, que o BC tomará as medidas necessárias para manter a inflação na meta.”

Não há problema algum o Banco Central alongar o prazo de convergência para a meta de inflação. O problema é que essa estratégia nunca foi comunicada de forma muito clara para o mercado e a redução dos juros, em um contexto de aumento da expectativa de inflação, aumenta as incertezas. Adicionalmente, Langoni lembra que mesmo o centro da meta de inflação no Brasil de 4,5% ao ano é elevada (as economias emergentes adotam como meta uma inflação anual entre 3% e 3,5%) e Pastore destaca que, apesar da tolerância com inflação mais elevada e juro real excepcionalmente baixo, vamos ter este ano um crescimento pífio de apenas 1,6%.

É claro que ninguém tem que concordar com o affonso Celso Pastore, Gustavo Franco, Carlos Langoni e Henrique Meirelles. Afinal, eles são apenas economistas brilhantes que insistem em nos lembrar que o governo não tem o poder de ajustar variáveis econômicas por canetada.

O Brasil caminha para um cenário de inflação elevada (6% ao ano), aumento da taxa de juros em algum momento entre julho de 2013 e julho de 2014, regime de câmbio fixo com maior controle da entrada de capitais e maior dificuldade de financiamento das empresas brasileiras. O que isso vai ocasionar? Mais intervenção do governo na economia até que fique muito claro que os múltiplos objetivos de política econômica perseguidos pelo governo  não se sustentam.

Há um grupo de economistas dentro do governo que acredita na ideia que o que prejudicou o crescimento do Brasil nos últimos anos não foi a baixa poupança doméstica, baixo investimento, alta carga tributária, baixa qualidade da educação, falta de reformas institucionais, etc. O que faltou foi “coragem do governo para enfrentar os empresários gananciosos do setor privado”. E o governo quem decide quais setores e quais empresários são gananciosos.

Lições de Inovação: DARPA.

Lições de Inovação: Defense Advanced Research Projects Agency” (DARPA)

Apesar de ser um país liberal com um discurso tradicional contra intervenção do Estado na economia, o que muitos não percebem é que, mesmo nos EUA, o governo tem uma importância fundamental no incentivo à inovação. E o melhor exemplo desse papel ativo do governo no fomento à inovação é uma agência criada pelo presidente Eisenhower, em 1958, em resposta ao lançamento do satélite soviético Sputnik, em 1957.

Essa agência se chama “Defense Advanced Research Projects Agency” (DARPA), uma agência do governo americano com um orçamento anual de US$ 3 bilhões – 0,5% do orçamento do Departamento de Defesa de US$ 651 bilhões, em 2009- que se destaca no financiamento de tecnologias novas para uso militar cuja aplicação transborda para uso comercial.

Escrevi recentemente uma nota técnica sobre o assunto a partir de um livro que que li sobre essa agência de fomento à inovação nos EUA. Há varias coisas interessantes no formato dessa agência (leiam a nota técnica anexa) e o Brasil poderia fazer algo semelhante. Essa agência tem as seguintes características: (1) não tem um corpo de funcionários permanentes, trabalha com pesquisadores recrutados por um contrato de três anos; (2) a agência fomenta redes de pesquisa para dar o ponta pé inicial no desenvolvimento de tecnologias novas, (3) há um casamento no desenvolvimento de tecnologias para uso militar e sua aplicação em uso comercial; (4) a agência aprende com suas experiências mal sucedidas – o fracasso é essencial no desenvolvimento de inovação radical.

Infelizmente, no caso do Brasil, não há nada remotamente semelhante a DARPA. Por exemplo, no nosso caso, o orçamento da defesa executado, em 2011, foi de R$ 61,2 bilhões, subdividido da seguinte forma: (1) R$ 17,5 bilhões com gasto de pessoal ativo; (2) R$ 29,1 bilhões com aposentados e pensionistas, (3) R$ 8 bilhões com custeio, e (4) R$ 6,5 bilhões com investimento.

Se no Brasil houvesse uma agência de inovação ligada ao orçamento das Forças Armadas nos moldes da DARPA dos EUA, essa agência teria um orçamento perto de R$ 300 milhões – 0,5% do orçamento da defesa. Um valor que seria muito pequeno. Na verdade, poderíamos ser muito mais audaciosos e pegar recursos do Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI) e parte dos recursos que hoje mandamos para o BNDES para investir em inovação a fundo perdido.

No Brasil de hoje, quase metade dos recursos anuais dos Fundos Setoriais (orçamento anual perto de R$ 3 bilhões) não são executados e os contínuos empréstimos do Tesouro ao BNDES, apenas em 2011, tiveram um custo fiscal perto de R$ 23 bilhões.

O governo brasileiro poderia ser muito mais ousado na sua agenda de inovação sem precisar aumentar a despesa primária ou criar novos impostos. Bastaria redefinir o que é prioritário e encarar uma verdade simples – investimento em inovação deve ser feito a fundo perdido, por meio da formação de redes de pesquisa, inclusive com a participação de empresas privadas.

Mas isso por enquanto não é consensual. Por enquanto, muito acham que promover crescimento é dar crédito subsidiado para empresas que não precisam de subsídio para continuarem a fazer mais do mesmo. O que sempre escuto de pessoas, em geral arrogantes, é que: “O Brasil precisa promover empresas grandes para exportar mais e promover o crescimento sustentável”. Sinceramente, não é isso que o Brasil precisa.

O que o Brasil precisa é investir mais em educação, em todos os níveis de ensino, reduzir o papel do BNDES na oferta de recursos e gastar mais a fundo perdido com o fomento à inovação nos moldes da DARPA – com as melhores cabeças do país pensando em inovação. Não é fácil, mas esse é o desafio.

O “fabuloso” modelo Argentino

Confesso que me irrita quando alguém cita a Argentina como modelo para o Brasil. A Argentina “foi o único país desenvolvido que, entre a Segunda Guerra Mundial e os dias de hoje, conseguiu deixar esse grupo por questões de má administração.”(ver o texto Sin-ming Shaw hoje no valor – clique aqui).

No artigo do valor, o economista mostra que: o governo falsifica os índices de inflação, o governo ameaça com processo criminal quem se atreve a divulgar números diferentes dos números oficiais, ágio do dólar paralelo em 50% e, agora, racionamento da compra de produtos nos supermercados.

Na mesma linha, matéria da última edição da revista Veja mostra que: “As restrições impostas pelo governo vão desde a compra de dólares e o uso de cartões de crédito até a importação de qualquer tipo de produto, supérfluo ou não, passando pelos investimentos privados nos setores de comunicação e de petróleo. Viajar para o exterior exige passar por um calvário burocrático. Livros e remédios estão escassos e caros. Os cidadãos são bombardeados por propaganda oficial ameaçadora e estão vendo milhares de vagas de trabalho ser fechadas pela fuga de investidores estrangeiros e pela impossibilidade de importar insumos básicos para a indústria.” – clique aqui para ler a matéria.

E na excelente entrevista do historiador argentino Luís Alberto Romero ao caderno Aliás do Estado de São Paulo no último domingo (A dama do antagonismo – clique aqui), o professor fala do retrocesso institucional da Argentina: “O governo Kirchner devorou o Estado argentino. E, como o Estado está deteriorado, a única forma de governar esse aparato é na base da pancada. É um estilo de confronto e de arbitrariedade que se usa para governar um país cujos mecanismos normais não funcionam bem.”

Hoje, a régua pela qual os investidores medem o sucesso da economia brasileira é comparando as nossas políticas com as políticas da Argentina. Todas as vezes que os investidores encontram qualquer semelhança mesmo que superficial entre Brasil e Argentina, ficam assustados e o Brasil ganha ponto negativo. Mas quando olham o Brasil diferente da Argentina, o Brasil ganha ponto positivo.

A Argentina está em um longo período de decadência e o “modelo Argentino” é o modelo que nenhum país deveria imitar. A crise vai se agravar na Argentina e seria importante para o Brasil sinalizar com atitudes corretas que o modelo brasileiro é o oposto do modelo argentino, i.e. que no Brasil as instituições funcionam e estão sendo fortalecidas.

É por isso que não gosto dos bate-boca entre governo e setor bancário, setor de energia (elétrica e petróleo) e telecomunicação. O ideal é que as agências reguladoras sejam fortalecidas e que passem a penalizar qualquer empresa independentemente da nacionalidade e do seu porte que não estejam cumprindo com os contratos de concessão ou que estejam exercendo poder de mercado.

O papel do governo é identificar projetos prioritários e implementar esses projetos, melhorar a legislação para promover saúde, educação, segurança pública, saneamento, etc. e até mesmo adotar politicas de incentivos voltadas para inovação em sentido amplo – não apenas inovação radical mas também absorção de tecnologia.

Hoje, as política de microgerenciamento de setores começaram a afetar o cenário macro e os investidores externos estão cada vez mais preocupados com o Brasil. E parte da preocupação  desses investidores é o medo do Brasil olhar de forma “carinhosa” para um país que deveria ser modelo do que não fazer.