Investimento no Nordeste

Havia esquecido de colocar aqui este breve artigo que escrevi para o jornal O Povo do estado do Ceará na semana passada. O jornal fez uma longa matéria sobre o investimento no Nordeste e o uso de incentivos fiscais para atração de investimentos – algo cada vez mais difícil. O jornal me pediu para escrever um artigo sobre esse tema que  segue abaixo.

Jornal O Povo – 23 de setembro de 2012

Qual o potencial de investimento no Ceará?

Nas décadas de 1950 e 1960, se pensava que o crescimento de um país ou região estava ligado ao volume de investimento privado. Naquele período, economistas acreditavam no poder virtuoso que a construção de novas fábricas em regiões pobres tinham para atrair mais investimentos e quebrar o “ciclo da pobreza”.

Nas três últimas décadas, economistas mudaram essa percepção. Regiões são pobres porque as pessoas dessas regiões são pouco produtivas devido a baixa escolaridade. Investir em educação passou a ser prioritário. Adicionalmente, em um mundo mais globalizado, onde sempre há um país ou região com custo de produção mais barato, tornou-se mais difícil promover o investimento baseado apenas na redução do custo de mão-de-obra. O que isso tem a ver com o Ceará e o Nordeste?

Na década de 1990, o Ceará e o Nordeste foram destinos para muitas empresas de confecções e de calçados do Sul e Sudeste que buscavam redução no custo de produção e aqui encontravam mão-de-obra barata e abundantes incentivos fiscais. Agora a realidade é outra.

Qualquer que seja a região do país, o salário mínimo de mais de US$ 300 e o custo elevado de matérias primas tornaram o Brasil um país de custo de produção elevado. E os Estados do Nordeste hoje precisam investir mais em educação, saúde e segurança pública. Adicionalmente, a guerra fiscal será cada vez mais controlada pelo Supremo Tribunal Federal e pelo Legislativo, como já foi feito com a “guerra dos portos”.

Assim, o que o Ceará deve fazer? O Estado, em 2011, investiu do seu orçamento R$ 2,4 bilhões, ou 22% da sua Receita Corrente Líquida (RCL). Seria apropriado que o governo continuasse com esse esforço de investimento, mesmo que isso signifique, aumentar um pouco a divida do Estado, uma dívida que é baixa (R$ 3,2 bilhões ou 29,4% da RCL).

Segundo, mais do que “vender o Estado” baseado em incentivos fiscais, chegou a hora de “vender o Ceará” baseado nas suas potencialidades. O Estado tem belas praias, um povo amistoso, um porto moderno para exportação e importação, e ainda um custo de vida relativamente barato quando comparado aos grandes centros urbanos no Brasil. Ademais, com o novo Centro de Convenções, o turismo de lazer pode ser combinado com o turismo de negócios.

Terceiro, o governo do Estado já faz um esforço grande de investimento. Mas é preciso mais apoio do governo federal para aumentar o investimento. O boom de investimentos recentes no Estado de Pernambuco são investimentos federais. Apenas a refinaria Abreu e Lima tem um custo equivalente a vinte anos de investimento público do Estado do Ceará.

Chegou a hora do Governo do Estado do Ceará e a sociedade civil fazer um novo pacto de cooperação, mas o foco desse pacto agora é aumentar o investimento público, melhorar a qualidade da educação e tornar o Estado um polo permanente de atração de turistas, aliado a eventos comercias e culturais.

Mansueto Almeida, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea)

4 pensamentos sobre “Investimento no Nordeste

  1. Mansueto,
    Estava olhando as estatísticas de operações de crédito de alguns estados do país, e verifiquei que em alguns lugares as operações para pessoas físicas são superiores as pessoas jurídicas e vice-versa.

    É claro que está embutido nesses dados o forte volume que é direcionado ao consumo, através de todos os incentivos que vimos e vemos nos últimos anos. Mas haveria uma explicação pra essa diferença?

  2. Se for em volumes comparados, pode ser sim.
    Caso as diferenças sejam em juros, “spread”, prazos de pagamento, além de garantias, ai necessitaria de maior acuidade para verificar.
    A tendência deve girar em torno dos volumes.

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