Difícil entender a política econômica atual: Ministro Mantega vs. Pastore

O jornal o Estado de São Paulo deste domingo trouxe uma entrevista com o Ministro da Fazenda (clique aqui), Guido Mantega, e um artigo do economista Affonso Celso Pastore  (clique aqui) que serve para mostrar duas visões, não apenas diferentes, mas radicalmente opostas de política econômica.

1) Inflação em 2013: o ministro Mantega é taxativo para acalmar os nervos do que estão preocupados com inflação. Segundo o ministro, “Estamos fazendo uma série de desonerações que vão reduzir preços…..além disso, vamos continuar com concorrência internacional por causa da crise”. E o ministro ainda descarta qualquer possibilidade de crescimento da taxa de juros, em 2013: “Não há necessidade de alta de juros. A inflação está sob controle”.

Mas Pastore, no seu artigo “mudança de rumo”, alerta que as medidas de desoneração têm limites e que os estímulos dados pelo governo ao crescimento da demanda com redução do primário aumentam a pressão inflacionária.

2) Mercado de trabalho e inflação: um ponto central das análises recentes do economista Affonso Celso Pastore é que, com o mercado de trabalho quase em pleno emprego, a pressão no mercado de trabalho aumenta o custo unitário da indústria que não tem como repassar esse aumento para preços, ao contrário do setor de serviços, que sofre a mesma pressão, mas consegue repassar aumento de custo para preços Quanto maior a expansão da demanda agregada, mais grave será essa perda de competitividade da indústria.

A análise do ministro Mantega é totalmente  diferente. Como fala o ministro: “Mas com o crescimento de volta a 4,5%, que é a velocidade de cruzeiro para a economia brasileira, reduz a capacidade ociosa, aumenta a produtividade e cobre os custos da elevação da mão de obra.” Há duas hipóteses nesta afirmação do ministro: (1) o ministro parece não acreditar no aquecimento do mercado de trabalho (fala em recursos ociosos); e (2) fala que a produtividade é pró-cíclica e de magnitude suficiente para reduzir o custo unitário. Ou seja, quanto maior o crescimento maior será a produtividade.

3) Proteção e competitividade industrial: Nas análises do Pastore, aumento de proteção com o mercado de trabalho aquecido significa, necessariamente, maior pressão inflacionária. Qualquer bom manual de economia explica que, para uma economia pequena, o aumento de tarifas de importação só resulta em aumento da produção doméstica se as empresas domésticas puderem aumentar os seus preços e, assim, a quantidade ofertada.

Importação é o excesso de demanda sobre oferta a um determinado preço. Se a este preço os produtores domésticos pudessem aumentar a quantidade ofertada sem proteção e sem aumentar preços, já o o teriam feito.  Assim, para aumento de tarifas de importação funcionar, dado que a curva de oferta não se modificou, é preciso ocorrer aumento de preços.

Mas o ministro Mantega fala o contrário. Quando responde a uma pergunta sobre como garantir que o aumento de tarifas na importação de aço não leve a um aumento de preço fala: “Muito simples. Volto atrás. …teve momentos em que o setor elevou os preços acima do patamar internacional e nós reduzimos a alíquota de importação a zero. Já fizemos e faremos de novo.

Novamente, se os produtores domésticos podem aumentar a quantidade ofertada, sem aumento de preços, para competir com importados, por que não fizeram isso até agora? Tem algo na análise do ministro que não consigo entender.

4) Regime de câmbio fixo vs. Regime de câmbio flexível. O professor Affonso Celso Pastore é taxativo: “Porém, nos últimos meses, assistimos a algo muito diferente de um regime de câmbio flutuante altamente manejado. Ingressamos em um regime de bandas de flutuação, com um valor mínimo em R$ 2,00/US$ e máximo que se aproxima de R$ 2,10/US$ que é, de fato, um regime de câmbio fixo.”

Já o ministro Mantega explica que: “Não vamos deixar o real se valorizar. Há quatro meses o câmbio está acima de R$ 2. ….. Não existe piso. O câmbio vai continuar flutuando, mas esperamos que flutue mais para o lado oposto….. Se for necessário, compraremos mais reservas. Se for necessário, vamos tomar medidas.”

Mas compra de reservas para garantir um valor para taxa de câmbio não é justamente o que o governo faz em um regime de câmbio fixo?

5) Incentivos versus ameaças: O professor Affonso Celso Pastore é um homem que parece não gostar muito do UFC, não gosta de ameaças nem pancadarias. Para ele, os agentes econômicos pautam sua atuação de acordo com incentivos. Ou seja, em uma economia mais fechada, os agentes econômicos inteligentes aumentarão os seus preços.

Ate mesmo o vice-presidente da FIESP, José Ricardo Roriz Coelho, parece acreditar também que maior proteção, em mercados pouco competitivos, como é o caso da indústria petroquímica, ocasiona aumentos de preços. Como fala hoje em artigo da Folha da São Paulo (clique aqui): “Sob o bem-intencionado impulso de proteger um segmento da indústria nacional, o governo comete grave erro ao anunciar o aumento da alíquota de importação de algumas resinas termoplásticas (polietileno de alta e de baixa densidade e o linear)… Na prática, a iniciativa beneficiará somente um monopólio instalado no país, o da Braskem, prejudicando toda uma cadeia produtiva e, o que é mais grave, os consumidores, que pagarão a conta”.

Mas o ministro Mantega acalma a todos nos jornais de hoje. Como já destacado acima, além de ameaçar voltar atrás do aumento de alíquotas de imposto de importação ainda aproveita para mandar um recado aos bancos: “Estamos preocupados com os cartões de crédito. E, se nós estamos, é bom que eles (os bancos) também se preocupem.”

Não entendo por que? Seria ótimo que os órgãos competentes e, em especial, o CADE e Banco Central, atuassem para combater poder de mercado de bancos e empresas. Espero que os juros escorchantes dos cartões de crédito sejam reduzidos, mas não porque o ministro ameaçou, mas sim porque os órgãos reguladores passaram a cumprir com o seu dever de regular e evitar abusos de empresas do setor privado.

6 pensamentos sobre “Difícil entender a política econômica atual: Ministro Mantega vs. Pastore

  1. Poxa…

    Esse Mantega é um lixo mesmo. Arrogante, com uma base teórica da década de 50, 70(?), e ameaçador.

    Será que ele acredita que o Brasil deve ter uma Gosplan? Eu não duvido…

  2. Soa um pouco os 70s, depois do “período Brasil Grande”: tecnocracia, burocracia e autossuficiência. Oras, já foi passado por tal tempo, no período citado. Não há razão para insistir em medidas que mais parecem intempestivas. Depois de lançadas, tenta-se arrumar justificativas para as mesmas. Não raro, como citado no post, as incongruências saltam aos olhos.
    Isso pode acabar gerando insegurança, o que seria mais danoso à economia.

  3. Caro Mansueto,

    Acompanho seus comentários, pois considero importante a análise e a crítica bem fundamentadas.
    O tema política industrial, além de suas tecnicidades, tem alto conteúdo político-ideológico.
    Como vc analisa a notícia, ontem veiculada pelo jornal Valor, dando conta que países da União Européia criarão ( ou recriarão ) bancos de fomento para financiar suas empresas, ante a retração do setor privado no fornecimento do crédito ???
    Aqui, no Brasil ocorreu situação semelhante, mas obviamente a gravidade e a extensão da crise do euro é maior.
    Como vc compara e analisa as intervenções de bancos públicos financiando o setor industrial lá e aqui ???

    Um abraço
    Hilario Muylaert

  4. Um belo dia…
    Simplesmente um belo dia: ISRAEL INVADE O IRÃ!
    (Fico só imaginando os números explodindo na frente do ministro e ele tentando enfiar o dedo em algum buraco nos ‘diques holandeses’.

  5. Mansueto,

    O Estadão de hoje trouxe uma matéria sobre a mudança do cálculo do PIB pelo IBGE. E só assim o investimento irá subir, maquiando mais uma vez os verdadeiros problemas.

    Até limpeza será contabilizada agora como investimento da ind de transformação!

    É positivo o IBGE se adequar as regras globais, mas vamos mais uma vez nos escondermos da realidade!

    Abs

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