Debate sobre Desindustrialização

O IPEA publicou hoje uma série de textos sobre os problemas da industria, um dos quais da minha autoria,  na publicação Radar 21 (clique aqui). Em linhas gerais, acho que poderia enfatizar seis pontos da discussão de todos os textos (o meu texto é o último: o complicado debate sobre desindustrialização p. 47-57)

Primeiro, não há dúvidas que a indústria no Brasil perdeu participação no PIB. Mas não conseguimos explicar essa perda por questões relacionadas à taxa de câmbio e o emprego na indústria acompanha o crescimento do emprego total pelas contas nacionais. Adicionalmente, pode-se constatar que, desde 1995, o deflator da indústria é menor que o deflator do PIB. Se olharmos inflação de serviços e da indústria pelo IPCA, desde 2004, fica claro também a baixa inflação de produtos industriais, que sempre ficou abaixo do centro da meta.

Segundo, desde o início do século XXI, a produtividade do trabalho da indústria vem caindo. Dado que a economia passou a crescer mais rápida a partir de 2004, passamos a empregar recursos antes ociosos e, assim, batemos em restrições de oferta do mercado de trabalho, temos um cenário de aumentos de custo que a indústria não consegue repassar para preços (e por isso aumenta as importações de manufaturados) e o setor de serviços repassa para preços. O Brasil com quase pleno emprego e com a demanda crescendo fortemente levou a uma mudança de composição do PIB – crescimento da participação dos serviços e perda da indústria. Isso é bom ou ruim? A resposta não é óbvia.

Terceiro, nesse mundo complexo e incerto que nos defrontamos, nota-se que, na última década, no Brasil, não está ocorrendo convergência de produtividade entre atividades menos e mais produtivas. Mas percebe-se uma maior convergência da renda do trabalho, o que vai ao encontro da percepção que os salários respondem ao jogo normal da oferta e demanda.  Mas com a economia caminhando para uma baixa taxa de desemprego, isso aumenta o custo da mão-de-obra de todos os setores e só consegue competir quem pode manter suas margens (setor de serviços que trabalha com bens non tradables), produtores de setores com elevada produtividade do trabalho (alguns poucos setores da indústria) ou aqueles que foram favorecidos por aumento de preços internacionais (produtores de commodities). O mercado de trabalho no Brasil melhorou sem mudanças expressivas na composição setorial e sem ganhos agregados de produtividade do trabalho.

Quarto, é cada vez mais claro que o problema da indústria é amplo e decorre de fatores macro (o modelo macroeconômico vigente de baixa poupança mesmo quando crescemos mais rápido) e questões micro (elevado custo de insumos da indústria, elevada tributação e crescimento negativo da produtividade do trabalho da indústria). Falar em “política industrial” para “resolver o problema da indústria” é confuso porque “política industrial” se refere a um conjunto de ações que, muitas vezes, não leva a mudanças setoriais e tem efeito incerto no aumento da produtividade. O Brasil nos últimos vinte anos utilizou o termo para justificar políticas diferentes: movimento de qualidade total dos anos de 1990, incentivos à inovação, promoção de APLs e fomento de campeãs nacionais.

Quinto, em princípio, a medida de desoneração da contribuição patronal sobre a folha de salário e sua substituição por uma tributação no faturamento é um medida boa, mas cujo efeito sobre o preço dos produtos e recomposição das margens dos setores beneficiados é incerto. É difícil estimar o impacto dessa medida no aumento da margem dos setores contemplados porque, com um mercado de trabalho aquecido e demanda crescendo, a dinâmica que levou a um forte crescimento dos custos da indústria e redução de margens continua em vigor. E dado o excesso de oferta de produtos manufaturados no mundo é possível que produtores externos compensem o maior imposto sobre faturamento com corte nos preços e redução de margem dos produtos importados.  A medida é boa, mas de efeito incerto nos preços. Adicionalmente, algumas empresas em setores diferentes com baixo peso do custo da mão-de-obra no total do faturamento podem até pagar mais e não menos impostos.

Sexto e último ponto, a indústria perdeu participação no PIB, mas essa perda de participação ocorreu em uma conjuntura excepcionalmente favorável para a economia brasileira e para os trabalhadores: exportações brasileiras voltam a alcançar perto de 1,5% das exportações mundiais com forte crescimento das exportações de manufaturados (passa de US$ 32 bi para US$ 92 bi de 2000 a 2011) e crescimento mais forte de commodities que ganham participação na pauta devido ao forte crescimento dos preços; ganho de renda real para os trabalhadores, forte redução da taxa de desemprego e ganho de 30% nos termos de troca de 2008 a 2011. É difícil caracterizar o nosso crescimento recente como negativo apenas porque a indústria perdeu participação no PIB, mas é legítimo olhar com preocupação para o futuro, pois o Brasil é hoje um país caro para produzir produtos intensivos em mão-de-obra e também bens de capital.

11 pensamentos sobre “Debate sobre Desindustrialização

  1. Caro Mansueto,
    li com mucho gusto seu texto. Como sempre o faço. Procurei na sua análise alguma explicação para o fato de grandes indústrias e industriais brasileiros combinarem sua rentabilidade com a produção industrial e os ganhos financeiros. Como não encontrei essa angulação, me pergunto se se trata de uma idagação abestada, típica de quem, como nós, acompanha esses problemas daqui de baixo do pé da montanha? Parabéns e continue nos iluminando. Marco Roza, assessor de comunicação do Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André e Mauá

    • Poderia até ser. Porém, com a “forçada” queda de juros básicos, não generalizada, pois, a dos cartões de créditos com faturas parceladas continuam elevadas, não parece ser o caso no geral. Sempre há oportunidades de aplicações de “sobras de caixa”. Mas, teria-se de fazer uma análise de receitas operacionais e extra-operacionais, com as receitas financeiras, para ter-se melhor ideia. Difícil crer em estratégias de pagar parte de salários com base em rendimentos financeiros, por exemplo. Esse tempo teria ficado para trás, junto com a inflação anual de três dígitos.

    • Caro Marco,

      não sei responder essa sua pergunta. É possível que sim, mas com a perda de remuneração financeira com a queda da Selic, se eles fazim isso, terão que compensar por meio de aumento real de produção de de lucro na sua atividade principal.

      Mas agora temos o problema de ser competitivo em em um mundo com excesso de produção de produtos manufaturados e com o Brasil com uma estrutura de custo elevada.

      É um nó complicado de resolver. Sua pergunta é totalmente pertinente e pessoas como você que conhece o chão da fábrica muito melhor do que pesquisadores podem contribuir muito para o debate.

      Abs, Mansueto

  2. Caro Mansueto, gostei muito dos dois últimos posts sobre a indústria brasileira. Até aproveitei para utilizá-los em um curso ontem (15/09) sobre estrutura da economia brasileira.

    Um grande abraço,

    Luciano

    • Luciano,

      bom saber noticias suas e fico alegre de saber que você gostou dos posts. Depois vou ler o seu texto e comento. Grande abraço

      • Caro Mansueto, eu sempre acompanho seu blog e aprendo muito com os seus posts. Acho que sua didática e conhecimento são preciosos para dar um pouco de luz em assuntos que são áridos até mesmo para economistas.

        Um grande abraço,

        Luciano

  3. Caro Mansueto,

    Acompanho seus comentários, pois considero importante a análise e a crítica bem fundamentadas.
    O tema política industrial, além de suas tecnicidades, tem alto conteúdo político-ideológico.
    Como vc analisa a notícia, ontem veiculada pelo jornal Valor, dando conta que países da União Européia criarão ( ou recriarão ) bancos de fomento para financiar suas empresas, ante a retração do setor privado no fornecimento do crédito ???
    Aqui, no Brasil ocorreu situação semelhante, mas obviamente a gravidade e a extensão da crise do euro é maior.
    Como vc compara e analisa as intervenções de bancos públicos financiando o setor industrial lá e aqui ???

    Um abraço
    Hilario Muylaert

    • Hilario,

      vi esta noticia ontem e vou sim comentá-la. Vou escrever com mais detalhes depois, mas acho que o foco deles lá será compensar a retração do credito privado para empresas pequenas e médias.

      Mas se eles entrarem fortemente financiando as empresas grandes farão exatamente o que estamos fazendo aqui. Mas se a sociedade decidir que deseja tal atuação de um banco estatal, pelo menos que fique claro o custo.

      Depois comento com mais detalhe.

  4. Aqui tem uma visualização muito boa da “desindustrialização” do Brasil: a economia do Brasil depende cada ano mais das matérias-primas e a estrutura econômica está se tornando mais simples e monótono.

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