Sapatos, Proteção e o Consumidor

O Brasil poderá ser novamente um grande exportador de calçados? Acho que não. O Brasil é hoje um país caro para a produção de produto intensivos em mão-de-obra como é o caso de calçados e confecções. Isso não significa que a indústria de calçados vai desaparecer, mas significa que é elevada a probabilidade que esse setor passe por um reestruturação e parte das firmas e empregos desapareçam (empresários do setor sabem disso).

Na década de 1990, o Brasil já passou por uma forte reestruturação do setor de calçados que migrou para o Nordeste. Como se pode ver na tabela abaixo, em 1985, o Nordeste respondia apenas por 6.423 empregos (2,65%) do emprego formal do setor que era de 242.533 empregados. Em 2006, o emprego total do setor havia crescido para 306.791 e a participação do NE no total do emprego havia crescido para 90.895, 30% do total de emprego registrado da indústria.

Tabela 1 – Emprego Formal do Setor de Calçados no Brasil 1985-2006

Fonte: RAIS-MTE

Basicamente, todo o crescimento do emprego no setor de calçados no Brasil de  1985 até 2006 ocorreu no Nordeste do Brasil devido a combinação de quatro fatores simultâneos: (1) baixo custo da mão-de-obra, quando o salario mínimo do Brasil ainda era inferior a US$ 100, (2) custo do treinamento de mão-de-obra bancado pelos governos estaduais e governo federal via recursos do FAT, (3) a formação de falsas cooperativas de trabalho que reduzia o custo de mão de obra das empresas que migraram para o NE; e (4) incentivos fiscais e financeiros concedidos pelos governos estaduais com redução de até 75% do ICMS devido.

Eu já estudei esse assunto e nas minhas entrevistas no Ceará e Bahia, representantes dos governos estaduais reclamavam  muito do “leilão” de incentivos. As empresas do Sul e Sudeste contratavam consultorias que visitavam os diversos governos estaduais no NE e apresentavam para cada um o que o outro estado havia oferecido. Assim, o estado que oferecesse mais incentivos ganhava  o investimento. Não me lembro de escutar empresas do setor nessa época reclamar de “prática ilegal de comércio”.

Essa estratégia de reduzir custo com incentivos fiscais estaduais e redução do custo do trabalho deixou de ser efetivo porque os estados, por falta de recursos, reduziram os incentivos fiscais, a fiscalização do fiscais do trabalho aumentou e as falsas cooperativas foram fechadas e o salário mínimo, no Brasil, cresceu e hoje passou de US$ 300 (e muito mais do que isso quando se computa o custo para o produtor).

Dada a estrutura atual de custo no Brasil, é difícil acreditar que seremos novamente grandes exportadores de calçados e é provável que haja um aumento ainda maior das importações. E parece que o governo e a associação empresarial do setor, a Abicalçados, não sabem muito o que fazer.

Apesar de o governo já ter estabelecido uma tarifa antidumping de US$ 13,85 para os sapatos importados da China,  depois estabeleceu uma sobretaxa de 182% sobre os componentes importados que hoje foi retirada a pedido da própria Abicalçados, que não concordou com a medida da CAMEX de isentar dessa sobretaxa uma lista de 95 empresas (clique aqui) porque, na média, os componentes importados para a fabricação de um par de sapatos dessas empresas era inferior a 60% do custo total dos materiais utilizados por essas empresas. A Abicalçados jura que o cáculo da CAMEX estava errado e pediu a revogação da sobretaxa.

É mais ou menos assim. A Abicalçados pede mais proteção ao governo, que atende a associação empresarial, mas depois dá uma interpretação que não satisfaz a Abicalçados que pede então para que todas as empresas possam importar componentes para a fabricação de calçados da China sem a sobretaxa.

Enquanto isso, o seu José quer saber apenas uma coisa? Tudo isso vai permitir que ele pague mais barato por um par de sapatos ou tênis para ele e sua família? O Brasil já foi uma dos grandes exportadores de calçados do mundo e, inclusive, parte dos produtores do Rio Grande do Sul migraram para a China para ajudar os Chineses a aprender a produzir calçados de boa qualidade.

Se hoje não somos mais competitivos na produção de calçados, como já fomos nas décadas de 1970 e 1980, não tem nada a ver com tecnologia ou com falta de learning-by-doing, mas sim com a estrutura de custo do setor. Será que é tão difícil entender isso?

Enquanto não entendermos isso, o consumidor brasileiro, que se esforça para pagar suas contas em dia, terá que continuar comprando o tênis Mizus ao invés do tênis Mizuno. Nada contra o tênis Mizus, mas seria bom que o consumidor pudesse escolher qual dos dois quer comprar e não que o governo e a Abicalçados decidissem por ele. Pagar US$ 300 por um par de tênis no Brasil que se compra por US$ 150  nos EUA é coisa de maluco. Mas é isso que fazemos.

Compre um Mizus (não é Mizuno) e ajude a indústria nacional!

Isso não é política industrial.  Se a sociedade acha importante ter um setor de calçados forte, então que fique claro que nós todos vamos pagar essa conta. A pergunta importante, volto a insistir, é se a sociedade de fato quer proteger mais o setor de calçados ou se isso é a vontade de alguns poucos.

11 pensamentos sobre “Sapatos, Proteção e o Consumidor

  1. Se bem entendi, não seremos competitivos na industria de calçados porque é intensiva em mão de obra, e a mão de obra por aqui ficou cara. Ok, mas fico me perguntando: então, se a indústria brasileira não for competitiva nos setores intensivos em mão de obra, será competitiva em que setores mesmo? Ou ficará mais restrita aos mercados internos que por alguma peculiaridade forem naturalmente protegidos da conorrência externa?

    • Seremos competitivos em várias outras coisas como , por exemplo, na indústria de máquinas e equipamentos para agricultura, na indústria de alimentos, na indústria de papel e celulose, na indústra extrativa (petróleo e mineração), em parte da indústria têxtil, alguns segmentos de material de transporte, em quase toda a cadeia agropecuária, etc.

      Seremos competitivos em muita coisa, mas não na produção de confecção e calçados. Essas atividades são hoje atividades de países de custo de mão de obra barata que não é mais o nosso caso.

      E olha que há ainda vários países africanos fora da indústria e comércio internacional. Imagine quando eles começarem a produzir sapatos e roupas. Isso é claro não significa que a indústria vai desaparcer por completo. O meu ponto é que o setor vai diminuir de tamanho.

  2. Mansueto, não existe algum estudo, oficial ou não, de rastreamento de setores que mereceriam ajuda porque contam com bons fundamentos futuros? Quer dizer, o que você expôs no post (de forma muito didática e contundente, diga-se de passagem) não me parece fruto de um raciocínio absolutamente inédito, mas quase um truismo- quem vai competir com Vietnã em fazer sapatos afinal. As autoridades não têm consciência alguma? Talvez seja erro meu tentar dar o benefício da dúvida nesses casos, mas será que não se trata de uma medida paliativa, de transição? Ou um mecanismo de barganha internacional?

    Abraço

    • Na verdade existe. O BNDES há algum tempo contratou um estudo em um consórcio Unicamp/UFRJ no qual eles tentaram fazer um mapeamento da competitividade das cadeias industriais no Brasil. O nome do projeto é “projeto PIB”. Confesso que vi algumas apresentações do estudo mas não li o relatório final. vou fazer isso.

      Mas nesse estudo do David Kupfer abria os setores de forma mas desagregada para identificar elos de cadeias de produção que é ou poderia ser competitivo. O problema é que não escuto ninguém mais falar sobre estudos que deveriam fazer justamente isso que você apontou.

      Acho que você está correto e claro que as autoridades devem ter consciência disso. Mas como essas coisas não são explicitadas, para nós fica a impressão que há um vai-e-volta de políticas sem nenhum norte muito bem definido, ainda mais quando se leva em conta que muitas pessoas nos Ministérios são extremamente arrogantes e acham que com canetadas podem decidir quais setores e empresas vão sobreviver e crescer.

      O debate (talve por restrições políticas típicas de qualquer governo) nunca fica muito claro. Se passa a imagem que dá para fazer tudo quando sabemos que isso não é possível.

      Abs,

      • Verdade. Hoje no Brasil, qualquer medida é colocada como tendo uma abrangência e uma capacidade ímpar de resolver quase todos os problemas vividos pela economia.

        No caso dos calçados, fica claro, o talvez desconhecimento das mudanças pelas quais passou o setor no últimos anos. Tanto em sua migração interna para o NE como pela forte concorrência da indústria asiática.

  3. É impressão minha ou estamos voltando a ter as mesmas discussões do final dos anos 80? Substituição de importações, em pleno século XXI?

    • O clima parece mais o da década de 70. Mais exatamente, de 15 de março de 1974 a a 15 de março de 1979.
      Um pouco de tecnocracia, muito Estado.
      A diferença é que as informações e análises fluem sem censuras.

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