O puxão de orelha de Stiglitz

Nesse curto vídeo, após falar que ainda estudaria economia, o professor Joseph Stiglitz afirma que muitas escolas de pós-graduação em economia ainda ensinam coisas erradas (dá como exemplo versões do receituário do Washington Consensus que são ensinadas) e que o ensino de economia deveria ser mais abrangente e incluir ciência política,  sociologia e outras ciências sociais.

O que mais me intrigou foi que ele alerta aos estudantes para ter cuidado e não escolher as “escolas erradas”. Quais são as escolas certas e quais são as erradas? No Brasil, por exemplo, quais seriam as escolas erradas?

18 pensamentos sobre “O puxão de orelha de Stiglitz

  1. Maio desse ano fui ao Canadá. Aproveitei para visitar Toronto e um cordial amigo (Chinês) que tenho lá. Fala bem português, dança forró. tem 1,76 de altura, chefe do departamento de física, etc e tal. E a esposa dele e a minha se dão muito bem.

    “Seus alunos (doutorandos) saem daqui e vão trabalhar aonde?” , perguntei. Resposta: “a maior parte… Wall Street!”.

    Bem, para mim, um ignorante de física que não saberia informar a diferença entre fusão e fissão nuclear de uma rodela de mortadela, pelo menos naquela hora ‘cliquei’ para o fato de que alguma coisa não batia.

    “Como assim?” As fórmulas complicadas (não saberia explicar) de matemática e física são aplicadas em conceitos econômicos (it just blows my mind!), explicava ele.

  2. AS DEZ REGRAS BÁSICAS DO CONSENSO:
    1 – DISCIPLINA FISCAL. O bom senso faz com que todos concordem com o princípio.
    2 – REDUÇÃO DOS GASTOS PÚBLICOS. O mais correto seria apelar para a MELHORIA DA QUALIDADE DOS GASTOS PÚBLICOS (úteis, necessários, produtivos, transparentes, honestos, razoável relação investimentos / custeio e eliminação dos improdutivos e dos privilégios).
    3 – REFORMA TRIBUTÁRIA. O correto seria a simplificação e a modernização do sistema tributário facilitando a rotina (reduzindo burocracia desnecessária) e a vida dos cidadãos e das empresas.
    4 – JUROS DE MERCADO. Parece que já é consenso.
    5 – CÂMBIO DE MERCADO. O sistema de câmbio flutuante tem se mostrado o mais eficiente, passando mais segurança e evitando crises de balanço de pagamento, embora a volatilidade seja ainda um problema a ser melhor resolvido.
    6 – ABERTURA COMERCIAL. Apesar de todos saberem ser o melhor para a humanidade, na prática protecionismos (que protegem interesses de minorias) acontecem.
    7 – INVESTI MENTOS ESTRANGEIROS DIRETOS (ELIMINAÇÃO DE RESTRIÇÕES). As nações mais esclarecidas e democráticas batalham para conseguir os investimentos. As mais atrasadas ainda os repelem.
    8 – PRIVATIZAÇÕES (ESTATAIS). As nações mais modernas privatizaram suas empresa que não tinham nada a ver com as funções do estado. Apenas as de segurança nacional e as que exercem funções de estado estão sobrevivendo. As sociedades público privado parecem que serão parte importante da economia.
    9 – DESREGULAMENTAÇÃO (afrouxamento das leis econômicas e trabalhistas). As regulamentações devem estabelecer as regras do jogo, defender os interesses dos consumidores e dos mais fracos, estabelecer limites prudenciais, punições. Enfim defender os interesses dos consumidores e o livre mercado (a concorrência justa e honesta). A relação capital x trabalho deveria ser mais flexível validando acordos entre sindicatos dos trabalhadores e de empresas e também entre sindicato e empresa (individualmente).
    10 – DIREITO À PROPRIEDADE INTELECTUAL. É o maior incentivador de conquistas e invenções.
    Pelo descrito acima o consenso continua válido.

    • sabes que concordo com você. Em geral, não vejo problemas com os princípios sintetizados no Consenso de Washington. O problema foi a forma que essa lista foi utilizada como a bala de prata para o desenvolvimento.

      Por exemplo, “direito à propriedade intelectual” faz todo o sentido, mas a especificidade que a lei vai tomar depende de cada país. E há vários exemplos nos EUA do que não se deve fazer como, por exemplo, o caso do Copyright Term Extension Act (CTEA), que aumentou em 20 anos além dos 50 anos, a proteção intelectual da obra de um autor morto.

      Outro ponto é em relação a abertura comercial. Em uma economia muito protegida com tarifa média de importação elevada, em principio, maior abertura leva a maior crescimento. Mas o ganho adicional de redução de tarifa em uma economia que já tem uma tarifa média pequena é mínimo.

      A questão da redução do gasto público é outro ponto controverso. O gasto público no Brasil desde a Constituição Federal aumentou (% do PIB) e hoje, o mercado está mais ou menos tranquilo com o Brasil. É claro que poderíamos estar em uma situação melhor e sermos mais competitivos, mas estamos melhor do que na década de 80 quando o gasto público era menor.

      Enfim, há que se fazer algumas ponderações como você fez, mas também não estou entre aqueles que atiram pedras no Consenso de Washington até porque trata-se de um receituário especifico que teve seu uso exagerado por parte das instituições internacionais – não há como dizer a um país o que ele deve fazer poque as escolhas erradas de alguns países são escolhas (mesmo que erradas) tomadas em um contexto democrático.

      Não existe mega reforma para promover o desenvolvimento como se tentou de forma fracassada fazer na Rússia. Talvez esse tenha sido o grande erro do uso que se fez do Consenso de Washington, passar a impressão que com um mero pacote de reformasse criariam as condições necessárias ao desenvolvimento sustentável.

  3. Marco Aurélio, sugiro que você leve o conselho do Stiglitz a sério. Por exemplo:

    DESREGULAMENTAÇÂO: crise de 2008 fala por si só. Quanta desregulamentação é desejável? O que dizer do livre mercado de saúde norte americano, de resultados pavorosos?

    INVESTIMENTOS: a crise da ásia, entre outras, mostrou que os investimenos podem trazer forte volatilidade, problemas na balança de pagamentos. Em geral, a grande desregulamentação do período do consenso não foi responsável por grandes ganhos em termos de crescimento (a China tem fortes controles de capital, regras restritivas pra entradas de investimento em formas de joint ventures. E leis frouxas de propriedade intelectual)

    ABERTURA COMERCIAL: certamente, desde que Williamson escreveuo consenso, nenhuma região liberalizou mais seu comércio que a América Latina. O resultado foi um crescimento pífio na região. Aliás, o consenso em geral foi adotado de forma mais ardorosa por aqui. Se formos julgar pela cobaia, ficaremos um tanto desapontados.

  4. Tudo bem que levar ao pé da letra o tal Consenso de Washington, seria algo que não deveria ocorrer, se ocorreu no grau que ideologicamente foi colocado em debate nos últimos cerca de dez anos no Brasil.
    Porém, há outros problemas de exageros sobre o Consenso, como exemplo, as medidas de estabilização, superávit primário e outras, como as privatizações de modorrentas estatais.
    Aspectos que, ao contrário do dito em contrário, fortaleceu o papel do Estado e não o enfraqueceu. Ou seja, como um Estado menor e comandado de fora, poderia ter estabilizado a economia, com medidas de largo espectro institucional? Medidas que deflacionaram algo de cerca de 2000% a.a., 20% a.m. e 1% ao dia?
    Ao que pode aparentar, o Estado estaria mais fraco hoje. Exaurido em receitas e ideias. Assim, capitaneando crescimento pífio, exceto da inflação e da importação de “bagulhinhos” a bens de capital e a exportação de primários.
    Em suma, o que de bom foi realizado por, em tese, não ter sido adotado o Consenso de Washington, exceto voluntarismos e propaganda?

  5. sabes que concordo com você. Em geral, não vejo problemas com os princípios sintetizados no Consenso de Washington. O problema foi a forma que essa lista foi utilizada como a bala de prata para o desenvolvimento.
    Por exemplo, “direito à propriedade intelectual” faz todo o sentido, mas a especificidade que a lei vai tomar depende de cada país. E há vários exemplos nos EUA do que não se deve fazer como, por exemplo, o caso do Copyright Term Extension Act (CTEA), que aumentou em 20 anos além dos 50 anos, a proteção intelectual da obra de um autor morto.
    RESPONDO: é uma legislação complementar. Mas pense em um filho de 1 ano de idade (perde a herança com 50 anos?).
    Outro ponto é em relação a abertura comercial. Em uma economia muito protegida com tarifa média de importação elevada, em principio, maior abertura leva a maior crescimento. Mas o ganho adicional de redução de tarifa em uma economia que já tem uma tarifa média pequena é mínimo.
    RESPONDO: Uma tarifa média pequena já é o bom senso. O problema está nos privilégios (protecionismos) e nos cartórios (lobbies). Prejudicar toda uma população (pessoas físicas e empresas) para defender minorias de empresas sem condições de concorrer (a maioria hoje e sempre)? Os acionistas destas empresas, em grande parte são estrangeiros.
    A questão da redução do gasto público é outro ponto controverso. O gasto público no Brasil desde a Constituição Federal aumentou (% do PIB) e hoje, o mercado está mais ou menos tranquilo com o Brasil. É claro que poderíamos estar em uma situação melhor e sermos mais competitivos, mas estamos melhor do que na década de 80 quando o gasto público era menor.
    RESPONDO: o consenso fala em Disciplina Fiscal (não em reduzir gastos). Cada país, de acordo com seus eleitores, define a carga tributária. Mas o bom senso (não o consenso) fala que superior a 40% só em pais pequeno, mais fácil de fiscalizar (eu considero que só para sociedades mais evoluídas, mais honestas).
    Enfim, há que se fazer algumas ponderações como você fez, mas também não estou entre aqueles que atiram pedras no Consenso de Washington até porque trata-se de um receituário especifico que teve seu uso exagerado por parte das instituições internacionais – não há como dizer a um país o que ele deve fazer poque as escolhas erradas de alguns países são escolhas (mesmo que erradas) tomadas em um contexto democrático.
    RESPONDO: em nome da religião que pregou (ainda prega?), o amor, o arrependimento e o perdão, praticaram-se crimes terríveis. O Islamismo é a religião da submissão total a Deus (existem os que matam em nome do Islã). O comunismo não pode ser definido e medido por Stalin e outros ditadores sanguinários (apesar de ser um modelo econômico errado).
    Não existe mega reforma para promover o desenvolvimento como se tentou de forma fracassada fazer na Rússia. Talvez esse tenha sido o grande erro do uso que se fez do Consenso de Washington, passar a impressão que com um mero pacote de reformasse criariam as condições necessárias ao desenvolvimento sustentável.
    RESPONDO: conhece o ditado, quem nunca comeu melado quando come se lambuza. A Rússia foi vítima da corrupção que já existia no regime comunista (aquilo lá era uma bagunça total).
    LIBERALISMO, AO CONTRÁRIO DO QUE DIZEM, É A FAVOR DE NORMAS PARA LIMITAR O PODER DE AUTORIDADES (nasceu combatendo o absolutismo monárquico) E DO MAIS FORTE SOBRE O MAIS FRACO. É A NORMA COMO PODER MAIOR, NÃO A PESSOA. NO BRASIL DEMAGOGIAS E IGNORÂNCIAS DEFINIAM ERRADAMENTE (no Valor saía quase todo dia, fulano liberal-conservador. É o fim da picaretagem ideológica. Nas federais se ensinava isto.). É o método comunista de repetir uma mentira até que pareça verdade. Nas faculdades, a desonestidade acadêmica, de definir errado, às vezes contraditando o autor. Milton Friedman foi a maior vítima disto (as mentiras e bobagens que atribuíam a ele são de envergonhar.).
    OBS: por um acaso conheci o John Wiliamson (casou-se com uma parente de parente), em festas familiares. O que se faz em nome uma ideia nem sempre representa a ideia. O fanatismo religioso (cristão o islâmico) não representa as religiões. O John chegou até a defender (isto em conversas particulares) um regime forte como mais capaz de fazer crescimento econômico. No que eu não concordava com ele. Mas nunca condenando o liberalismo. Eu vivi a ditadura e seus excessos.

    • Então, mais concordamos do que discordamos. E como falei, concordo com várias das recomendações do “consenso”. O problema foi a forma que essas recomendações tomaram que não tem nada a ver com o texto do John Williamson.

  6. Marco Aurélio, sugiro que você leve o conselho do Stiglitz a sério. Por exemplo:
    DESREGULAMENTAÇÂO: crise de 2008 fala por si só. Quanta desregulamentação é desejável? O que dizer do livre mercado de saúde norte americano, de resultados pavorosos?

    RESPONDO COM PARTE DE UM POST:

    ALAN GREENSPAN SOBRE: DESREGULAMENTAÇÃO E EFEITOS DA TAXA BÁSICA NOS JUROS LONGOS DE MERCADO.

    DESREGULAMENTAÇÃO. Alan Greenspan (que atuou 18 anos como regulador nos USA, antes de ser presidente do FED), foi quem mais defendeu a desregulamentação dos mercados financeiros, e o fez da seguinte forma:
    “Qualquer restrição normativa às estratégias e às táticas de investimentos dessas entidades (que é o que fazem os regulamentos) limitaria a assunção de riscos, que é parte integrante da contribuição dos fundos de hedge para a economia global e, principalmente, para a economia dos USA.”
    “Como chairman do FED eu seria responsável pelo vasto aparato regulatório do FED.” “Embora a atribuição básica do CAE fosse rechaçar esquemas de política fiscal irresponsáveis, eu por vezes aceitava aumentos de regulamentação – quando a proposta parecia ser a menos ruim entre as opções políticas que se ofereciam ao governo.”
    “o poder de vigilância pela contraparte, como primeira linha de proteção contra excessos e impropriedades.”
    Três regras práticas sobre regulamentações:
    1) Regulamentações aprovadas durante as crises devem sempre passar, posteriormente, pelo processo de sintonia fina.
    2) Ás vezes, vários reguladores são melhores do que um. O regulador solitário torna-se avesso ao risco, tentando proteger-se de todos os resultados negativos imagináveis, tornando difícil e onerosa a observância de suas normas.
    3) Os regulamentos sobrevivem à própria razão de ser e devem ser renovados periodicamente.
    Sobre o envolvimento do governo: “Uma área em que é preferível mais envolvimento do governo, em minha opinião, é o da erradicação de fraudes, que são a pior praga de qualquer sistema de mercado.”
    COMENTO: como dizer que Greenspan (neoliberais) era contra toda forma de regulamento? Pelo que escreveu verificamos que era contra os excessos desnecessários e onerosos de regulamentações. Era a favor de mais envolvimento do governo na erradicação de fraudes. Era contra regulamentos influenciar nas estratégias e nas táticas dos fundos de hedge (o que seria o mesmo que ensinar o padre a rezar missa). Outro absurdo é escreverem que a crise aconteceu pela eliminação de regulamentos (não citam quais, nem os efeitos). Na verdade a crise de 2008 aconteceu por erro de política monetária (muito frouxa, fez as bolhas de ativos que não moeda, depois mais rígida que o necessário fez o estouro ser muito rápido). A crise atual do EURO aconteceu e está ainda transcorrendo por irresponsabilidades em políticas fiscais por parte de membros da comunidade (na verdade desobediência à norma de déficit fiscal de até 3% e dívida de até 60% do PIB). E os bancos? Pecaram pela ganância.

  7. Gostei muito do artigo do André Lara Rezende no Valor deste final de semana. Acho que neste artigo (como ele escreveu e o que escreveu) André Lara nos dá um exemplo do que seria essa visada, revindicada por Stiglitz, que ampliaria e melhoraria a formação do economista.

    Parece-me que a citação do Aron em epigrafe no artigo oferece uma medida para o ceticismo defendido por Stiglitz.

    Os rumos do capitalismo

    André Lara Resende
    Valor, 01/09/2012

    “O mundo moderno é muito complexo para ser reduzido a uma fórmula, uma condenação ou uma solução. Deve ser observado sem arroubos de entusiasmo ou de indignação“ – Raymond Aron

    Pode ser lido aqui

    http://silncioerudoasatiraemdenisdiderot.blogspot.com.br/2012/09/enviado-pelo-amigo-alvaro-caputo.html

    • O artigo está muito bom, mas confesso que não tenho simpatia pela tese dos limites físicos do planeta.

      Se como ele próprio fala que “a questão do ambiente é um caso clássico de bens públicos, que o mercado não precifica de forma correta”, para resolver esse problema é preciso mais regulação e enforcement pelo Estado (na ausência de cooperação). Assim, a dificuldade de cooperar para preservar recursos naturais levaria a um papel mais intervencionista do Estado.

      E a questão do Estado disfuncional como ele fala é outra coisa controversa. Um bom exemplo é comparas EUA com Alemanha. São modelos diferentes de capitalismo que funcionam, um com baixa carga tributária outro com elevada carga tributária e elevada despesa (% do PIB).

      Não sei se precisamos fazer uma escolha tão draconiana de reduzir a despesa pública (% do PIB) para o que foi antes das grandes guerras. Se a União Européia tivesse controlado os gastos de alguns países e se o sistema financeiro tivesse sido submetido a controles mais rigidos, a crise possivelmente seria muito mais branda (ou então nem existiria).

      A crise foi causada muito a meu ver pela captura do Estado – uma tese do livro novo do Luigi Zingales que concordo- aliada a inovações fianceiras que foram pouco controladas. E vários países aproveitaram a entrada na União Europeia para gastar muito e construir vários elefantes brancos financiados com recursos baratos.

      É claro que as pessoas terão que aceitar algum controle do crescimento e até mesmo uma redução do Estado de Bem Estar Social. Mas acho a visão do André muito pessimista e os EUA estão longe de ser um exemplo de excesso de intervencionismo.

      • História do capitalismo

        O capitalismo é produção histórica. Sua gênese e devir não se encontram como que acondicionados em cabeças dogmáticas, supostamente iluminadas. É possível construir narrativas da história do surgimento do capitalismo [necessariamente provisórias], mas é impossível estabelecer o seu devir histórico sem o recurso dos dogmatismos.

        Norberto Bobbio, que sabia que na história nada é definitivo (ou, que a história é contingente) perguntou a respeito do futuro das democracias.

        A China, por exemplo, nos faz pensar que “no despotismo iluminado de ontem e de hoje, a figura do homem servo, mas feliz, substitui aquela que nos é mais familiar através da tradição do pensamento grego e cristão do homem inquieto, mas livre. Qual das duas formas de convivência [democracia e absolutismo] está destinada a prevalecer no futuro próximo, ninguém está em condições de prever”.

        A história do capitalismo [que não se confunde com as teorias da economia] pode também ser contada como uma narrativa das suas relações com o Estado, balançando conforme o vento das necessidades de seus agentes. “Mínimo” quando a ingerência não interessa aos negócios ou, ao contrário, “Máximo” quando a intervenção vem com a cornucópia dos subsídios para acudi-los nas horas difíceis, que surgem como produto dos seus erros, ou para abertura de novos mercados (vide a metáfora dos “caixeiros-viajantes” aplicada à diplomacia nos governos petistas).

        As apostas

        Surgimos como sociedade humana na luta pela sobrevivência. A vida social está alicerçada no sistema de trocas de produtos e saberes [hoje, esse sistema toma a forma de mercado capitalista, para o bem e para o mal]. Essa é uma opção biológica estratégica para a espécie humana. De acordo com o etnólogo Leroi-Gourhan, especialista em história social unida à história da técnica, o que nos diferencia das espécies zoológicas é o fato de vivermos desde os primórdios em um meio técnico que tende a substituir o natural. A nossa diferença zoológica não é verificável em uma dimensão metafísica [espécie zoológica eleita, herdeira de Adão, é artigo de fé religiosa], mas no fato verificável de que a espécie evolui em um meio técnico que tende a substituir o natural.

        “Diferentes das espécies animais, que possuem um capital fixo de meios de aquisição e de consumo, os homens são todos sensivelmente iguais na sua nudez, aumentando por meio de atos conscientes a eficácia das suas unhas e das suas peles” [Leroi-Gourhan]. De acordo com Gourhan, que não é Rousseau, técnica e natureza não se excluem e nem definem uma maléfica ruptura entre o homem e a natureza.

        Para Gourhan, nossa principal vantagem comparativa, relativamente a outras espécies animais, está na memória/linguagem [ML] e na força de inventar e de emprestar/trocar [FI-ET]. ML fixa e transmite as invenções de um grupo e favorece os empréstimos [FI-ET] entre os coletivos humanos. Memória e linguagem permitem que os instrumentos e saberes fixados em um grupo evoluam em sentido progressivo e de refinamento, tanto em benefício do grupo como do sistema de trocas sociais de instrumentos e saberes.

        Minha aposta também é na ciência e na tecnologia, Mansueto. Mas eu penso que essa deve sempre ser uma aposta cética. Não vejo esperança absoluta porque nós somos seres naturais (vamos morrer, inclusive como espécie). Os recursos da natureza são infinitos. Mas, para nós, os recursos da natureza são finitos (a natureza sobrevive sem água ou oxigênio, mas isso é algo impossível para a espécie humana).

        Escola boa e escola ruim

        A opção por uma escola boa ou ruim deve considerar, sobretudo, se em uma tal escola [Universidade ou Departamento] todos os sistemas de pensamento são debatidos, pois ninguém deveria optar por uma ou outra escola de pensamento econômico sem o necessário exame prévio delas. A decisão de ser “hayekiano” ou “keynesiano” [para ficar nesses extremos] pressupõe o rigoroso exame crítico dos campos teóricos a partir do qual tais pensadores refletiram e do estudo dos seus produtos históricos. O conhecimento da história da economia [que sem o conhecimento da história e da ciência política não se faz bem] é fundamental na formação do economista. Nisso, tendo a concordar com o rápido comentário de Stiglitz a respeito.

        O marxismo

        Vale lembrar o ótimo trabalho do professor Orlando Tambosi [UFSC], que, por óbvio, não está na bibliografia das disciplinas que dizem querer ensinar “o marxismo”.

        O declínio do marxismo e a herança hegeliana (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina,1999). O livro, praticamente desconhecido nos meios acadêmicos brasileiros, foi bem recebido na Itália e ganhou tradução: Perché il marxismo ha fallito (Milano, Mondadori, 2001). Leitura mais que bem-vinda para quem quer arriscar-se no entendimento do passado de uma ilusão.

        Tambosi (tese de doutoramento na UNICAMP em 1991 e que deu origem ao livro) produziu uma análise do ideário marxista a partir dos escritos de Lucio Colletti.

        Uma rápida resenha, que deveria vir com as devidas aspas que remetem as citações aos respectivos autores originais:

        O livro apresenta um panorama das doutrinas marxistas na Itália e seus vínculos com o hegeliano Croce. Gramsci, sabemos, era conhecedor e admirador de Croce. Posteriormente, Della Volpe produziu uma vigorosa crítica do idealismo hegeliano e das concepções historicistas que marcavam profundamente o comunismo italiano. Colletti entra no debate pela vertente dellavolpiana nos anos 40/50. Essa turma tentou contrapor ao historicismo uma visão do marxismo como ciência. Colletti, nesse percurso, faz-se profundo conhecedor de Hegel e Marx. No início dos anos 70 ele radicaliza suas análises e conclui que Marx era um epígono de Hegel.

        Ao afirmar a existência de contradições na realidade, o marxismo apresentou-se como uma filosofia da história: a ideia da história como portadora de uma ontologia (finalidade) que nos conduziria para uma determinada e necessária meta (o comunismo, a sociedade sem classes e sem Estado são o corolário da história).

        Colletti concluiu que a dialética de Marx, que supunha ter invertido a dialética hegeliana em termos materialistas, não superou o idealismo alemão. Colletti concluiu que o marxismo é, sim, uma metafísica herdeira de Hegel.

        Com o mesmo rigor, honestidade e independência intelectual com que analisou a “conexão Marx-Hegel”, procurando nela esmiuçar os elementos científicos do marxismo, Colletii desmonta a concepção que durante 25 anos ele ajudou a construir (marxismo como ciência) e rompe (início dos anos 70) com o marxismo, aproximando-se cada vez mais de uma perspectiva liberal.

        Uma escola boa seria a que imitasse o percurso de Lucio Colletti. E também o de Norberto Bobbio.

        PS: o debate da captura do Estado unido ao da regulamentação é fundamental. Mas fica para uma outra vez. E, sim, aprendi mais sobre o pouco que conhecia a respeito do Consenso de Washington, lendo os comentários no post.

        Abs.

      • Mansueto, é a velha história do almoço grátis. Não existe, mas muita gente ainda insiste. No caso da Grécia, por exemplo, ninguém teria feito contas de quantas oliveiras existiam, quanto de oliva geravam, quanto era esmagado, quanto de óleo era produzido e assim por diante, até chegar no por quanto era vendido o óleo. E tirando as despesas e custos, o que sobraria para aplicações em outros ativos, notadamente em bens públicos? Oras, no Brasil, a mesma coisa parece ser feita. Querem por querem, por exemplo, o trem-bala. Mas, que contas fizeram? Onde estão? Se é um tipo de empreendimento que é deficitário onde é implementado, por qual razão não o seria no Brasil etc.?
        Pelo que foi divulgado, 1(um) euro entrou na Grécia por 400 dracmas. Salários convertidos em euros, com redução de horas trabalhadas, devem ter dado um orgulho e uma vontade enorme de gastar “por conta”. E ninguém viu, ou não quis ver a falácia do modelo? Não do euro, mas da forma como o euro entrou em alguns países e o que gerou ou o que poderia gerar?
        Outra forma de ver. “O planeta sempre arrumará uma forma de sobreviver sem nós. Então trata-se de preservação da vida e não do planeta”. Essa frase, não lembro onde li, mas, resume mais ou menos essa miscelânea de estatismo bom e privatismo ruim, e vice-versa. O planeta pode aniquilar com todos, sem perguntar, absolutamente, nada a ninguém.
        No Brasil, não restam dúvidas de que o Estado é dado como o agente de tudo e de todos. Enquanto prevalecer essa ideia, ficaremos com PIB abaixo da inflação, recebendo o nome de “fundamentos sólidos”.

  8. De imediato, qualquer MBA é errado. Qualquer um! São todos (TODOS!) uma enganação! Quer fazer uma pós, faça um mestrado e um doutorado. Mas não faça um MBA. É perda de tempo, de dinheiro e de vergonha.

    • “O homem inquieto, porém livre”. Parece não haver melhor receita.
      Pode ser que possa ser argumentado que os ditadores mais despóticos eram muito inquietos e livres. Mas, ser for sanguinário, só poderia ser uma única coisa: ditador. E ditador nunca é livre.

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