Os investidores de fora estão voltando (para conversar).

Depois de alguns meses sem conversar com investidores institucionais dos EUA, talvez porque o Brasil saiu  um pouco de moda e entrou o México, os investidores de fora começaram novamente a marcar reuniões em Brasília.

Apenas em setembro, vou conversar com com dois grupos diferentes, cada um desses grupos com cerca de dez investidores institucionais. Como sempre, na pauta, entra economia e política. Vou me preparar para conversar e trocar ideias com esses investidores, mas há algo sobre o governo que ele vão me perguntar e que não saberei responder. Por exemplo, qual o plano concreto do governo para deslanchar o pacote de investimentos em infraestrtura?

Não saberei responder porque o próprio governo não sabe muito bem o que quer fazer. Todos os governos mostram alguma indefinição, mas no governo atual ainda há muitos sinais contraditórios. O governo adota um nova rodada de concessões, mas ao mesmo tempo critica a ganância do setor privado e insiste em projetos que não são prioritários como o Trem Bala. Em um momento fala em fazer novas concessões, em outro, volta atrás e namora com a ideia de uma nova estatal (Infrapar) ser a sócia majoritária nas concessões dos novos aeroportos.

Há movimentos para frente e para trás que fica difícil entender se há algum planejamento real de onde se quer chegar. Talvez dois artigos recentes que corretamente resumem esses movimentos contraditórios das ações do governo é o artigo do jornalista J.R. Guzzo, “Qual é a Dilma que Vale”, publicado na revista Exame edição 1020 de 25/07/2012, e o artigo da jornalista Cláudia Safatle do jornal Valor Econômico, “Governo não quer mais privatizar aeroportos”, de 17/08/2012.

Vamos torcer para que o governo decida o que quer fazer. Isso seria bom para o Brasil e  facilitaria muito minha visão otimista para investidores de fora. Por enquanto, apesar de eu ser moderadamente otimista, tenho que falar para os investidores das contradições que vejo nas atitudes do governo porque o próprio governo se comunica muito mal com a sociedade.

11 pensamentos sobre “Os investidores de fora estão voltando (para conversar).

  1. Caro Mansueto, será que agora os institucionais estão querendo fundamentos para permanecerem investidos no Brasil? Até o ano passado eles queriam buscar motivos para não investirem por aqui.
    Fernando A.

  2. Mansueto,
    Eu estava olhando o indicador de dívida bruta do país e me chamou a atençao o forte crescimento desse indicador nesse ano. A dívida bruta passou de 54,15% em dezembro/2011 para 57,23% em maio desse ano (esse é o último número divulgado pelo BACEN).
    Mansueto, voce sabe me dizer o que explica esse crescimento de mais de 3 p.p. em apenas 5 meses? A reduçao da taxa SELIC nao ajudou na redução da dívida bruta? Ou será que esse aumento da dívida bruta se deve aos aportes do Tesouro no BNDES?
    Abraço.

    • É esquisito. Vou checar e te retorno. Não estava olhando para esse indicador. Isso tudo (3 pontos do PIB) não pode ser BNDES. O BNDES poderia explicar no máximo algo perto de 1 ponto, mas vou checar.

  3. mansueto, sinceramente, vou ficar torcendo por você. Fortemente.
    Não é fácil entender as medidas do governo. Não só pelos valores magalômanos que informam mobilizar, mas pelos resultados que possam gerar.
    Dá para imaginar como será “vender” o institucional do Brasil e a segurança necessárias para convencer investidores.
    Boa sorte e abraços.

    • Também não acredito em nada do que está sendo dito. Por uma razão: se o governo efetivamente tivesse dado uma pequena guinada ideológica, ele começaria pelo início. Há dezenas de pequenas medidas, muito mais simples de serem implementadas, e igualmente efetivas.

      O governo continua perdido e apostando na propaganda. Se metade dos bilhões que o governo falou nos últimos dez anos tivessem se tornado realidade, putz!

      Abraços

  4. Caro Mansueto, ontem foi divulgado na imprensa que a dívida pública federal interna caiu 4,76%, isso em um só mês, julho de 2012. Indicou-se que houve um resgate líquido de 107 bilhões. O que aconteceu? O governo federal tinha este dinheiro para fazer este resgate sem a venda de novos títulos, o que gerou a queda da dívida? Acredito que não. Qual foi a “jogada”? Será que é tão fácil reduzir uma dívida nesta proporção em um só mês?

  5. Mansueto

    Eu vejo duas possibilidades. Uma é dizer em alto bom som que o principal ativo do governo Dilma é o estoque de falácias. Essa é a resposta que tenho visto em alguns blogs de economia, e dou razão porque de fato os governos petistas são useiros e vezeiros nessa arte.

    A outra é mostrar que o anúncio das privatizações pode ser um indício de fratura na hegemonia política do grupo que hoje dá as cartas na condução da economia. Deixo claro que distingo os termos “indicio” e “evidência”, que muitos aceitam como sinônimos. Não são. Para análise, o tem qualidade indiciária é bastante distinto do que aquilo que tem caráter de evidência.

    O que está cada vez mais evidente, inclusive no seio do governo, é que a condução da barca econômica, no rumo que vai, é temerária.

    O meu entendimento é que o modelo estatista faliu. Talvez alguns entendam que não e que ainda é possível salvar o modelo.

    Sou mais pela segunda hipótese porque me parece cada vez mais claro que as alternativas no estoque de medidas do grupo hegemônico estão exauridas. É sempre o mais do mesmo. Esses “sinais contraditórios” que você apontou no post eu os vejo como indícios de ruptura, de briga interna ao governo. Se essa ruptura vai se efetivar, e como vai se efetivar, isso eu não sei.

    Não sei se você leu no jornal valor de hoje a reportagem “Para desenvolvimentistas, novo mix de câmbio e juro precisa ser preservado”. A notícia é referida ao 5º Encontro Internacional da Associação Keynesiana Brasileira (AKB)

    Sempre a mesma ladainha. Quem, a não ser os auto-proclamados novos-desenvolvimentistas, acreditam nestas supostas eficácias? :

    1. “câmbio mais depreciado tem um papel relevante para proteger o mercado interno”
    2. “o real precisa sofrer uma desvalorização mais acentuada e os juros têm que cair ainda mais”
    3. “câmbio moderadamente desvalorizado impulsiona o crescimento”
    4. “Se a moeda fica apreciada demais, parte expressiva da alta do consumo é atendida por bens importados, o que tira o espaço de crescimento da produção doméstica”

    Você leu as reportagens a respeito das demandas do setor têxtil e as soluções ofertadas pelo Ministro Mantega?

    Do G1

    Mantega se reúne em SP com representantes do setor têxtil

    Mantega diz que governo estudará medidas para estimular setor têxtil

    Disse que não vai mexer no dólar e disse o que iria fazer : “Não serão as mesmas medidas do setor automobilístico, porque o setor possui características diferentes”, e emendou com a indefectível “legítima política de defesa do mercado brasileiro a brasileiros”.

    Quem leu os seus posts “Falta um diagnóstico do que exatamente se quer salvar” e “O problema da indústria”. sabe que o buraco do setor têxtil é outro e que Mantega está anos-luz distante desse entendimento.

    Cito um trecho do seu post “Falta um diagnóstico…”

    “No caso do salário-mínimo, o grande debate, em 2002, era quando o mesmo chegaria a US$ 100. Hoje, o nosso salário mínimo vale R$ 622 ou US$ 345. Para o produtor, quando incluímos os encargos trabalhistas (mesmo com hipóteses conservadoras), o salário mínimo vai para próximo de US$ 600. Esse é o salario mínimo relevante para comparação internacional com os Asiáticos.

    Vamos agora ver o caso de Bangladesh, um pais com 161 milhões de habitantes com a renda per capita de menos de US$ 1.000 – ou seja menos de 10% da renda per capita do Brasil. Este país começou a exportar confecção (US$ 40.000), em 1977, para França e Alemanha. A partir de 1990, a produção e exportação de confecção aumentou fortemente e, em 2010, este país exportou quase US$ 16 bilhões de confecções, correspondente a 82% da exportação total de Bangladesh. Mais de 80% dos trabalhadores na indústria de confecção são mulheres da zona rural e o salário mínimo mensal em Bangladesh é de apenas US$ 37. Isso mesmo! Trinta e sete dólares por mês.

    Hoje, não há como o Brasil com um salário mínimo próximo a US$ 600 competir com um país pobre de salário-mínimo de US$ 37 em setores intensivos em mão-de-obra que exigem pouca escolaridade do trabalhador. Nem mesmo a China consegue competir com os baixos custos de Bangladesh no setor de confecções e são justamente empresas chinesas (ou clientes Chineses) que estão organizando a produção em Bangladesh.”

    E cito outro do “O problema da indústria”

    “A verdade é que, com um salário mínimo perto de US$ 350 e dada a nossa produtividade, o Brasil tornou-se um país caro para a produção de produtos intensivos em mão de obra. Países como Bangladesh, Camboja, Paquistão, Indonésia e Vietnã, que são grande exportadores de confecções para os EUA, todos têm salário mínimo inferior a US$ 100.”

    Eu acrescento dados de população:

    Bangladesh (150,493,658), Camboja (14,305,183), Paquistão (176,745,364), Indonésia (242,325,638) e Vietnã (87,840,000)

    Total: 671.709.843,00

    Brasil

    196.655.014

    (Banco Mundial/2011)

    Os elementos acima evidenciam com bastante clareza a inutilidade do pensamento da economia hoje encastelado no Ministério da Fazenda. Resta saber se a percepção da inutilidade penetrou o gabinete da Presidente. E se penetrou, com qual intensidade?

    A ver

  6. Mansueto,

    A Cláudia Safatle escreveu um artigo no Valor que dialoga bastante com o seu. Explica o que ela acha que são os objetivos do governo e tenta achar uma coerência. Bastante interessante.

    Abraço

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