Declarações: O que aconteceu?

Esta semana, quando estava limpando alguns arquivos do meu computador,  levei um susto. Ao ler entrevistas e artigos de jornais de de 2007 a 2010, tive a impressão que o Brasil parou nos últimos anos. Confiram e tirem suas próprias conclusões.

(1) “Só porque o Brasil teve por um trimestre uma taxa de crescimento acima de 7%, o Brasil agora é a nova China e o Lula é um gênio das finanças, e todos os problemas anteriores não existem mais porque o Brasil é um país diferente. Há toda uma narrativa que tem sido criada por conta de alguns bons trimestres no Brasil que pode levar a políticas macroeconômicas muito inconvenientes. Essa narrativa é particularmente conveniente na época de eleições.”

Ricardo Hausmann, professor de Harvard em entrevista à Folha de São Paulo – 30 de agosto de 2010. O professor me falou uma vez em Washington-DC que o governo não gostava muito das suas declarações sobre o Brasil. Agora entendo o por que. Ele fala a verdade. 

(2) “Todos os economistas concordam que o Brasil é diferente do resto do mundo. É um país jovem, mas, ao mesmo tempo, tem grande preocupação com o envelhecimento. É difícil entender isso, pois existem muitas ações sociais que deveriam ser consideradas prioritárias no país. Só Itália, França e Alemanha têm despesas maiores com previdência do que o Brasil, que é um país jovem. Acontece que eles, sim, têm motivo para se preocupar, já que possuem uma parcela expressiva da população acima de 65 anos. É por isso que penso que, com o mesmo valor destinado à previdência, o Brasil poderia fazer muito mais e melhor para os mais pobres. Acho que o grande problema do modelo brasileiro de gastos sociais está na Constituição. Ela estabelece os porcentuais do produto interno bruto que devem ser investidos em algumas áreas. É isso que se chama de vinculação orçamentária.”

Peter Lindert, historiador econômico e professor da Universidade da Califórnia em Davis. Autor do livro Growing Public. Entrevista nas páginas amarelas da revista Veja, 27 de agosto de 2005. A observação do professor continua válida, mas pelo menos o governo parece cada vez mais convencido que terá que desatar este nó.

(3) Os banqueiros dizem que o spread é alto por causa dos impostos que pagam e do compulsório que são obrigados a recolher. O governo pensa mexer nisso? “Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório. O compulsório já diminuiu bastante nesta crise, nós liberamos mais de R$ 100 bilhões. Aliás, diga-se de passagem, na composição do spread 36% é a possibilidade de inadimplência. Evidentemente, isso está superestimado. Eles costumam prever uma inadimplência maior e com isso cobrar uma taxa maior. Outra é a margem de lucro. Os bancos brasileiros estão bem acostumados a ter margem de rentabilidade elevada. Não tenho nada contra isso, mas acho que aí tem espaço para diminuir.”

Ministro Guido Mantega em entrevista ao Estado de São Paulo em 29 de junho de 2009. O Ministro falou isso, em 2009, falou novamente em junho de 2011 e vai falar novamente daqui a dois anos.

(4) Como o senhor definiria os avanços da era Lula? “Acho que a principal conquista foi a de se acelerar o crescimento com melhora na distribuição de renda. Houve mudança no papel do Estado, que assumiu participação maior no combate à pobreza e à desigualdade, com o Bolsa-Família e a política de salário mínimo. Assim, aumentou a parcela das transferências sociais e de renda tanto no PIB quanto no Orçamento, e houve recuperação do papel do Estado no investimento e no planejamento de longo prazo. Isso se traduziu num aumento do investimento por parte da União, mas principalmente na atuação do Estado na organização de projetos, nos leilões de concessão e nos investimentos em infraestrutura. …..A partir do PAC, o crescimento médio foi de 4,6%. Já a taxa de juros real caiu de 16%, quando o presidente Lula tomou posse, para os 6% de hoje.”

Entrevista do Secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, ao jornal O Estado de São Paulo no dia 02 de janeiro de 2011. O economista creditava o maior crescimento da economia brasileira ao PAC (e não ao boom de commodities) e ainda falava da recuperação da capacidade do Estado de investir e planejar.

A realidade de um ano e meio do governo da Presidenta Dilma não parece corroborar essa tese e ainda teve a herança maldita da roubalheira nos Ministérios e que foi uma dor de cabeça para a Presidenta no seu primeiro ano de governo. Quanto à afirmação de que “……houve recuperação do papel do Estado no investimento e no planejamento de longo prazo”. Sem comentários.

(5) “Há uma crença, que vem crescendo dentro do governo, de que mais gastos provocam maior crescimento econômico. Por que não gastar mais, com o maior crescimento econômico resultante gerando uma dinâmica mais favorável da dívida pública e acelerando o crescimento das receitas?….. Se optasse pela elevação das poupanças domésticas controlando seus gastos, poderia obter taxas mais altas de investimentos com menores déficits nas contas correntes, livrando-se parcialmente da dependência das poupanças externas. Mas essa não é uma rota que dê dividendos políticos a curto prazo tão grandes quanto a da elevação dos gastos públicos, e por isso não tem a preferência nem desse governo e, possivelmente, nem de um eventual governo Dilma Rousseff.”

Economista Affonso Celso Pastore no seu artigo “Gastos públicos: os limites” no jornal o Estado de São Paulo em 10 de outubro de 2010. Será que esse artigo do professor Pastore ainda se aplicaria hoje?

(6) Como o senhor avalia a atuação do BNDES no governo Lula? “Passamos por momento de dificuldade e o BNDES agiu corretamente. Podemos discutir um ou outro investimento do banco, que não faz sentido, mas é uma questão menor. Vamos supor que o BNDES não tivesse agido: o PIB cairia 3% e a arrecadação também. O BNDES é um mecanismo de financiamento importante, mas o Brasil precisa de outros. Imaginar que o BNDES pode escolher os melhores investimentos sem nenhum viés é um equívoco. Agora, negar o papel do banco é ridículo. A única coisa justa é: houve sim um subsídio, que tem de ser apurado e colocado no orçamento. Evidentemente o Tesouro não deve continuar fazendo aportes do BNDES. Isso foi um incidente.”

Entrevista do ex-ministro Delfim Netto ao jornal o Estado de São Paulo em 1 de agosto de 2010. Depois dessa entrevista, o Tesouro continuou fazendo aportes ao BNDES e o subsídio continou não sendo apurado e colocado no orçamento. Mas pelo menos este ano o custo foi divulgado no relatório das contas fiscais de 2011 do TCU: R$ 23 bilhões, em 2011. 

(7) Como o sr. vê a questão da infra-estrutura no Brasil? Eu acho que talvez o nosso mal maior é que não conseguimos consolidar e aperfeiçoar o marco regulatório no País. ……. Há ainda uma resistência de parte do governo e de parte da sociedade em privatizar setores que na imensa maioria dos países são eficientemente geridos pelos setor privado. Então as coisas não andam, e a conseqüência é que o custo Brasil está subindo. Está cada vez mais caro entregar soja no porto, construir uma fábrica, ter acesso a energia.

Entrevista do economista Marcos Lisboa, ex-secretário de política econômica, ao jornalista Fernando Dantas do Estado de São Paulo no dia 03 de setembro de 2007 já fora do governo e como diretor executivo do Unibanco.

A minha conclusão? Estamos perdendo tempo em resolver os problemas no seu devido tempo e o preço desse atraso já está aparecendo. O nosso problema como bem lembrou Hausmann é que quando crescemos mais rápidos todos já começam a falar no “modelo brasileiro”. Qual é mesmo esse modelo?

2 pensamentos sobre “Declarações: O que aconteceu?

  1. É verdade Mansueto. Nosso governo (Poder executivo + políticos) só miram as eleições. Além de não haver planejamento para as ações de longo prazo, não se fazem as reformas necessárias (trabalhista, previdenciária, fiscal, etc). Vivemos de discursos e botar a mão na massa para se desgastar com o povo, os políticos não querem. Lá no futuro a conta baterá nas gerações que nos sucederão.

    forte abraço

  2. O “modelo brasileiro” deve ser esse mesmo: não há modelo algum.
    Às vezes dá a impressão que, no Brasil de 2003/2012, todos os dias descobrem uma solução para os problemas da economia mundial, da fome na África, da distribuição de renda crescendo…
    Só que a economia mundial continua com problemas, a fome continua em várias partes do mundo e o PIB brasileiro não está crescendo.

Os comentários estão desativados.