Politica industrial: o clássico exemplo de Milton Friedman

Dado que postei antes uma entrevista do professor Edmar Bacha sobre desindustrialização no qual ele critica fortemente a ideia de conteúdo nacional. acho que vale a pena assistir esse curto video do professor Milton Friedman sobre o processo de fabricação de um lápis.

Quem me lembrou desse episódio foi o professor Márcio Garcia da PUC-RJ em um conversa no táxi do centro do Rio para uma reunião na Casa das Garças para a discussão do livro organizado pelo Bacha e Monica Bolle.

Se para produzir algo tão simples como um lápis é tão difícil, imaginem algo mais complexo como um semicondutor coordenado por pessoas do governo.

14 pensamentos sobre “Politica industrial: o clássico exemplo de Milton Friedman

  1. Dani Rodrik inverte a parabola radicalmente:

    The Friedmanite perspective greatly underestimates the institutional prerequisites of markets. Let the government simply enforce property rights and contracts, and – presto! – markets can work their magic. In fact, the kind of markets that modern economies need are not self-creating, self-regulating, self-stabilizing, or self-legitimizing. Governments must invest in transport and communication networks; counteract asymmetric information, externalities, and unequal bargaining power; moderate financial panics and recessions; and respond to popular demands for safety nets and social insurance.

    A modern-day Friedman might want to ask how China has come to dominate the pencil industry, as it has so many others. There are better sources of graphite in Mexico and South Korea. Forest reserves are more plentiful in Indonesia and Brazil. Germany and the United States have better technology. China has lots of low-cost labor, but so does Bangladesh, Ethiopia, and many other populous low-income countries.Undoubtedly, most of the credit belongs to the initiative and hard work Chinese entrepreneurs and laborers. But the present-day pencil story would be incomplete without citing China’s state-owned firms, which made the initial investments in technology and labor training; lax forest management policies, which kept wood artificially cheap; generous export subsidies; and government intervention in currency markets, which gives Chinese producers a significant cost advantage. China’s government has subsidized, protected, and goaded its firms to ensure rapid industrialization, thereby altering the global division of labor in its favor.

    • Thor interessante esta passagem. Me manda a referencia do texto. Sabes que tenho problema às vezes com o que o Dani Rodrik escreve. O texto dele de 2004, industrial policy for the XXI century mostra uma clara diferença entre as políticas asiáticas e as políticas industriais mais modernas. Mas às vezes ele escreve outros texto como sendo a mesma coisa.

      Mas me lembrei desse exemplo do Friedman sugerido pelo Márcio Garcia quando citei o exemplo que escutei do Hausmann da quantidade de atividade envolvidas para preparar um simples café da manhã. O processo de coordenação disso tudo é muito difícil.

      Não sou contra política industrial, mas acredito muito mais no que Rodrik, Hausmann e Sabel (2007) no textos deles de 2007 chaman de industrial policy in the small. Tenho à impressão que às vezes se endeusa muito o modelo Chinês ainda mais que ele vai contra a várias coisa que o próprio Rodrik argumenta em outros textos como esse de 2007.

      Por exemplo, quais as regras relacionadas com “let the losers go” na China tão enfatizada por Rodrik no contexto geral de politica industrial? Enfim, não sou contra politica industrial mas prefiro uma atuação do governo mais voltado para inovação ou para solução de problemas de ação coletiva – ajudar o setor privado em investimentos complementares.

      Abs,

      • O texto pelo que procurei é o deste site: http://www.project-syndicate.org/commentary/milton-friedman-s-magical-thinking

        O ruim de não ser citado por completo é que omissões importantes acontecem:

        China moved away from central planning and allowed markets to flourish – first in agricultural products and, eventually, in industrial goods.

        O problema é que o discurso do Friedmann tem um contexto Guerra Fria. Disputa entre sistema de preços e planos governamentais soviéticos. E como Rodrik assume, a China hoje não é a União Soviética.

        Qual é o ponto de criticar o elogio de Friedmann ao sistema de preços, usando o exemplo chinês? A China é uma economia que segue o sistema de preços e ancorou seu desenvolvimento na competição com o exterior. Justamente no que não toma por referencial o exterior, os non-tradables, como o setor financeiro e o setor imobiliário, é onde os riscos estão.

        Sobre o parágrafo:

        “Undoubtedly, most of the credit belongs to the initiative and hard work Chinese entrepreneurs and laborers. But the present-day pencil story would be incomplete without citing China’s state-owned firms, which made the initial investments in technology and labor training; lax forest management policies, which kept wood artificially cheap; generous export subsidies; and government intervention in currency markets, which gives Chinese producers a significant cost advantage. China’s government has subsidized, protected, and goaded its firms to ensure rapid industrialization, thereby altering the global division of labor in its favor.”

        Resumindo: a primeira frase apenas atenua o resto da afrimação que consiste em que o governo chinês teve sua parte e distorceu os custos para que o preço de produção de lápis na China fosse menor . Ok. Até aí, qualquer país faz isso. Isso não invalida o sistema de preços. A China utilizou o sistema de preços pagando um custo por política industrial.

        O artigo termina incompleto, pois deveria responder se os benefícios superam o custo incorrido. E é claro numa página não houve espaço para nenhuma análise apurada. É preciso mais do que a constatação de que agora vários chineses trabalham na indústria do lápis para dizer que foi um sucesso. Seria preciso constatar que essa opção foi a melhor que poderia ter ocorrido, considerando os custos. Trabalho muito difícil, é verdade.

        Com um dos cenários de Free to Choose – Hong Kong – logo ali é um pouco difícil de dizer que a fábrica de lápis é o melhor dos mundos, embora a afirmação de que intervenção seja sempre ruim é igualmente temerária.

        Será que quanto mais intervenção melhor como quer fazer crer Rodrik com a frase: “because it is the interventionists who have succeeded in economic history, where it really matters”? Onde entra a Argentina nessa bela história? Para não chegar no ridículo de Coréia do Norte.

        Essa declaração simplista do Rodrik, como o próprio Mansueto já disse, não é tão simples e não se encaixa nas próprias pesquisas dele, que destacam o papel da descoberta das atividades produtivas mais eficientes e da punição aos que são ineficientes e rent-seekers.

        Há muitas formas de ser intervencionista. E muitas formas mais como isso interage com a política de cada país, beneficiando certos grupos. No Brasil, estamos na posição: grandes empresas rentistas, protecionismo, dependentes de poupança externa, expansão do crédito e consumo como objetivo, em vez de aumento de qualidade da educação, investimento em infra-estrutura, incentivo à tecnologia, etc.

        Como eu preferiria uma intervenção coreana na educação ou um Hsinchu Science and Industrial Park, mas no Brasil o que tem apelo é proteger montadoras e dar crédito para frigorífico e construtoras.

    • Thor

      Não força a barra. Não existe sociedade sem Estado. Fora do Estado o que existe é a selvageria da lei do mais forte.

      Ninguém em sã consciência contesta os três monopólios do Estado: força física, ordenação jurídica e cobrança de impostos. O problema surge quando um Estado e seus governantes abusam desse monopólio contra os cidadãos que constituíram o Estado.

      Imagine, por sua vez, o Estado brasileiro metendo-se diretamente na produção de bens em detrimento de investimentos em segurança, educação, saúde, infraestrutura. Seria um bom Estado ou um Estado ruim?

      Essa experiência histórica que você aplaude, nós já vivemos durante a ditadura militar e foi um desastre.

      Fala-se muito do sucesso coreano como produto do Estado. É verdade, posto que não existe sociedade sem Estado. Mas não se fala no forte investimento de décadas em educação.

      Após a guerra civil, a Coreia era um país miserável composto literalmente por analfabetos. Num espaço de duas ou três gerações essa situação foi revertida em números que impressionam. Tudo o que a Coreia fez nós já fizemos. E o que não fizemos igual? Investimento em educação

    • Sim, mas há várias maneiras do estado intervir. Uma forma é atuar da forma do DARPA nos EUA, a agencia de pesquisa ligada ao departamento de defesa com orçamento de US$ 3 bilhões por ano para fomentar pesquisa por meio de vários projetos.

      Outra coisa é o governo estabelecer uma politica excessiva de conteúdo local e o governo querer ter politica industrial para setores que não precisam – setor automobilistico por exemplo. Neste setor, já sabemos o custo de produção; i.e já temos os sinais de mercado se somos ou não competitivos.

      Não sou contra o papel do governo no incentivo à inovação e ao que o Rodrik e Hausmann chaman de self-discovery. Mas no Brasil o que fazemos é dar muito crédito subsidiado e promover muito pouco self-discovery. Para mim o melhor caso de “politica industrial” não está na indústria, mas na agricultura: a Embrapa. POr que? porque a inovação aqui é apropriada por um setor e não por uma única empresa. Tem característica de bem público.

  2. “In fact, the kind of markets that modern economies need are not self-creating, self-regulating, self-stabilizing, or self-legitimizing. Governments must invest in transport and communication networks; counteract asymmetric information, externalities, and unequal bargaining power; moderate financial panics and recessions; and respond to popular demands for safety nets and social insurance.”

    Para mim, I don’t buy it.
    Nada do que o governo faz é sem meu dinheiro, sem impostos. Nada mais. Se ele fizer alguma coisa sem isso, seria como um anjo com atribuições intensamente sexuais, ou um unicórnio. Se fizesse razoavelmente bem como o mercado faz, transporte, rede de comunicações, etc., seriam muito acima das expectativas e da realidade.

    O estado é um padastro, e ruim!

  3. “A modern-day Friedman might want to ask how China…”
    Moro em um condomínio, talvez o melhor de Natal/RN. Próximo de minha casa tem um cidadão, grande amigo e de enorme visão comercial. Eu poderia ser avô dele. Ele é rico, eu não.

    Tanto ele como eu compramos dólares, tanto para viajar, como para compor a nossa ‘cesta de ovos’ de investimentos.

    Pergunte a ele se ele tem um mísero yuan ou iuan. Melhor, pergunte a ele se ele compraria yuan ou dólares. Ele faz rasgados elogios à China, importa horrores e ganha muito dinheiro. Mas os filhos estudam inglês, o investimento quanto a moeda, dólares.

    O que é que isso tem a ver com o artigo do Friedman? A meu juízo, e falo como advogado e não empresário: é que não importa o volume ou o alcance que uma economia possa ter. Sua solidez virá não da montanha de dinheiro, mas das forças que constituíram essas forças. Nos últimos 200 anos, o mercado é o Americano.

    Sorry Chinese folks, merchants and others, you’ve got a long way to go, to convince me, baby!

  4. Mansueto, já que você falou na Embrapa, lembrei que circulou por ai a criação de uma similar industrial, Embrapii. Sabe a quantas anda isso? Acha que pode ser um bom instrumento?

    E realmente, a Embrapa teve um papel importantíssimo. Redesehnou a paisagem brasileira, especialmente o cerrado

    • Pelo que sei essa ideia de criar uma Embrapa industrial está parada. Agora isso não é uma tarefa simples. A Embrapa trabalha com um agricultura e pecuária que são setores talvez mais homogêneos que “indústria”.
      Mas acho que o básico do modelo Embrapa aplica-se a qualquer instituição de estímulo à inovação: recrutamento por meritocracia, investimento no seu capital humano, criar na instituição missão institucional clara, parcerias com as melhores empresas de pesquisa do mundo do setor e pesquisar várias produtos e processo novos com uma lista de experiências bem sucedidas e de muitos fracassos.

      Nos EUA, acho que a instituição voltada para inovação que mais se assemelha ao caso da Embrapa é a Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA). Esta agencia, em 2009, teve um orçamento de US$ 3 bilhões (muito dinheiro, mas valor pequeno em relação ao orçamento de defesa do governo americano naquele ano de US$ 651 bilhões). Essa agência contrata vários projetos com o setor privado e muitos fracassam, mas os projetos que fracassam são cuidadosamente analisados e discutidos e o que fracassou é corrigido em outros projetos.

      No Brasil, temos excesso de recursos para conceder crédito subsidiado que pesa na dívida e não executamos o dinheiro que já existe para inovação. O orçamento anual dos fundos setoriais de mais R$ 3 bilhões por ano já daria para ousarmos e tentar transformar algumas de nossa agências públicas, como a FINEP, em algo mais próximo à DARPA.

      • Mansueto

        “No Brasil, temos excesso de recursos para conceder crédito subsidiado que pesa na dívida e não executamos o dinheiro que já existe para inovação.”

        Essa frase resume o que se considera abuso do Estado que detém o monopólio do dinheiro público.

        O debate ideológico a respeito do maior ou menor papel do Estado é intelectualmente desinteressante pelo lado teórico e pernicioso pelo lado prático. Eu não me acanho em dizer a sociólogos e economistas (não te incluo nesse rol, Mansueto) ligados nesse lero-lero que esse debate é inútil. O que se gasta com dinheiro público para manter esse exército de ideólogos nesse debate estéril e interminável é dinheiro dos cidadãos que pagam impostos jogado no lixo.

        O que representa o orçamento da Embrapa se comparado, por exemplo, com o da Monsanto em pesquisa de grãos? Como está a execução do orçamento do MCT?

        Embrapa, Emater, IAC, IPT, apenas citando os que me veem à memória nesse momento. Esses sim poderiam ser chamados de “milagres brasileiros”. Quem é contra o investimento em instituições públicas de pesquisa desse quilate?

        O professor e físico Ivan Oliveira escreveu um excelente artigo de opinião na FSP de 19/07/2012: “Ciência, tecnologia, inovação, vaca e leite”.

        “A fórmula para a geração de tecnologia e inovação é simples. Coloque em um mesmo lugar cientistas, engenheiros e estudantes, em bom número, pesquisando, juntos, fenômenos básicos da natureza, com laboratórios, oficinas e bibliotecas bem equipados.

        Não existe outra forma. Não é rápido, não é barato. Não gera dividendos políticos imediatos, não dá resultados em um par de mandatos.”

        O IPT, que tem um corpo técnico altamente qualificado em vários campos de conhecimento, tem projeto em andamento sobre gaseificação de biomassa.

        Do site do IPT (a notícia é bem mais informativa do que o trecho abaixo citado. Vale muito ser lida na íntegra)

        Estado da arte:

        “A conversão de combustíveis fósseis sólidos em combustíveis líquidos, via gaseificação, já é dominada. A África do Sul, por exemplo, usa esta tecnologia para converter carvão em gás de síntese, para então produzir diesel e gasolina. A tecnologia para conversão de biomassa em combustíveis líquidos, no entanto, ainda está em estágio de desenvolvimento. Há diversas iniciativas de pesquisa em gaseificação de biomassa ao redor do mundo, geralmente focadas em algumas poucas etapas do processo completo; no entanto, ainda não há a integração de todas estas etapas, e, portanto não há um processo completo disponível comercialmente.”

        Plano de implantação

        “Construção do Centro de Gaseificação em Piracicaba, com uma unidade-piloto central de gaseificação, para a produção de gás de síntese. Essa unidade contará com equipamentos de pré-tratamento de palha e bagaço, gaseificação, tratamento e limpeza de gases. Os equipamentos serão ajustados e testados em operações de longo prazo, para provar sua viabilidade técnica e econômica. Espera-se que os parceiros implementem unidades para síntese catalítica e geração de energia elétrica.

        Para este fim, o Centro oferecerá uma equipe de suporte permanente, utilidades e instalações de instrumentação, e estará aberto a projetos conjuntos com universidades, instituições de pesquisa e indústrias, em assuntos relacionados às tecnologias de gaseificação de biomassa e síntese de produtos a partir do gás de síntese.”

        Cronograma
        Ano 0 – Projeto Conceitual (Status: 95%)
        Ano 1 – Projeto básico e executivo da planta piloto (Status: 5%)
        Ano 2 – Obras Civis (Status: 5%)
        Ano 2 – Construção da Planta Piloto
        Ano 3 – Construção dos Módulos de pré-tratamento (Downstream)
        Ano 3 – Construção do Módulo do Gaseificador(Middlestream)
        Ano 3 – Construção dos Módulos de limpeza de gases (Upstream)
        Ano 3 – Construção do Módulo de Utilidades
        Ano 4 – Testes das Operações a frio e a quente
        Ano 4 – Otimização da operação da planta
        Ano 5 – Teste geral da instalação

        Financiamento:

        “O IPT está negociando este Projeto com o BNDES, FINEP e Governo do Estado de São Paulo, e espera receber contribuições também das empresas parceiras. Durante a operação do Centro, deverão ser promovidos projetos satélite, financiados pela FAPESP.”

        O orçamento atual para todo o projeto está estimado em R$83 milhões. Cada empresa parceira deverá contribuir com R$ 2 milhões, durante toda a execução do projeto.”

        R$ 83 milhões é dinheiro de pinga!, mesmo considerando que esse é o investimento para dar o start no projeto e chegar na planta piloto. Isso é exemplo do que poderíamos chamar de verdadeiro “milagre brasileiro”…

        Isto posto, compare-se o que foi acima com o que informou o site Contas Abertas em 25 de julho deste ano:

        União gasta com “vigilância” mais do que investe em saúde
        Paulo Victor Chagas
        Do Contas Abertas

        A União gastou no ano passado quase R$ 1,7 bilhão em despesas com vigilância. A atividade é prestada com o objetivo de garantir de modo ostensivo a segurança de locais e pessoas públicas. O valor é mais que o dobro dos investimentos executados (obras e compras de equipamentos no ano) pelo Ministério da Saúde em 2011 (R$ 746 milhões). Caso os recursos tivessem sido aplicados por um ministério, a Pasta da “vigilância” ocuparia a quarta posição no ranking de investimentos executados em 2011, perdendo apenas para os Transportes, a Defesa e a Educação, que executaram R$ 6,1, R$ 5,8 e R$ 2,8 bilhões, respectivamente. Este ano, essas despesas já chegaram a R$ 715 milhões até o final de junho.

        Isso acima, informado pelo Contas Abertas, é um exemplo claro de abuso do Estado contra os cidadãos.

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