Duas visões diferentes de como aumentar o investimento

Para aqueles que acham que as instituições têm opinião única, sugiro a leitura de dois artigos hoje no valor econômico. Um dos artigos é assinado pelo economista Fábio Giambiagi do BNDES, que mostra o “problema” de crescer mais rápido financiado pelo resto do mundo, já que a poupança doméstica no Brasil é baixa e não acompanha o ritmo do crescimento do investimento (clique aqui).

O outro artigo é de um economista, que não conheço, Antônio Alves Junior, que é chefe do departamento de relações com o governo/BNDES e professor de Economia da UFRJ (clique aqui).

Aqui vem a diferença. Com o título sugestivo de “Como aumentar o investimento no Brasil?”, o professor Antônio defende o aumento das despesas de custeio e até dos salários dos funcionários públicos dado que o governo não tem como aumentar rapidamente o investimento público. O investimento seria então elevado em momento posterior. O professor fala textualmente que:

Como se sabe, aumentar os gastos com investimentos é bem mais complexo do que aumentar o custeio. Entre a decisão de investir e a execução dos gastos decorre algum tempo para a elaboração de projetos e para a realização das licitações. Já gastos com o programa Bolsa Família, com aquisição de bens e serviços de saúde ou com aumento de salários dos funcionários públicos podem ser realizados mais rapidamente. Os efeitos dessas despesas sobre a demanda poderão ser sentidos logo depois da decisão de se gastar, melhorando rapidamente as expectativas sobre o crescimento futuro da demanda agregada.”

Há três grandes equívocos neste argumento. Primeiro, despesas de custeio são aumento de despesas permanentes. Assim, se o governo tentar combater uma redução temporária de demanda com aumento de custeio e com aumento de salários de funcionários públicos, como fez em 2009, o resultado é um gasto elevado mesmo quando a economia voltar a crescer. Isso pressiona a inflação e eleva as taxa de juros. Por favor, olhem 2009 e 2010. Para 2012, prometo um post bem interessante ainda esta semana.

Segundo,  o que governo brasileiro tem feito de forma exemplar desde o início dos anos 90 é aumentar de forma consistente as despesas de custeio, que tomam a forma de aumentos do INSS e programas de transferência de renda – LOAS, seguro-desemprego e abono salarial, bolsa-família. O investimento público federal é praticamente o mesmo do final dos anos 90. Ou seja aumento exagerado de custeio tira espaço para aumento do investimento público.  No caso do Brasil, o que possibilitou maiores despesa de custeio foi aumento da carga tributária. Assim quem defende forte aumento de custeio está defendendo, indiretamente, aumento de carga tributária.

Terceiro, se o governo tivesse uma poupança maior, controlasse a expansão das despesas de custeio, teria mais recursos para capitalizar (sem aumentar a dívida) o BNDES que poderia ter um papel mais ativo no financiamento da infraestrutura. O problema foi que, sem aumentar sua poupança, o governo aumentou sua dívida para expandir suas operações de empréstimo para o BNDES , que passou de menos de R$ 10 bilhões, no início de 2008, para mais de R$ 300 bilhões no inicio deste ano. Fortalecer bancos públicos com aumento de dívida é fácil, pena que isso teve um custo fiscal de mais de R$ 23 bilhões, apenas no ano passado, como mostrou estudo do Tesouro Nacional divulgado no relatório do TCU de 2011.

Por fim, quando se fala em aumentar o gasto com investimento não significa, necessariamente, começar novos investimentos, mas sim executar de forma mais rápida aqueles que já estão em andamento, como o governo consegue fazer tão bem em anos de eleição. Não sei se por competência ou por necessiade de criar caixa dois, mas consegue.

O problema no nosso caso é que o aparelhamento da Esplanada dos Ministérios no governo anterior, como bem mostra a faxina do governo Dilma, talvez tenha sido maior do que pensávamos e, assim, sobrou incompetência e faltou gestão. Quem mostrou isso não fui eu, mas o governo atual com as substituições na cúpula dos ministérios. Se querem defender o governo anterior reclamen com a Presidenta Dilma.

Nessa debate dos dois economistas do BNDES, Fábio Giambiagi, ao defender o aumento da poupança doméstica e maior controle das despesas de custeio parece ter mais razão do que seu companheiro de banco. Esse debate entre dois técnicos do BNDES acontece entre técnicos do IPEA; do Tesouro, da Secretaria de Orçamento Federal (SOF) e até mesmo do BACEN.

14 pensamentos sobre “Duas visões diferentes de como aumentar o investimento

  1. Mansueto, chato dizer, mas mais um vez concordo contigo.
    Qual o retorno para a sociedade com o aumento do custeio?
    Aumentaria a produtividade? Não. Os recursos seriam bem alocados: Não, devido a critérios políticos.

    O mais absurdo é esse professor defender aumento de salários de funcionários. Em troca de quê? Do aumento de parasitas, só pode ser.
    Basta ver o que resultou o walfare state na Espanha. A cidade La Linea (encostado em Gibraltar) é o espelho da Espanha (vide artigo de Walter Myar no Spiegel Online – enviado para a minha caixa eletrônica por John Mauldin).

    Quando mais leio argumentações como a do Prof. Antônio Alves Junior mais acredito que economia é uma ‘dismall science’.

    []

    • O professor estava bem intencionado. Mas concordo com você, o custeio que mais aumenta não tem impacto sobre a produtividade. Gastos com educaçãoque são custeio podem até aumentar a produtividade mas mesmo aqui a relação não é direta.

  2. Mansueto, não sou economista, peço licença para opinar, mas entendo que posições como estas adotadas pelo professor Antonio Alves Junior servem de combustível para a má reputação que alguns impigem aos economistas. Adotar política econômica, como a que ele defende, não corrige rumo algum da economia do país, cria mais distorções e injustiças fiscais. Não seria melhor, ao invés de entregar mais recursos ao governo em forma de impostos, deixar que as pessoas e as empresas usem-nos por conta própria, seja através de investimentos ou de consumo? Por que o governo tem que colocar as mãos no dinheiro para que este tenha impacto na economia do país? O conjunto da sociedade; que tarbalha, estuda e poupa, tem que se recusar a financiar governos centralizadores e perdulários.

    • Jonas,

      ser ou não economista não importa. Suas consideraçoes são pernitentes e você tem um ponto muito bom: por que não deixar as pessoas decidirem o que querem fazer com a sua renda? e tenho a mesma suspeita que você.

      O risco com o aumento dos gastos seletivos como estão sendo feitos é aumentar as distorções.

      Abs,

  3. Mansueto,
    Concordo contigo. Hoje quando li esse artigo até fiquei assustado. O governo só enxerga o lado da demanda. Política fiscal (segundo o governo) anti ciclica é usada nas crises, contudo não são retiradas nos booms. O gasto público so tende a crescer, e é o responsável pelas nossas “jabuticabas”.

    • Fiquei assustado também. Até entendo a preocupação do autor, mas gastos de custeio não dá para ser temporário. Esse auemntos ficam permanentes e prejudicam o espaço para investimento.

  4. Mansueto, uma dúvida técnica: todos os gastos se enquadram em custeio e investimento? Onde entraria um gasto excepcional e temporário (como por exemplo os estabilizadores automáticos e isenções tributárias temporárias)?
    um estímulo imediato- dado que o investimento parece mesmo travado- seria necessário para a manutenção da demanda que por sua vez puxaria o investimento, o núcleo do argumento do autor me parece correto, não?

    • De fato, gastos com seguro-desemprego representariam um gasto excepcional e temporário. Mas no caso do Brasil acaba não funcionando, pois cresce mesmo com desemprego caindo e, no caso atual, não temos problema de desemprego.

      Acho que o que poderia mais se aproximar da ideia do autor seriam as desonerações temporárias de preferência horizontais. O governo poderia reverter a medida quando a economia voltasse a crescer. É aqui de fato que o governo consegue fazer politica anticlica. Do lado do gasto, nossa capacidade é limitada.

      Mas nos outros gastos de custeio não vejo muita como, pois o que é temporário se torna permanente. E na verdade o gasto de custeio (transferencia de renda) vem crescendo bem. Ou seja, o governo já faz o que o Antônio está propondo.

      O governo já tomou várias medidas expansionistas que mais cedo ou mais tarde mostrarão resultados. O importante é aceitar que o PIB vai crecer menos de 2% este ano e se preparar para aumentar o investimento público e as concessões ao setor privado na virada deste para o próximo ano.

  5. Mansueto.. Este professor é da UFRJ, se nao me engano, a Universidade que distribui vagas exclusivamente sobre “criterios” biologicos. Nao me espanta que se aprenda tao pouco nestes lugares, ja que qualquer aluno de graduacao sabe:
    nao ha flexibilidade no custeio publico (nao pode demitir, aumentos de salarios conforme o tempo, adicionais infinitos…).
    Sinceramente nao me espanto com tao baixa capacidade intelectual do citado. Ou seria ele membro de algum sindicato classista que defende “os direitos adquiridos” ou “conquistas historicas”?

    • Bruno,

      na verdade o professor tem o direito de expressar a sua opinião e nós, que discordamos, o direito de discordar. O bom é termos o debate e, assim, acho positivo ele expressar sua opinião. Já escutei outras pessoas defenderem isso e a única forma de chegarmos ou não a um consenso do que fazer é com mais debate. Eu até entendo o que o professor quis colocar, mas turbinar o custeio não é uma boa medida, pois como você falou esse gasto torna-se permanente.

  6. Mansueto,

    Os autores dos artigos de jornal, apesar de funcionários do BNDES, não possuem procuração para falar pelo banco. Não sei qual a posição do BNDES, mas acho injusto caracterizar as opiniões independentes de ambos como representativa da visão do banco de fomento.

    abs

    • Rodrigo,

      tens toda razão. Os artigos são opiniões pessoais e não do BNDES. Vou corrigir o título para “duas visões diferentes” que fica melhor e tira a impressão errada que qualquer uma das opiniões seria do banco.

      O debate é bom e as duas posições expressas nos artigos aparecem no IPEA, nas universidades, etc. Vou mudar o titulo, Obrigado pela dica. Abs, Mansueto

  7. Mansueto

    Acompanho seu blog desde o início. O nome Antônio Alves Junior me pareceu familiar. Mandei no Google e, entre outros, surgiu o seu post “Argumentos Estranhos no Debate sobre o BNDES” (19/08/2010 por mansueto). Um dos artigos examinados no post foi escrito por Antônio Alves Junior. Reencontrei o artigo de Alves Jr no blog do professor Oreiro (jlcoreiro wordpress), publicado em “9 quinta-feira ago 2010”: “O BNDES e a eficácia da política monetária (Valor Econômico, 19/08/2010)”

    Sua [do Mansueto] conclusão naquele post :

    “Conclusão: Tenho dificuldades de entender os argumentos acima, mas tenho certeza que em todos eles quem paga a conta é o consumidor. Esse fato nunca é explicitado nessas “teses” a favor do crescimento do país. Podemos continuar fazendo política industrial sem precisar tergiversar a teoria econômica e nesse debate o que se quer saber são coisas muito mais simples.” [para quem não leu esse post, é preciso ler também o seguinte “Meu novo artigo no Estado de São Paulo: O que queremos do BNDES?” (21/08/2010 por mansueto)]

    É interessante examinar ao mesmo tempo os dois artigos de Alves Jr, o de 2010 e o de hoje.

    No de 2010:

    “O efeito do aumento da Selic, ao ser canalizado pelo crédito livre, pode ser empregado para ajustar os gastos em bens de consumo, cujos preços formam o IPCA, enquanto o crédito direcionado, ofertado em condições estáveis, contribui para a manutenção do nível dos investimentos. Dessa forma, a expansão do crédito direcionado, neste momento de incerteza, impulsiona a economia brasileira rumo ao crescimento acelerado e não inflacionário.”

    Há outras coisas estranhas. O artigo deve ser lido na íntegra.

    No de hoje

    “Mesmo diante da situação de investimentos privados represados pela falta de investimentos públicos [o autor cita como exemplo a infraestrutura, os tais gargalos, como se estes fossem uma novidade de hoje e não um conhecimento com décadas, entre as quais os 12 anos do governo a que ele serve], é muito provável que, nas circunstâncias atuais, sérias dúvidas habitem os pensamentos dos empresários. Considerando a expectativa de queda das demandas externa e interna, haveria mercado para os produtos ou serviços gerados pelos novos investimentos? Provavelmente, enquanto as perspectivas de aumento da demanda não se afirmarem, tais investimentos sequer irão para o papel.”

    Não sou economista e talvez esteja com um entendimento errado, mas acho estranho. Em 2010 o crédito direcionado [principalmente os bilhões do Tesouro no BNDES] era a salvação da pátria “rumo ao crescimento acelerado e não inflacionário” e agora não mais!? E por que não mais? Por causa das “circunstâncias atuais” e da crise existencial do empresariado brasileiro [a jabuticaba da vez: a brasileiríssima ciclotimia empresarial].

    A conclusão segue como um corolário (consequência natural)

    Se “sequer irão sair do papel”, então, vamos liberar geral porque desse modo o espírito animal adormecido terá de acordar.

    Isso pode até soar engraçado. Mas tem uma face terrível. Alves Jr não expressa somente opinião pessoal estranha. Ele vocaliza com muita clareza o pensamento e a prática econômica de quem governa a política econômica.

    A economista Monica Baumgarten de Bolle escreveu em seu blog dois posts alegóricos para esse momento das “circunstâncias atuais” e no qual o espírito animal mergulhou no “sono da inação”. Vale a leitura.

    Ato III, Cena I: O Dilema Existencial
    Arquivado em: Brasil
    Por Monica Baumgarten de Bolle – 26 de junho de 2012 17:44

    Ato III, Cena II: A Guerra Imaginária
    Arquivado em: Brasil
    Por Monica Baumgarten de Bolle – 27 de junho de 2012 14:19

  8. O BNDES deveria ser caso de polícia. Aliás, se o Ministério Público Federal fosse autêntico, há muito teria instaurado uma devassa nos contratos de empréstimos ‘doados’ pelo BNDES. É justo e honesto que o País acrescenta uma dívida de R$ 23 bilhões no lombo dos contribuintes para financiar Eike Batista reformar hoteis? É honesto dar a VIVO R$ 3 bilhões para suposta expansão da telefonia, quando, na verdade, fez caixa para pagar dividendos aos acionistas estrangeiros? É honesto emprestar R$ 300 milhões à Volkswagen para, (imagine !) desenvolver no Brasil um automóvel compacto? Qua fez a montadora em mais de meio século de mercado cativo? Mas estes empréstimos/doações têm nome nas assinaturas. Os diretores do BNDES recebem comissões por dentro ou Por fora) para aprovação dos empréstimos? e o MPF e a DPF deveria investigar pois a coisa passou dos limites. Tenho ajuizado várias ações populares contra os empréstimos suspeitosna Justiça Federal de Porto Alegre. Incrivelmente, o Preisdente do BNDES não obdecem nem a ordens judiciais para entregar cópias dos contratos. Se algúem puder forenecer detalhes desses empréstimos suspeitos, por favor mande para meu endereço que será de grande valia a moralidade pública.

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