Comentários

O título destes post é isse mesmo: comentários. Resolvi comentar, rapidamente, algumas notícias da semana com os respectivos links ao longo do artigo.

O debate econômico atual concentra-se em cinco pontos: (i) a incapacidade do governo aumentar o investimento público; (ii) a expansão do crédito menor do que o governo esperava; (iii) a frustração com as expectativas cada vez menores de crescimento do PIB, em 2012; (iv) a questão da manutenção da taxa de câmbio em um valor “adequado” para indústria; e (v) novas medidas de política econômica para incentivar à economia.

Como esse debate se mostrou ao longo da semana que passou? Vou comentar apenas dois: a questão do investimento público e a expansão do crédito, mas prometo ser muito mais ativo no blog ao longo da semana.

Primeiro, em relação ao investimento público, a semana começou com matéria no Estado de São Paulo sobre o Dnit e Valec (clique aqui) que mostrava que, um ano após a faxina que o governo fez nestes órgãos, ambos continuam lutando para resolver problemas de anos de má gestão. De fato, este ano até junho, quem puxa para baixo a execução do investimento público, não por acaso, é o Ministério dos Transportes: queda de 40%. Adicionalmente, para piorar ainda mais esta história do Ministério dos Transportes, os jornais na sexta-feira trazem matérias sobre a prisão do ex-titular da Valec, o órgão estatal responsável por ferrovias federais, por suspeita de enriquecimento ilícito.

E a semana termina com uma matéria da UOL (clique aqui), sobre estudo oficial do IPEA, no qual o coordenador de infraestrutura do IPEA, Carlos Campos, afirma que 11 dos 14 aeroportos localizados em cidades que receberão jogos da Copa do Mundo de 2014 não deverão ter concluído suas reformas e ampliações até o início do evento.

O interessante é que, quando se discutem as dificuldades de aumentar o investimento público,  se chega a uma pergunta incômoda: se o problema é gestão, isso significa que o governo Lula nada fez ou fez muito pouco para melhorar a gestão dos ministérios setoriais?

E mais do que isso. Se existiam quadrilhas em alguns ministérios, como parece sugerir as matérias de jornais, o problema é ainda maior. Por que além de não melhorar a gestão tem-se a impressão que os problemas nestes órgãos foram agravados por escolhas políticas de nomeações do governo anterior?

Segundo, vamos à expansão crédito. No meio da semana, em debate na FIESP, o Ministro da Fazenda Guido Mantega discordou publicamente do presidente do Itaú- Unibanco, Roberto Setúbal, sobre o motivo da desaceleração da expansão do crédito. Segundo o Ministro: “O ‘spread’ é muito alto, doutor Roberto”, afirmou Mantega. “Vocês têm que ganhar mais no volume e menos na taxa, essa é a filosofia dos bancos públicos. Dá para fazer mais.

E para piorar ainda mais, em entrevista ao valor na sexta-feira, o Ministro Mantega criticou o que classifica de postura pró-cíclica dos bancos privados, de emprestar muito quando a economia cresce com força e de reduzir a oferta de crédito num momento em que a atividade se enfraquece.

Os comentários do Ministro, apesar de bem intencionados, são totalmente inapropriados. Se um banco quer cobrar mais ou menos nas suas taxas de juros, ele que sofra as consequências dos seus atos. Não cabe ao governo dizer quanto um banco tem que cobrar pelos seus serviços. O papel do governo é incentivar a concorrência e se um banco cobra muito caro pelos seus serviços, ele que seja penalizado pelo mercado.

E o fato dos bancos serem pró-cíclicos, qual a empresa privada que aumenta o seu investimento em períodos de crise? As empresas privadas (inclusive bancos) têm toda razão de pautarem os planos de investimentos de acordo com suas expectativas e não no que uma autoridade do governo diz o que eles devem fazer.

A pergunta que se deveria fazer ao Ministro da Fazenda é: “Ministro, o governo atua de forma anticíclica, como o senhor exige do setor privado?” O Ministro vai falar que sim, os dados do gasto fiscal mostram que não.  Comento mais sobre isso ao longo desta semana aqui no blog e por meio dos jornais impressos.

Por fim, para concluir esse post, acho positivo o esforço do governo tomar medidas para reativar o crescimento da economia. O que irrita são as declarações constantes do governo que dão a impressão que estamos em um teatro de marionetes, onde ele governo controla os atos dos “bonecos” que seriam os empresários privados. Quando as atitudes dos empresários não correspondem ao script, os empresários passam a ser responsabilizados pela crise devido ao seu pessimismo? O setor privado, como falou um membro do governo recentemente, seria “ciclotímico”.

Sinceramente, dá para ser otimista com declarações desse tipo? Dá para confiar que as autoridades econômicas estão cientes do que deve ser feito para que o Brasil tenha um crescimento mais robusto? Será que algumas pessoas ainda entendem que agentes econômicos agem de acordo com incentivos privados e não com o que quer o governo?

15 pensamentos sobre “Comentários

  1. Mansueto: Desculpe o clichê, mas seu blog é um oásis intelectual no deserto do debate econômico. Obrigado por prestar este serviço inestimável à coisa pública.

  2. Que o governo seja inepto na gestão, disso não deve haver nenhuma dúvida. Os militares, durante seu longo período, tentaram construir uma burocracia um pouco mais racional e funcional, depois do descalabro administrativo dos anos Jango. As reformas administrativas podem ser vistas em paralelo com os primeiros anos das reformas do DASP no serviço público do Brasil durante a era Vargas. A redemocratização trouxe consigo, infelizmente, novas cenas de descalabro explícito, sob a gestão “maranhense” de Sarney, que certamente mergulhou o Brasil na hiperinflação da qual nos libertariamos muito tempo depois. O governo Collor tentou algumas reformas modernizadoras, mas no estilo volutarista que era o do presidente, tudo se tornou meio caótico, e se agravou nos meses finais de seu governo e no início do mandato de Itamar.
    O governo FHC conduziu importantes reformas constitucionais e administrativas, tendentes a modernizar o Estado e a maneira de funcionar do governo. Esperava que o processo tivesse continuidade.
    Infelizmente, entramos novamente num período de total descalabro administrativo a partir do governo do “nunca antes”. Na verdade, já tinhamos tido, antes, esse tipo de barganha politiqueira, que consiste a dividir o espólio do Estado entre todos os partidos e movimentos que apoiaram o novo companheiro no poder. O que nunca tínhamos tido antes, nunca na história do país, era o absoluto controle da máquina do Estado, o assalto literal aos cargos e funções do governo, por um partido de espírito monolítico, de intenções totalitárias e totalmente incapaz no plano das funções públicas.
    O que assistimos, depois, foi a um enxame de companheiros se precipitando sobre os cargos públicos como uma missão partidária, inclusive porque tínham de pagar o dízimo para o partido, e os de cargo DAS, mais do que isso, 20 ou 30% do salário pago por todos nós, para a caixa do Tesouro.
    Depois, esse mesmo partido organizou, operacionalmente, o assalto do Estado por todos os poros e janelas de onde se podia extrair algum dinheiro, mas sobretudo poder. O que menos interessava era a condução normal dos assuntos do Estado, mas sua submissão aos propósitos monolíticos do partido, mas de uma forma bem mais desorganizada do que no modelo bolchevique tradicional, já que o chefe supremo era muito rústico para qualquer sofisticação burocratica ou racional. As coisas eram mesmo decididas segundo seus instintos.
    Na necessária partilha do poder com os outros partidos que sustentam o sistema proto-autoritário, foi preciso atribuir certos cargos a pessoas de fora do partido. Independentemente de um ou outro caso, os cargos foram preenchidos por interesses outros que a boa gestão pública.
    O que se assistiu, desde o início, foi a uma deterioração inacreditável das instituições públicas, uma erosão significativa da moralidade e também da legalidade, quaisquer que sejam os critérios pelos quais meçamos esses elementos qualitativos da vida pública.
    Era inevitável a repetição de demonstrações de roubalheira, corrupção e desorganização, numa escala a que nunca antes tínhamos visto na história deste país.
    É este o quadro que explica a inoperância administrativa e os casos seguidos de corrupção como os do DNIT, do Turismo e de dezenas de outros ministérios e órgãos públicos.

    Quanto às barbeiragens econômicas do governo, elas são explicadas, como em governos populistas anteriores e na região, pela profunda e sofisticada incultura econômica dos governantes, pessoas dotadas de um viés político inacreditável, voltado apenas para certas teorias rústicas que eles chamam de desenvolvimentismo (mas que é muito primitivo, rústico e desprovido de uma metodologia apropriada). Sobre isso ainda temos os mesmos instintos totalitários que prevalecem na política, o que significa que os atuais governantes estão conduzindo o Brasil para uma espécie de fascismo econômico, no qual o Estado determina o que devem fazer cidadãos, empresários do setor privado e no qual o governo interfere continuamente na gestão das empresas públicas, politizando-as à outrance.
    Estamos no pior dos mundos: gente incompetente no poder, dotada de instintos autoritários, e incapazes de compreender como funciona a economia do mundo moderno.
    Acho que vamos continuar lamentando os erros de gestão e até os casos frequentes de corrupção.
    O Brasil não é tão atrasado materialmente, quanto ele o é mentalmente, graças à qualidade (ou falta de) dos homens que nos governam.
    Paulo Roberto de Almeida

    • Comentários bastante pertinentes, Mansueto. Paulo Roberto, também concordo em linhas gerais com o seu argumento. O que considero mais assustador é que o fascismo econômico ao qual você se refere é em boa medida expressão de uma demanda da própria sociedade. Parece que a política no Brasil se esgota no ato de extrair benesses do Tesouro. E o ato discricionário de conceder acaba tendo como contrapartida a faculdade de pedir algo em troca. Quanto à ocupação da administração pública por quadros politicamente motivados, fico a pensar no quanto que o mensalão “resolvia” os problemas de “gestão” da base ao mesmo tempo em resguardava os espaços do partido que se quer hegemônico: entregava-se o dinheiro, mas mantinha-se o poder concentrado. Pode não ter dado certo daquele jeito, naquele momento, mas nem por isso parece que desistiram do intento.

  3. Posso estar enganado, mas, por definição, os agentes econômicos privados não devem agir (na média) de maneira cíclica? Afinal, não são estes os geradores dos ciclos da ecnomia?

    • Está totalmente correto Daniel. É isso mesmo. Quem deve agir de maneira anticíclica é o governo. Mas o governo brasileiro não consegue fazer isso. Até consegue do lado da receita com desoneração, mas não consegue do lado do gasto. Em 2009 como também em 2012 o que mais crescem são as despesas de custeio. Vou fazer um post amanhã sobre isso. Abs,

  4. Excelente post, Mansueto. Será que é pior um governo que, no papel de sua autoridade máxima, mostra que “fazer errado” é o “certo”, e que não tem problema nenhum em ser corrupto, ou outro que não respeita o mercado, que desconsidera tudo que se ensina em economia e, apesar de ter sofrido com a ditadura, acaba se comportando de maneira não muito diferente? Um abraço!

  5. AlexandreAR,
    Concordo integralmente. A população brasileira, em sua vasta maioria, ama o Estado, quer mais estado, pede desesperadamente por mais “políticas ativas”, todo mundo quer fazer concurso e tornar-se estável como uma rocha, ao abrigo de um Estado que não exige muito e paga muito além do setor privado (em média três vezes mais).
    O fascismo econômico a que eu me refiro, contudo, é a atitude de nossas supremas autoridades a pretender determinar o que agentes privados devem fazer, e o espírito totalitário que preside a todas as suas políticas, colocando o Estado no centro e no alto de tudo, essa atitude de “L’Etat c’est moi” que prevalecia na era Lula e que continua válida mesmo sem a presença direta do Rei Sol (que no entanto continua nos bastidores, incomodando e pressionando).
    O espírito fascista também está entranhado na própria sociedade, a começar pelos empresários, que aceitam passivamente todas as bobagens estatais e ainda vêm humildemente implorar mais políticas setoriais.
    O Brasil, infelizmente, preservou os piores traços do patrimonialismo português e do centralismo ibérico. Os aspectos mais retardatários do prebendalismo, do fisiologismo, do cartorialismo se desenvolveram de maneira extraordinária desde o início do governo dos companheiros, que não criaram tudo isso, mas se aproveitaram como nunca desse coronelismo oligárquico dos tempos da eletrônica.
    Estamos no pior dos mundos, e a classe média consciente não consegue constituir uma agregação de forças suficiente para desalojar a nova vanguarda do atraso, inclusive porque a oposição é medíocre e quase tão estatizante quanto os companheiros totalitários.
    Paulo Roberto de Almeida

    • De acordo, Paulo Roberto. No caso da dita oposição, acrescento a seguinte provocação: em um sistema político voltado, segundo entendo, para a extração de vantagens do Tesouro (como demandado pelos próprios eleitores), poderíamos esperar algo diferente? A oposição exercida pelo PT no passado pode ter sido a exceção que confirma a regra: criaram-se, em um contexto de anomia política, mecanismos de extração de recursos do Tesouro (via sindicatos e fundos de pensão de estatais) que não exigissem vassalagem para travar a guerra de posições que os levou ao poder. Ah! O meu nome é Alexandre Rocha.

      • Alexandre Rocha,
        A estrategia gramsciana, combinada ao novo clientelismo do PT, está se revelando frutuosa para o partido atualmente no poder. Creio que ficaremos nesse sistema durante o futuro previsível, até uma crise grave (fiscal ou de BP) desalojá-los democraticamente.
        O Brasil terá apenas se atrasado em relação a outros países…
        Paulo Roberto de Almeida

  6. Muito interessante o post e comentários bem ilustrativos.
    Ainda estamos no mundo em que o governo aproveita todas as oportunidades para angariar apoios ou impedir a visão da real situação da economia.
    Por exemplo, o recorde na liberação de restituições do IRPF, causa até dificuldades de acesso ao site da Receita.
    Oras, se tudo está indo tão bem, por que a necessidade de colocar mais dinheiro nas mão das pessoas? E dinheiro que seria delas mesmas, que deveriam ter menos restituições, por pagarem menos tributos. E não o contrário, como o é hoje.
    Assim, manter 70% de popularidade e impedir uma análise dos oito anos anteriores fica mais fácil.
    Assim, dá para concordar com a afirmação de que o cidadão adora o governo, desde que seja governo e que mais governo.
    Por outro modo de ver, chamar o setor privado de “ciclotímico”, como colocado no post, revela uma faceta nova, um traço, ou até agora escondidos, de membros da alta burocracia estatal: o estudo da Psicopatologia.
    Isso deve ensinar algo ao setor privado, que não é nem economia e nem finanças o que está ocorrendo. Estaria retornando, sim, com beneplácitos, o sistema de vassalagem, tratado, agora, como uma doença.
    Dai a dizer que a economia vai bem, quando a inflação cresce além da variação do PIB, noção defendida pelo governo e reverberada aos quatro cantos, passa despercebido para desapercebidos.

  7. Em um mundo não mundo distante não ficaria surpreso se o governo brasileiro desse uma “argentinada”, não no estilo Guillermo Moreno (que dizem, antes de iniciar uma conversa com um empresário, coloca uma arma na mesa e dá sequência nas exigências…), mas no argumento de que a culpa é do empresariado! Se o “povo” é o cliente (pra não falar em patrão) de um estabelecimento chamado “governo”, me pergunto: “essa não é aquela terra onde o cliente sempre tem a razão?” Bem, vamos aguardar (ansiosos) pelos próximos capítulos!

  8. Guilherme Attuy,
    “…terra onde o cliente sempre tem razão”?(…)
    Pode ser que sim, só, que, parece, desde que tenha quem fale para ele que ele sempre tem razão…
    Infelizmente, parece que a receita é: “…colocar dinheiro em circulação, baixar juros, de mercado, no grito, estimular o consumo…O resto, não preocupe-se, estamos olhando por você…”

    • Bem, gosto de pensar que o povo sempre tem razão, mesmo isso não sendo uma regra. Mas concordo contigo, Dawran Numida, “desde que tenha quem fale para ele que ele sempre tem razão…” Infelizmente o povo brasileiro ainda não tem o costume de cobrar. Se acomoda fácil. Quando fiz o comentário, estava irritado com tamanha falta de coerência (pra não falar uma besteira) dos comentários do Mantega que o Mansueto destacou. Não sei se choro, por achar que aquele que lá está é um fantoche sem conteúdo, ou se bravejo por achar que ele está nos fazendo de bobos propositalmente. Essa dúvida ainda não sei responder. Mas o resultado disso já sei o que esperar… e não é bom!

  9. Guilherme,
    Entre achar que o Mantega é apenas um néscio, um ingênuo, que não entende muito de economia, e que tem uma vaga noção de suas responsabilidades, e achar que ele é um desonesto intelectual que quer apenas nos enganar, prefiro ficar com a primeira hipótese. Não creio que ele teria inteligência para ser tão “furbo” — no sentido renascentista do termo — como parece ser deve ser apenas autoengano…
    Paulo Roberto de Almeida

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